2. MARCO TEÓRICO
2.2 L A CONVERSACIÓN COLOQUIAL
2.2.1 Rasgos típicos de la conversación coloquial
Em Magazines That Make History63, Norberto Angeletti e Alberto Oliva, após
vários anos de investigação, analisam oito títulos que classificaram como fundamentais
na era moderna da revista – Der Spiegel, іHola!, Life, National Geographic, Paris
Match, People, Reader’s Digest e Time. Os autores justificam as escolhas por serem
“publicações que revolucionaram o mercado – algumas delas porque criaram um nicho para si e outras porque, mesmo não sendo a primeira no seu setor, criaram um novo estilo, ofereceram inovações, e geraram um fenómeno que continua a ser relevante para o jornalismo de hoje” (Angeletti e Oliva, 2004: 10). Os autores pretendem apontar os dois títulos chave de quatro setores da imprensa de revistas, que classificam como: notícias (Time e Der Spiegel); interesse geral (Life e Paris Match); disseminação de
conhecimento (National Geographic e Reader’s Digest); e revistas de celebridades
(іHola! e People). Fora da obra, reconhecem e prometem para um segundo volume, ficam as representantes de outros setores, dos quais destacam as revistas femininas, as masculinas e as de negócios.
A arrumação da Time no setor “notícias” denuncia a natureza desta publicação,
que a aproxima mais dos jornais e, em particular, dos semanários, do que do resto do universo das revistas. E era essa a intenção dos seus fundadores, Briton Hadden e
Henry Luce. Em 2006, Isaiah Wilner64 lançou uma biografia polémica de Hadden: The
Man Time Forgot: A Tale of Genius, Betrayal, and the Creation of Time Magazine. Na
obra, fruto de uma investigação de seis anos que incluiu o acesso a arquivos históricos da Time Inc. até então nunca disponibilizados ao público, Wilner atribui a Briton
63 A edição de 2004 é uma tradução do livro original, de 2002, este com a referência Angeletti, N., & Oliva, A. (2002). Revistas que Hacen e Hicieron Historia. Barcelona: Editorial Sol 90. Utiliza-se a tradução, uma vez que foi a obra que se conseguiu adquirir.
64 Colabora com a revista New York e está a preparar o doutoramento na Yale University, no Departamento de História.
65 Hadden a autoria da ideia por trás da revista Time. Denuncia ainda o apagamento da memória de Hadden levado a cabo por Henry Luce desde o momento em que este morre, a 27 de fevereiro de 1929, nove dias após ter completado 31 anos. Compreender a natureza da Time, a primeira newsmagazine, implica, por isso, entender quem foi Briton Hadden.
Leitor compulsivo de jornais e revistas, Hadden envolveu-se desde muito cedo em publicações escolares e, mais tarde, foi o mais bem classificado de sempre no concurso para integrar o Yale Daily News, o jornal da Yale University. Conheceu Henry Luce em 1913, quando frequentavam o colégio interno Hotchkiss School. Tinham ambos 15 anos e Luce já queria ser jornalista. A amizade e a rivalidade entre os dois teve aí início e nunca mais morreu.
Ainda em Hotchkiss, Hadden preocupava-se com o facto de, na sua opinião, os outros estudantes não levaram as notícias a sério, desconhecendo em grande escala o que se passava no país e no mundo. “Acreditando que os seus colegas deviam estar melhor informados, em novembro de 1915 Hadden começa a escrever um sumário semanal de notícias do mundo.” (Wilner, 2006: 34). Na primeira dessas colunas, o então estudante de 17 anos, “anuncia aquilo que se tornaria o seu objetivo de vida: contar ‘os acontecimentos importantes da semana àqueles de vocês que não encontram tempo para ler a informação detalhada nos jornais diários.’ ” (Wilner, 2006: 35). Aliada a esta vontade de manter quem o rodeava informado, Hadden era um contador de histórias, divulgando as notícias de forma interessante e recorrendo, até,
a apontamentos de humor. São estas duas ideias – informar as pessoas de forma
rápida e informar de forma interessante sobre o que se passa de importante no
mundo – defendidas e postas em prática por Briton Hadden, aos 17 anos, que
constituem a matriz da Time.
