comendador Faria”389:
“A verdade é que o prestígio de madrinha Libânia se ia estendendo, para além do círculo familiar, a toda a pequena vila. Excepto os três padres, todos se despediam à porta de casa. Para P.e Carlos, P.e Manuel e P. e Alceu, havia na sala de jantar, sobre a toalha dos dias de
gala, finas torradas com manteiga, biscoitos, argolas doces da velha Felismina (que fora criada do Convento de Santa Clara em Vila do Conde) e leite acabadinho de ferver, com cevada e café
sublinhado nosso.
Ora alguns dos que se tinham despedido à porta da casa de madrinha Libânia, tinham- se despedido com um «até logo». Eram os mais felizes, estes! Voltariam para jantar, à uma hora.(…)
Os primeiros convidados para o jantar do dia das três missas foram os três padres
sublinhado nosso com seus pais e irmãos, a prima Ricardina com seu filho, e um amigo íntimo do mano brasileiro, o velho comendador Faria. Com as pessoas da casa, já faziam uma bela mesa!”390
Estas personagens incrementavam, assim, artifícios de aparente carácter profissional (a celebração do “Dia das três missas” ou a confissão) para auferirem um convívio social superior, em que se desejavam perfeitamente enquadrados, no seio da família Trigueiros, aspecto, por exemplo, também visível no P. e Maurício:
“Se não fosse o P. e Maurício, com quem todos da casa haviam insistido para que
compartilhasse do seu almoço de festa, este almoço não teria decorrido muito animado. P.e
Maurício era agora o confessor de Angelina, e fora quem realizara a cerimónia. Naturalmente, e apesar dos esforços de Pedro para reaver o seu à-vontade costumado, os noivos falavam pouco. Angelina também. Mas D. Violante achava que um almoço daqueles não podia ser triste, tanto mais que estava excelente do ponto de vista culinário! E dava bom troco ao bom do Padre.”391
6. Os Apelidos e os Axiónimos nas Colectividades Sociais
José Régio sempre professou a individualidade criadora e original, em detrimento da colectividade e camaradagem (pseudo)literária e castradora. Na verdade, no “Posfácio” à edição de 1969 dos Poemas de Deus e do Diabo, o escritor refere mesmo que:
“Julgo que um artista literário pensa não tanto em seguir uma carreira como em dar expressão ao que tenha a dizer: ao seu tesoiro próprio. Por isso mesmo será tal expressão original e própria. Não creio na fecundidade das originalidades rebuscadas ou da submissão a escolas, correntes, modas. Também nunca me tentou muito qualquer das manifestações da chamada camaradagem literária, que julgo uma forma particular de mundanismo. Sempre mais ou menos
389 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 105. 390 Cf. José Régio, Ibidem.
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me inclinei a ver camaradas não particularmente nos que se consagram à carreira das letras, mas nos que sendo, ou não, artistas e criadores, têm um modo íntimo e pessoal de sentir, pensar, sonhar, viver. A estes, num certo sentido, chamo poetas, façam ou não versos. Os que fazem versos mas não pertencem a tal família, nada tendo de premente a dizer — cultores, em suma, de uma literatura livresca que sempre minimizei em relação a uma literatura humana e viva — não os considero poetas. Simplesmente, se são poetas e fazem versos, quereria que os fizessem tanto quanto possível bons. (Quem diz versos diz romances, novelas, peças de teatro ou reportagens).”392
E assim, no âmbito da crítica aos grupos pseudo-literários que recaem numa “forma particular de mundanismo”, que não contemplam uma literatura humana e viva, sustentamos analisar a RI dos agregados de personagens na NFR. Na verdade, estes grupos são inúmeras vezes focados e aprofundados nos romances Jogo da Cabra Cega e A Velha Casa, sendo que a intencionalidade subliminar ao designador que é aplicado individualmente a cada elemento do grupo denuncia, consequentemente, da parte de José Régio, uma forma de desprezo pelo respectivo grupo e, por fim, pela colectividade imanente, material e artificial, negadora da individualidade criadora, humana e original.
Na verdade, estes grupos são constituídos por personagens cuja referencialização dominante recai nos prenomes acompanhados de apelidos antecedidos (ou não) de axiónimos, nas formas de tratamento socioprofissionais (associadas ao prenome ou ao prenome e apelido); enfim, designadores que vincam marcas de futilidade, artifício, falsidade e aparência. Por conseguinte, pretende-se com esta referencialização deixar transparecer a intencionalidade implícita da desconsideração que o colectivo merece ao autor.
Não obstante, em A Velha Casa, designadamente no volume I (Uma Gota de Sangue), deparamo-nos com um grande grupo formado por três pequenos agregados: o grupo de jovens adolescentes (do recreio) do colégio Familiar que Lèlito frequentara no Porto. A particularidade da referencialização dos chefes dos três grupos mediante designadores que traduzem a individualidade genuína e a autenticidade (as alcunhas de Pedro Sarapintado e Julião le Gros e o prenome em Adélio) — e não outros que traduzam a falsidade e o mundanismo de Seres sociais — introduz este agregado na intencionalidade autoral da crítica ao colectivo. Na verdade, este conjunto de personagens situa-se etariamente num patamar em que o indivíduo particular e social está em formação. Assim, apresentam-se Seres ficcionais sociais em crescimento; manifestando ainda traços de genuinidade que, no convívio social e na camaradagem em grupos, se transformarão e assumirão, ou não393, no fim da
juventude e na fase adulta, a hipocrisia, a dissimulação, o artifício e o mundanismo social como circunstâncias naturais.
Aliás, a assistência de um adulto, no recreio e no episódio das praxes a que Lèlito se sujeitara, e a referencialização do primeiro mediante o apelido antecedido de axiónimo — “o senhor Barroso” — denunciam a presença de um Ser eminentemente social, que abraçava a
392 Cf. José Régio, “Posfácio 1969”, Poemas de Deus e do Diabo, pp. 110-111.
393 Por isso, por exemplo, Pedro Sarapintado terá um percurso de vida que o fará valorizar, em adulto, a