A Revelação é o cerne da filosofia de Rosenzweig. É o moto de seu trabalho de tradução, o quê a ser preservado no texto traduzido, a razão de ser do desenvolvimento e da aplicação de suas técnicas tradutórias. Tudo isso tem sido mote do presente trabalho. Mais ainda, e como também visto, para Rosenzweig a Revelação é a Linguagem (Cap. 4, sec. 7, p. 104).
do sexto dia que “isto [a Criação] é muito bom”. Esse vão “conhecimento exterior [do bem e do mal] abandona o nome”, nele “o nome sai de si mesmo”, decai e se sujeita à morte.
Ora, o conceito de revelação é também um ápice de “A Linguagem” de Benjamin, embora apareça em apenas um trecho do texto e não tenha, portanto, a ubiqüidade que têm no desenrolar da argumentação, p. ex., os conceitos de “nome”, “nomeação”, “essência espiritual” e “essência lingüística”.
A Revelação surge em “A Linguagem” ao cabo da longa argumentação a que aludimos na nota 7 acima, que conclui pelo equacionamento da essência espiritual humana a sua essência lingüística: a essência espiritual do homem é sua essência lingüística. E é interessante notar como a Revelação é para Benjamin, ao mesmo tempo, causa e conseqüência dessa identidade. Vale aqui a citação de um longo trecho:
Mas se a identificação da essência espiritual com a essência lingüística é, para a teoria da linguagem, de um tal importe metafísico, é porque ela conduz a esse
conceito que jamais cessou de se lançar-se a si mesmo ao centro da filosofia da linguagem e [assim] constituir-se na ligação mais íntima dessa filosofia com a [filosofia] da religião, refiro-me ao conceito de revelação.—No interior
de toda criação lingüística reina o conflito entre o exprimido e o exprimível de um lado, e o inexprimido e o inexprimível do outro. Uma vez que se contempla esse conflito, é na perspectiva do inexprimível que se vê, desde logo, a última essência espiritual. Ora, é claro que identificar-se a essência espiritual com a essência lingüística é igual a contestar-se essa relação de proporcionalidade inversa entre um [expressão] e outro [espiritualidade], de tal sorte que a expressão lingüística mais existente, [...] [ou seja,] a mais expressa, é ao mesmo tempo o puro espiritual. Mas é precisamente isso que significa o conceito de revelação, uma vez que [esse conceito] toma o caráter intangível do verbo como [sendo]
a única e suficiente condição, e [como sendo a própria] característica, da natureza divina que se exprime nele [verbo, palavra de revelação]. O mais alto domínio espiritual é [dessa forma] (no conceito de revelação), ao mesmo tempo o único que ignora o inexprimível. Pois ele é interpelado no nome e se exprime como revelação. Ora o que assim se anuncia, é que [...] a mais alta essência espiritual, tal como se manifesta na religião, repousa exclusivamente sobre o homem e sobre a linguagem nele [que é uma linguagem perfeita, sonora
e acabada (enquanto palavra de revelação)]; enquanto que toda arte, inclusive
a poesia, repousa, não sobre a última substância do espírito lingüístico, mas,
certamente sobre a beleza acabada [achevée], sobre o espírito lingüístico das
coisas [i.e., sobre as linguagens das coisas, que são linguagens imperfeitas e
mudas]. ‘Língua, mãe da razão, diz Hamann, e revelação, seu alfa e seu ômega’.
[id., p. 151, negritos meus, itálicos de Benjamin. Para o que vai nos dois últimos colchetes, vide p. 152].
As aproximações do trecho acima com Rosenzweig são várias, e significativas: a revelação como cerne da doutrina (“o mais alto domínio espiritual [implica] (no conceito de revelação)”), e da linguagem (uma linguagem accomplished “que ignora o inexprimível”). A interpelação pelo nome que se exprime em revelação, ápice de essência espiritual (vide em Rosenzweig acima no Cap. 4, sec 7, pp. 109-110): “o chamado é enviado ao nome próprio. Agora chamado pelo nome ele responde, totalmente aberto, totalmente disponível, [...], totalmente [...] alma [...]: ‘Eis-me
aqui!’”). A revelação que faz o homem transitar da linguagem das coisas à linguagem humana, (em Rosenzweig, id., “o self mudo matura-se em alma eloqüente, nisso reconhecemos o acontecimento da Revelação”).