Em Fevereiro de 1922, Briton Hadden, agora com 24 anos, e Henry Robinson Luce, ainda com 23, abandonaram a carreira de três meses como repórteres no
Baltimore News e partiram rumo a Nova Iorque. Enquanto colegas no colégio e, mais
tarde, na Universidade de Yale, tinham trabalhado lado a lado em vários jornais escolares e no universitário Yale Daily News. A viagem para Nova Iorque tinha um objetivo muito claro: criarem uma nova publicação informativa. Para Hadden e
66 também agora para Luce, se os americanos não sabiam mais acerca do que se passava no mundo não era por falta, mas sim pelo excesso de informação que circulava. Ambos tinham consciência das profundas mudanças sociais que se viviam nos Estados Unidos durante os anos 20 do século passado, conhecidos como The Roaring Twenties. Uma época de êxodo rural e consequente crescimento das populações urbanas, desenvolvimento da industrialização, crescimento da publicidade e nascimento da
sociedade de consumo, com novos meios de comunicação social – cinema e rádio – a
ganharem uma importância crescente no dia-a-dia.
Sem qualquer experiência de direção ou empresarial, Hadden e Luce mergulharam na análise das publicações existentes, de forma a conceber um produto diferente dos existentes no mercado. Em 1922, “existiam 2.033 diários, 14 deles nova- iorquinos, que iam desde o enciclopédico Times até ao novo tabloide Daily News, que rapidamente se converteria no de maior circulação nos Estados Unidos” (Angeletti e Oliva, 2004: 20). O Saturday Evening Post e o jornal feminino Ladies Home Jornal ultrapassavam os dois milhões de subscritores, enquanto o Literary Digest, publicado semanalmente há mais de três décadas, tinha uma tiragem superior a um milhão de exemplares. Isaiah Wilner acrescenta mais dados que permitem perceber o crescimento exponencial da imprensa americana. Em 1885, apenas 21 revistas atingiam cem mil ou mais pessoas. Em 1905, ou seja, 15 anos mais tarde, o número de publicações tinha aumentado quase 800 por cento e já rondava as 160 (Wilner, 2006: 77).
Da análise realizada ao panorama da imprensa americana, a primeira decisão que Hadden e Luce tomaram foi sobre a dimensão do projeto. Apesar da profusão de títulos, alguns com grande importância e influência nas cidades em que eram publicados, não existia uma única publicação de âmbito nacional. Por outro lado, o número elevado de títulos esbarrava num ritmo de vida cada vez mais acelerado, em que as pessoas tinham progressivamente menos tempo para se dedicar à leitura de jornais. Um terceiro aspeto negativo era a forma como a informação era redigida, optando pelo relato dos factos sem qualquer contextualização. Hadden e Luce identificaram, mais do que um nicho de mercado, uma enorme oportunidade: criar uma revista que ultrapassasse os problemas identificados, através da aposta nos
67 vértices: distribuição nacional, informação completa, sintética e contextualizada. Afinal, “as pessoas estavam desinformadas porque nenhuma publicação se tinha conseguido adaptar ao tempo que os homens ocupados eram capazes de despender
de forma a manterem-se simplesmente informados”, explicavam Hadden e Luce na
carta de apresentação da Time que os jovens jornalistas enviaram em 1922 a possíveis financiadores (Emery e Emery, 1988: 387 e Angeletti e Oliva, 2004: 21). Fica claro que, nesta carta, os ecos da afirmação de Briton Hadden, de 1915, acima referida, são bem visíveis65.
Hadden e Luce estavam convictos da validade da proposta que apresentavam –
uma revista semanal que condensasse informação nacional e internacional, com um
público-alvo bem definido – pessoas com educação universitária, um universo
estimado, à época, num milhão de hipotéticos leitores. A Time nasce, assim, com uma personalidade bem definida, assente em quatro pilares (Jonhson e Prijatel, 2007: 72):
1. Notícias semanais organizadas de forma lógica, em secções de pequena
dimensão;
2. Contextualização da informação veiculada, ou seja, a Time comprometia-se
a avaliar e a interpretar aquilo que as notícias significavam, sem esquecer de contar os dois lados de cada “estória”;
3. Concisão: notícias escritas de forma clara, curta e completa;
4. Ênfase nas personalidades que protagonizavam as notícias.
É de referir que o primeiro título pensado para o novo tipo de publicação foi
Facts (Angeletti e Oliva, 2004: 22 e Johnson e Prijatel, 2007: 136), mas nem Hadden
nem Luce se sentiam completamente satisfeitos. Uma noite, Henry Luce regressava a casa de metro e reparou em anúncios que referiam “time to change” (tempo para mudar) e “time to retire” (tempo para se reformar), e é aí que lhe surge o título Time. Slogans como o famoso trocadilho “It’s about Time”, de 1938, não teriam sido
65 Em junho de 1925, o jornal Boston Globe atribuía a Hadden a autoria da ideia que esteve na base da nova revista, enquanto Luce era referido como “outro dos organizadores” (Wilner, 2007: 144). Independentemente disso, a concretização do projeto resultou de uma verdadeira sinergia entre as competências complementares de Hadden e Luce. Ninguém sabe se apenas um deles teria sido capaz de criar algo semelhante.
