Há uma linha tênue entre as artes que muitas vezes, por falta de acesso constante, se torna confusa para o sujeito que está aberto à novidade, ao estranho. O interesse sobre o fenômeno é o primeiro passo para a construção das representações sobre ele. Moscovici (2012) diz que uma representação social emerge onde existe perigo para a identidade coletiva, quando a comunicação dos conhecimentos absorve as regras da sociedade. Vimos que por meio da objetivação, os sujeitos da pesquisa integraram as teorias abstratas que constroem dentro daquele grupo, aos elementos do ambiente geral. Ou melhor, por meio da objetivação, transferiram um saber científico, especializado, “para o domínio do ser” (MOSCOVICI, 2012, p. 156).
A ancoragem busca o mesmo resultado de transferir conhecimentos do universo reificado em conhecimento do senso comum, porém, delimita o domínio “do fazer para contornar o impedimento de comunicação” (Op. cit., p. 156). A ancoragem insere o objeto social numa escala hierárquica dos valores concretizados pela sociedade, que passa a dispor desse objeto por seus meios. Assim,
a objetivação mostra como os elementos representados de uma ciência se integram a uma determinada realidade social, enquanto que a ancoragem permite apreender a maneira como eles contribuem para modelar as relações sociais e como elas a exprimem. (MOSCOVICI, 2012, p. 159)
A segunda categoria – Representações sobre teatro como instrumento pedagógico – enfatiza exatamente essa tentativa de modelação do teatro ao universo dos sujeitos, nesse caso, a escola. Ao se deparar com as novidades, com os desafios que surgem ao iniciar um trabalho de teatro, o sujeito cria um rótulo, uma categoria para facilitar seu acesso, e ao descrevê-lo, comunicá-lo ou avaliá-lo, ele pode representar uma forma não-usual em seu mundo familiar. Podem estar na ancoragem, as tentativas de resolução dos problemas relacionados a objetivos educacionais através do teatro, nas teorias da “sociedade e da natureza humana” (MOSCOVICI, 2007, p. 62), nas quais o não-familiar se torna familiar. Quando o sujeito vê no teatro uma possibilidade de melhorar o Português de um aluno, ou de melhorar o seu comportamento, ele ancora os objetivos do fazer teatral a um protótipo, ou às características mais representativas desse protótipo. Por exemplo, tem-se a ideia de que teatro ajuda na desinibição de uma pessoa. De fato, quando se está em cena, geralmente não há mais o que fazer, a não ser falar o seu texto ou fazer a sua ação, mesmo que de qualquer jeito e pronto: missão cumprida. Essa ação gera elogios à pessoa, por ter aceitado o desafio, e de forma generalizada, ganha fama por ter tirado sua timidez. Logo, nesse contexto, a timidez torna-se o objetivo para se fazer teatro. Os sujeitos, então, representam a timidez como protótipo para o teatro, ou melhor, ancoram a ideia de que fazer teatro tira a timidez.
No quadro 4 (antes do PAFT), as palavras evocadas e selecionadas para essa categoria foram: “cultura”, “comunicação”, “lúdico”, “lazer”, “criatividade”, “diversão”, “entretenimento” e “arte”. A palavra “cultura” já foi exemplificada anteriormente e sua presença nessa categoria está justificada. A ideia de se inserir cultura na vida de uma criança, está ancorada no fazer teatral, como se o indivíduo fosse aculturado e o teatro pudesse resolver, de forma pedagógica, esse problema. “Comunicação” foi utilizada como algo que o indivíduo deve aprimorar para se comunicar melhor com os outros. O teatro deve ajudá-lo a melhorar sua comunicação, pois o tornará menos tímido; assim, o protótipo não está na vivência teatral do indivíduo, pelo contrário, baseia-se na comunicação e na perda de sua timidez, que terá como consequência a melhora em sua forma de se comunicar.
“Comunicação, porque eu acho que se aluno se comunica bem, ele
socializa mais facilmente com os outros, ajuda na desenvoltura da fala, tudo, né? E o teatro ajuda nisso, pra ele perder a timidez e comunicar
melhor.”
(Professora Anita)
Da mesma forma, “lúdico” e “criatividade”, estão relacionadas ao teatro de uma forma muito abrangente. O que segundo Santos (2007) concorre para a disseminação de abordagens eminentemente espontaneístas. Esses conceitos, aqui, representam o teatro como um entretenimento ou uma prática ligada a aquisição de mais alegria na vida do aluno, uma possibilidade de melhoria na vida escolar do indivíduo. Os comentários dos sujeitos, são ancorados por uma prática corriqueira, para o melhor desempenho na escola.
