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Reeves  dialektiske  modell:  Motivasjon  i  klasserommet

3   Teoriperspektiver  på  SRL

3.3   Reeves  dialektiske  modell:  Motivasjon  i  klasserommet

Conforme mencionado e de acordo com o método construtivo-interpretativo de González-Rey (2005) dividimos os dados em categorias (eixos de análise). Após esse momento foram levantados os indicadores que procuraram responder aos objetivos da pesquisa. Tais indicadores levaram à construção de seis Zonas de Sentido: 1) “Namoro à moda antiga”: a construção da relação conjugal; 2) “Para mim esse assunto morreu”: a infecção pelo vírus HIV e a descoberta da doença; 3)”Raiva, medo e revolta”: impactos da contaminação na relação do casal; 4) A vida continua: a relação após o diagnóstico; 5) A doença e suas privações: novos hábitos e rotinas do casal e da família; 6) “O futuro só a Deus pertence”: expectativas do casal em relação ao futuro.

A seguir iremos relatar e discutir cada uma dessas Zonas de Sentido à luz da abordagem sistêmica, buscando responder aos objetivos propostos.

1 – “Namoro à moda antiga”: a construção da relação conjugal

Nesta Zona de Sentido incluímos os dados que se referem à formação do casal e construção da relação conjugal e familiar até o momento do diagnóstico da infecção pelo vírus HIV, passando pelas diferentes fases do ciclo de vida familiar.

Regina e Humberto se conheceram quando ela tinha 17 anos e ele 32, e estão juntos há 27 anos. Casaram-se no civil e religioso depois de dois anos de namoro e noivado. O casal se conheceu na loja em que ela trabalhava, localizada no bairro onde ele morava. Costumavam sair para conversar e tomar sorvete. Tinham que namorar na presença da mãe de Regina e as irmãs dela os vigiavam no sofá enquanto namoravam. Dessa forma, eles mal podiam pegar na mão um do outro. Segundo Regina:

“Eu fui da época daquele namoro à antiga [...] namorei à antiga mesmo. Ele foi o quarto ou quinto namorado meu. Mas o fixo mesmo foi ele, de namoro, de noivado. Eu namorava em casa e quando saia era com companhia de mãe ou irmã”.

Humberto relata que aprendeu a “encher os cunhados de balinha” e que essa época de namoro foi difícil, mas muito boa: “a aventura, quanto mais difícil, mais saborosa é. Se você pegar tudo muito fácil, muito mastigado, não tem sabor nenhum”. Segundo Regina, Humberto era namorador, tinha tido muitas namoradas, mas que com ela teve que ter paciência porque não foi fácil. Humberto concorda que o namoro “bem custoso mesmo” e bem diferente das outras namoradas.

“Eu tinha uns 32, 33 anos, por aí. Era bem maduro, experiente, sabia dar o golpe. Não foi fácil não. Foi custoso, mas a gente tem que ter paciência. Foi bem diferente das

outras namoradas que eu tinha, que era fácil. Ela foi custosa, teve que ter paciência. Foi fácil não. Levar flores, tanta coisa, né?”

O casal considera que teve um “namoro à moda antiga” que, segundo eles, significa um namoro sério, sem sexo antes do casamento, precisando de muita paciência por parte dele, e passando lentamente por cada etapa: conquista, abraço, pegar na mão, beijo no rosto, carícias, até o primeiro beijo na boca. A família dela sempre vigiava os dois, pois qualquer coisa entre eles “só podia depois do casamento”. Humberto, que era namorador, não estava acostumado com moças “assim” e se encantou com ela e com a dificuldade imposta por ela e pela família. Para ele, “o difícil é mais gostoso”. Regina foi “difícil” e ele precisou usar seus dotes de conquistador, mandando flores com cartões apaixonados. Regina se entregou aos encantos de Humberto. Ele demonstra sua experiência e, até mesmo, sua “malícia”, ao falar que aprendeu a conquistar os cunhados dando agrados.