Finalmente, quanto à sentença crucial desse trecho de Benjamin, “o conceito de revelação toma o caráter intangível do verbo como [sendo] a única e suficiente condição [...] da natureza divina que se exprime nele. [Assim sendo,] o mais alto domínio espiritual é (no conceito de revelação), ao mesmo tempo o único que ignora o inexprimível”, Rosenzweig tem uma frase que a sintetiza: “O conteúdo primordial da Revelação é a própria Revelação” (Rosenzweig em carta de 5/05/1925 a Buber,
apud Wyschogrod, 1998, p. 129).
Ainda no que respeita a essa proximidade de Benjamin com Rosenzweig nas respectivas conceituações da Revelação, cabe uma nova citação um pouco extensa. Trata-se de trecho de um artigo de Rosenzweig, “Escritura e Palavra”, do final de 1925, acerca da tradução da Bíblia. O trecho é suscitado por uma discussão prévia acerca da técnica tradutória da colometria, e quer fazer ver que na linguagem da Bíblia há momentos de um “espírito de prosa” (que é espírito de revelação). Nesses momentos o poético não cabe:
Para nós, o movimento respiratório da fala natural (natural speech) precisa às vezes quebrar o passo de dança, métrico, da poesia. [...]
Pois a poesia é de fato a língua mãe da raça humana; não é necessário que rejeitemos aqui os insights de Hamann e Herder. Mas apenas da raça. Mesmo hoje em dia a linguagem de toda criança é originalmente lírica e mágica, a arrebatada erupção do sentimento e o poderoso instrumento do desejo, ambos freqüentemente [expressos] num único som, e, se expressa na mesma palavra, então apenas, e precisamente, no soar dessa palavra. Mas a criança só se torna adulta quando através desse Ursprache irrompe a não-lírica e não-mágica plenitude da palavra, igualmente alheia ao canto e ao recitar do provérbio. [...] de dentro da língua original da raça humana irrompe a linguagem da humanidade no ser humano, a linguagem da palavra [de Revelação]. [...] A palavra que não pode tolerar métrica, porque nela a alma irrompe sem medida, [a alma] é falada através dela [palavra], e fala [a alma] a partir dela [palavra]. Havia prosa antes, e fora, da Bíblia: [era] uma não-poesia, mas não [era] a fala liberta, não [era] sem medida, [era] apenas desmedida. Toda poesia que tem sido escrita à luz da Bíblia—e, de fato a poesia mais que a prosa, Judah Halevi mais que Maimonides, Dante mais que Aquino, Goethe mais que Kant—tem sido animada pelo espírito de prosa da Bíblia. [Rosenzweig (1925) in, Buber e Rosenzweig, 1994, pp. 45-46].
Note-se quanto paralelismo entre esse trecho de Rosenzweig e o anterior de Benjamin: a transição de uma “língua da raça”, lírica, poética (“da arte e sob o espírito língüístico das coisas”, diríamos à luz do trecho anterior de Benjamin em “A Linguagem”), para uma “linguagem da humanidade” (que “se exprime como revelação
e repousa exclusivamente sobre o homem e sobre a linguagem nele”, no trecho de Benjamin). E, em Rosenzweig, “a palavra que não pode tolerar métrica, porque nela a alma irrompe sem medida, [a alma] é falada através dela [palavra], e fala [a alma] a partir dela [palavra]”, pode, certamente, ser entendida como uma afirmação da “identidade da essência espiritual com a essência lingüística” que é fundamental para o Benjamin de “A Linguagem”.
Enfim, no conceito de Revelação—que é fundamental para Rosenzweig e que aparece como básico num ponto crucial de “A Linguagem” de Benjamin—, as filosofias dos dois autores convergem.