• No results found

Estamos, pois, perante um evento eminentemente social com Seres sociais em formação e tutelado (pois que assistido passivamente) por um Ser social:

“Lèlito decidira não resistir. Deitaram-no de costas no banco. Pedro Sarapintado ficava-lhe à direita, o Adélio à esquerda. Um terceiro chefe, Julião le Gros, (era apelido que apanhara na aula de francês) pusera-se à cabeceira. Todos os mais formavam círculo em volta. Podiam estar descansados, os modos do senhor Barroso tinham indicado que os não viria incomodar. Antes, por qualquer dos seus sinais que tudo diziam sem o comprometerem, seria capaz de os avisar no caso de surgir qualquer elemento perigoso. Todos haviam percebido que ao senhor Barroso não desagradava que experimentassem um pouco o novo.”394

E é realmente o processo de inserção do protagonista neste espaço social, humano e físico que nos integra na realidade da praxe, da inclusão individual na colectividade, dos rituais de camaradagem frívolos e mundanos:

“— Tirar a prova…? — repetiu o das sardas, com um rápido olhar meio indignado meio divertido — mas é uma ideia! Vamos proceder à vistoria!

E pôs-se a agitar os braços para chamar os camaradas. Breve se viu Lèlito rodeado de quantas caras não pudera, ainda, encarar sem um íntimo sentimento de desgosto. Havia, entre elas, a de uma espécie de japonês chegado na véspera; e também a de um negro que viera em pequenino, pagava o dobro dos mais, era servente de todos, e se adaptara ao colégio como uma besta ao curral. (…)

Não seria tal adaptação à vida do colégio, ao seu regulamento e à sua comida, aos seus prefeitos e aos seus directores, que dava à maioria daquelas caras de adolescentes esse quê de boçalidade, falsidade, sarcasmo triste e semiconsciente, que tanto feria Lèlito?”395

O “pequeno grupo da rua do Loureiro”396 representa outro agregado de amigos de

Lèlito, em Coimbra, com o qual convive na flor da sua juventude. Mais uma vez, o protagonista experimenta o convívio social, académico e boémio que apenas vai contribuir para a sua formação enquanto sujeito social. Aliás, a referencialização que se associa a esta entidade é também singular, pois que não estão agremiadas a ela personagens em específico, aludindo-se apenas ao colectivo abstracto de, por exemplo, “uns rapazes do Norte”397.

Efectivamente, os designadores que identificam este agregado — “os seus amigos da Rua do Loureiro”398, “o pequeno grupo da rua do Loureiro”399, “os seus novos amigos da Rua do

Loureiro”400 — conotam somente a cumplicidade inocente e sincera que particulariza a

amizade na juventude:

“Relacionara-se com uns rapazes do Norte que viviam na Rua do Loureiro, e com quem dava grandes passeios pelos arredores, em discretas pândegas familiares. Gente simples e alegre!

394 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa I — Gota de Sangue, p. 19. 395 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 15-16.

396 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa III — Os Avisos do Destino, p. 105. 397 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 103.

398 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 103 e 143. 399 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 105. 400 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 168 e 368.

99

Pela sua despreocupação e naturalidade o ajudavam a vencer o que já era não tanto a superior complexidade que o distinguia, como doentia complicação dessa mesma. Com eles se mostrava Lèlito igualmente alegre, despreocupado, correntiamente humano, de modo que nem sonhavam os seus amigos da Rua do Loureiro que diversos aspectos poderia oferecer (e com outros companheiros oferecia) a personalidade do seu quase conterrâneo”401

Conquanto mantenha um convívio inócuo com o grupo da rua do Loureiro, Lèlito continua a ter uma perspectiva individualista e genuína, pois que o protagonista vê os agregados como conjuntos de pessoas ocas, vazias, aspecto bem visível na ironização subliminar à referencialização mediante o nome colectivo grafado em itálico “a Malta”402:

“Quanto a Coimbra, não passa dum velho burgo muito especial, a que só a Malta dá animação: a malta académica, está claro. Mas os estudantes levam uma vida à parte: ao mesmo tempo muito livre, muito individual, e em certos aspectos muito sujeita a esse colectivo da

Malta. Bem interessante, Coimbra, para se conhecer a juventude duma época, as reacções… as

aspirações de rapazes vindos de todos os cantos da nação! Terei eu chegado a comparticipar dessa vida? Vivi em Coimbra… mais ou menos fiz o que os outros lá fazem… Coimbra deu-me certas experiências… mas não sei se verdadeiramente convivi. Não posso pertencer a maltas!”403

Revela-se, assim, em Lèlito, a par do seu criador, um certo desprezo pelo colectivo do grupo, em detrimento do individualismo. E inicia-se a grande luta de Lèlito — manifesta em toda a sequela romanesca de A Velha Casa — contra a perda da identidade, da individualidade e da genuinidade, na generalidade da integração na grande colectividade que constitui a sociedade e na especificidade dos grupos e da camaradagem pseudo-intelectual e/ou meramente social, independentemente das singularidades de condutas e ambições que compõem cada qual:

“Quaisquer outros seus amigos ou conhecidos de Coimbra, como, por exemplo, em extremos opostos, os seus amigos da Rua do Loureiro ou «os intelectuais» de Montes Claros, também não ligavam senão somenos importância à política, à sociologia, aos seus heróis.”404

Lèlito contacta, entretanto, com vários e distintos grupos, ao longo da sua vida (e de toda A Velha Casa). Não se imiscuindo com eles pois que se considera sempre um Ser individualista, convive sobranceiramente, sem estabelecer laços permanentes com todos eles. Efectivamente, o convívio com a grande variedade de grupos constitui uma sequência de etapas na vida de Lèlito que contribuem para formar o Ser ficcional que valoriza indiscutivelmente o individualismo e a genuinidade.

Entrementes, os restantes agregados com quem Lèlito contacta representam entidades colectivas que rejeitam o individualismo e a autenticidade e que adoptam a hipocrisia e o mundanismo. Todavia, denunciam-se neles especificidades que os distribuem em três grandes agregados, designadamente de carácter pseudo-intelectual e artificioso (o

401 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa III — Os Avisos do Destino, p. 103. 402 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa V — Vidas São Vidas, p. 71. 403 Cf. José Régio, Ibidem.

100