68 possíveis com o título Facts, que curiosamente, viria mais tarde a ser utilizado, várias vezes e um pouco por todo o mundo (incluindo Portugal) para designar newsmagazines.
A aposta na síntese da informação leva David E. Sumner a comparar a Time com a Reader’s Digest, revista mensal lançada um ano antes, em Fevereiro de 1922, por DeWitt Wallace e Bell Acheson. Ambas apostam no resumo de informação, sublinha,
mas enquanto a Reader’s Digest “se focava em artigos de interesse prático, a Time
focava-se nas notícias e na atualidade” (Sumner, 2010: 60). De facto, a Reader’s Digest
aposta em reportagens intemporais, que podem ser lidas hoje ou daqui a dez anos – o
título adotado pelo revista na versão portuguesa (Selecções do Reader’s Digest)
denuncia este caminho: escolher e retratar uma parte da realidade, determinada pela publicação. O projeto da Time é mais ambicioso pois pretende, semana após semana, retratar a atualidade, matéria muito mais difícil de sintetizar.
Apesar da solidez do projeto, foi difícil convencer os investidores. A 30 de dezembro de 1922, Hadden e Luce lançam um “specimen issue”, ou seja um “número zero” para mostrarem aos anunciantes que tipo de revista pretendiam fazer. Com 28 páginas, tinha na capa Bernard Baruch, corretor que fez fortuna em Wall Street e foi conselheiro presidencial democrata. O logótipo, apesar de ter sido alterado, já é
reconhecível, mas a frase em latim que surge em cabeçalho, desaparece. Lia-se “de
omni re scibili et quibusdam allis”, ou seja, “sobre todos os assuntos conhecíveis e
alguns outros”, o que denotava a ambição dos dois jovens jornalistas.
Hadden e Luce tiveram de esperar mais dois meses até verem o primeiro número da Time publicado, a 3 de Março de 1923, um sábado. A revista saiu para as bancas com seis mil subscritores angariados por todo o país, tendo Hadden como
responsável editorial e Luce como responsável comercial66. Por baixo do título (Time)
da nova publicação, lia-se “The Weekly News-Magazine”, definição inventada por Luce,
de acordo com Sumner (2010: 61). Este subtítulo assinala o nascimento de um novo tipo de publicação (ver Figura 5): a newsmagazine ou revista semanal de informação geral. Concorrendo diretamente com os jornais semanários, a newsmagazine tinha um
66No original, “editor-in-chief” e “publisher and business manager”, respetivamente, (Sumner, 2010: 61).
69 design mais atrativo, um formato confortável e mais portátil, vantagens enriquecidas rapidamente com as páginas a cores.
O primeiro número da Time custava 15 cêntimos, tinha 32 páginas, 28 preenchidas por informação, divididas por 22 secções que reuniam 125 notícias curtas – nenhuma delas com mais de 400 palavras. As secções originais mais extensas eram: “Assuntos Nacionais” (seis páginas); “Notícias Internacionais” (cinco páginas), “Livros” e “Teatro” (duas páginas para cada um dos assuntos). As outras secções podiam ocupar espaços tão reduzidos como uma coluna e ocupavam-se de temas muito variados, como indicam os títulos: “Arte”; “Cinema”; “Música”; “Educação”; “Religião”; “Medicina”; “Direito”; “Ciência”; “Finanças”; “Desporto”; “Aeronáutica”; “Crime”;
“Imprensa”; “Marcos67”; “Miscelânea”; “´Entrevistas Imaginárias´68”; “Apontar Com
Orgulho” e “Ver Com Alarme” (Angeletti e Oliva, 2004: 18). As últimas duas secções –
claros espaços de opinião – deixavam bem clara a personalidade interpretativa da
nova revista.
67
“Milestones”, no original, constituído por pequenos obituários, secção que se manteve até à atualidade.
68 Entre aspas no original.
Figura 2: À esquerda, o “número zero” da Time de 30 de dezembro de 1922. À direita, o Nº 1 da primeira newsmagazine do mundo, publicado a 3 de março de 1923
70 Nenhum artigo da Time ocupava mais do que um terço de página nem era assinado. Joseph Gurney Cannon (1836-1926) foi o escolhido como protagonista da primeira capa, retratado no último dia da sua carreira política de 46 anos no Congresso norte-americano, onde foi um dos mais influentes porta-vozes da Câmara dos Representantes. Os nomes de Hadden e Luce constavam apenas entre os outros nomes da redação num espaço de pequeno destaque na página 23 (Sumner, 2010: 61). Apesar de o primeiro número ter sido publicado a um sábado, a segunda-feira foi o dia da semana adotado pela revista para se apresentar nas bancas logo a partir da edição de 28 de maio de 1923.