Vemos um padrão de relacionamento que poderíamos chamar de “tradicional”, com papéis definidos com base no gênero, “a mulher que se resguarda para o casamento” e o “homem experiente e conquistador”. Vivenciam as diferentes etapas a partir do momento em que se conhecem, namoro, noivado, planejamento do casamento, até chegarem ao ritual que consuma e oficializa a relação em nosso sociedade, ou seja, o casamento civil e religioso. Na opinião de Sattler et al. (1999), a realização do ritual do casamento propicia a modificação da natureza do relacionamento existente entre duas pessoas, é um marco para o casal que inicia uma nova fase em busca de independência e a conservação do vínculo emocional com os parentes ao mesmo tempo.

“Nosso casamento foi com tudo que tinha direito, até banho de arroz”, relata Humberto. “Teve a lua de mel [...] Foi um casamento assim que eu esperava. Eu apostei tudo. Tanto eu apostei como ele também, entendeu? A gente apostou no casamento” (Regina)

Para Carter e McGoldrick (2001), durante o namoro, os casais normalmente estão muito conscientes dos aspectos românticos de seu relacionamento. O casamento transforma o relacionamento de uma união privada para a união formal de duas famílias. As famílias de origem se uniram, inclusive em suas diferenças com a união de Regina e Humberto, sendo que um teve que se adaptar à família do outro, transformando e sendo influenciado pelas mesmas. Assim também o casal aprendeu a negociar as próprias regras e definir os padrões de sua nova família.

Regina e Humberto viveram a fase de “formação do casal”, sempre com planejamento e referem que foi uma fase muito boa, na qual curtiram cada momento de conquista e realização conjugal. Essa fase, o “Tornar-se um casal”, segundo Carter e McGoldrick (2001) é uma das tarefas mais complexas e difíceis do ciclo de vida familiar, embora seja considerada como a mais fácil e feliz devido à visão romântica dessa transição. Além disso, é nesse momento que os cônjuges precisam elaborar uma série de acordos, explícitos e verbais ou não, sobre como interagir com seus familiares, como lidar com as diferenças existentes entre ambos enquanto indivíduos e em relação aos aspectos práticos da vida a dois. Tais decisões são permeadas pela concepção de cada um a respeito do modelo familiar e pelo que foi aprendido até então (SATTLER et al., 1999). Dentre esses acordos, o casal define também formas de lidar com os problemas e maneiras de enfrentar situações difíceis.

Bucher-Maluschke (2003) faz referência à vinculação da religião na constituição do casal: “unidos até que a morte os separe”, pois o amor e o envolvimento emocional não são a base legitimadora do casamento, que centrava na separação dos poderes segundo os sexos masculino e feminino e conforme as idades, sendo que o homem tem o papel de provedor econômico e a mulher de provedora emocional dos membros da família. Poderes e papéis foram sempre bem definidos. Tal modelo influenciou nas escolhas e decisões do casal ao longo do ciclo de vida familiar e também no momento do diagnóstico e na forma como

enfrentaram juntos a doença. Regina optou por exercer seu papel de provedora emocional da família, mantendo os laços familiares.

As características de família tradicional apresentadas principalmente pela família de Regina influenciaram na formação do casal, que assumiu alguns padrões tradicionais, mas demonstraram também flexibilidade ao adaptar de forma saudável às exigências das famílias de origem e buscando novas estratégias para se adequar às transformações sociais pós- modernas.

Após o casamento, Regina e Humberto esperaram três anos para ter o primeiro filho, que foi planejado, assim como o segundo, seis anos após o primeiro. Referem que planejamento é importante e que sempre planejaram tudo ao longo de suas vidas enquanto casal. Regina afirma:

“Depois de três anos que a gente estava casado é que foi ter filhos. Nunca tive vontade de ter mais de dois filhos e sempre falei: de um para o outro a diferença vai ser grande, não vou ter um filho atrás do outro”. Humberto complementa: “Tem que planejar. Se você fizer uma coisa sem planejar não tem futuro, além do que você sofre as consequências. Porque vem a situação financeira que agrava, você vai passar necessidade, vem as coisas, é criança [...] Então tem que ser tudo planejado”.

Mesmo com tanto planejamento Regina e Humberto afirmam que, como em todo relacionamento, eles também tiveram seus “altos e baixos” na relação: “Porque isso faz parte do casal. Ninguém pode falar que nunca teve uma discussãozinha, porque sempre o casal tem. Dizem que enquanto a mulher e o marido ainda dão uma discutida é porque ainda se gostam, depois que pára com isso é porque os dois não se gostam mais não” (Humberto).

