Namorados de Amância”, Contos Dispersos), “o jornalista Carmo Freire”333, “o velho professor
Lucas”334 (A Velha Casa), “o mestre André alfaiate”335 (“Os Alicerces da Realidade”, Há Mais
Mundos), “o mestre Fernandes sapateiro”336 ou “o sapateiro do rés-do-chão”337, “o Madureira
da ourivesaria”338 (Jogo da Cabra Cega), “o farmacêutico Barreiros”339 (“Davam Grandes
Passeios aos Domingos…”, Histórias de Mulheres), “o farmacêutico Filinto”340, “a D. Aurélia
do Banco”341 (A Velha Casa), “a velha senhora Armandina governanta”342 (Jogo da Cabra
Cega).
Embora se constate a existência de uma vasta variedade de profissões através da referencialização pontual com designadores que especificam os respectivos ofícios, existem também grupos de personagens que representam e focalizam determinados estatutos socioprofissionais. Singularizam-se, pois, estas categorias profissionais por terem um grande destaque na sociedade vigente das respectivas diegeses e por serem detentoras de perfis de futilidade, de falsidade, de distanciação e de aparência de cariz social.
Deste modo, dita-se a fraqueza de um sistema, em termos de governo, e o vigor, no que concerne à aparência e ao fausto social, nos títulos monárquicos que referencializam “O velho rei Frederico”343 e o “rei Roberto”344em “Os Três Vingadores ou Nova História de
Roberto do Diabo” (Há Mais Mundos); “o bom rei Rodrigo”345, “a rainha Elsa”346, “o príncipe
Leonel”347, “a princesa Leonilde”348, “a grave princesa Letícia”349, “a condessa Mafalda”350 e
“o jovem príncipe Florindo”351 em O Príncipe com Orelhas de Burro.
Salienta-se, também, a aparência social que se norteia por uma conduta afectada e uma prepotência socialmente apreciada nas personagens com patentes militares como “o capitão Soares”352, em “Davam Grandes Passeios aos Domingos…” (Histórias de Mulheres);
“um oficial reformado”353 ou “o coronel Valadares”354, em “O Vestido Cor de Fogo” (Histórias
de Mulheres); “o capitão Cerzedas”355 e “o bruto do Capitão Valeixo”356, em A Velha Casa:
331 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa IV As Monstruosidades Vulgares, p. 307. 332 Cf. José Régio, Obra Completa: Contos e Novelas, p. 368.
333 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa IV As Monstruosidades Vulgares, p. 281. 334 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa I Gota de Sangue, p. 127.
335 Cf. José Régio, Obras Completas: Há Mais Mundos Contos, p. 201. 336 Cf. José Régio, Jogo da Cabra Cega, p. 169.
337 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 310. 338 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 222.
339 Cf. José Régio, Obras Completas: Histórias de Mulheres Conto e Novela, p. 23. 340 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa IV As Monstruosidades Vulgares, p. 57. 341 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 143.
342 Cf. José Régio, Jogo da Cabra Cega, p. 223.
343 Cf. José Régio, Obras Completas: Há Mais Mundos Contos, p. 9. 344 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 23.
345 Cf. José Régio, O Príncipe com Orelhas de Burro, p. 11. 346 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 33.
347 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 34. 348 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 104. 349 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 221. 350 Cf. José Régio, Ibidem.
351 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 265.
352 Cf. José Régio, Obras Completas: Histórias de Mulheres Conto e Novela, p. 27. 353 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 233.
93
“Marciano saíra, e reapareceu com o indivíduo que fora designado por capitão Valeixo. Toda a gente mais ou menos o festejou chamando-lhe «bruto», como lhe chamara o poeta, ou aplicando-lhe qualificativos idênticos, talvez com uma reprovação artificial e benévola, quase terna, que lhe marcava um lugar à parte entre os circunstantes. Era um homem de boa estatura, bem constituído, muito moreno de pele, com maneiras desembaraçadas, e uns dentes em que não se podia deixar de reparar: brilhavam a cada uma das suas palavras; e dir-se-iam postiços, sem que se pudesse acreditar que o fossem. Andou cumprimentando toda a gente, dizendo coisas espirituosas (que Lèlito achou atrevidas) a uns e a outros. Parecia fazer uma espécie de alarde irónico da sua virilidade.”357
Do mesmo modo, as personagens que representavam os directores de escolas são vincadas pelo destaque profissional quase intangível e pela ambição social que motivam uma postura falsa e artificiosa em “o senhor director”358 (“Os Alicerces da Realidade”, Há Mais
Mundos) e “o Dr. Santos Paiva”359 ou “o director Santos Paiva Filho”360 (A Velha Casa):
“Levantou-se, então, com uma solenidade tanto mais afectada, quanto sentia a sua
linha de director atingida por essa infeliz gíria, expedida como um arroto. «Essas minhocas que
traz na cabeça» não era expressão digna de um director civilizado e mundano! (…)
Calou-se num instante. Não vira outra maneira de atenuar a desgraçada explosão de há pouco senão compondo esta pequenina amostra da sua «viril eloquência»; (assim lha classificara, ultimamente, um jornalista mundano, a propósito do seu brinde no almoço ao Caldas). Pensava, porém, que, em razão do limitado auditório presente, nem a sua chula irrupção adquiria grande importância — inútil mortificar-se! — nem, agora, valia a pena apurar-se por demais em demonstrações de eloquência e dignidade. Simplesmente, mesmo perante si próprio e cedendo a um mero prazer estético, desempenhava senhor Santos Paiva Filho esse papel de director eloquente e digno — que Pedro Sarapintado (e isto não o sabia ele) tão ao vivo caricaturava nas suas paródias.”361
As personagens que fazem parte do grupo profissional dos médicos e dos advogados formam também um grupo muito importante, em termos de destaque social e de um perfil fútil, na medida em que oco. Na verdade, muitas presentificam-se em cenários de carácter predominantemente mundano, caracterizados pela aparência e pela frivolidade; outras acompanham personagens que se caracterizam por serem detentoras de determinado estatuto socioeconómico. Representam, assim, Seres ficcionais com determinado estatuto social que, conquanto não manifestem alguma feição específica de futilidade, de aparência, de artifício, de distanciação, são coniventes com os ambientes sociais que frequentam, metamorfoseando- se neles e, por conseguinte, com eles se identificando. Neste grupo, encontramos: “o jovem
354 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 234.
355 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa I Gota de Sangue, p. 48.
356 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa IV As Monstruosidades Vulgares, p. 292. 357 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa IV — As Monstruosidades Vulgares, pp. 292-293. 358 Cf. José Régio, Obras Completas: Há Mais Mundos — Contos, p. 199.
359 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa I — Gota de Sangue, p. 7. 360 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 24.