De forma a reunir todos os factos necessários à construção das peças semanalmente, “a Time desenvolveu um extensivo quadro de investigadores assim como uma organização própria de recolha de notícias de grande dimensão de forma a
complementar os serviços prestados pelas agências noticiosas” (Emery e Emery, 1988:
387). Nessa rede tinha especial importância a figura do verificador que controlava a
qualidade do trabalho do jornalista a todos os níveis – escrita, factualidade,
adequação, contextualização – antes de este chegar ao chefe de redação. Do trabalho
dos verificadores (na sua maioria mulheres), resultava muitas vezes a necessidade do jornalista reescrever o artigo, mas era também deles a responsabilidade máxima caso algum erro fosse publicado. Em 1960, L. John Martin afirmava que fazer uma newsmagazine é, “sobretudo, um trabalho de edição e pesquisa” (Martin, 1960: 209). E destacava a larga equipa de pesquisadores deste tipo de publicações, indicando que a da Time era constituída por 62 pessoas, todas mulheres, tendo a equipa de editores
64 elementos – quase todos homens.
Este trabalho quase científico de recolha dos dados, escrita, verificação, reescrita, poderia ter resultado em insipidez ou, pelo menos, na indefinição de um estilo forte, apesar do rigor jornalístico. Mas a preocupação com a veracidade dos factos na Time é inversamente proporcional ao respeito pelas regras de redação jornalística que dominavam à época. L. John Martin sublinha o afastamento da publicação em relação à estrutura da pirâmide invertida, típica dos jornais, e a aposta numa “estrutura narrativa normalmente encontrada na ficção e em artigos populares
71 que ficou conhecido como “Timestyle”, ou seja, o estilo próprio de escrita da revista
Time, cunhado pela criatividade e irreverência de Briton Hadden. “Usando um efeito
rítmico, as frases da Time começavam, por vezes, com particípios ou verbos e terminavam com substantivos” (Sumner, 2010: 62). Para além da organização sintática pouco ortodoxa, o “estilo Time” também apostou na criação de palavras para designar
novas realidades – são exemplos tycoon, socialitie, televangelist ou ecofreaks. Aos
exemplos de Sumner, Johnson e Prijatel acrescentam guesstimate e male chauvinist,
mas também referem novos termos inventados pela Time que não “sobreviveram”,
como cinemactor, nudancer ou sexational (Johnson e Prijatel, 2007: 104). Em 1940,
Joseph J. Firebaugh, da Universidade de Arkansas, escreveu o artigo “The Vocabulary
of ‘Time’ Magazine”. Firebaugh aponta 1926 como a data a partir do qual o “Timestyle” emerge, substituindo o estilo mais neutro dos três primeiros anos da publicação. Para o académico, “devido à sua popularidade, qualquer palavra que [a
Time] introduza e use de forma consistente pode ser considerada, pelo menos
potencialmente, como parte da linguagem”, contribuindo para o alargamento da língua inglesa (Firebaugh, 1940: 232).
Sobre o “Timestyle”, L. John Martin também destaca a criação de novos termos, o uso de frases invertidas e o recurso a uma escrita extremamente dramatizada. Contudo, o autor considera que os traços verdadeiramente distintivos da
Time (e das outras newsmagazines que se seguiram) são “a alta proporção de material
interpretativo e de opinião, as muitas referências pessoais, e a simplicidade da linguagem”. Explica o autor que “quando a Time usa uma palavra difícil, o que acontece ocasionalmente, escolhe uma verdadeiramente inusitada, mas explica-a em
nota de rodapé. Isto dá ao leitor a sensação de que está a receber educação”. Para
Martin, “o estilo sabe-tudo da Time tende a criar uma atmosfera de confiança” que ele considera semelhante à sensação de segurança que um médico inspira aos seus pacientes. Por outro lado, e ao contrário dos jornais, não há a preocupação, afirma, de utilizar expressões como “de acordo com” ou “fulano de tal diz”, ou de recorrer a
fontes documentadas. A Time constrói “cada história como se fosse um cenário”
72 Às inovações linguísticas e narrativas, a newsmagazine associa a aposta em atribuir um rosto humano aos acontecimentos, que desvende a pessoa por trás do
protagonista da notícia. Com essa estratégia, a Time soube “converter as notícias em
saga, comédia, melodrama” (Angeletti e Oliva, 2004: 33). A mistura do “Timestyle” com a voz aos protagonistas fundaram uma nova forma de fazer jornalismo, que ultrapassava a aridez da factualidade e fazia compreender de forma simples e rápida a realidade. É difícil criar empatia com problemáticas, mas qualquer um é capaz de se
identificar com características físicas e psicológicas – tão simples como a teimosia ou a
coragem, a forma como alguém se veste ou fala –, próprias da natureza humana.
