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De nossos comentários anteriores acerca de “A Linguagem”, fica claro que nome e nomeação constituem um conceito fundamental para a argumentação de Benjamin. Inclusive, o fulcro do texto, qual seja a identidade entre essência lingüística e essência espiritual, é argumentado a partir de três pontos nos quais figuram com proeminência o nome e a nomeação. Convém que examinemos brevemente os passos do argumento para que se avalie o peso que Benjamin dá ao conceito “nome/nomeação”:

a) a nomeação é característica da linguagem humana (e só dela), e assim a essência lingüística do homem consiste em que ele nomeia as coisas. Ademais, “o nome [tem uma] significação incomparável, [ele] é a mais íntima essência da linguagem em si” [Benjamin, 2000b, p. 147, grifos meus];

b) a linguagem como referência e denotação é uma “concepção insustentável, burguesa e decaída da linguagem” e, dado a) acima, é preciso que se faça valer “uma outra concepção [que] não conhece meio, nem objeto, nem destinatário da comunicação”: não é através da, mas na linguagem que a essência espiritual se comunica. Assim, “no nome a essência espiritual do homem se comunica a

Deus” [id., negritos meus, itálicos de Benjamin];

c) daí que, como já registrado mais acima nesta seção, o “nome garante que a

linguagem é tão simplesmente a essência espiritual do homem”. Dessa forma,

a essência lingüística e a espiritual coincidem, e “o nome resume em si essa

totalidade intensiva da linguagem como essência espiritual do homem” [id., p.

148, negritos meus, itálicos de Benjamin]. Ou seja, é partir do nome, no nome, que a essência espiritual do homem é linguagem, e só linguagem.

Ademais, como já visto pouco acima na sub-seção 5.2.1, Benjamin busca ressaltar a conexão fundamental entre três conceitos, quais sejam, o ápice do espiritual—e portanto da linguagem—, o nome, e a revelação: “O mais alto domínio espiritual é (no conceito de revelação), ao mesmo tempo o único [domínio espiritual] que ignora

o inexprimível [na linguagem]. Pois ele é interpelado no nome e se exprime como revelação.” (vide p. 134 acima).

Pois bem, se o conceito de Revelação aparece assim em Benjamin num momento crucial da discussão do conceito de nome/nomeação, conceito este que é o onipresente pano de fundo de “A Linguagem”, com Rosenzweig ocorre o complementar. O conceito de nome surge num momento absolutamente crucial da discussão do conceito fundamental de A Estrela, qual seja, o conceito de Revelação.

Convém que consideremos esse momento crucial de A Estrela. Um trecho de pouco mais de duas páginas—o que seguirá abaixo são excertos—, pleno de um pensamento gramático, dialógico e existencial, em que o “nome” migra de nome

comum, a nome próprio e ao nome de deus. Trata-se, ademais, de um dos trechos

de A Estrela em que o fulcro da filosofia de Rosenzweig é colocado de uma forma especialmente forte, concisa e feliz, como o próprio autor mais tarde reconheceria.11

Nem por isso é um trecho fácil. Mas é, especialmente para o que aqui nos concerne, um magnífico trecho de Rosenzweig, no qual Benjamin ecoa em tantos momentos:

A linguagem da revelação fala. A linguagem da criação de-lineia, re-lata, de-termina. [...]A criação fundou-se como ato, e com isso atingiu seu clímax

num passado. A esse tempo verbal [to this tense] [passado] corresponde aqui [na revelação] de forma dominante o presente. A revelação é do presente, ela, de fato, é em si um estar presente [...] uma experiência no presente. [...] [Ademais,] a forma [gramatical] de predicado não cabe [agora] de forma alguma à experiência [da revelação], embora tivesse sido cabível quando da criação. O [modo] imperativo pertence à revelação assim como o indicativo à criação. O que soara [...] como um monológico ‘tratemos de [criar]’ na criação do homem por Deus, chega à plenitude do Eu e Tu do imperativo da revelação. [...] O verbo [aqui, uma classe gramatical] não mais exprime a ocorrência;

