2 Forests for livelihoods
2.1 Miombo and its use
Como já visto em outros trechos do presente trabalho, o ano de 1915, 26º da implantação da República no Brasil, está inserido numa conjuntura que, externamente, teve a Primeira Guerra Mundial (1914/1918) como ponto de referência.
Internamente, as próprias consequências do conflito começavam a se fazer sentir sobre a economia nacional, primeiramente com forte queda nas exportações agrícolas e nas importações de manufaturados e a seguir, com o estímulo à industrialização nacional. O país encontrava-se, então, no ciclo da economia agroexportadora (GREMAUD, VASCONCELLOS E TONETO JUNIOR, 2004), que vinha ainda do tempo imperial. Para conter a queda no preço do café, principal produto nacional, foram queimadas três milhões de sacas.
Mas o que mais apaixonava as discussões, estimuladas pelo contato com a única forma de meio de comunicação de massa então disponível – os impressos – eram, mesmo, as disputas domésticas.
Wenceslau Braz presidia o Brasil em 1915, eleito e empossado no ano anterior, para um mandato coincidente com o período da Guerra Mundial. O novo dirigente buscava distanciar-se do governo do qual, no quatriênio anterior, havia sido vice- presidente. Afastar-se do marechal não parecia maior problema, pois ele se havia recolhido ao retiro em Petrópolis.
Mas Pinheiro Machado ainda era o condutor do Senado, o presidente do Partido Republicano Conservador, um republicano histórico para o qual convergia um número significativo de colegas nas duas casas do Congresso Nacional, a ponto de dar-lhe a liderança, na prática, de uma bancada interestadual que um presidente da República não podia ignorar.
Braz buscava equilibrar-se entre as duas situações: afastar-se do governo anterior, do qual Pinheiro Machado havia sido fiador e sobre o qual tivera enorme influência; e conter os ímpetos da bancada pinheirista sem confrontá-la, mas, também, sem assumir todos os seus pleitos.
Esse delicado desafio do novo presidente era, por óbvio, acompanhado pela imprensa, em particular pelo Correio da Manhã, que em apenas uma década e meia de existência se havia tonado o jornal mais influente da capital do Brasil. O Paiz (1884), mais antigo, de evidente vinculação aos governos republicanos anteriores, preservava fidelidade ao senador gaúcho e era, por isso, constantemente alvo de denúncias de favorecimento por parte do concorrente.
Em 1915, os principais títulos da imprensa brasileira estavam no Rio de Janeiro,
com a significativa exceção representada pel’O Estado de S. Paulo (1875), na capital
paulista – que também apoiara a candidatura de Ruy Barbosa nas eleições em que Hermes da Fonseca saiu-se vencedor, em 1910, e fora crítico severo da sua administração nos quatro anos seguintes.
Era uma imprensa em que ainda se mantinham veículos partidários, como A Federação (1884) e o Diário Popular (1890), no Rio Grande do Sul, mas onde já se encaminhavam iniciativas como organização empresarial, exemplificadas na evolução do próprio jornal paulistano e nas propostas do Correio do Povo e do Correio da Manhã desde que surgiram, em 1895 e em 1901, respectivamente. O tom editorial aproximava os dois modelos, contudo, colocando o conteúdo jornalístico a serviço de uma causa, nem sempre uma causa pública.
Entre os principais jornais brasileiros de 1915, além dos já citados, estavam os decanos Diário de Pernambuco (1825) e Jornal do Commercio (1827), o relativamente jovem Jornal do Brasil (1891) e a quarentona Gazeta de Notícias (1875). O já referido O Paiz passou por crise econômica em 1915 - a que Barbosa (2007) chama de “quase
falência” – decorrente de situações como o aumento do preço do papel, então importado
e de sua relação com um novo governo.
A trégua dada a Braz pela imprensa carioca durante a composição de governo, ainda em 1914, ameaçava ruir frente ao que se entendia ser uma característica de sua personalidade e era insinuada nas entrelinhas e cobrada pelos parlamentares nas tribunas da Câmara e do Senado: a hesitação. Hesitação diante da guerra107, uma circunstância externa, mas com efeitos na economia nacional; e hesitação diante do que, entendia o jornal de Edmundo Bittencourt - influenciando e formando a opinião de outros diários -, funcionava como ameaça constante aos governos republicanos desde 1889: a influência de Pinheiro Machado.
Um relativo sucesso chegou a ser obtido pelo presidente da República nos meses iniciais de 1915, nos quais o Correio da Manhã, aparentemente, considerava sepultada a carreira política de Hermes da Fonseca – para cuja impopularidade, aliás, o jornal havia sido o principal contribuinte, pela sistemática oposição que lhe fez nos quatro anos de governo. Para Bittencourt, Pinheiro Machado caminhava para o mesmo destino de esquecimento, contaminado pela desmoralização do governante que tutelara entre 1910 e 1914.
