Mas se Rosenzweig surge como o elo central dessa cadeia Bakhtin-Rosenzweig- Benjamin, é importante notar ademais que é a um mesmo e determinado ponto
dentro da obra de Rosenzweig—ao seu fulcro que é o conceito revelação—, que se conectam por um lado o enunciado de Bakhtin, por outro o nome de Benjamin.
Ou seja, não é a dois diferentes elos, a dois pontos distintos—como até seria de se esperar12—do todo da obra de Rosenzweig, que se conectam Bakhtin e Benjamin, mas
a um e mesmo elo/ponto, que ademais é o fulcro dessa obra. Com isso a Revelação
em Rosenzweig, mais do que o elo central, torna-se o vértice do encadeamento Bakhtin-Rosenzweig-Benjamin.
Tratemos então de aproximarmo-nos um pouco mais desse vértice/elo/fulcro rosenzweigueano da Revelação e busquemos dissecá-lo mais a fundo, para verificar de que forma ele de fato se liga, de um lado a Bakhtin, e de outro a Benjamin, e
entender as vertentes que se originam nesse vértice.
Um ponto importante que Rosenzweig ressalta nos excertos que são objeto desta discussão, é que existem dois aspectos da Revelação (vide pp. 137-138 acima):
12 Por exemplo, uma primeira vista d’olhos indicaria que Bakhtin se aproxima de Rosenzweig pelo
dialogismo e Benjamin pela pura linguagem/ língua única. Entretanto, como se vê, a amarração—via “nome” por um lado e “palavra-resposta” por outro—é muito mais forte e profunda. E se dá, como vimos de mencionar acima e demonstraremos a seguir, a partir de um único ponto em Rosenzweig, que é ademais o fulcro de sua obra.
a Revelação na palavra de Deus (i.e.: a que está no relato bíblico) e a Revelação na vida (i.e.: aquela que ocorre na vida de cada específico indivíduo que vivencia uma experiência de revelação)13.
Como se recordará (vide Cap 4, sec.7, item 7.2, p. 105), foi ao passar, em A
Estrela, ao âmbito de considerações acerca da Revelação da palavra de Deus, que
Rosenzweig precisou abandonar “a linguagem dos símbolos matemáticos” que lhe servira tão somente para expressar as arché-palavras inaudíveis do âmbito da Criação.
A Revelação requereu “uma ciência de sons vivos, [...] a gramática” que permitisse que das inaudíveis arché-palavras emergissem “palavras-raízes audíveis [...] capazes de abarcar o real do real da língua”. Foi a derivação do Eu, a segunda palavra-raiz audível a partir do arché-Não, que propiciou que se chegasse ao “ponto central, palavra e resposta”. E como visto (Cap. 4, item 7.3, p. 108), é neste lado do elo/vértice rozenzweigueano da Revelação, é a esta vertente, digamos, mais
lingüística da Revelação (a da Revelação na palavra bíblica), que se encadeia o enunciado bakhtiniano.
A outra vertente, mais teológica e, digamos, vivencial da Revelação na vida, é a que vai descrita no trecho de Rosenzweig que excertamos nas pp. 137-138
acima14. E é a este outro lado do elo/vértice da Revelação na obra de Rosenzweig que
se encadeia o nome, a palavra intensiva que é o fulcro da filosofia da linguagem de
Benjamin.
É, portanto, forte, profundo e bem amarrado esse encadeamento em que o
mesmo fulcro fundamental da obra de Rosenzweig junta-se de um lado a um fulcro
da filosofia de Bakhtin, e de outro ao fulcro da filosofia da linguagem de Benjamin. É
a esse sólido embasamento que vimos recorrendo para que se elucidasse (via Bakhtin) o que é essa tradução dialógica que Rosenzweig pratica, e que é também a tradução que Benjamin propugna.
E, é claro, há de ser também bem embasada toda inter-iluminação que esse forte encadeamento nos propiciar.
13 E, como vimos no Cap. 2, sec. 5, p.48, é para propiciar que a Revelação se dê de forma efetiva
na vida, que Buber e Rosenzweig tratam de traduzir, dialogicamente, do hebraico para o alemão, a Revelação na palavra de Deus. É nessa medida que a tradução em Rosenzweig, é de fato, como o
autor aponta em “O Novo Pensamento”, o grande exemplo de uma aplicação prática de sua filosofia (Rosenzweig, 2000a, p. 128).