Robert Elson, que trabalhou 25 anos na Time, refere num livro sobre a história da empresa, que Luce não se cansava de repetir aos seus redatores: “não existem ideias fora da mente humana. E não existe uma mente humana sem cabelo, rosto, voz e os
demais atributos da carne e do sangue da personalidade humana69”.
Para Carolyn Kitch, os responsáveis pela Time70 sempre “discutiram de forma
aberta as suas perspetivas das notícias como uma espécie de história preliminar”,
preocupando-se em “dar sentido não só ao presente como também ao passado”
(Kitch, 2006: 94). O objetivo do jornalismo de newsmagazine era, nas palavras de Henry Luce, “ordenar o mundo em estórias” que se tornariam em “maravilha, entretenimento, experiência cautelar e memória útil” (Morrow, apud Kitch, 2006: 94).
Kitch analisou os números especiais publicados pelas revistas do grupo Time
Inc. ao longo de duas décadas e concluiu que o “jornalismo de síntese” nascido com a
Time em 1923 sugere que “a memória é uma coisa fluida, construída socialmente, mas
ao mesmo tempo algo tangível, que pode ser empacotada por instituições e
processada por indivíduos”. Os números especiais, explica a académica americana,
“misturam as funções comerciais do jornalismo (a mercantilização das notícias com o objetivo de obter lucro), com as funções culturais do jornalismo (e a sua função de
criar uma identidade partilhada e compreensão do mundo)” (Kitch, 2006: 97).
69 O livro escrito em três volumes por Robert Elson intitula-se Time Inc. – The Intimate Story of a
Publishing Empire, cobre o período de 1923 a 1941 e foi publicado pela empresa em meados da década
de 60. A referência à obra e o excerto referido surge em Angeletti e Oliva, 2004: 33. 70 Tal como, mais tarde, os das outras publicações do grupo Time Inc., refere a autora.
73 Esta capacidade da Time produzir memória ganhou força a partir do primeiro número de 1928, com a criação do “homem do ano”, a figura que passou a ser eleita anualmente como capa da Time por mais se ter destacado nos 12 meses anteriores. Este fenómeno de popularidade, rapidamente imitado por outras publicações e transporto para as mais variadas áreas da sociedade, nasceu numa reunião de redação no fim de 1927, com o intuito de resolver uma falha editorial. Em Maio desse ano, o norte-americano Charles Lindbergh tinha conseguido a proeza de ser o primeiro homem a atravessar solitariamente o Oceano Atlântico, a bordo do seu avião “The Spirit of St. Louis”.
A Time tinha noticiado o feito, sem lhe dar honra de capa e, entretanto, Lindbergh transformara-se num herói nacional. Sem assunto melhor para trabalhar na capa e com vontade de dar o merecido destaque
a Lindbergh, mas sem justificação noticiosa para o fazer, surgiu na reunião de redação a ideia de criar o “Homem do Ano”, tornando-se o Lindbergh o primeiro, na capa da edição da Time de 2 de janeiro de 1928. Em 1999, a designação passa a ser “Pessoa do Ano”, tornando-se neutra em termos de género, o que não significou um maior equilíbrio entre homens e mulheres distinguidos, como se verificará no Capítulo III (cf. III.3.1).
Com uma tiragem inicial, em 1923, de
nove mil exemplares, a Time tornou-se um sucesso editorial quase imediato. Em janeiro de 1924 atingiu os 30 mil exemplares e, no final desse ano, a tiragem mais do
Figura 3: O primeiro “Homem do Ano” surge para resolver uma falha na cobertura mediática da Time
Figura 4: A primeira “Pessoa do Ano” foi Jeff Bezos, o fundador da Amazon
74 que duplicou, subindo até aos 70 mil. Briton Hadden adoeceu e morreu em 1929, quando a tiragem da Time se cifrava já nos 250 mil exemplares (Sumner, 2010: 62). Henry Luce assumiu a direção da revista no ano em que se iniciou a Grande Depressão,