Mas Pinheiro Machado impôs uma novidade no jogo político, articulando com Borges de Medeiros, presidente do Rio Grande do Sul, a renúncia do senador Joaquim Assumpção e a consequente realização de uma eleição para substituí-lo. O candidato foi Hermes da Fonseca. À surpresa causada pelas forças às quais fazia oposição, o Correio da Manhã respondeu com uma campanha, primeiro contra a candidatura e, uma vez consumada a eleição, pela não confirmação do nome do novo senador pelo Congresso Nacional, transformando um pleito regional num assunto nacional que ocupou intensamente suas páginas, entre os meses de junho e setembro de 1915.
Não havia, então, justiça eleitoral nos moldes atualmente conhecidos e independente dos poderes Executivo e Legislativo. Esse papel cabia à Comissão Verificadora, como era chamado o grupo de parlamentares a quem cabia ratificar ou
107 Exigia-se do mandatário brasileiro uma posição que só foi obtida em 1917, com a declaração de guerra
à Alemanha. Então, o Brasil passou a policiar o Atlântico, fornecer alimentos, matérias primas, médicos e aviadores aos países da Tríplice Entente (França, Inglaterra e Rússia).
corrigir os resultados das eleições, e que tinha, à época, por presidente, exatamente Pinheiro Machado.
Em meio aos preparativos para a assunção de Hermes da Fonseca como senador pelo Rio Grande do Sul, já em setembro de 1915, o Correio da Manhã – e outros títulos que o acompanhavam na mesma orientação oposicionista – sustentava a defesa da não- posse do marechal, com relativo sucesso. Vice-presidente do Senado, a Pinheiro Machado cabia presidir a Casa, de fato, pois durante a República Velha a presidência do Congresso Nacional era meramente decorativa e cabia aos vice-presidentes da República. Ele fez sucessivas tentativas, que esbarraram na ausência de quórum, inclusive a última delas, a 8 de setembro – um dia, portanto, depois do feriado da Independência – constituindo o episódio visto no subcapítulo anterior.
No Rio de Janeiro, o Correio da Manhã – assim como toda a imprensa local - deslocou suas equipes para o Hotel dos Estrangeiros, para o Senado, para a residência de Pinheiro Machado e para o Palácio do Catete, investindo numa cobertura extensiva do acontecimento e nas suas inevitáveis repercussões. No Rio Grande do Sul, A Federação optou pelo luto, e não circulou no dia seguinte ao crime, retornando às atividades apenas a 10 de setembro – no que foi seguida pelo segundo jornal oficial do PRR, o Diário Popular, de Pelotas. O jornal porto-alegrense recebeu, no decorrer da cobertura, tantas mensagens de pêsames pela morte do senador que precisou dedicar espaço cativo em suas páginas para registrá-las.
O quadro a seguir resume o contexto tratado neste capítulo.
Quadro 7
ANÁLISE SÓCIO-HISTÓRICA DO PERÍODO 1901/1915 DA PRIMEIRA REPÚBLICA
Anos Governantes do Brasil
Governantes do RS
Conjuntura Imprensa Personagem:
Pinheiro Machado
1901 Campos Salles Borges de Medeiros 12º ano da República, lideranças históricas, sindicalismo emergente, política dos governadores, instituição da comissão de
verificação, rolagem da dívida externa, política café com leite. Silveira Martins morre
em Montevidéu. Julio de Castilhos permanece na presidência do PRR. População
brasileira: cerca de 18 milhões de habitantes,
“Imprensa amiga”. Surge o Correio da
Manhã.
Cumpre o 10º ano como senador pelo PRR (interrompido durante 1893/95 pela revolução federalista). Discursa no Senado em homenagem a Silveira Martins.
2/3 no campo. 1902 Campos Salles Rodrigues Alves Borges de Medeiros inicia seu 2º mandato
Lideranças históricas, sindicalismo emergente, política dos governadores, instituição da comissão de verificação, rolagem da dívida externa, política café com
leite. Fundação do PSB. Manifestações contra a política econômica do governo.
Belle-époque carioca, modernização e saneamento do Rio de Janeiro, atração de capital estrangeiro. Sequência da política café
com leite. Rápida ascensão do Correio da Manhã, opondo-se ao governo Campos Salles. Eleito vice-presidente do Senado, acentua-se a sua influência, também pela liderança sobre as bancadas dos estados
menores. Presidiu a sessão de posse de Rodrigues Alves. 1903 Rodrigues Alves Borges de Medeiros, cumulativamente à presidência do PRR
Lideranças históricas, imprensa, sindicalismo emergente, republicanos radicais, campanha
do Acre, 1ª greve geral da República (indústria têxtil, SP). Belle-époque carioca,
modernização e saneamento do Rio de Janeiro (Pereira Passos e Oswaldo Cruz), atração de capital estrangeiro. Café com leite. Morre Julio de Castilhos/Borges de Medeiros
assume também a presidência do PRR.