14 Na medida em que esse “trecho do Nome” em Rosenzweig também se insere no âmbito da Revelação,
ele requereu “a ciência dos sons vivos, a gramática” para que a multifacetada vivência individual da experiência da Revelação pudesse ser expressa. E talvez mais do que em todos os trechos que citamos no Cap. 4 (sec. 7 itens 7.1 a 7.4) para demonstrar a aplicação do pensamento gramático, o “trecho do Nome” demonstra a força expressiva dessa metodologia. Para espelhar a multifacetada experiência de quem vivencia a revelação Rosenzweig nesse trecho emprega as seguintes categorias gramaticais: classes gramaticais, modos e tempos verbais, casos gramaticais, substantivo comum, nome próprio e número (singular e plural).
5.3 Intensividade
Assim sendo, cabe que neste ponto de nossa argumentação se busque uma tal inter-iluminação, visando esclarecer melhor o que é, exatamente, a intensividade dessa “palavra intensiva” que é o fulcro da filosofia da linguagem de Benjamin. Como se verá, esse conceito de Benjamin ajuda, de fato, a iluminar pontos de Rosenzweig e do próprio Benjamin, e mesmo a trazer mais luz sobre o encadeamento Bkht-R-Benj que acabamos de examinar.
Essa “totalidade intensiva da linguagem” [Benjamin, 2000b, p. 147] é justamente a palavra humana não decaída, que nomeia o que Deus cria e, nomeando, conhece. E conhece essencialmente (i.e., plenamente) no nome (vide p. 130 acima). O contraste é com a linguagem decaída que apenas refere, e através da qual (note-se, não mais
na qual) o homem decaído conhece parcialmente, e sempre sujeito às armadilhas
da referência.
O que vem, a contrario, à mente são os chamados “contextos intensionais” na semântica da Lógica de Predicados: se Inácio diz que acha bela a Estrela d’Alva, mas não sabemos se ele conhece ou não o fato de que a Estrela d’ Alva, a Estrela Vespertina e Vênus são o mesmo corpo celeste, a frase “Inácio acha bela a Estrela Vespertina” é verdadeira ou falsa? A Lógica de Predicados “resolve-se” dizendo que esse tipo de questão—falso ou verdadeiro—simplesmente não cabe nesses “contextos intensionais” em que, digamos, o conteúdo mental e a vivência experiencial do outro interfere na referência [vide, p. ex., Rundle, 1995, p. 411].
Já no caso da palavra de intensividade de Benjamin, aquela que não refere
nem julga (true or false?, vide p. 130 acima) mas nomeia, e na qual o homem conhece
(ou seja, vivencia) plenamente, tudo se passaria (mal comparando) como se a cada nomeação e a cada nome correspondesse uma aha! experience absolutamente plena do conhecimento—um conhecimento total, experiencial e inter-vivenciado—daquilo que é nomeado (num contexto menos acadêmico diríamos que nessa palavra “a ficha sempre cai”, plenamente)15.
O ponto de Benjamin (e de Rosenzweig) é o de que quando se está no âmbito da Revelação (i.e., da palavra que propicia uma vivência de Revelação na vida individual) tudo o que se tem é pura e simplesmente uma palavra, justamente a palavra de Revelação (p. 134). Mas essa é uma palavra tal que nela (palavra, e só palavra) se vivencia a plenitude da Revelação na própria vida.
15 Aliás, esse conhecimento que chega como a vivência de uma aha! experience não está restrito a alguma
idealização como a do homem não-decaído do Paraíso, ou apenas ao insight de geniais matemáticos (Poincaré, 1908) e físicos teóricos. Algo dessa natureza ocorre com o leitor da nova historiografia que Benjamin constrói, anos mais tarde, na sua inacabada obra maior, as Passagens (Bolle, 2006, p. 1151; Abdulkader, 2007, pp. 29-32).