Segundo Regina, quando vem o momento de crise é muito difícil e já chegou a pensar em se separar algumas vezes. Mas, segundo ela, antes de tomar qualquer decisão, o casal acaba pensando nos filhos e ouvindo conselhos da família: “Quando vem o momento das

crises não é o que a gente espera. Você pensa em separar, você pensa que aquele homem não te serve mais. Aí pensa nos filhos. Eu tive para separar do Humberto umas duas ou três vezes. Depois não foi assim separar mesmo. Eu nem queria saber que ele existia. Aí vem conselho de mãe , de irmão, tanto da minha família quanto da dele...”.

Desde que se casaram, Regina parou de trabalhar para cuidar da casa e dos filhos. Humberto foi quem sempre trabalhou e “colocou dinheiro dentro de casa”: “Ele sempre foi o homem da casa”, refere Regina. Humberto diz, com orgulho, que Regina nunca precisou trabalhar, pois ele sempre conseguiu sustentar a família. Percebem-se traços de machismo, patriarcalismo e papéis definidos e rígidos na família e no casal. Esses dados nos remetem a Féres-Carneiro, Ponciano e Magalhães (2007), segundo os quais cada sujeito está imerso em um contexto sócio-histórico que define um modo de ser na família. Antes da modernidade, temos a família tradicional, que é hierárquica e patriarcal, caracterizando-se pela subordinação da mulher ao homem. A modernidade flexibilizou os papéis, reinventando a família, e oferece à mulher maior oportunidade de autonomia. O que parece ter acontecido com Regina é que ela teve conquistas após a doença, quando os papéis e padrões familiares precisaram ser modificados para enfrentamento e adaptação à nova realidade.

Cerveny (2007) afirma que o casamento ainda é uma instituição forte, que o marido continua sendo visto como o provedor e a mulher como o amparo emocional da família, e a meta maior é o estudo e profissionalização dos filhos, mostrando que a família atual ainda se apresenta como antigamente em alguns pontos.

Uma das consequências do processo de transformação pelo qual passou o casamento nos últimos séculos é o caráter de exclusividade da relação amorosa, que levou à exaltação da intimidade e ao aumento das expectativas de complementaridade entre os membros de um casal, bem como a extrema idealização da relação amorosa e a alta exigência em relação a si mesmo (FÉRES-CARNEIRO; PONCIANO; MAGALHÃES, 2007). Isso explica o contexto

cultural no qual se desenvolvem as relações amorosas atuais, mesmo as mais tradicionais, como a relação de Regina e Humberto, e reforça a dificuldade em negociar o uso de preservativo nas relações sexuais, promovendo sexo seguro dentro de relacionamentos estáveis, duradouros e tradicionais.

Trata-se de uma negociação complexa na relação conjugal, uma vez que estamos falando de um casal que seguiu padrões tradicionais, pautando em regras e priorizando o planejamento ao longo do ciclo de vida familiar, a começar com a formação do casal. Então, como um casal com essas características pode ser vulnerável a uma doença sexualmente transmissível, como a aids? A “entrada” do vírus HIV nessa relação vem denunciar que algo saiu dos padrões pré-estabelecidos pelo casal, abrindo espaço para sofrimento, dor, mágoas e desconfianças. Mas pode significar oportunidade de mudança por meio da transformação da relação a partir da ressignificação da própria relação e dos padrões até então construídos.

2- “Para mim esse assunto morreu”: a infecção pelo vírus HIV e a descoberta da doença. Nessa Zona de Sentido vamos abordar as circunstâncias nas quais o casal se infectou pelo vírus HIV, quando e como isso ocorreu, em qual fase do ciclo de vida familiar o casal se encontrava e como foi o adoecimento de Humberto.

Regina conta que foi infectada por Humberto, mas que não sabe como ele se infectou pelo vírus HIV. “Já conversamos, mas deixamos quieto também. Para não abrir mais a ferida, sabe? Porque tudo o que aconteceu, se eu for sentar e perguntar com quem foi, para que foi, que horas foi, eu acho que ia me ferir mais, me magoar mais. Então assim, eu procurei esquecer, sabe? Ele também não toca no assunto, então para mim está bom. Para mim ficou resolvido. Até então ficou”.

