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Bento Adalberto e “madrinha Libânia”316 (A Velha Casa).

A madrinha Inácia representa uma personagem figurante que denuncia um estatuto económico elevado, promovendo-se numa autoridade certa e numa tutoria financeira e material sobre os seus familiares e, consequentemente, denunciando, através dela, uma distanciação em relação a eles. Na verdade, segundo o narrador-protagonista, “Nos dias de mercado, às sextas-feiras, a madrinha Inácia dava-nos trinta réis a cada um”317 e, no dia do

seu aniversário, celebrado fartamente, “(…) ao jantar haveria arroz doce, bombons e o bolo de farinha de batata que mandava confeccionar madrinha Inácia”318.

Os padrinhos de Dulce afastam-se do grupo anterior, na medida em que não passavam de um casal de burlões que nada eram a esta personagem feminina. Todavia, forjam o estatuto socioeconómico elevado e o papel tutelar que vinca a feição social associada a quem era assim referencializado. Na verdade, esta vivência falsa já se tinha manifestado em alguns indícios, não obstante, acaba por ser claramente denunciada, pela banheira e pelo gerente do hotel.

A madrinha tia Glória representa uma personagem que, fazendo jus à sua ampla instrução e a uma posição socioeconómica elevada e considerada na Vila e a uma relação familiar estável e perfeita, assume o papel tutelar de Marília (“o ai-jesus da casa”319),

respeitado e venerado pela família, pois “Era o caso que não só alardeava sua madrinha as mais belas letras da família, senão que também as mais belas notas em herdades e outros bens”320 e “Por suas letras, por seu dinheiro, por suas flores, por sua independência de

opiniões e maneiras, se tornara tia Glória um caso tão respeitado como excêntrico no burgo.”321

E, enquanto o padrinho Luís figura apenas numa referencialização que visa somente um componente familiar em que se destaca, no Jogo da Cabra Cega, em A Velha Casa o padrinho de Bento Adalberto representa claramente a personagem que usa o protectorado financeiro como justificação para o seu domínio e a concretização de desígnios de carácter pessoal e social que se sobrepunham aos individuais do próprio Bento Adalberto:

“— Olhe, quando eu era pequeno, meteram-me no seminário. Tinha um padrinho que me queria fazer padre. Eu julgava que também queria, mas não era assim: O que eu queria era aprender, tirar um curso cá fora, e talvez consagrar-me ao ensino e às letras.

(…)

314 Cf. José Régio, Jogo da Cabra Cega, p. 158.

315 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa I — Gota de Sangue, pp. 174-175.

316 Esta personagem é referencializada em todos os volumes da sequela romanesca de A Velha Casa. 317 Cf. José Régio, Obra Completa: Contos e Novelas, p. 387.

318 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 391.

319 Cf. José Régio, Obras Completas: Histórias de Mulheres — Conto e Novela, p. 155. 320 Cf. José Régio, Ibidem.

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— Pois quando falei assim, o meu padrinho desesperou-se comigo. Retirou-me a sua protecção. «Pois se não quer ser padre agarre-se à enxada!» disse-me ele «há-de correr-lhe a vida melhor. O que você é, é pateta!» E eu voltei para casa da minha mãe…”322

Urge finalizar a análise deste grupo com uma personagem que representa indiscutivelmente o papel social e a intencionalidade crítica que assume a referencialização destes Seres ficcionais enquanto “padrinhos” e “madrinhas”, na NFR. Debruçamo-nos, assim, sobre madrinha Libânia, que deve o seu título ou forma de tratamento à relação socioafectiva que tinha com Martinho:

“Sobre a cabeça de Martinho, seu sobrinho e afilhado, se concentraram, então, as mais suaves molezas do coração de Libânia… de madrinha Libânia: Porque esta apelação de Madrinha Libânia, que lhe deram depois todos da casa, lhe veio, justamente, de ser madrinha do pequeno Martinho.”323

Embora no início da vida desta personagem (na altura referencializada com o prenome simples) já se indicie a genuinidade de uma natureza autoritária, o designador título sociofamiliar “madrinha” vai desenvolver uma posição de domínio e protectorado sociofinanceiro na família:

“Dir-se-ia que a fortuna subitamente fizera desabrochar características e qualidades que Libânia até então só alimentara na sombra; ou só o gérmen tinha vivas. Não teria sido, porém, o reconhecimento dessas mesmas qualidades que levara José a transmitir-lhe, com os seus principais bens, a sua autoridade de protector da família? O caso é que não só muito naturalmente se integrou Libânia adentro dessa autoridade, como revelou uma personalidade mais forte — simultaneamente mais livre ou caprichosa e mais representativa de certos princípios basilares na Casa — do que qualquer um dos irmãos; embora, valha a verdade, fosse cada um suficientemente individualizado.”324

Este designador (e respectiva conservação ao longo da sequela de A Velha Casa) vai funcionar, assim, como uma demarcação da sua posição familiar e socioeconómica distinta que, por conseguinte, cunha madrinha Libânia como uma personagem autoritária e incontestável, tanto no seio familiar como no seio social e regional circundantes. Por fim, a vincar a distanciação, a inacessibilidade, a insondabilidade e a inquestionabilidade dos desígnios desta personagem perante as outras está a referencialização permanente dos designadores “madrinha Libânia” sem o determinante “a”.

Como formas de tratamento, aparentemente de carácter familiar, mas indiscutível e contextualmente de foro popular e sociorregional, predominam os designadores que resultam na forma truncada “ti’” associada aos prenomes e apelidos e às próprias alcunhas. Focamo- nos, assim, em designadores que servem uma referencialização cuja intencionalidade se pauta pela demarcação de um estatuto social que, não sendo elevado, merece destaque.

322 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa I — Gota de Sangue, pp. 174-175. 323 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa II — As Raízes do Futuro, p. 12. 324 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 11.

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