2. MARCO TEÓRICO
2.5 E L PRÉSTAMO LINGÜÍSTICO
2.5.1 El contacto entre lenguas
Quando se analisam revistas semanais de informação geral é incontornável referir o êxito da primeira newsmagazine alemã, a Der Spiegel, lançada a 4 de janeiro de 1947. Tal como a The Economist, a Der Spiegel tem origem num jornal, o
95 Citado em http://www.economist.com/help/about-us . 96
In http://www.economistgroup.com/what_we_do/editorial_philosophy.html .
97 Que aos poucos as newsmagazines modernas foram abandonando, à medida que privilegiavam a reportagem interpretativa.
103
Hannoversche Nachrichten98, de apenas oito páginas, publicado quatro vezes por semana e lançado em 1945. O periódico foi criado por três soldados britânicos, o major John Chaloner e os sargentos Harry Bohrer e Henry Ormond, que integravam as forças de ocupação britânicas em território alemão, após a divisão do país em quatro zonas pelos vencedores da II Guerra Mundial (Grã-Bretanha, Estados Unidos, França e Rússia). O objetivo dos fundadores do jornal, explica o editor Rudolf Augstein, era “reintegrar os alemães derrotados na comunidade mundial” (apud Angeletti e Oliva,
2004: 8099). Augstein, que chegou a ser prisioneiro de guerra no final da II Guerra
Mundial, integrou o Hannoversche Nachrichten desde o primeiro dia, assim como os projetos que deste título decorreriam.
Em 1946, os três soldados decidiram abandonar o jornal e lançar uma newsmagazine semelhante à News Review, publicação britânica inspirada na Time. O nome que escolheram foi Diese Woche (Esta Semana). Harry Bohrer explica que a revista queria ser uma publicação viva, que pudesse dizer muito em poucas palavras, contando uma boa história em vez de oferecer
comentários. O objetivo era mostrar e contar histórias de pessoas reais (Angeletti e Oliva, 2004: 82).
A independência e a irreverência da
Diese Woche em relação às forças de
ocupação na Alemanha ditaram-lhe uma vida de apenas seis semanas, até o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico ordenar a entrega da revista aos alemães, que tinham duas horas para encontrar um novo título. Das
Echo (O Eco) foi uma das hipóteses colocadas
98
A publicação tanto surge assim referenciada, como com a designação de Hannoversche
Nachrichtenblatt. Não se conseguiu apurar a razão desta discrepância.
99 O livro de Angeletti e Oliva (pp. 78-113) é a principal fonte utilizada neste ponto sobre a Der Spiegel, pp. 78-113. Acrescenta-se que os autores norte-americanos e britânicos com obras publicadas sobre o objeto revista utilizados nesta investigação (e que constam da bibliografia), fazem apenas referências muito pontuais à newsmagazine alemã.
Figura 9: A primeira capa da Der Spiegel, a revista
104 por Rudolf Augstein, que aos 23 anos se viu a braços com a responsabilidade de dirigir de forma independente uma revista. Der Spiegel (O Espelho) acabou por ser a opção para a designação da newsmagazine lançada a 4 janeiro de 1947, com uma tiragem de 15 mil exemplares.
Embora a influência da Time seja clara no privilégio dado às histórias de interesse humano e às pessoas por trás das notícias, a Der Spiegel distancia-se da newsmagazine americana por não pretender resumir os principais assuntos da semana
nem abordar todo o tipo de temas. Na opinião de Augstein, os alemães – mesmo os
que compravam a revista –, liam pelo menos um diário, por isso a Der Spiegel tinha
que se diferenciar dos jornais para se tornar atrativa. Essa especificidade definiu-se pelo aprofundamento das questões, pela aposta no jornalismo de investigação. Os assuntos da atualidade só ganhavam espaço se valesse a pena explorar aspetos complementares que lançassem uma nova luz sobre o que já era do conhecimento geral. Todos os textos eram submetidos a um cuidado processo de edição e revisão que garantisse reportagens originais, fidedignas e com vida. Havia regras concretas de redação que passavam por cinco passos: lead; apresentação da personagem ou do assunto principal; material de enquadramento; desenvolvimentos mais atuais; um sumário ou a apresentação de uma possível conclusão (Angeletti e Oliva, 2004: 88).
