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A reflection on structures and agency

In document Coffee and the City (sider 19-22)

Chapter 2. Methodology and theory

2.1 A reflection on structures and agency

A ideologia científica e seus desdobramentos atualmente refletem na co- dominância do discurso universitário juntamente com o discurso do mestre. Portanto, simultaneamente à lógica do funcionamento deste último, torna-se importante abordar o discurso universitário, que também dividiria a gerência sobre nossa época. O discurso do mestre se transforma facilmente em discurso universitário, porém, neste, a posição do saber está no lugar do agente. Sob o discurso universitário estaria o movimento no qual um saber suposto é apoiado em outro, ou seja, alguém fala apoiado em outro, tal como em uma instituição, pesquisa ou autoria.

S2 a

S1 $

Discurso universitário

Esse é o discurso que endossa a primazia da ideologia científica, na qual uma afirmação busca ser validada pelos crivos científicos, tão comuns atualmente em pesquisas e estudos que cotidianamente prescrevem a vida humana em vários aspectos, como na saúde, alimentação, educação e relacionamentos.

O discurso universitário estaria sob a ideia de um “tudo-saber”, ou seja, um saber específico sobre uma parte, que favorece um saber tecnicista, fragmentando a existência de um sujeito e transformando o indivíduo também em um objeto do saber, na maioria das vezes um objeto do qual se deve saber para que se adapte, produza, consuma, e... não saiba.

[...] no discurso universitário, esse primeiro termo, aquele que aqui se articula no termo S2, e que está na posição de uma pretensão

insensata, de ter como produção um ser pensante, um sujeito. Como sujeito, em sua produção, de maneira alguma poderia se perceber por um só instante como senhor do saber. (LACAN, 1960–1970, p. 185)

É interessante observar o quanto discursos do mestre e universitário circulam nas relações atuais e se complementam. Pensando que, além desses pares discursivos atuarem nas relações íntimas dos sujeitos, eles se projetam em perspectivas muito mais amplas, uma vez que entendemos que são os mesmos sujeitos que se relacionam em níveis micro e macrossociais e econômicos.

Na contramão desses discursos, está o discurso do analista, em que o saber coincide com o lugar da verdade, lembrando que este discurso não é exclusivo da psicanálise, muito pelo contrário – entendendo os discursos como estruturas frente ao gozo, existem desde quando existem sujeitos.14 Contudo, ressaltamos que a emergência das variações discursivas são resultantes de condições históricas: é com a criação da psicanálise por Freud que esse discurso encontrou a possibilidade de circulação no âmbito de uma instituição da sociedade. No discurso do analista vigora o “saber de tudo”, ao invés do “tudo- saber”, como no discurso universitário. O “saber de tudo” está relacionado a um saber na perspectiva de um todo, que não fragmenta – movimento distante dos discursos hegemônicos na contemporaneidade – e que é formalizado pelo discurso do analista.

Faz-se importante ressaltar o quanto a o conceito de consciência tem em suas raízes epistemológicas o “cogito cartesiano”, fundamentação filosófica para que a ciência se possibilitasse. Se, por um lado, a fundamentação conceitual da consciência permitiu que a partir desse próprio conceito importantes construções teóricas sobre as relações humanas se tornassem possíveis, tais como o conceito de mais-valia e de ideologia de Marx e Engels e o inconsciente da psicanálise, por outro teve vieses tais como a crença na centralidade do indivíduo acima da totalidade social, como um ser moral e autônomo, a fragmentação dos saberes em nome de um discurso científico, que na maior parte das vezes se torna pura técnica, ao favorecer suas pesquisas ao funcionamento do capital. É aí que esses

14 Lacan aponta que no método da maiêutica de Sócrates, em que uma crença é desconstruída e um saber é construído pelo próprio sujeito, opera-se o discurso do analista.

discursos circulam, e muitas vezes se confundem. Lembremos que nesse discurso, apesar de haver uma modificação do lugar do saber em relação ao discurso do mestre, o saber ainda continua sendo utilizado em benefício do capitalista, agora do seu lado, representado por S1, que passa a ocupar o lugar da verdade. Então, no discurso universitário, o agente saber (S2) e o capitalista no lugar da verdade (S1) estão do mesmo lado. No discurso do mestre, o saber está do lado do escravo/proletário e produz repetição do funcionamento que serve ao mestre/capitalista. Já no discurso universitário, o proletário foi expropriado de seu saber, e este, agora do lado do capitalista, continua a serviço do último.