Segue a ascensão do Correio da Manhã. Pinheiro Machado no País e Borges no RS são as principais lideranças do PRR.
1904 Rodrigues Alves Borges de Medeiros Lideranças históricas, imprensa, revoltas da vacina e da Praia Vermelha, conquista do
Acre. Belle-époque, modernização e saneamento do Rio de Janeiro (Pereira Passos
e Oswaldo Cruz), atração de capital estrangeiro. Café com leite.
Correio da Manhã se opõe à vacinação
e às inaugurações de obras no Rio.
Acentua o seu poder, a partir da Comissão de Verificação de Poderes. Opõe-se à prática presidencial de
indicar o sucessor, mas administra sua
relação com Rodrigues Alves. 1905 Rodrigues Alves Borges de Medeiros Lideranças históricas, imprensa, estado de
sítio, convocação de Constituinte. Belle- époque, modernização e saneamento do Rio de Janeiro (Pereira Passos e Oswaldo Cruz), atração de capital estrangeiro. Café com leite.
Correio da Manhã fortalece seu oposicionismo, já então dirigido também a Pinheiro Machado. Opõe-se à prática presidencial de indicar o sucessor, o que inviabiliza a candidatura de Lauro Muller. 1906 Rodrigues Alves Borges de Medeiros Lideranças históricas, imprensa, 1º
Congresso Operário Brasileiro; instalação da Constituinte; criação do Ministério dos
Negócios da Agricultura, Indústria e Comércio; Santos Dumont faz sucesso na
França. Belle-époque, modernização e
Correio da Manhã consolida seu oposicionismo, em especial a Pinheiro
Machado.
Vence duelo com Edmundo Bittencourt
na Praia do Leblon. Assimila a candidatura Affonso
Affonso Penna
saneamento do Rio de Janeiro (Pereira Passos e Oswaldo Cruz), atração de capital estrangeiro. Café com leite. Borges acerta com a União a construção e exploração do
Porto de Rio Grande.
Investimentos na infra-estrutura nacional. Café com leite
Penna.
1907 Affonso Penna Borges de Medeiros Lideranças históricas, lideranças emergentes, imprensa, Ruy Barbosa em Haia e nomeado
embaixador pleni e extraordinário, greve geral em SP. Investimentos em infra-estrutura
nacional, Jardim de Infância. Café com leite.
Correio da Manhã consolida seu oposicionismo.
Amplia sua liderança para além da bancada gaúcha, criando um
bloco interestadual majoritário no Congresso Nacional. 1908 Affonso Penna Borges de Medeiros
.
Carlos Barbosa
Lideranças históricas, lideranças emergentes, alistamento militar e reorganização do Exército, fundação da Confederação Operária Brasileira; Albuquerque Lins é presidente em SP, fundação da ABI, demissão de Hermes da Fonseca do Ministério da Guerra. Infra- estrutura nacional, Jardim de Infância. Café
com leite.
Bondes elétricos em Porto Alegre.
Correio da Manhã consolida seu oposicionismo.
Enfrentamento do Bloco com o chamado
Jardim de Infância, de lideranças emergentes antipinheiristas estimuladas pelo presidente Affonso Penna.
1909 Affonso Penna Carlos Barbosa Lideranças históricas, Wenceslau Braz assume o governo de MG, lançada e efetivada a candidatura Hermes, lançada a
I Correio da Manhã
apóia candidatura
Rompimento com Nilo Peçanha, apoio à
Nilo Peçanha
candidatura de Ruy Barbosa, morte de Affonso Penna, 1ª campanha sucessória da história do Brasil (outras capitais e regiões), estudantes mortos pela polícia em passeata no
Rio (Primavera de Sangue). Iinfra-estrutura nacional, Jardim de Infância. Café com leite.
Morte do presidente da República em pleno mandato.
Conflito entre o Governo do RS e o Grupo Corthell/Farquhar.
Intervenções em Estados, disputa de poder entre SP e MG. Hermes da Fonseca à Presidência, inicialmente, depois passa a defender a de Ruy Barbosa. O jornal (e também o Diário de Notícias) relaciona o senador ao contrabando de charque. da Fonseca, afastamento de Ruy Barbosa.
1910 Nilo Peçanha Carlos Barbosa Lideranças históricas, eleição de Hermes, OESP publica manifesto de Ruy Barbosa, bombardeio de Manaus, levante da Esquadra,
revolta da Chibata, anistia aos revoltosos, fundação do PRC, levante da Ilha das Cobras,
prisão de João Cândido e marinheiros, 441 presos e prostitutas enviados para o Acre. Intervenções em Estados, disputa de poder
entre SP e MG.