agora ele serve para exprimir experiência. E assim o nome [noun], de objeto, passa a sujeito. Seu caso agora é o nominativo e não mais o acusativo. Como

objeto de experiência, [...] o nome deixa de ser coisa, [...] [não mais é]

coisa entre coisas [plurais. Não mais é parte da pluralidade]. Agora é sujeito, e portanto algo [de natureza] individual. Por princípio [o nome] agora ocorre no singular. É algo, [...] ou melhor, alguém individual. E justamente isso era o

que se antecipava quando da criação do homem à ‘imagem de Deus’.

Com a interpelação pelo nome próprio [aqui há no texto a transição de noun a

name] a palavra de revelação entrou no diálogo real [de palavra e resposta]. [...] Aquele que tem nome próprio não pode mais ser uma coisa, [...] [pois] carrega consigo seu aqui e seu agora, [...] onde quer que abra a boca, lá existe um começo [...] uma base para a absoluta certeza [que tem o indivíduo que vive uma] experiência, de que possui [o] seu próprio espaço e seu próprio tempo [nos quais uma dada experiência, no caso, a da revelação na vida daquele indivíduo, é vivida]. [...] A experiência pessoal vivida, que é ligada ao nome próprio exige, portanto, um fundamento na [...] revelação histórica. [...] Deve haver um ‘onde’

11 Em carta de fevereiro de 1922 a Margaret Susman [G. S.: Briefe und Tagebücher: 2. Band, 752 apud

no mundo, um ponto ainda visível de onde a revelação lança seus raios [um centro no espaço, portanto], e um ‘quando’, um momento que ainda ecoa, no qual a revelação pela primeira vez abriu sua boca [um princípio no tempo, portanto]. Ambos [esse ‘onde’ e esse ‘quando’] devem ter sido—outrora—uma só e mesma unidade, um algo tão uno, quanto o é a minha [vivência da] experiência atual. [Esse algo uno] é que dá à minha experiência um fundamento firme. Em seu

after-effect, o ‘ter tido lugar’, espacial, da revelação e o seu temporal ‘ter-se dado’ vivem hoje em meios separados, o primeiro na congregação de Deus [na comunidade reunida], o segundo na palavra de Deus [na Bíblia]: há um tempo, entretanto, ambos ter-se-ão fundido de um só golpe. Pois esse fundamento da

revelação, que, uno, é princípio e centro, é a revelação do nome divino. É

do Nome de Deus que a comunidade constituída e a palavra constituída vivem até hoje, até o presente instante, e até a experiência [de revelação na vida] individual de cada um. Pois o nome é, na verdade, palavra [verbum, wordt] e

fogo e não ruído e fumaça, como sustenta, em sua obstinada vacuidade aquele

que não crê. É o Nome [de Deus] que é preciso nomear; é dele que se deve confessar: eu creio.” [Rosenzweig, 1970, pp. 185-188. Vide também Rosenzweig, 2003, pp. 263-266. Grifos meus].

A riqueza do que vai acima é considerável. Desde logo, a proximidade com Benjamin fica patente nessa verdadeira ode ao “nome”. Aqui também, como em Benjamin, alguém (num dado momento central da história da revelação) é “interpelado no nome [próprio]”, aqui também a revelação é só palavra [i.e., o nome divino] que ignora o inexprimível e na qual se dá um conhecimento vivenciado e pleno “do mais alto domínio espiritual” (vide p. 134 acima). Além disso—no que concerne à riqueza desse trecho—, muito do que de melhor há em Rosenzweig em termos de pensamento gramático aí se encontra (vide adiante n. 14, p. 141).

Mais do que tudo, entretanto, esse excerto nos permitirá constatar a profundidade a que chega a proximidade entre as duas filosofias, e o ponto em que essa proximidade se dá. Profundidade e ponto que correspondem aos da proximidade entre Bakhtin e Benjamin, discutidos no Cap. 3. Vejamos o porquê.