O fato de Regina ter sido contaminada pelo marido nos remete à pesquisa de Takahashi, Shima e Souza (1998), que mostrou que a maioria das mulheres entrevistadas foi contaminada pelo próprio parceiro fixo, marido ou companheiro, através de relações heterossexuais. Assim, segundo os autores, ser mulher implica em especificidades e desvantagens que podem gerar uma situação de susceptividades em relação ao homem, uma vez que vivemos em uma cultura onde há desigualdade entre homens e mulheres.

Segundo Regina acrescenta, nunca, em nenhum momento de seu casamento, soube que Humberto tinha outra mulher ou um filho fora e diz: “Não, se ele fez isso, fez muito escondido”. Humberto encerra o assunto dizendo: “Para mim esse assunto morreu”.

O casal pouco esclareceu sobre as circunstâncias nas quais foi infectado, não ficando claro em que fase do ciclo de vida familiar o casal estava vivendo no momento em que foram infectados pelo vírus HIV. Ficou claro apenas que foi Humberto quem contaminou Regina, que relata ter casado virgem e tido apenas Humberto como parceiro sexual. O diagnóstico da doença ocorreu há dez anos, em 2000, em virtude de uma pneumonia que Humberto pegou, necessitando ser internado. Nesse momento, Regina estava com 36 anos e Humberto com 51. Seus filhos estavam respectivamente com 12 e 5 anos, o que nos permite dizer que estavam vivendo uma importante fase do ciclo de vida familiar: “Famílias com filhos pequenos” (CARTER; MCGOLDRICK, 2001), o que pode ter influenciado nas decisões do casal nesse momento.

Para Bradt (2001), tornar-se progenitor gera mudança no funcionamento de seus membros, pois trata-se da entrada de outras pessoas ao sistema familiar formado. Além disso, ser um progenitor é o resultado psicológico e social e é mais do que um vínculo entre duas gerações. Isso modifica o equilíbrio entre trabalho, amigos, irmãos e pais. Além disso, esse estágio tem significados diferentes para o homem e a mulher. Os casais contemporâneos tentam integrar seus mundos separados: o mundo do trabalho, local de status e poder, e o

mundo doméstico, uma vez que as mulheres ocupam, cada vez mais, espaço no mercado de trabalho. No caso de Regina e Humberto, que apresentam características de um casal mais tradicional, essas tarefas ficaram bem definidas. Era Regina quem cuidava do mundo doméstico, enquanto Humberto tinha todo poder e status do mundo do trabalho e do provedor da família.

Sendo assim, Regina e Humberto sempre cumpriram seus papéis satisfatoriamente, mas ao deixarem de investir na relação conjugal, houve afastamento entre os cônjuges. Segundo Bradt (2001), sempre foi possível para homens e mulheres deixarem de lado seu próprio relacionamento, enfatizando “os filhos” ou “o trabalho”. O processo de centrar-se na criança impede a intimidade, a diferenciação e o casamento. Podemos dizer que os cônjuges se afastaram ao se tornarem genitores e só conseguiram olhar novamente um para o outro e construir um relacionamento baseado no diálogo e companheirismo depois do diagnóstico da aids, que, como veremos adiante, foi um marco de transformações na relação e nos padrões familiares.

O casal detalha o momento em que Humberto adoeceu e a doença veio à tona e a forma como Regina enfrentou, ao lado dele, a doença e o diagnóstico. Segundo Regina, “Ele deu uma gripe. Ele pegou uma chuva, ele estava até trabalhando. Era mês de outubro, novembro. Ele pegou uma gripe e sempre o Humberto foi fraco do pulmão, toda vida foi miudinho, raquítico. Ele nunca foi aquele homão forte de pegar peso... Aí ele gripou e começou a dar febre, febre, febre. Eu levei ele no médico e era pneumonia. Ele estava com imunidade 35, nem criança tem essa imunidade. Assim, morre não morre. Aí já internou e entrou com medicação. E foi só fazer o exame do HIV que constatou. Ele (o médico) ainda pediu autorização para fazer, porque tem que pedir, né? E eu achava que era uma simples pneumonia. Ele tava atingido nos dois pulmão, entre a vida e a morte. Ficou em UTI”.