Instabilidade política. Aliança entre o RS e o Exército. Correio da Manhã combate violentamente candidatura militar de Hermes da Fonseca à Presidência e, com sua eleição e posse, passa a exercer forte oposição ao seu governo e aos que o
representam. Período de maior poderio de Pinheiro Machado na política brasileira. Assume a presidência do PRC, com a morte de Bocayuva.
Hermes da Fonseca
1911 Hermes da Fonseca Carlos Barbosa Lideranças históricas, Pe. Cícero eleito prefeito de Juazeiro. Instabilidade política,
salvacionismo. Aliança entre o RS e o Exército. Correio da Manhã acentua a oposição ao governo e aos que o representam: “Segundo turno”. Período de maior poderio de Pinheiro Machado na política brasileira.
1912 Hermes da Fonseca Carlos Barbosa Lideranças históricas, intervenções (Bahia, Ceará), demissão e morte do Barão do Rio Branco, Contestado, censura a filme sobre
João Cândido. Instabilidade política, salvacionismo, morte da primeira-dama Orsina da Fonseca. Aliança entre o RS e o
Exército.
Correio da Manhã mantém forte
oposição ao governo e aos que o
representam.
Período de maior poderio de Pinheiro Machado na política
brasileira.
1913 Hermes da Fonseca Carlos Barbosa.
Borges de Medeiros
Lideranças históricas, cerca de 10 mil se manifestam contra deportação de sindicalistas, crise no Ceará, estado de sítio, nova disputa sucessória (Wenceslau x Ruy), Ruy desiste da candidatura. Pacto de Ouro Fino. Instabilidade política, salvacionismo. Casamento do presidente da República com
Nair de Teffé. Aliança entre o RS e o Exército. Nova eleição de Borges no RS,
descontente com o governo de Carlos Barbosa: encampação dos serviços públicos e
atração de investimentos estrangeiros. Crise econômica mundial.
Correio da Manhã mantém forte
oposição ao governo e aos que o representam, detona a candidatura de PM e volta a defender a candidatura Ruy. Período de maior poderio de Pinheiro Machado na política brasileira. Seu nome chega a aparecer como presidenciável. Irmão, Salvador Pinheiro Machado, é nomeado vice- presidente do RS por Borges de Medeiros para o período 1913/1918. 1914 Hermes da Fonseca Borges de Medeiros Eclosão da 1ª guerra mundial, lideranças
históricas, sitiado o Ceará, depostos os governos de PE, AL e BA, greve geral no PA, estado de sítio. Manifestações em frente
a O Paiz são rechaçadas a tiros. Borges afasta-se do governo do RS por doença, substituído por Salvador Pinheiro
Machado.
Braz declara-se em busca da pacificação.
Correio da Manhã mantém forte oposição ao governo Hermes e aos que o representam, mas aparenta um voto de confiança ao novo presidente, estimulando-o a afastar-se de Pinheiro Machado. O jornal decreta o fim político de PM e HF. Novamente eleito para a vice- presidência do Senado, período de maior poderio de Pinheiro Machado na política brasileira. Presidiu a sessão de posse de Wenceslau Braz. WB tenta atenuar sua influência
sobre o governo. Redige o seu testamento político. Seu irmão assume a presidência do RS.
Wenceslau Braz
Café com leite.
1915 Wenceslau Braz .
Borges de Medeiros.
Braz segue sua busca pela pacificação e às voltas com os efeitos da guerra na economia nacional. Manifestações em SP e Rio contra a guerra, meetings contra a candidatura Hermes ao Senado, eleição de Hermes, preparativos para sua posse, morte de Pinheiro Machado. Dez dias entre os funerais no Rio e o enterro
em Porto Alegre.
Governo do RS exercido interinamente por Salvador Pinheiro Machado.
Correio da Manhã mantém voto de confiança ao novo presidente e passa a combater violentamente a candidatura Hermes ao Senado pelo RS, sem sucesso. Depois da morte do senador, insiste na idéia de que foi um
crime isolado cometido por um insano. A Federação adota a linha de crime encomendado, com críticas a WB.
Passa parte do ano em ostracismo. Em discurso no Senado,
admite que poderá “submergir”. Repete o
mesmo em entrevista a João do Rio. Acerta
com Borges de Medeiros e Salvador Pinheiro Machado o lançamento da candidatura Hermes ao Senado pelo RS em vaga aberta pela renúncia do titular.
Elaboração do autor. Base: Borges, Calógeras, Carone, Castro, Chagas, Fausto, Martins, Thompson.