Section III: Policies, Programmes, and Initiatives
3.1 Reform 94: Upper secondary education reform
Frente ao teor dos discursos das entrevistadas, optamos por considerar a categoria Afetividade na compreensão das motivações e processos subjetivos que perpassam suas trajetórias. Compreendendo a centralidade do trabalho na vida dos indivíduos, observamos que o desemprego e a inserção laboral em condições precárias são causas de profundo sofrimento psíquico. Este sofrimento não se dá apenas frente à impossibilidade de satisfação das necessidades materiais básicas – concepção que limita e reduz o sujeito menos favorecido apenas a um aspecto da existência humana – mas ao descrédito social decorrentes.
“Eu trabalhei a minha vida inteira. [...] Trabalhava até sentir meu corpo moído. E mais difícil é que o dinheiro não dava, não dava pra viver com dignidade. A gente se sente mal, se sente humilhada. E isso aí eu não desejo pra ninguém.” (A)
“Mulher, tinha dia que eu me sentia um nada, me sentia um ninguém. Porque meu marido desempregado, eu vendo minhas filha passar necessidade e não fazia nada. [...] Hoje eu vejo que o trabalho é importante demais, é tudo pra gente.” (B)
O alcance da relevância da afetividade nos processos sociais pode ser percebido por meio do relato das trabalhadoras entrevistadas. Neles, percebemos que a afetividade está presente na descrição do histórico de vida laboral de cada uma, seja de desemprego ou precariedade dos postos. Sentimentos de baixa autoestima pelo desemprego, frustração com o ritmo e condições de trabalho, tristeza causada pela impessoalidade e desapreço por suas demandas foram relatados com significação relevante. Esses significados negativos vinculados a estas experiências acabam intervindo na representação que cada sujeito tem de si.
Historicamente, as ciências humanas, inclusive a Psicologia, hesitam em utilizar a categoria afetividade na analise da exclusão sócio-econômica e do sofrimento ético-político, baseando-se num suposto caráter “obscurecedor” deste recurso. Sawaia (2007, p. 98) questiona esta opção afirmando que:
Perguntar por sofrimento e por felicidade no estudo da exclusão é superar a concepção de que a preocupação do pobre é unicamente a sobrevivência e que não tem justificativa trabalhar a emoção quando se passa fome. Epistemologicamente, significa colocar no centro das reflexões sobre exclusão a ideia de humanidade, e como temática, o sujeito e a maneira como ele se relaciona com o social (família, trabalho, lazer e sociedade) de forma que, ao falar de exclusão, fala-se de desejo, de temporalidade e de afetividade, ao mesmo tempo que de poder, de economia e de direitos sociais.
Cabe salientar que aqui a terminologia exclusão social não é empregada de forma aleatória, inferindo nos riscos apontados por Castel (1997) quando alerta sobre o emprego heterogêneo do termo. Neste estudo, ele é problematizado na perspectiva dos processos sociais concretos ligados ao trabalho, mecanismo fundamental de inserção social.
Percebemos que o processo de exclusão social está alicerçado em nuances que impossibilitam a satisfação de necessidades materiais, culpabilizam o sujeito por sua condição social e impedem a expressão de seus desejos e afetos. Estes sujeitos, em geral, se percebem como inferiores, ou mesmo inúteis, e tendem a cristalizar sentimentos de vergonha e culpa. Frente a isso, podemos afirmar que assim como os demais processos sociais, a exclusão social e econômica é também perpassada por uma dimensão afetiva.
Considerando as ideias trazidas por Sawaia (2007), o resgate da afetividade na análise da dinâmica da exclusão é fundamental porque percebemos que tanto quanto os meios de sobrevivência, interessa aos sujeitos o reconhecimento de sua dignidade e cidadania.
“Maior do que a fome é o descrédito social atribuído aos excluídos” (SAWAIA, 2007, p. 98). A autora acredita que a superação do sofrimento ético-político pressupõe a
associação de estratégias materiais e jurídicas com outra de ordem afetiva e intersubjetiva. Esta última, por sua vez, poderia ocorrer a partir do desenvolvimento de valores éticos e solidários e da superação do individualismo.
