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7.2 Pre-REDD+ conditions regarding forest management
Nesta fase da tríplice análise, faz-se simultaneamente a interpretação e a reinterpretação dos conteúdos veiculados pelos jornais em exame, na justa tentativa de buscar respostas a perguntas como: o que as formas simbólicas divulgaram a respeito das situações sob exame, e que entendimento se pode extrair dessas leituras e releituras?
Como ensina Thompson (2002), a interpretação vale-se da ASH e da AFD, fases anteriores do processo hermenêutico, indo além da contextualização e da descrição dos conteúdos, agora em busca de novos significados. Esta pesquisa recorre também ao exame do uso de modos e estratégias da ideologia, pelos jornais, na sua relação com os políticos.
Portanto, para o atual momento deste trabalho, objetiva-se verificar o que os jornais A Federação e Correio da Manhã comunicaram a seus públicos sobre Pinheiro Machado e os acontecimentos que o envolveram e, em especial, o que resultou na sua morte.
Os levantamentos conjunturais, efetuados durante a ASH, e os estruturais, que caracterizam a AFD como passo seguinte da tríplice análise, constituem, assim, a base do que se passa a interpretar – assim como o já abordado uso de modos e estratégias da ideologia -, tendo por material empírico edições esparsas dos dois jornais ao longo da trajetória republicana de Pinheiro Machado, e exemplares específicos relacionadas às circunstâncias que levaram ao 8 de setembro de 1915.
Para o jornal porto-alegrense, Pinheiro Machado foi, em vida, um
“companheiro”, como liderança nacional do PRR envolvido, inclusive, na sua fundação, como uma das figuras “históricas” tanto da luta pela República quanto de sua
instauração em 1889. Portanto, para essa publicação, o senador gaúcho teve importância similar à dada aos dois presidentes estaduais no período que se estendeu até 1915: o fundador, Júlio de Castilhos, e seu sucessor, Borges de Medeiros. Com a morte prematura de Castilhos em 1903, Borges, no Rio Grande do Sul e Pinheiro Machado,
nacionalmente, continuaram a receber tratamento privilegiado, expresso em palavras reverenciais que costumavam acompanhar seus nomes nos conteúdos jornalísticos.
Especificamente para o parlamentar, o diário costumava destinar a expressão
“nosso amigo”, a anteceder seus títulos de notório reconhecimento: senador, eleito
desde 1890; e general, cargo honorífico a que fez jus pela participação da Revolução Federalista, no comando tropas governistas e impondo derrotas acachapantes aos adversários. A Federação dedicou-lhe também amplas coberturas quando de suas visitas anuais ao Rio Grande do Sul - e cobertura rotineira de suas atividades no Rio de Janeiro.
Publicou em 1906, por exemplo, detalhes exclusivos sobre o duelo que envolveu Pinheiro Machado e o jornalista Edmundo Bittencourt, proprietário do Correio da Manhã. De acordo com a matéria então veiculada, o político gaúcho foi elegante três vezes, no episódio: ao dar ao adversário a chance do primeiro tiro, que ele errou; a seguir, ao atingi-lo numa região superficial – as nádegas – e, finalmente, colocando seu automóvel à disposição para transportar o ferido até um posto de atendimento médico. Uma leitura possível do subtexto do conteúdo de A Federação a respeito desse acontecimento é o da humilhação de alguém cuja vida foi poupada, embora marcada para sempre pela claudicância consequente do tiro que o havia atingido.
Quando da campanha sucessória de 1910, em que Pinheiro Machado foi um dos articuladores da candidatura do marechal Hermes da Fonseca, o jornal do PRR, por óbvio, posicionou-se em sua sustentação. Eleito o militar após uma campanha política até então sem precedentes na vida brasileira, A Federação permaneceu a apoiá-lo, mesmo quando quase a totalidade da imprensa brasileira fazia opção oposta. Foi com naturalidade, portanto, que o diário encarou a indicação do ex-presidente como candidato ao Senado, articulada por Pinheiro Machado e apoiada por Borges de Medeiros, computando as críticas para um e para outro como fruto da disputa política. E, sendo ela própria um agente dessa disputa, a publicação gaúcha não poupou os adversários de seu julgamento crítico.
Assim, ao vitimar-se Pinheiro Machado em 8 de setembro de 1915, sem que lhe tivesse sido possível dar posse ao novo senador, A Federação postou-se como correligionária e abriu mão da vocação de informar o público: em luto, evidenciou a perda de um ente querido e não saiu às bancas no dia seguinte ao crime. Do dia 10 à data de sepultamento do corpo do senador, a “dor” pelo passamento do político do PRR
estampou-se na combinação da manchete e da linha de apoio que se repetiram em suas capas por todos esses dias, algo incomum nas práticas jornalísticas - já então e impensável na atualidade - muito mais ainda pelos textos que as acompanharam e pelos que foram publicados em suas páginas internas.