É fácil de perceber que, sob essa perspectiva, o trabalho de tradução de tal palavra há de ater-se bastante a aspectos outros que não (apenas) o “conteúdo” ou “o sentido”. Aspectos que não são o “conteúdo” tradicional, mas que carregam o que poderíamos chamar de “significação vivencial”, tais como, para Rosenzweig, o som, o ritmo, a prosódia, o entretecer do texto, e para ambos Rosenzweig e Benjamin, a forma sintática (a “literalidade na transposição da sintaxe”), haverão de adquirir uma especial relevância.
Podemos então—e já aqui sob uma visão não teológica, mas mais meta-
lingüística, deste pobre mundo real das línguas decaídas que referem—entender como
intensividade tudo aquilo que na linguagem e nas línguas é experiência que se conota, exprime e inter-vivencia, e que se contrapõe à referência através da qual essas mesmas linguagem e línguas denotam e informam acerca do referente.
Dar atenção a esse outro aspecto, o da intensividade na linguagem16, é a
mensagem de Benjamin e é o que está por trás da prática da tradução dialógica de Rosenzweig e, veremos, também por trás da responsividade do enunciado de Bakhtin. E essa não é uma mensagem nova. Já na transição do séc. 18 ao 19, Novalis fazia ver em seu “Monólogo”:
Só é de admirar o ridículo erro: que as pessoas julguem falar em intenção das coisas. Exatamente o específico da linguagem, que ela se aflige consigo mesma, ninguém sabe. [...] Assim, [...] com a linguagem, quem tem um fino tacto com seu dedilhado, sua cadência, seu espírito musical, quem percebe em si mesmo o delicado atuar de sua natureza interna, e move de acordo com ela sua língua ou sua mão, esse será um profeta; em contrapartida, quem sabe bem disso mas não tem ouvido ou sentido bastante para ela, escreverá verdades como esta mas será [...] escarnecido pelos homens. (Novalis [Friedrich von Hardenberg], 1988, pp. 195-196).
Essa “intensividade da palavra” de Benjamin ilumina, ademais, a crucial observação de Rosenzweig, em sua discussão do Cântico dos Cânticos, de que a “distinção entre ‘imanência’ e ‘transcendência’ desfaz-se na linguagem” [Rosenzweig, 1970, p. 199, vide também nossa discussão no Cap. 4, sec. 8, pp. 111-112].
Isso porque sob uma perspectiva de intensividade, na qual a palavra de revelação do Cântico é tomada como algo que dá a conhecer “com intensividade vivencial” (p. ex, uma pluralidade de conotações), e não como algo que simplesmente refere (um
16 Intensividade que, note-se, não é de se estranhar que seja valorizada sob enfoques ditados pelo
linguistic turn de tradição alemã tais como os de Rosenzweig e Benjamin, nos quais o conteúdo mental, a vivência e o experiencial do outro são primordiais. Essa intensividade é como que o antônimo da
intentionality, a aboutness da filosofia da mente de cunho analítico [Dennet e Haugeland, 1987, pp. 383-387], que é por sua vez tão ligada à noção de referência com a qual o linguistic turn anglo- americano fica às voltas. A intensividade não quer “get rid of [intensional objects] altogether” [Quine, 1960, para. 35 p. 168, e vide também o para. 43, pp. 206-211], e se compraz com um vocabulário que inclua termos que Quine quer eliminar como, p.ex, “acreditar que”, “temer que”, “deleitar-se com”, “achar bela a” [MacIntire, 1984, pp. 83-84; Quine, 1960, para. 44, pp. 211-216].
objeto específico), “o Cântico dos Cânticos era reconhecido [por quem vivia num tal
linguistic turn] como um canto de amor [erótico], e nesse [mesmo] canto precisamente via-se imediatamente também um poema místico” [Rosenzweig, 1970, p. 199, os grifos meus]. Note-se, “no canto”, ou seja, na linguagem, e “imediatamente”.
Assim, não há a necessidade de se optar por um dentre dois referentes que, à luz do rational turn, necessariamente se contrapõem (palavra de Deus versus poema erótico). O que há é uma mesma, única e imediata intensividade, pois aqui se está à luz do linguistic return (vide Cap. 4) que, agora vemos, não é só de Rosenzweig, mas que é também de Benjamin.