“[A arte] eleva a autoestima e quando a autoestima desse ser tá elevada, vem o lúdico, a alegria, e isso traz uma emoção.”
(Professora Claudia)
O comentário deixa entender que o “lúdico” surgiria com a autoestima elevada dos alunos. Segundo Pereira (2014), esse termo vem sofrendo mudanças com o passar dos tempos, e os grupos sociais, cada um deles, identificam e qualificam o “lúdico” conforme seus interesses, valores, compreensões e práticas.
O termo lúdico ganhou nas últimas décadas o significado restrito do prazer, de algo que se realiza sem dificuldades. O adjetivo passou a ser usado para caracterizar situações em que não estão presentes o conflito, a ansiedade ou a tensão. Aliás, esse emprego é muito comum na perspectiva pedagógica escolar. O que não é o nosso posicionamento, pois pode haver também momentos de tensão na situação lúdica. (PEREIRA, 2014, p. 249)
O teatro, então, fica a serviço de práticas lúdicas, no sentido dado pelos sujeitos, e também ganha a função de tornar o aluno mais criativo.
“Entretenimento”, “lazer” e “diversão” representam, nas falas dos sujeitos, um “ócio” no sentido negativo ou, como explica Pinto (2014), um “tempo vago, não produtivo, uma ameaça ao desenvolvimento da sociedade, gerando preconceitos em relação ao seu uso associado à preguiça, à vadiagem” (PINTO, 2014, p. 167). O teatro, representado assim, torna- se uma atividade sem importância, uma pausa na produção de conhecimento para o descanso, que é fundamental na vida de qualquer pessoa, mas que nesse aspecto, significa submeter o acontecimento teatral a algo sem fundamentação, como na fala a seguir:
“É diversão por que os alunos têm a oportunidade de ver outras coisas,
né, que é tão difícil hoje em dia, então eles estando no teatro, não estarão nas ruas. Dá um descanso pra eles, porque o currículo escolar é tão apertado e acho que as crianças precisam de mais tempo livre, claro que eles vão ter acesso a uma cultura nova, que vai ser bom pra
eles.”
(Professora Lucia)
Assim, o teatro teria objetivos contrários à produção de conhecimento, funcionando como ferramenta de descanso das atividades que “realmente interessam”. É necessário lembrar que o contexto ao qual os sujeitos se referiam, fazia menção à ida ao teatro com seus alunos. Consideramos que não há problema no fato de a atividade ser voltada para a diversão, lazer ou entretenimento do aluno, desde que esses conceitos sejam permeados por um enfoque crítico e reconhecidos como fenômenos sociais, culturais, historicamente constituídos, “de cuja vivência podem emergir valores questionadores da própria ordem social estabelecida” (PINTO, 2014, p. 170).
Por fim, a palavra “arte”, conceituada como meio para a descoberta de talentos ou para elevar a autoestima dos alunos:
“Eu coloquei a arte por que eleva a autoestima dos alunos, que eu
acredito, assim, a partir do momento, seja o teatro, seja uma música, quantas pessoas, quantos alunos, não só os alunos, cada indivíduo mesmo, como que ela transforma a vida das pessoas, quantas vezes uma tristeza, uma falta ( ) você encontra ali na arte. Então assim ela tem esse poder de mudar a vida, né, aumentar a autoestima você sentir valorizado, você sentir alguma coisa assim, que as vezes você nem sabe que você tem
aquele talento e ela vai te proporcionar isso!”
(Professor Antônio)
“Arte, porque eu acredito que é uma forma de transformar o indivíduo e
que essa transformação do indivíduo ela pode gerar uma descoberta de talentos, que ta aqui, que eleva a auto estima do ser, né, eu ia falar do
indivíduo, mas eu achei “um ser” melhor (risos)”.
(Professora Rosa) Já no quadro 5, tivemos apenas duas palavras para estas categorias: “cultura” e “diversão”. Levando-se em conta que a quantidade de evocações foi inferior à mesma categoria do quadro anterior, esses dados podem indicar maior consciência das turmas C e D sobre a utilização do teatro enquanto instrumento pedagógico, quando comparadas às turmas A e B.