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In document Meld. St. 14 (2020–2021) (sider 38-51)

Vale a pena esclarecer que, do ponto de vista da experiência, cabe à pessoa definir se uma coisa é teatro ou não. Apenas ela pode construir seus significados e estabelecer elos com outras linguagens; mas se essa reflexão sobre o exercício sensorial partir de uma referência espetacular, ou mais especificamente do espetáculo teatral32, podemos considerar questões difundidas e discutidas há muito tempo pelas pessoas do teatro, para contribuir na construção desses saberes. Para muitos autores, se é espetáculo faz-se necessário a presença do público, de um espaço e de quem atua. O diretor teatral Peter Brook definiu uma ação cênica assim: “posso escolher qualquer espaço vazio e considerá-lo um palco nu. Um homem atravessa este espaço enquanto outro observa. Isto é suficiente para criar uma ação cênica” (BROOK, 1970, p.3). E ainda, podemos acrescentar mais um elemento, “o assunto”, como denomina Brook: “durante o espetáculo, o relacionamento é ator/assunto/plateia” (Op. cit., p.57). A ideia de fábula e enredo ou tema, tornou-se clichê devido às conotações norteadoras que sugerem, por isso a preferência por “assunto”. Esta palavra ainda não está desgastada e pode se constituir fio condutor ou problematização, ao invés de texto. Atravessar um espaço é suficiente para caracterizar uma dramaturgia da cena.

Sendo assim, qualquer lugar pode ser um espaço de teatro? De um banheiro a um estádio de futebol? Desde que tenhamos, neste espaço, os atuantes, pessoas assistindo e um assunto? Essas são perguntas utilizadas com certa frequência no PAFT, que nos ajudam na reflexão sobre o espetáculo teatral. Pupo (2001) clarifica a ideia de espaço cênico, o que abre margem para associações no trabalho do professor dentro da escola:

Quando se tem em mente o princípio de que é a partir do corpo do jogador que se irradia o espaço cênico, caem por terra equivocadas necessidades de “espaço adequado” para a ocorrência do teatro. É ele, jogador, quem ocupa, modifica, e, no limite, cria a área da representação. A escolha de espaços que permitam diferentes relações entre as esferas de quem atua e de quem assiste, ou, até mesmo, que cheguem a pulverizar a distinção entre elas, torna-se assim altamente significativa. (PUPO, 2001, p. 183)

Se é do corpo do jogador que se irradia o espaço cênico, qualquer espaço pode servir para uma apresentação teatral: o banheiro, a cozinha, as salas, os corredores da escola, todos os lugares. Geralmente, os professores encontram muitas dificuldades na escolha de espaços para a apresentação ou criação teatral. A referência do palco italiano ainda é predominante, e mesmo

32 Falamos especificamente do espetáculo teatral, sem levar em conta a performance, a dança, o circo e outras formas de espetáculos, que podem trazer outras questões que diferem das especificidades do teatro.

que a escola não tenha um auditório ou um teatro neste estilo, a tendência é representá-lo de alguma maneira em outros espaços, colocando tecidos como cortinas e a plateia defronte ao “palco”. Em muitos casos, professores e alunos criam toda a cena em um determinado espaço, e para conseguirem um número maior de espectadores, levam-na para uma quadra. O espaço é parte da criação, e é bom que seja pensado desde o início. Mesmo que se crie uma relação palco/plateia no estilo italiano numa sala de aula pequena, transferir essa relação para uma quadra de futebol, provavelmente deixará os alunos perdidos, sem referência espacial, inseridos numa outra dinâmica. Almeida-Junior chama a atenção para esse fato:

A escolha de espaço para uma apresentação teatral não deve ser aleatória, uma vez que, tal escolha, interfere e interage em todos os níveis da dinâmica teatral, a saber, na construção da personagem, na encenação, na dramaturgia ou na recepção teatral, uma vez que os processos de comunicação no teatro dependem do tipo de espaço onde se inserem; e fundamentalmente interfere na dialética sociedade / teatro. (ALMEIDA-JUNIOR, 2007, p. 182)

Podemos acrescentar outro elemento à referência de teatro, não apenas enquanto espetáculo, mas também enquanto experiência: o efêmero. É fundamental que o espetáculo seja ao vivo, faz parte de sua essência a efemeridade, a imprevisibilidade das ações e da reação do público. Se assistirmos ao vídeo de uma peça, já não se trata do espetáculo, e sim de outra linguagem com suas especificidades. Assim como o cinema ou a TV (novelas, seriados), o vídeo do espetáculo possui quem atua, um espaço, quem o assiste e um assunto, mas prescinde do efêmero. Então, o futebol é um espetáculo teatral? Tem quem atua (os jogadores, o juiz, os técnicos), o espaço (arena), o assunto (as regras, os conflitos, as disputas), a plateia e é efêmero. Almeida-Junior traz uma questão fundamental para essa discussão, principalmente em relação ao espaço teatral na escola. “Se todo lugar pode ser um espaço teatral, especificamente um lugar teatral, o que seria um espaço não teatral? (...) o que transforma qualquer lugar em um lugar teatral? Quais são as condições para isso? Todo lugar é um lugar teatral?” (ALMEIDA- JUNIOR, 2007, p. 181). Faz-se necessária, então, uma intencionalidade. No futebol, a intenção dos jogadores, técnicos, plateia é outra, é o esporte, a competição, etc. Para o autor, a intenção de que um local seja determinado à ação teatral, é fundamental para a definição de um lugar teatral, tanto para quem atua, como para quem assiste. Vale a citação de Gama (2014) que traz um elemento poético do teatro:

O teatro se configura como mediação metafórica da realidade, onde não há a necessidade de se privilegiar a ilusão de contiguidade. O campo do teatro está próximo da poesia, do mito, do sonho, da ciência e do abstrato, permitindo converter tudo isto em metáforas que direta ou indiretamente possibilitam indagar, decifrar e pensar o presente. (GAMA, 2014, p. 8-9)

Ele, então, não é um espelho da realidade e sim, um tradutor de experiências vivenciadas pela sociedade.

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