A Federação usou denominações superlativas para falar do morto: “martyr da
República”, “egregio senador”, “morto redivivo”, “eminente republicano rio- grandense”, “grande brasileiro”. Por repetidas vezes o chamou de “traído”, ressaltando o
seu papel de representante histórico da luta pela implantação e preservação da
República. O jornal também assumiu uma postura de “representação” do falecido, ao
receber, e estimular a recepção, de milhares de cartas de pêsames endereçadas à redação, veiculadas com igual destaque dado às manifestações encaminhadas ao presidente estadual, Borges de Medeiros; e ao vice-presidente no exercício da presidência, o general Salvador Pinheiro Machado – irmão do senador.
Pelo exposto acima, acrescido das constatações expressas no subcapítulo do uso de ideologia, parece evidente o esforço de A Federação para “construir” uma imagem positiva para Pinheiro Machado. Reverenciado em vida, como correligionário, o
senador foi idealizado a partir da sua morte, como um “herói”, a quem os brasileiros
devem agradecimento pela implantação e pela preservação da República. Pode-se afirmar, então já abstraindo um pouco do objeto aqui estudado e estendendo a “leitura” sobre o que restou de Pinheiro Machado no Rio Grande do Sul, que a tentativa do jornal partidário foi bem sucedida entre os gaúchos, que o reconhecem dando seu nome a ruas, praças e a uma cidade ao Sul do Estado.
Para Manço de Paiva, o “orgam do Partido Republicano” do Rio Grande do Sul destinou expressões ásperas. Ora tratou-o como “facínora”, ora como “miserável”,
“covarde” e “sicário” – e, em algumas edições, com todos esses adjetivos colocados no
material de cobertura do crime e dos seus desdobramentos e/ou como sinônimos de
“assassino”. O jornal posicionou-se, igualmente, contrário à tese110
inicial de que Manço de Paiva havia sido autor exclusivo do assassinato, exposta pelo próprio e assumida por parte da imprensa e do governo federal.
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Tese que acabou prevalecendo com o tempo, pela ausência de provas em contrário e pela insistência com que Manço Paiva a defendeu por toda a vida, dentro e fora da prisão.
Para o governo e o presidente Wenceslau Braz, aliás, A Federação conduziu
alguma cobrança, embora tênue, de que as investigações levassem aos “verdadeiros mandantes”. Já para os meios de comunicação que, antes, haviam sido duros críticos do
governo de Hermes da Fonseca, da influência de Pinheiro Machado sobre ele e da posterior indicação do marechal para concorrer ao Senado pelo Rio Grande do Sul, o
jornal cunhou a definição “imprensa oposicionista”, eventualmente acompanhada da “imprensa amarela”.
Passa-se, agora, para a interpretação/reinterpretação dos conteúdos jornalísticos veiculados pelo Correio da Manhã tendo Pinheiro Machado como personagem.
Embora o Correio da Manhã tivesse concentrado sua força crítica contra os presidentes da República desde sua fundação em 1901, o nome de Pinheiro Machado começou a circular no jornal à medida que sua influência crescia. Contemporâneo e conterrâneo do senador, o proprietário do jornal, que se radicou no Rio de Janeiro ao final do século XIX, havia levado de sua permanência no Rio Grande do Sul os efeitos das disputas políticas, ex-jornalista que fora de A Reforma. Lembre-se que esse era o jornal oficial do Partido Liberal (durante o Império), depois chamado Partido Federalista (sob a Primeira República). Edmundo Bittencourt estava, portanto, na linha de confronto com o PRR e seus dirigentes.
Numa época de forte personalismo no Jornalismo, em que os principais conteúdos eram muito distantes do que se compreende hoje como notícia, os textos de Bittencourt e de grande parte de seus subordinados visavam a atacar os governantes. Essa prática, que o jornal inaugurou desde seu exemplar número 1, a 15 de junho de 1901, atingiu por completo o governo de Campos Salles (1898/1902), talvez o primeiro a sujeitar-se mais diretamente à influência de Pinheiro Machado. O presidente da República e seu representante e correligionário no Senado foram, assim, alvos preferenciais.