Sobre esse momento, Humberto diz que “eu tive nas portas do inferno. O trem que tava lotado esse dia, senão eu tinha entrado. Lá tava cheio e os cara falou: opa, pode voltar para trás”. Humberto fala pouco, parecendo não querer se justificar ou iniciar uma discussão sobre um assunto que parece incomodá-lo. Ele concorda com Regina sobre o medo do preconceito e refere que também teve o apoio da família dele, mas não da dela, que o olhava “como se fosse um bicho”. Diante desse tema ele se coloca mais como vítima da situação do que como um responsável pela mesma. Ele conta que quase morreu e que “não tinha mais nada a perder”. Então disse para Regina que se ela quisesse poderia deixá-lo. Dessa forma, ele encerrou o assunto, não abrindo espaço para questionamentos e deixando para ela a decisão de continuar o casamento ao lado dele ou não.

Uma das principais características deste casal é o planejamento. Com o diagnóstico da aids, Regina e Humberto tiveram que aprender a lidar com o imprevisto, com aquilo que foge ao controle, mas precisa ser enfrentado e requer flexibilidade. Nesse momento, o casal precisou se reinventar. Mas, para que isso acontecesse, foi necessário “esconder” deles mesmos e dos outros, como e quando se infectaram pelo vírus HIV. O assunto tornou-se um tabu e um segredo na família. Para eles, falar sobre esse assunto é abrir mais a ferida já causada pela aids.

Segundo Black (2002), os segredos ilustram as complexidades para os pacientes, suas famílias e terapeuta, quando o HIV e/ou a aids estão envolvidos. O estudo de Abramson (1990, apud BLACK, 2002) identificou o segredo como o problema ético mais relevante e saliente enfrentado por portadores do vírus HIV e os profissionais envolvidos. Além disso, o segredo da aids tem uma natureza diferente de todos os outros, em vista dos múltiplos níveis nos quais ocorre a guarda de segredos.

Para a autora, os segredos vinculados à aids nas famílias é um reflexo direto das opiniões sociais que estigmatizam o paciente infectado, uma vez que para grande parte das

pessoas, a doença está associada com pecado e vergonha e com comportamentos geralmente desaprovados. O medo de ser estigmatizado leva os indivíduos e as famílias a manterem a doença em segredo. Quando se trata da relação conjugal, um marido pode omitir a informação de sua esposa e vice-versa por medo de recriminação e abandono. O uso de drogas ou a atividade sexual extraconjugal freqüentemente são mantidos em segredo. No caso de Regina e Humberto, eles optaram por não falar sobre a forma como Humberto foi infectado pelo vírus HIV para “não abrir mais a ferida” e trazer à tona outras questões e conflitos para a relação. Foi o desejo de Regina, respeitada e aprovada por Humberto que não gosta de falar sobre o assunto.

Imber-Black (2002) afirma que os segredos são fenômenos sistêmicos e representam dilemas éticos que não são resolvidos através de “regras” simples. Estão ligados ao relacionamento, moldam as díades, formam triângulos, alianças encobertas, divisões, rompimentos, definem limites e calibram a intimidade e o distanciamento nos relacionamentos. Dessa forma, o segredo sobre como e quando Humberto se infectou pelo vírus HIV permanece, preservando a relação ao evitar vir à tona outras questões relacionadas com essa infecção e, até mesmo, outros segredos já existentes na relação. A autora acrescenta que uma mudança no que é mantido secreto, frequentemente, resulta em uma mudança nos significados. Os significados vinculados aos segredos são desafiados por amplos movimentos sociais e reforçados pelos meios de comunicação. Qualquer segredo pode ter múltiplos significados dentro de uma família, inclusive o de proteção.

3 – “Raiva, medo e revolta”: impactos da infecção na relação do casal.

A proposta dessa Zona de Sentido é identificar o que aconteceu imediatamente após Regina e Humberto saberem que ele estava infectado pelo vírus HIV e com aids, buscando levantar dados sobre as reações dele e da Regina, como foi o teste deles, como receberam a

notícia, com quem compartilharam, como enfrentaram, quem apoiou e como receberam esse