A relevância da categoria afetividade também é trazida por Lane (1995). A partir de pesquisas que apontavam o papel das emoções e dos sentimentos no desenvolvimento da consciência de mulheres faveladas envolvidas numa atividade produtiva autogestionária, a autora aponta que, além da linguagem e do pensamento, a afetividade exerce um lugar de mediação no psiquismo humano.
Emoção, pensamento e linguagem são mediações que levam a ação. Afetividade não estaria localiza apenas no aspecto de apreensão da atividade realizada e do lugar que o sujeito ocupa nesta, mas é parte constitutiva deste processo e influencia o agir. Lane (1995, p. 59) afirma que “reforçamos nossa constatação da natureza mediacional das emoções na constituição do psiquismo humano. Elas estão presentes nas ações, na consciência e na identidade do individuo, diferenciando-se social e historicamente por meio da linguagem.”
Observamos também que a afetividade ocupa um lugar central na percepção do empreendimento solidário. Este não é apreendido apenas como local de trabalho ou espaço vinculado unicamente à retribuição financeira; o fato de também se constituir como um lugar de troca, ajuda mútua e apoio contribui para um movimento de consciência diferenciado e o fortalecimento das relações intergrupais. Essa transmissão de valores solidários e o envolvimento afetivo parecem ser uns dos principais impactos subjetivos provocados pela Economia Solidária.
“Tem uns curso de empreendedorismo que a gente fez que dizia que era pra competir. Você ser melhor do que o outro, trapacear a concorrência, ultrapassar os outros. Mas na economia solidária é diferente. A gente quer o bem do outro, quer que todo mundo cresça, quer que a comunidade melhore.” (A)
“Ninguém se preocupava com o outro, com seu vizinho. Tem uma amiga que o marido tá com um problema na próstata, não pode trabalhar, aí todo mundo ajuda pra dar uma cesta básica. Nosso grupo é muito unido. Ajuda como pode, sempre tem uma palavra amiga, um apoio.” (A)
“Viver em cooperativa é muito importante. A gente vai pras reuniões da associação, porque a gente não pensa só no nosso grupo, pensa na comunidade também. [...] Se você vivesse nessa linha de cooperativa, de solidariedade, dava pra todo mundo mudar.” (B)
“Aqui a gente faz amizade, aqui todo mundo ajuda o outro, se preocupa. Não é só trabalho, a gente trabalha e conversa sobre nossos problemas” (B)
A partir destas narrativas, percebemos que a vivência do trabalho na perspectiva solidária acarretou o desenvolvimento do maior senso de cooperação, superação do individualismo e modificação na relação que mantinham com a comunidade, com seu entorno.
Os empreendimentos solidários parecem contribuir ainda para o desenvolvimento da autonomia a partir da gestão conjunta, da participação na resolução de problemas e da satisfação de necessidades pessoais e coletivas. Visto seu caráter comunitário e grupal, ameniza a dicotomia entre o individual e o coletivo.
Essa forma de participação diferenciada leva o individuo a substituir uma forma de refletir mais imediata e individualista, ligada apenas às suas necessidades de sobrevivência, para uma forma de refletir coletiva. Há uma apropriação ampliada de seu papel como agente construtor e transformador da própria realidade.
Dessa forma, percebemos que a proposta da economia solidária surge como alternativa não só à demanda de novas formas de trabalho como também se constitui num espaço de construção (e reconstrução) da subjetividade, alicerce para emergência do sujeito
comunitário, conforme teorizado por Góis (1994, p. 21).
A construção do sujeito comunitário precede a conscientização sócio-política e a descoberta, pelo próprio sujeito, de que ele é responsável pela realidade histórico- social em que vive e, ainda, que é capaz de transformá-la em seu favor e de toda coletividade.
O sujeito comunitário seria aquele que possui uma atitude crítica frente ao mundo, uma consciência que compreende sua capacidade de desenvolvimento, percebendo-se como agente transformador da própria realidade e do meio que o cerca. A emergência deste precede o desenvolvimento de uma consciência crítica, através da qual o homem pode realizar sua vocação ontológica de ser sujeito, comprometido com um ideal de libertação.