Sistemáticas acusações de irregularidades envolvendo Pinheiro Machado em aquisições de terras no interior do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, formuladas por outro jornal e reproduzidas pelo Correio da Manhã, levaram o senador a desafiar Bittencourt para um duelo, em 1906. Indignou particularmente o político gaúcho o fato de o diário da capital fluminense não ter veiculado as correções à notícia, feitas pela
fonte original. Nem a mediação do experiente jornalista Gilberto Amado111, contratado como uma espécie de secretário de imprensa por Pinheiro Machado, foi capaz de alterar o tom do jornal.
Como era hábito em situações de enfrentamento, os adversários compareciam ao duelo acompanhados por dois padrinhos de cada lado. Um dos escolhidos por Pinheiro Machado foi Hermes da Fonseca – que seria presidente da República dentro de quatro anos. O outro, Rivadávia da Cunha Correia, futuro ministro da Justiça e Prefeito do Distrito Federal. Como já informado, a refrega foi vencida pelo senador, que impôs a humilhação ao jornalista, na forma de um caminhar manco que o acompanhou pelo resto da vida. Pode ser que a ira do Correio do Manhã em direção a essas três personagens e, especialmente às duas primeiras, refletisse o rancor de Bittencourt com a derrota que lhe foi imposta nas areias da praia de Ipanema em 1906.
Ao longo do período em que conviveram, o Correio da Manhã e Pinheiro Machado foram, portanto, ilustres inimigos. O jornal de Bittencourt usava
preferencialmente o termo “general” para qualificar o vice-presidente do Senado, alternando raramente para esta última condição e, muito raramente, para “senador” –
conforme tratado no subcapítulo anterior. Como de hábito no jornalismo brasileiro de então, valia-se também do tratamento formal, abreviadamente, com “sr.” em minúsculas a anteceder o nome da fonte.
Quando dos episódios que culminaram com o assassinato do político sul-rio- grandense, o diário não alterou esse tratamento. Pode-se interpretar que, nos conteúdos imediatamente antecedentes ao crime, Pinheiro Machado foi tratado primeiro como político em decadência, a seguir como alguém que buscava uma sobrevida e, na sua vencedora tentativa de tornar Hermes da Fonseca candidato ao Senado pelo Rio Grande do Sul, como se estivesse debochando da Nação. O jornal do homem a quem o político gaúcho derrotara em duelo buscava transformá-lo, aos olhos de seus leitores, como um
“vilão”.
Consumado o atentado à sua vida, restaram-lhe no Correio da Manhã os epítetos anteriores, mas agora desfeitos de conotação pejorativa. As críticas, a partir da edição de 9 de setembro, foram dirigidas ao partido do qual ele era presidente, o Republicano
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Gilberto Amado (1887/1969): jornalista, escritor, político e diplomata, natural do Sergipe. Foi secretário de Pinheiro Machado na década inicial do século XX,
Conservador. “Partido sem ideias”, “partido sem princípios”, “partido pessoal” foram termos dirigidos ao PRC pelo jornal. “Morreu com Pinheiro Machado”, “desagregado por dissidências” também são expressões que aparecem no período em relação à
agremiação.
O acontecimento, em si, recebeu do Correio da Manhã a definição de “tragédia”,
com o momento nacional de então sendo classificado como “dos mais graves da história”. O jornal, como que absorvendo as críticas circulantes em publicações como O
Paiz, no Rio e A Federação, no Rio Grande, refutou a denominação “imprensa amarela” e reclamou da exploração partidária da morte. Para Manço de Paiva, foi dirigida nos
textos sobre o assassinato a palavra “criminoso” – mas o diário sempre ressaltou suas
declarações de que havia agido por vontade própria. Numa de suas edições, na primeira semana após o assassinato, a publicação também veiculou matéria em que tratou de um
provável “suicídio” do matador de Pinheiro Machado e fez duras críticas às chefias da
Polícia e da Casa de Detenção. Depois, acompanhou as idas e vindas da escolha de seus advogados, e revelou que ele recebia inúmeras cartas de apoio na prisão.
Ainda relacionadas ao episódio de 8 de setembro, mas na direção do governo federal, foram veiculadas matérias sobre as medidas administrativas de praxe – realização do inquérito policial, colocação das forças militares de prontidão – em meio
aos artigos de fundo que reclamavam da “autocracia eletiva” do presidencialismo, de
notícias sobre boatos de um “movimento revolucionário” e de “um complot” que estariam em curso. O Correio da Manhã também se posicionou editorialmente, na
época, conclamando o presidente Wenceslau Braz a “dirigir o País”.
Passa-se, no próximo capítulo, para as relações da Imprensa com Getúlio Vargas, primeiramente examinadas em âmbito geral e, a seguir, particularizadas no Correio do Povo e na Tribuna da Imprensa.