“A Tarefa do Tradutor” (Benjamin, 2001) é um dos mais crípticos escritos de Walter Benjamin (1892-1940). Um “texto breve, porém de difícil leitura [...] em que certas imagens aparecem sem função evidente”, e que apropria “elementos [...] da narrativa bíblica” e de “interpretações intrincadas [...] por parte de rabinos cabalistas”, diz-nos Susana Kampff-Lages (Kampff-Lages, 1998, pp. 64, 81), expressando a estranheza que é a de tantos quantos se aproximam desse prefácio à tradução por Benjamin dos Tableaux Parisiens de Baudelaire.
Coubesse ou não a Benjamin o epíteto de “rabino marxista” que Gershom Scholem lhe atribuiu, ou tenha sido ele—como crê Kampf-Lages mais apropriado—não mais que um “marxista rabínico” (id., p. 81), é importante ter em conta um ponto ressaltado por Rainer Rochlitz: foi apenas a partir dos anos trinta, com “Sobre o Poder da Imitação”, que a teoria da linguagem de Benjamin ganhou um cunho mais
materialista. “A Tarefa” corresponde à fase iniciada em 1916 com “Sobre a Linguagem em Geral e a Linguagem Humana”. A própria iniciação de Benjamin no marxismo, note-se, deu-se apenas em 1924 e “A Tarefa” é de 1923.
Mas, se ainda não “marxista”, tampouco tão “rabínico” assim. Rochlitz nos informa que
desde Gershom Scholem vários autores não cessaram de buscar nos textos de Benjamin uma filiação direta com a Cabala, [filiação essa] que sem dúvida [não] existe [de forma direta, mas apenas] indiretamente, através das fontes que o próprio Benjamin cita: notadamente Hamann e Schlegel (Rochlitz, 2000, 24, n.1).
Essa observação é importante. Ela aproxima Benjamin de Johann Georg Hamann (1730-1788), o mestre de Herder (Lefevere, 1977, p. 30) e adversário do Iluminismo e do racionalismo kantiano, que como vimos (Cap. 4, sec. 2, p. 88), foi um dos iniciadores da retomada do linguistic turn no qual Rosenzweig se insere.
Em sua filosofia, Hamann já designara o verbo poético como um retorno da “nomeação adâmica” ou ao batismo original das coisas (Hamann, apud Rochlitz, id., p. 23). Esse é um tema que Benjamin retoma em “Sobre a Linguagem”. Nesse ensaio Benjamin cita Hamann: “‘Língua, mãe da razão, diz Hamann, e revelação, seu alfa
e seu ômega’” (Benjamin, 2000b, p.151, grifos no original). Essa citação se dá num contexto que, como veremos mais adiante, é crucial, o da discussão da revelação.
Uma outra menção de Hamann em Benjamin—desta feita em “Sobre o programa da filosofia que há de vir”, um texto de 1917—soa como um prenúncio da distinção entre as tradições alemã e anglo-americana do linguistic turn, tal como descrita (verstehen versus erklärung) no Cap. 1 acima (sec. 7, pp. 34-35): “A grande transformação, a grande correção à qual convém submeter-se um conceito de conhecimento que se orienta de forma unilateral na direção da Matemática e da Mecânica, não é possível a não ser que se relacione o conhecimento com a linguagem, como já tentou fazê- lo Hamann, ainda ao tempo em que Kant era vivo” (Benjamin, 2000d, p. 193, vide também acima, cap. 4, seção 3, p. 94).
E por fim cabe buscar um último trecho em Benjamin que, embora não cite nominalmente Hamann, traz sem dúvida a sua influência: “A filosofia deve nomear as idéias como Adão [nomeou] a natureza, a fim de as dominar [às idéias], elas que são um retorno da natureza” (Benjamin, 2000e, 26). E esclarece-nos acerca desse trecho Rochlitz: “Nomear as ‘idéias’ para transpô-las de um contexto ‘natural’ a um contexto ‘histórico’ e ‘messiânico’, é essa a tarefa, inspirada pelo judaísmo, que segundo Benjamin se impõe à filosofia”.
Esse último trecho de Benjamin que citamos é para nós especialmente significativo pela data—dezembro de 1923, portanto logo após a publicação de “A Tarefa”—e, principalmente, pelo destinatário da carta que a contém. Trata-se de Florens Christian Rang, um dos correspondentes freqüentes de Benjamin (Rochlitz,
2000, p. 13), que é citado por Rosenzweig em “O Novo Pensamento” com mais outros quatro autores alemães contemporâneos seus, como tendo “independentemente uns dos outros, penetrado o ponto focal da nova idéia”, apresentada em A Estrela da
Redenção (Rosenzweig, 2000a, p. 128, vide Cap. 1, seção, 1, p. 21).