E mesmo o que chamamos de “encadeamento dos fulcros”, a proximidade Bakhtin-Rosenzweig-Benjamin que vimos de discutir logo acima, se ilumina sob essa noção de intensividade. Como visto (p. 134), ao concluir pela identidade da
essência espiritual com a essência lingüística, Benjamin enfoca, num ponto crucial de “A Linguagem”, a noção de Revelação, e diz: “o conceito de revelação, [...] toma [...] o [...] verbo [i.e., a palavra que está na Escritura] como [sendo] a única e suficiente condição” para que uma vivência da revelação se dê na vida de alguém [Benjamin, 2000b, p. 147].
Ou seja, e novamente, o que Benjamin está dizendo é que a Revelação na palavra é pura e simplesmente isso, uma palavra, uma frase, um trecho de texto. É na intensividade dessa palavra, ou seja no potencial que há nela de não apenas
referir mas de propiciar vivências, que se encontra a possibilidade de que essa
Revelação na palavra venha a se tornar (experiência de) Revelação na vida de alguém. Quando essa revelação se dá na vida, no momento em que o potencial intensivo da
palavra, eventualmente, se instancia, essa palavra se torna “nome resume em si
essa totalidade intensiva da linguagem como essência espiritual do homem” [id.]. Pois bem, até aqui estamos no nome, no lado Rosenzweig-Benjamin do encadeamento Bkht-R-Benj, o lado que, dissemos, corresponde à vertente mais teológica e experiencial da Revelação na vida (vide p.141 acima). Mas o trecho de Benjamin prossegue para dizer que para que essa revelação se exprima é preciso que ela seja
“interpelada no nome”17. E, é claro, quem interpela, enuncia e quer resposta. Só
responde quem antes vivenciou, e o próprio responder é uma outra vivência.
Assim, nesse trecho de Benjamin está também o lado Bakhtin-Rosenzweig, a vertente mais lingüística do encadeamento (vide p. 141 acima), aquela cujo fulcro é o “enunciado que obtém reposta” de Rosenzweig, ou, o que dá no mesmo, “o enunciado e sua responsividade”, de Bakhtin. E dessa forma vemos que é o aspecto da intensividade
no enunciado bakhtiniano que faz dele (enunciado) a “correia de transmissão entre
17 Note-se, aliás, nesse aspecto específico da “interpelação” uma quase coincidência nas formulações
de Benjamin e Rosenzweig. Benjamin (p. 134 acima): “O mais alto domínio espiritual [...] é interpelado no nome e se exprime como revelação”; Rosenzweig (p. 137 acima): “Com a interpelação pelo nome próprio a palavra de revelação entrou no diálogo real”.
a história da sociedade e a história da linguagem” [Bakhtin, 2003c, p. 268, vide Cap. 4, sec. 7, p. 79 ], ou seja, entre a língua e a vida. Nosso “encadeamento de fulcros” é assim, a bem dizer, um “núcleo único”. E, o que é fundamental para o escopo deste trabalho: quem traduz a enunciação está traduzindo a intensividade.
Para finalizar, a noção de intensividade sugere uma forma resumida de se apresentar a mensagem filosófico-teológico-lingüística de Benjamin: a Queda, nessa sua Teologia da Linguagem, deu-se quando a pura linguagem foi expulsa do paraíso da
intensividade, e viu-se impura e atirada no (impuro e incerto) mundo da referência
(vide n. 8, p. 131 e n. 10, pp. 132-133). Referência que, de resto, acarretou a pluralidade das línguas.
à tradução (daquilo que merece ser traduzido) caberá reconstruir, a partir
dessas línguas da referência, a pura linguagem que é a plenitude, em intensividade,
da expressão de essências lingüísticas/espirituais(/experienciais). E isso através de
uma atenção muito maior ao que Benjamin chama, em “A Tarefa”, de “modo de
designar” ou “intenção”—os quais dizem respeito à vivência, à experiência vivencial na língua—, do que a atenção dada ao sentido (que, meramente, refere).
Tudo isso tem ainda muito de teológico e espiritual, por certo. Mas, principalmente, tudo isso opera absolutamente dentro do lingüístico. Dentro das categorias do lingüístico.
Na linguagem.
6. tRADUZINDO A INtENSIVIDADE: “A tAREFA” E AS