Inicialmente, o trabalho pretendia abordar apenas a inserção de edifícios contemporâneos em conjuntos históricos, com base na evolução da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte – MG. Ao longo da pesquisa, porém, optou-se por expandir o objeto, passando a compreender o próprio tratamento de vazios urbanos em conjuntos históricos, o que não necessariamente se traduz na inserção de novos edifícios.
Partiu-se, então, para a análise comparada entre um caso italiano e outro brasileiro. Pretendia-se, a partir do contraste entre as situações concretas, inferir quais seriam as principais semelhanças e diferenças entre esses países em matéria de tratamento dos vazios urbanos em conjuntos históricos, identificando os principais pontos positivos e negativos de cada um, à luz das teorias do restauro e da conservação.
Neste contexto, o Policlínico de Nápoles foi o primeiro a ser escolhido, não apenas pelas particularidades da área, mas também porque a autora residiu em Nápoles e teve a oportunidade de conhecê-lo de perto, por ocasião do Master di II Livello in Progettazione di Eccellenza per la Città Storica, na Università degli Studi di Napoli – Federico II, o que facilitou a coleta de material para a pesquisa.
Neste ponto surgiu a primeira grande dificuldade do trabalho: encontrar no Brasil uma real possibilidade de vazio urbano, situada em conjunto histórico com características próximas às de Nápoles, possibilitando a pretendida comparação. Após longo estudo, optou-se pela área da Praça Thomé de Souza, em Salvador, uma vez que há possibilidade concreta de demolição do Palácio Thomé de Souza, à semelhança do que ocorre com os pavilhões remanescentes do Policlínico.
Feita a opção pelos casos objeto de estudo, passou-se à cuidadosa análise histórica e morfológica dessas áreas, bem como sua leitura à luz das teorias do restauro de Cesare Brandi. Isto permitiu inferir que a manutenção da lacuna como um vazio não seria a melhor solução. Nesse percurso, não se pretendeu esgotar o tema, mas tão somente abrir caminho para o futuro aprimoramento dos estudos, na ótica de outros pesquisadores, ou mesmo pela utilização de teorias diversas das de Cesare Brandi.
Conclui-se também que os interesses políticos e econômicos que moveram o projeto do Policlínico de Nápoles manifestaram-se, de modo semelhante, também no Palácio Thomé de Souza. Em ambos os casos, não se priorizou o respeito ao conjunto
histórico. Ao contrário, as intervenções se pautaram pelo contraste entre o antigo e o novo, descaracterizando a área. Neste contexto, a intervenção que melhor solucionaria a questão das lacunas seria aquela que possui parâmetros engajados nas questões de integração com o antigo, como aqueles preconizados pelas teorias de Cesare Brandi. A prática ideal seria aquela que buscasse uma relação além do gabarito edificado, almejando o resgate da perspectiva anterior do conjunto histórico, por meio da manutenção da proporção, volumetria e ritmo os mais próximos possíveis do que já existiu na área, sem, contudo, recriar um estilo passado ou mesmo destoar das características tradicionais da cidade.
Ademais nota-se, tanto no Brasil quanto na Itália, uma preocupação comum em não repetir as posturas inadequadas do passado, com a inserção de novos edifícios que não se relacionam com o contexto. Busca-se, então, resgatar os conjuntos históricos por meio de ações que promovam suas características singulares e, conseqüentemente, fortaleçam o turismo e a economia, trazendo recursos que podem ser reinvestidos na preservação de novos edifícios históricos. Registre-se, por fim, que tão importante quanto o minucioso planejamento das intervenções é resgatar o valor dos conjuntos históricos, conscientizando a sociedade de sua importância como elo entre diferentes momentos históricos, além de instrumento para a preservação da memória urbana e coletiva.
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