4 Empiri
4.4 Studier av selv-‐regulert læring
Kierkegaard em seu livro Desespero Humano, 2002, p.38 afirma que “para que o eu se transforme são igualmente essenciais o possível e a necessidade; efetivamente, o eu só pode transformar-se sendo livre. Como de infinito e finito, o eu tem igual participação de possível e de necessidade; desespera tanto por falta de possível quanto de necessidade”. Para Kierkegaard, o concreto para o indivíduo é ser síntese dialética.
Gilson quando se depara com a impossibilidade de defender-se e fugir do agressor, um homem entrou no banheiro, começou a falar coisas comigo, tirou a roupa e foi tomar banho comigo, ele mentiu, me estuprou, (chora) é meu tio.
Refugia-se no não querer existir e ainda escolhe a morte, a ter que se identificar com a figura masculina. Sou um zero à esquerda, sujo, não queria ter vindo pro mundo, queria morrer, tenho nojo dele sou insignificante. Homem é mau, é violento, não quero ser assim. O
sofrimento para Gilson opera uma individualização pela prova;homem é mau, é violento, não quero ser assim. Ele significa que se morre para o imediato e por isso a sua realidade é sua
permanência no essencial.
Segundo Kierkegaard, deve-se descartar a imediatidade, para chegar à instância que permite a avaliação de si mesmo, da retidão com a qual se estabelece a relação que se deve ser. O sofrimento está ligado à tensão nascida da relação entre esta vida e esta instância.
Homem é mau, é violento, não quero ser assim.
Na existência, é necessário começar aprendendo a relação com o telos absoluto e ir retirando o poder da imediatidade. O paradoxo fundamental reside nisto: “estou em relação, e numa relação tensa, intensa, com qualquer coisa que está sem relação, e este mesmo paradoxo define a existência, até ao ponto em que ela pode ser definida”. (WAHL, 1962, p.31). No relato de Gilson, a terapeuta para ajudá-lo a perceber esse paradoxo, e para ir retirando o poder da imediatidade do sofrimento vivenciado por Gilson no estupro, pede que ele busque uma vivência onde ele mesmo se relaciona de forma plena e sadia com o começo da sua existência, e possa se reposicionar novamente.
T- Qual um momento seu fora do tempo, lá na sua gestação, que cura esta mágoa do seu coração? Tente visualizar o vulto da sua mãe grávida de você?
P- o pai e a mãe comprando coisas
T- que coisas?
P – ah, roupas pra mim que vou nascer! T- do que você mais gostou?
P- o pai pegou uma blusinha azul e pôs em cima da barriga da mãe acho que ele pensa que
eu sou um homenzinho. A mãe tá feliz comigo!
T- o que você conclui?
P- sou amado de verdade, sou filho do pai e da mãe.
T- o que mais?
P – ah, eu sou querido né e esperado por eles (paciente chora sorrindo e suspira aliviado) Vemos aqui que o transcendente, que é o absolutamente Outro, Deus, é num sentido o que é sem relação com o que quer que seja; é o absoluto no sentido próprio; mas, por outro lado, o indivíduo tem uma relação com este absoluto, e é essa relação intensa com o Absoluto que faz que ele seja um existente. (J.WAHL, 1962).
Kierkegaard chama a este paradoxo a teoria do como, isto é, o importante não é o que eu creio, não é o objeto da minha crença; o importante é a maneira pela qual estou ligado a este objeto. Se a pessoa crê de uma maneira absoluta, por essa mesma razão é no Absoluto que crê.
Deus é dado ao indivíduo pela relação na qual o indivíduo se inclina para ele. Vejamos um exemplo no relato de Gilson.
T- Agora vamos entender porque seu tio te estuprou. Nós sabemos que ele fez errado, que o que ele fez é crime e ele precisa ser preso; mas agora, nesse momento, eu e você não vamos
julgá-lo, nem dar uma desculpa para o que ele fez; nós dois vamos procurar outra estrada, vamos tentar entender junto com ele, porque ele é tão violento! Você concorda?
P- sim
T- então deixe aparecer um número do tio que explica essa violência.
P- 11
T- Tente localizar ele com 11 anos.
P- no quarto (paciente chora) ele tá sendo abusado por um homem.
T- pronto, não olhe mais pra cena, nem pense nela, deixe pra lá, fique calmo. Vamos ver se dá pra ver o pensamento dele no momento que ele mais sofreu?
P - ele tem muita raiva, tá machucado, homem é mau, violento, não dá pra confiar,
T- você consegue entender o sofrimento dele?
P- ele só sabe agredir (choro)
Falando do passado histórico do indivíduo, Kierkegaard evidencia: “o que aconteceu, aconteceu assim como aconteceu, e assim é imutável. A imutabilidade do passado consiste em que o “assim” de sua realidade não pode vir a ser diferente; mas segue-se daí que o “como” possível deste passado não teria podido vir a ser de outra maneira? (KIERKEGAARD, 2008a, p.111). Relacionar-se sempre consigo mesmo do mesmo modo, não é dialético, e por isso mesmo, exclui a possibilidade da mudança.