Castro (2009) assinala que como S1 desliza da posição do agente para a da verdade, as relações de poder se camuflam, e assim se torna difícil a localização da autoridade. Desse modo, existe uma aparente condição de igualdade entre as pessoas, já que a autoridade está oculta sob esse discurso. O autor argumenta que a liberdade do trabalhador em vender sua força de trabalho a quem quiser e romper tal vínculo quando lhe convier esconde uma relação implícita de poder, oculta sob a relação contratual livre.

A contemporaneidade estaria deste modo sustentada sob uma ideologia científica que vigora. Entretanto, entendemos que o saber que se fragmenta e, na maior parte das vezes tem seu interesse voltado ao capital, é pura técnica, ou seja, exclui tudo que remete ao sujeito. Por isso, faz-se importante a distinção entre a ciência e a sua fragmentação. A ciência que se fragmenta em pura técnica se descola facilmente de suas raízes epistemológicas, são pesquisas que não cumprem a função de uma legítima produção ou ruptura teórica e nada mais fazem que reproduzir variações dentro de um modelo capitalista de produção e um mercado de teorias. Nesse sentido, Pacheco Filho (2012) argumenta sobre o processo que podemos entender como uma “superprodução” de mercadorias nos moldes capitalistas no âmbito das teorias:

A proliferação indiscriminada de conceitos centrais não é indício de criatividade teórica ou originalidade de ideias. Pelo contrário, ela mimetiza a lógica do “Discurso Capitalista”, em sua substituição frenética de mercadorias/marcas/modelos, de modo a tamponar a falta. Serve-se o semblante de totalização da falta, por meio da troca acelerada e irrefletida dos fundamentos teóricos e conceituais, como modelo de se tentar lidar com a impossibilidade de totalização do saber. (p. 9)

Lacan, em muitos momentos de sua teoria, questiona a centralidade da ciência como competente para possibilitar o entendimento sobre o sujeito e questiona o discurso universitário como forma discursiva unívoca capaz de sustentar a produção de saber científico. No seminário 17 demonstra que a lógica científica, assim como as rupturas teóricas e científicas, ocorreria sob a dinâmica do discurso histérico. A partir daí podemos levantar a questão de que a ciência estaria pautada sob o discurso histérico, enquanto sua fragmentação, a “pura técnica” estaria sob a égide do discurso universitário. O discurso histérico é o que produz saber: sob sua forma, a histérica convoca ao mestre a entregar um saber. Por esse motivo, teria sido relacionado por Lacan ao advento da ciência. Ao contrário, o discurso universitário não promove o saber, apenas expropria o proletário do saber, que passa a ficar do lado do capitalista.

Askofaré (2009) aponta que, sendo o inconsciente o lugar do Outro, haveria um impacto desse Outro submetido à emergência da ciência moderna (biotecnologias e informática) e defende que o Outro da ciência e da religião seria historicamente determinado. O autor indica que a psicanálise também teria sua invenção, seu exercício e sua transmissão determinadas pelas condições do discurso: “´[...] o advento da ciência moderna que possibilitou o inconsciente passar de um „hieróglifo no deserto‟ àquele de texto decifrável e interpretável. Se o inconsciente ainda está consagrado pela tradição, e com ele o sujeito que lhe é suposto, isso decorre dele ex-sistir no discurso analítico” (p. 174).

Nesse sentido, Lacan argumenta que no que diz a respeito a seu próprio discurso relacionado com a ciência:

O que ele denuncia como dificuldade essencial desse discurso, a saber, precisamente esse deslocamento que não cessa nunca, é a própria condição do sujeito analítico, e é nisso que se pode dizer que pertence, não diria completamente, ao discurso da ciência, mas é condicionado por ele na medida em que o discurso da ciência não deixa para o homem lugar algum. (LACAN, 1969–1970, p.155)

Estaria a contemporaneidade regida por um discurso em que o sujeito é potencialmente alienado de seu saber, recorrendo para tal ao grande Outro ao qual é atribuído um saber totalizante? Estariam os tempos atuais comprometidos com o acirramento de uma fragmentação dos saberes materializados nas

técnicas, tecnologias e especialidades científicas? Mais do que assujeitado, o sujeito teria se tornado um objeto fragmentado do saber, sob o predomínio do discurso universitário; um expropriado do gozo e do saber, em um momento histórico em que a crença predominante é na autonomia do indivíduo, na igualdade, na democracia e na liberdade – inclusive na venda da força de trabalho?

Como lembra Lacan, o proletário não é apenas explorado, é aquele que foi despojado de sua função de saber. “A pretensa libertação do escravo teve, como sempre, outros correlatos. Ela não é apenas progressiva. Ela é progressiva à custa de um despojamento” (p. 157).

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