Entendemos que a experiência nesses empreendimentos toma a forma de um processo, sempre sob o referencial da dialética, por meio do qual os trabalhadores vivenciam os valores diferenciados, elaboram essa experiência e, a partir daí, constroem sentidos para o vivido. Nesse aspecto, salienta-se o papel e os sentidos atribuídos ao trabalho em tal contexto.
Em seu discurso, Entrevistada A relatou que o trabalho era apreendido como sacrifício, fonte de sofrimento, que consistia em obrigação. A partir da inserção no grupo
produtivo solidário, ela relatou uma alteração de sua percepção em relação à própria atividade que exercia, a costura.
“Lá era tudo tão corrido que eu sonhava em parar de trabalhar. Pedia a Deus pra não ter que trabalhar. Mas não podia, tinha as contas, tinha meus filho [...] Mas agora eu vejo que não era a costura que eu queria deixar, era aquele trabalho.” (A)
Em relação à atividade laboral que exerce hoje, ela afirma:
“O certo é ir embora 17h, mas eu fico até mais tarde porque gosto”. (A)
Dessa forma, observamos que os sentidos atribuídos ao trabalho passaram por uma significativa modificação em relação ao período anterior à inserção no grupo produtivo. Frente ao questionamento “O que é trabalho para você?”, a Entrevistada A assinalou:
“Trabalho pra mim é tudo. Tudo o que eu consegui foi através do meu trabalho. Sem trabalho
a gente não vive, né? [...] Se você me perguntasse há um tempo atrás eu ia dizer que não queria ter que trabalhar, porque eu já sofri muito. Mas hoje eu vejo que eu gosto de trabalhar, gosto da costura, quero melhorar no artesanato, no bordado.” (A)
“Hoje o que eu sei é que não quero voltar pra fábrica. Porque não tem o comprometimento, não tem liberdade, apoio. Porque não tem qualidade de vida. Aqui é tudo diferente.” (A)
Conforme o discurso, observamos que os sentidos atribuídos ao trabalho por A referem-se à sua compreensão como forma de sobrevivência, mas também como fonte de autoestima e reconhecimento social. O desejo de aperfeiçoar-se e aprimorar a atividade exercida aponta para a identificação com a mesma, a qual passou a assumir uma conotação prazerosa, constitutiva de sua subjetividade.
Outro aspecto relevante percebido é a menção a uma não readaptação ao trabalho assalariado. Os motivos assinalados para tanto foram a ausência de “comprometimento, liberdade e apoio”, que entendemos referidos principalmente à despersonalização do trabalhador nos outros segmentos em oposição ao sentimento de pertencimento que teria passado a experienciar no grupo produtivo. A “liberdade” referida pode ser entendida em relação ao ritmo e condições de trabalho impostos pelas facções, que consistiriam em fonte de sofrimento, prejudicando seu tempo livre e qualidade de vida.
Todavia, percebemos uma ambivalência em seu discurso, pois ao mesmo tempo em que expressa resistência em voltar ao trabalho nas formas tradicionais de assalariamento, continua a atrelar a este as garantias e proteções trabalhistas almejadas.
Em relação à Entrevistada B, percebemos que as sentidos atribuídos ao trabalho referem-se aos impactos trazidos pela inserção laboral em si, tais como autoestima e reconhecimento social, visto que a participação no grupo produtivo constituiu sua primeira experiência profissional relevante. Não obstante, salientamos que as significações apontadas por ela estão imbricadas e vinculadas com os valores solidários vivenciados em seu grupo produtivo.
“Como eu falei, eu vivia só dentro de casa, tinha até depressão. E hoje não, depois desse trabalho, eu me sinto valorizada”. (B)
“Eu tenho muitos sonhos. Quero ver minhas filha terminar os estudos, comprar uma casa, melhorar de vida. E tudo isso eu quero através do meu trabalho. Esses sonhos, eu voltei a ter depois do grupo. [...] A vontade que dá é de continuar, é de lutar pelo grupo. Só penso em sair depois de velha (risos) Porque faz bem, eu me sinto valorizada.” (B)
Percebemos que a satisfação decorrente do ato de trabalhar, de ter uma profissão, não aparece desvinculada dos valores vivenciados no grupo produtivo em que está inserida. É a partir desta inserção que a trabalhadora relatou ter passado a adquirir planos e sonhos.