• No results found

terra? Conseguiriam, sem ela, exercitar as suas faculdades intelectuais ou imaginativas, sustentar as conversas, colher prazer em se reunirem, perdoar uns aos outros os mútuos agravos às vezes irresponsáveis, fazer brilhar o seu ligeiro verniz de cultura…? Quem assim reflectia e falava era o António Passos, que, segundo se constava, frequentava meios diversos e falava conforme os interlocutores e os meios. Alguma razão teria. Porque às vezes fina, inventiva, realmente espirituosa nos momentos mais felizes, — pela sua superioridade mundana se fazia então desculpar essa maledicência aguda. E se outras vezes se tornava feroz, revelando complexos e ressentimentos, estes pareciam então a parte mais viva, por mais dolorosa, daqueles indivíduos.”440

Justifica-se, assim, como resultado de imitação deste ideal tão superior e quase inatingível, a falsidade e a dissimulação, a afectação social, artificial, artificiosa e a frívola intelectualidade que germinava nesta colectividade e respectivos elementos.

E mais uma vez, Lèlito deixa transparecer uma certa ironia e desprezo pelo modo de vida fútil do grupo, com o qual não se identificava quer como Ser social, quer como individual.

“Depois teve oportunidade de pensar que tais gentes pertenciam a um certo sector do mundo… um sector do mundo efectivamente moderno; o qual tanto poderia alastrar, contaminar massas mais extensas, tornar-se inquietante e perigoso, como ficar limitado a ridículos pequenos grupos — aquela Rodinha, por exemplo — de jovens mais ou menos superficiais ou doentes, pretensiosos, desempregados em todos os sentidos.”441

6.3. A Colectividade Social Política e Inócua

Comparando os grupos de amigos de Eulália e do Café Brasileira ao dos amigos de João (e antigos camaradas de Joaquim Cancela), Lèlito despreza o vazio e mundanismo dos anteriores e valoriza mesmo este último pelos interesses político-culturais:

“Frequentemente se interrogava: «Que faço eu entre esta gente?» Certas noites chegava cansado, enfastiado, nulo, oco. Por vezes, pois apesar de tudo o preocupava o juízo de

«essa gente», com uma penosa impressão de vexame: Não podia deixar de se reconhecer pesado,

sem espírito, nesse mundo brilhante e ligeiro. Mal compreendia como continuava a merecer o interesse de Eulália. «Que estou a fazer em Lisboa?» Tinha, sim, a vizinhança do irmão, que levava ali ao lado uma vida muito diferente. Dele vinha, mesmo não o procurando, o sopro humano que ainda podia aquecer-lhe os dias.”442

“Alheia à Brasileira, uma nova geração parecia estar surgindo (talvez novas gerações viessem engrossando, na antevisão dum futuro ainda mal distinto) que até em literatura afirmava como premente dever a luta por um mundo melhor: um mundo económica e socialmente mais

440 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 152-153. 441 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 145. 442 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 161.

107

bem organizado, mais justo. Disso recebera notícia pelos visitantes do irmão, em fragmentos de conversas que pudera apanhar; ou através de jornais, publicações, revistas, que o irmão recebia. Era isso com outra gente. Noutros bairros de interesses e cultura. A sua gente, o seu ambiente e o seu meio em Lisboa eram infelizmente aqueles da Brasileira, que os jovens da outra banda satirizavam como decadentistas, burgueses, ultrapassados.”443

Na verdade, os amigos de João representavam um grupo político que tivera a sua origem em Coimbra, em pequenas reuniões clandestinas presididas por Joaquim Cancela em sua casa e em locais secretos. Concentravam-se com propósitos de intervenção política num sistema que consideravam injusto porque socialmente vigoroso e elitista.

“Divagavam, sobretudo os mais novos, sobre coisas extraordinárias que estavam para acontecer: transformações por que ia passar o mundo! Dos sonhos e utopias tanto passavam a discussões de ideias (que se lhe tornavam monótonas, a ela que as não podia seguir) como a pormenores e factos que outros julgariam somenos, mas a ela lhe importavam mais. Falavam muito num espanhol que (julgou compreendê-lo) emprestara dinheiro ao Joaquim,  e exercia funções importantes naqueles enredos políticos que tanto lhe lembravam a ela tramóias de gaiatos, como a não deixavam sossegar, pois lhe parecia poderem vir a produzir catástrofes.”444

Referencializados com o nome comum “«os camaradas»”445 grafado sempre em itálico

e cercado de aspas estabelece-se uma certa ironia perante a existência de tal grupo político que representava uma entidade colectiva que, não obstante, julgava e não tolerava a colectividade. Com efeito, não aceitava a individualidade e a identidade de pensamento, por isso condenava todos os seus elementos a um mesmo estatuto, a um mesmo designador:

“Também aos amigos do marido começara de chamar, com insistência, «os

camaradas»; (como eles se chamavam falando uns dos outros). «Estão aí os camaradas». «Chegou o primeiro camarada».”446

Em Lisboa, as ideologias utópicas professadas por este grupo, ao invés de apenas se acentuarem, acabam mesmo por distanciar-se em direcção a caminhos mais artificiosos, falsos e intolerantes; menos cândidos, genuínos. Mesmo a diferença de carácter e conduta que distingue o grupo quando em diferentes locais e com diferentes superintendências — o primeiro, em Coimbra, era presidido por Joaquim Cancela; o segundo, em Lisboa, por João Trigueiros — patenteia-se inequivocamente na referencialização dos respectivos elementos. Com efeito, o grupo inicial é formado por personagens que se revelam genuínas — aspecto bem patente na referencialização de cada qual mediante os designadores representados pelos prenomes “Januário”447, “Rúdio”448 e diminutivo (embora aliado ao apelido) “Zé Olívio”449.

443 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 131. 444 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 327.

445 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa IV — As Monstruosidades Vulgares, p. 124. 446 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 324.

447 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 13. 448 Cf. José Régio, Ibidem. 449 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 14.

108