Dentre esses autores mencionados, é acerca de Rang que Rosenzweig é mais, digamos, “efusivo”. Coincidentemente, isso se dá no trecho que contém a frase acerca de seu (de Rosenzweig) trabalho de tradução ter-lhe propiciado uma aplicação prática de sua filosofia:
As notas ao meu Yehuda Halevi contém instrutivos exemplos de aplicação prática do novo pensamento. Um preciso e profundo conhecimento destas coisas está contido nos fundamentos da obra, de peso, de Florens Christian Rang que permanece em grande parte inédita. (Rosenzweig, 2000a, 128).
Do que vai acima, já se detecta uma convergência de influências, idéias1 e
relacionamentos junto à intelectualidade entre Rosenzweig e Benjamin. E, no que concerne a reflexões acerca da tradução, uma primeira vista d’olhos também já indica uma proximidade. Diz Rosenzweig:
Só existe uma língua. [...] Sobre essa essencial unidade da linguagem [...] está baseada a tarefa [i.e., o dever] de traduzir. Pode-se traduzir, porque cada língua contém em si as possibilidades de qualquer outra. É desejável que se traduza, caso se consiga concretizar esse potencial ao semear-se algum campo lingüístico fértil mas ainda incultivado (Rosenzweig, 1995, p. 171).
Compare-se isso, p. ex. com o Panwitz que Benjamin cita com aprovação em “A Tarefa”: “[O tradutor] tem de ampliar e aprofundar sua língua por meio do elemento estrangeiro” (Panwitz apud Benjamin, 2001, p. 211). Ou com o trecho, famoso, do próprio Benjamin:
a tradução deve [...] ir reconfigurando em sua própria língua, amorosamente, chegando até aos mínimos detalhes, o modo de designar do original, fazendo com que ambos sejam reconhecidos como fragmentos de uma língua maior [i. e., a pura linguagem]. (id. 206).
1 Convergência que mostra que talvez se deva modular a afirmação de Kampf-Lages (1998, pp. 87-88,
n. 10) de que “Benjamin não teve veleidades religiosas, e nem mesmo especificamente teológicas”. A própria influência de Hamann discutida acima, é uma clara indicação de que não é bem assim. Mas há mais. Rochlitz (21) fala de pelo menos “duas reviravoltas tais, que melhor seria falar em mudanças de paradigma” na obra de Benjamin. “A primeira delas”—que é a que aqui nos interessa—“jamais foi contestada: é a que concerne a passagem de uma filosofia ‘metafísica’, essencialmente teológica, a um pensamento que, embora nunca o tenha sido totalmente, se queria ‘materialista’”. (Rochlitz, 2000, p. 21, grifo meu). Note-se que Benjamin escreveu “A Tarefa” em 1921 (Witte, 1991, pp. 50-51), mas conseguiu publicá-la somente em 1923 e meio “que de carona” como a introdução (que aos leitores pareceu ectópica) a uma tradução de poemas de Baudelaire. Trata-se, portanto, de um Benjamin anterior a essa “primeira reviravolta” que se deu apenas a partir de 1924, durante uma viagem à Itália que lhe propiciou o primeiro contacto com o marxismo.
Em especial, essa “pura linguagem” de Benjamin (id., p. 199) e a “língua única” de Rosenzweig que vimos de citar parecem clamar por uma aproximação.
Assim sendo, no presente capítulo, a tradução dialógica de Rosenzweig será examinada sob a ótica de “A Tarefa do Tradutor” de Walter Benjamin. Como se verá, o texto de Benjamin e o viver tradutório de Rosenzweig elucidam-se um ao outro. E, nessa medida, Rosenzweig cumpre a tarefa que Benjamin propõe.
Se no Cap. 3 Bakhtin iluminou Rosenzweig, aqui Benjamin e Rosenzweig hão
de iluminar-se mutuamente. É claro, toda luz que se possa lançar sobre a críptica
“A Tarefa” será sempre bem-vinda. Mas mais que isso, veremos que a proximidade
entre os dois autores, que acima é pouco mais do que intuída, se dá em pontos cruciais das filosofias de ambos, num nível bem mais básico do que aquele em que se
situam as suas respectivas considerações—já de si bem profundas e próximas—acerca do fazer tradutório. Pontos que, como ademais veremos, correspondem àqueles
em que Rosenzweig se aproxima de Bakhtin.
Assim, se Bakhtin elucida—como visto no cap. 3—a tradução dialógica que Rosenzweig pratica e que é, veremos, a que Benjamin propugna, isso se dá por razões profundas que estão no âmago das filosofias desses autores. Esse é um fato auspicioso e, as far as the deepness goes, de certa forma inesperado. Ele surge ao longo do (bem longo) trabalho preliminar necessário para que, posteriormente, se contraponha de forma embasada o tradutor Rosenzweig a “A Tarefa”.
Vamos a esse trabalho.