Theoretical Backgroud
7.2 Rayinvr software
A área rural do município de Itá é constituída quase na sua totalidade, por pequenas propriedades agrícolas. O trabalho se estrutura na participação de toda a família na produção.
Estima-se que 90% das pequenas unidades produtivas existentes sejam ocupadas e trabalhadas somente pelas famílias proprietárias. A produção é marcada pela policultura de alimentos, criações de aves, porcos, gado de corte e de leite. Bastante diversificados, os produtos se destinam ao autoconsumo da família, e os excedentes são vendidos nas áreas urbanas próximas. Nota-se que desde sua instalação, as unidades camponesas em Itá sempre produziram para subsistência e para comercialização, devido o pagamento dos custos das colonizadoras e a necessidade de obter mercadorias não produzidas na comunidade. Nas últimas décadas, a principal fonte de renda monetária dos agricultores locais provém da produção de aves e suínos, “integrados” com grandes e modernos complexos agroindustriais presentes na região, como veremos a seguir.
As comunidades rurais de Itá, observadas isoladamente, são bastante homogêneas, havendo pequenas diferenciações entre “colonos fortes”, no linguajar popular, e os demais. Os colonos fortes seriam os com propriedades melhor estruturadas em termos de equipamentos, e que eventualmente contratam uma ou outra pessoa, em trabalhos temporários. Porém, isso é raro, a maioria trabalha a terra com ajuda exclusivamente da família. A estratificação social existente entre os moradores da área rural de Itá, apesar de não muito grande, compreende a existência dos pequenos proprietários e de trabalhadores rurais sem terra. A maioria dos sem terra vivem e trabalham como agregados em terras de proprietários que residem na cidade ou em outro município. No geral, todos possuem uma vida bastante simples e difícil, regrada as intempéries do clima, às dificuldades da lida na terra, à falta de apoio oficial á atividade camponesa, ao baixo preço dos produtos agrícolas e à incapacidade estrutural de competir na produção com o grande latifúndio. Na maioria dos casos, a renda conseguida é suficiente apenas para alimentação da família.
Percebe-se que em Itá, o significado de propriedade de pequenas áreas de terra para os camponeses, não é o mesmo que o conceito de “propriedade privada dos meios de produção” corrente nos ambientes acadêmico e político. Há uma nítida diferenciação expressa entre a noção de propriedade privada como “terra de negócios de onde se tira lucro”, com a noção de propriedade familiar como “terra de trabalho de onde se tira o sustento”.
No município de Itá como um todo, são aproximadamente 30 núcleos rurais que estruturam a vida social da população camponesa local. Nestas “comunidades” (denominadas
linha22, vila, lajeado...), vivem grupos de famílias unidas por uma área de terras comunitárias23, onde geralmente estão instalados uma igreja, um salão de festas, um campo de futebol, uma cancha de bochas e um cemitério. Nestes locais há o espaço das festas, jogos, da religiosidade, da solução dos conflitos, das expressões culturais, das datas significativas, do aprendizado comum, da troca de experiências, da expressão da diversidade, da política, da gestão do poder, e da convivência com a morte (funerais). Percebe-se que em comunidades camponesas como o interior de Itá, as individualidades têm espaço, as que contrastam com o senso comum, encontram meios de influir. Os discretos são notados, não há anonimato, todos no local se conhecem. As relações de parentesco e vizinhança adquirem um papel importante nas relações sociais, nisto se distingue profundamente das culturas urbanas e suas mais variadas formas de expressão.
Segundo Alexander Chayanov (1974), os laços de família são fortes componentes da cultura dos pequenos agricultores. Para ele, a reprodução da família e os objetivos que ela própria se coloca é o motor da atividade econômica da agricultura camponesa. Assim, por exemplo, se uma família camponesa se coloca, consciente ou inconscientemente, objetivos de vida modestos, vai organizar sua vida econômica em função disto. Já outra família camponesa pode colocar como objetivo formar os filhos na universidade e, este objetivo conduzirá suas decisões na organização da produção e suas relações com o mercado.
De fato, os camponeses em Itá se integram entre si, por laços religiosos, culturais, parentesco, descendência comum. A impossibilidade de repartir a propriedade da terra, pelo seu pequeno tamanho, faz com que as famílias se organizam para que alguns filhos tenham uma formação profissional, enquanto outros filhos são preparados para herdarem a terra.