T- você consegue entender o sofrimento dele?
P- ele só sabe agredir (choro)
T- nós podemos ajudá-lo?
P- sim
T- você quer ajudá-lo?
O importante para Kierkegaard é a relação entre o indivíduo e Deus. Trata-se de nos colocarmos numa contemporaneidade com Deus, com o momento de encarnação em que ele veio a terra. (WAHL, 1962). Em Kierkegaard, a verdade se torna paradoxo, porque deixa de ser um conceito, para ser identificada com uma pessoa.
Aqui a terapeuta ajuda Gilson a se identificar com a sua verdade que se torna paradoxo.
T- agora vamos mostrar tudo isso pra ele lá nos teus 7 anos, você consegue?
P- consigo,
T- Então agora mostre também pra ele, todo o sofrimento que ele te causou; abra seu coração pra ele ver o que você sofreu por causa desse estupro; mostre também as humilhações, os maus tratos que você recebeu. Agora veja se ele gosta do que ele vê?
P- não
O indivíduo, ao se relacionar com a verdade como paradoxo, tem um referencial para concretizar-se a si mesmo, que o impede de concretizar a possibilidade do mal que há dentro dele, pois ser livre comporta a possibilidade do bem e do mal. A verdade então pode ser concebida como uma coerência prática que é inconcebível para o sistema e que só existe enquanto agida. (ALMEIDA e VALLS, 2007).
T- então vamos ver o que ele queria no coração quando se aproximou de você lá no banheiro?
P- carinho, ser amado.
T- do jeito que ele fez, machucando você, ele conseguiu esse carinho que ele queria?
P- não
T- vamos ajudá-lo a fazer diferente?
P- vamos.
T- como ele poderia ter feito para ter o teu carinho?
T- Se ele brincasse com você teria o teu carinho?
P- teria.
T- o que mais ele poderia ter feito?
P- me ajudar, me levar para passear, conversar comigo.
T- mostre pra ele tudo isso que você descobriu aqui. Se ele tivesse mais uma chance como ele se aproximaria de você agora?
P- me pedia perdão, se ajoelha, chora pega na minha mão e olha pra mim, segura na minha
mão e me pede perdão.
T- o que você entende?
P- ele é bom, ele gosta de mim, ele é um homem bom.
T- o que você faz agora?
P- eu perdoo ele sorrio, abraço ele,
T- o que ele entende desse teu abraço?
P- que eu sou bom sou um homem de bem, amo ele.
T- era esse o amor que ele queria?
P- era.
T- precisa fazer sexo pra ter esse amor?
P- não,
T- o que você quer agora para sua vida?
P- levar comigo esse amor pra vida afora, quero amar, ser feliz. (paciente chora aliviado).
A vida objetiva significa ter uma segurança que a vida subjetiva não tem; a reflexão objetiva transforma o sujeito singular em algo genérico e acidental, reduz a existência ao indiferente e evanescente. Kierkegaard propõe superar a verdade como adequação entre
pensamento e ser, e evidencia que, a partir da verdade como paradoxo, a verdade é Cristo. (ALMEIDA e VALLS, 2007).
No trecho do relato do Gilson abaixo descrito, podemos identificar a percepção e o conhecimento imediato da verdade e de que ele precisa mudar.
P- é quando eu conversei pela primeira vez sobre o assunto com o meu amigo, ele me ajudou,
ele falou que eu seria eu mesmo quando eu quisesse mudar.
T- o que você entendeu?
P- fiquei alegre, porque eu sou capaz de mudar, depende de mim.
T- então que pessoa você é?
P- sou pessoa boa, sou inteligente, um homem capaz, amado, simpático, educado, honesto.
T- esse é você de verdade, o verdadeiro Gilson; vivencia bem gostosamente esse seu momento, acolha-se como você é. Sinta você de verdade e tenha ternura com você.
T- Vamos parar aqui?
P- vamos.
O que é importante, diz-nos Kierkegaard, é referir-se sempre à palavra de Deus e tornar-se contemporâneo de Jesus. Em conseqüência, qualquer coisa há que deve completar o aspecto puramente subjetivo; a subjetividade é a verdade; “porém tem de ser dialética até mesmo em relação a uma mudança de ordem superior, que a anula. Por exemplo, a do arrependimento que quer abolir uma realidade.” (KIRKEGAARD, 2008a, p.111). Isto porque a percepção imediata, o conhecer imediato não tem noção da incerteza com que a fé se aproxima do seu objeto; não se pode imaginar a certeza que se desenvolve da incerteza. “A incerteza do devir é dupla: o nada do-que-não-está-sendo e a possibilidade anulada, que é, ao mesmo tempo, a abolição de toda outra possibilidade”. (KIERKEGAARD, 2008a, p.118).
Para se compreender a dúvida e para se compreender através da dúvida e indicar o lugar da fé é importante aceitar que a percepção imediata e o conhecimento imediato não podem enganar. “A fé não é um conhecimento, mas um ato da liberdade, uma expressão da
vontade, que crê no devir e suprimiu em si a incerteza que corresponde ao nada do não ser.” (KIERKEGAARD, 2008a, p.121).