A homogeneidade na forma de organização do trabalho e da produção, os laços culturais e de parentesco que emergem desse modo de vida camponês e as relações estabelecidas nas comunidades, fazem com que todos se sintam próximos e “iguais entre si”. O laços de ligação e identificação entre as famílias se reforçam com a comum situação de
22 Linha denomina as estradas ao longo do qual estão distribuídas as propriedades em uma determinada
comunidade camponesa do sul do Brasil.
23 Até meados dos anos 1990, também abrigavam pequenas escolas de ensino primário, porém atualmente, as
políticas oficiais de educação substituíram as escolas do campo, pelos ônibus de transporte escolar até as “escolas-pólo” ou a sede urbana do município onde além da educação básica, também há o ensino médio.
subordinação do camponês ao capital agroindustrial, que hegemoniza as relações econômicas do grupo, para fora da comunidade.
Esta situação teve início por volta da metade do século passado, quando nasceram as agroindústrias de carnes na região Alto Uruguai, tanto no Rio Grande do Sul como em Santa Catarina. Dessa forma, desenvolve-se o sistema de integração do produtor com a indústria, principalmente no ramo de suínos e aves, e também do milho para alimentar os rebanhos. Esta organização da produção marca profundamente a estrutura econômica da região. Os produtores familiares integrados, aparentemente autônomos em suas propriedades camponeses, são na verdade dependentes de padrões de produção impostos pelos complexos agroindustriais, sem muita margem de manobra na definição de sua produção ou do preço dos seus produtos.
As principais indústrias que atuam em Itá são as empresas Sadia, Seara e o Frigorífico Chapecó, de importância nacional e com sedes localizadas nos três municípios catarinenses fronteiriços a Itá, respectivamente: Concórdia, Seara e Chapecó. Estas empresas operam na integração através de programas de fomento, assistência técnica, financeira, insumos e garantia de compra da produção. Somam-se a elas, as cooperativas Cooperdia e Cooperalfa, que além da integração na criação e industrialização de aves e suínos, atuam também na comercialização da produção de soja, feijão e milho.
Não há qualquer diferença substantiva na relação entre agricultores X empresas e
agricultores X cooperativas. No sistema integrado, os camponeses recebem crédito para insumos, valor que é descontado no momento da venda do produto. Sua produção é determinada pelo mercado nacional e internacional, onde atuam as agroindústrias. Seu ganho se restringe ao mínimo necessário, que mal permite a reprodução de sua condição camponesa. Nota-se que a integração gerou ganhos de produtividade que, porém, são extraídos do agricultor na forma de sobretrabalho ou mais-valia, incorporada nas mercadorias produzidas e apropriada pelos proprietários e altos diretores das cooperativas, além dos bancos que propiciam o crédito e das grandes empresas produtores de insumos e equipamentos.
Além disso, há sempre um intermediário na relação entre produtor e agroindústria, que está encarregado de entregar os insumos ao agricultor, e depois, de transporte da produção até a agroindústria. Estes intermediários em geral, também possuem um estabelecimento
comercial e fixam residência nos núcleos mais desenvolvidos do município. Ao realizarem as transações necessárias à integração, aproveitam também para fornecer ao agricultor os produtos do seu estabelecimento comercial. Nota-se que as agroindústrias também fazem essa relação direta com o produtor, na medida em que Cooperalfa, Cooperdia, Sadia e Seara mantinham supermercados no município, para atender a população de Itá não só com produtos alimentícios, mas calçados, insumos agropecuários e até mesmo, material de construção.
As relações econômicas no campo em Itá revelam uma certa homogeneidade na situação e relação de trabalho, se vistos isoladamente, que se manifestam nos traços culturais comuns. Ao analisar as interações dos camponeses de Itá para fora do grupo, revela-se uma realidade de subordinação, seja dos sem terra em relação aos proprietários de terra que vivem na cidade ou em outros municípios, ou mesmo, entre os agricultores como um todo e os intermediários do capital agroindustrial. Porém, o maior antagonismo está na expropriação direta de parte do trabalho dos agricultores pelos complexos agroindustriais. O sistema integrado ao mesmo tempo em que gera eficiência, ganhos de produtividade e agregação de valor aos produtos, mantém os camponeses na miséria ao ficarem somente com a parte do seu trabalho que constitui o mínimo necessário para sobrevivência de sua família e reprodução da mão-de-obra.