Rudolf Augstein queria que a Der Spiegel fosse o “canhão da democracia”, uma
publicação independente de todo o tipo de interesses. “Com essa premissa, a Der
Spiegel apostou no jornalismo de investigação com uma forma de fazer as coisas e um
estilo que a tornou diferente das outras revistas na Alemanha e no resto do mundo” (Angeletti e Oliva, 2004: 92). A publicação não poupava esforços quando pretendia investigar e chegava a destacar quatro ou cinco repórteres para uma reportagem.
A sua imagem de marca tornou-se a credibilidade com que os assuntos eram cuidadosamente fundamentados, focando-se nos temas políticos e económicos, dando pouco relevo ao entretenimento. Tal como no caso da The Economist, os textos não eram assinados, reforçando a voz da publicação e a sua responsabilidade perante os leitores. Os artigos só passaram a ser todos identificados após 1994, quando Stefan Aust se tornou o editor da revista. Apesar da resistência interna, Aust, que se manteve no cargo até 2008, avançou com a alteração. Alguns colunistas, vindos de outras
105 publicações já assinavam artigos e para Stefan Aust o melhor caminho era a clarificação, ou seja, dar a conhecer os nomes de todos os autores por trás das peças. Como explica Aust, “alguns pensaram que seria o fim do mundo. Mas não foi” (apud Angeletti e Oliva, 2004: 113).
O jornalista Hans-Dieter Schütt e o editor Oliver Schwarzkopf compilaram os princípios orientadores da newsmagazine no livro Die Spiegel-Titelbilder 1947-1999. Angeletti e Oliva (2004: 106,107) resumem as quatro traves mestras do título alemão identificadas por Schütt e Schwarzkopf:
- Não fazemos política; só a seguimos de forma crítica. Em 1947, Rudolf Augstein afirmou: “A Der Spiegel é uma newsmagazine liberal e, em caso de dúvida, de esquerda”. O título não alinha com as correntes políticas no poder, assumindo-se como crítica quer à direita como à esquerda;
– Fontes, fontes, fontes. Identificar sempre as fontes é uma máxima inviolável da revista. Não é tolerável sequer referências a “fontes próximas de”;
– A bondade e a beleza do mundo não nos interessam. A Der Spiegel garante que a notícia de puro entretenimento ou o fait-divers não tem lugar nas suas páginas;
– Somos um entidade watchdog (cão de guarda) e de investigação. O compromisso da revista com os seus leitores é revelar o que corre mal, a corrupção, sem tomar partido, de forma a assegurar credibilidade.
A Der Spiegel assume-se como contrapoder, o que lhe valeu ser acusada muitas vezes de ideologicamente próxima da esquerda política, embora se assuma como liberal. A audácia, a independência e o sentido crítico da publicação alemã fizeram com que ganhasse rapidamente leitores num país ocupado. Dos 15 mil exemplares iniciais, a Der Spiegel passa para 60 mil em 1948, um ano e meio após o primeiro número. Em
1952, muda a sede de Hannover para Hamburgo e ultrapassa os 120 mil exemplares100.
Três anos mais tarde, em 1955, a imagem gráfica sofre uma primeira alteração e as duas barras vermelhas no cabeçalho e rodapé da capa transformam-se num filete
100
Este dado referente a 1952 foi retirado da história oficial da revista, consultada a 15 de agosto de 2013, disponível em http://www.spiegel.de/international/six-decades-of-quality-journalism-the-history- of-der-spiegel-a-789853.html
106 enquadrador, no mesmo tom, reduzindo-se a dimensão do título, que mantém a cor branca, mas passa a ocupar apenas uma linha. A newsmagazine alemã tem sido parca em redesignes ao longo da sua história. As páginas interiores mudaram apenas em 1971, com títulos mais visíveis, que se alargaram a duas ou três colunas e o aparecimento do superlead. Em 1989, há um alargamento do entrelinhado, que facilita a leitura. A Der Spiegel resiste à cor nas páginas interiores, que só passa a dominar por completo a partir de 1997, também sob a chefia de Stefan Aust, na reforma gráfica mais profunda do título.
A denúncia de escândalos políticos e financeiros sedimentaram a importância e a credibilidade da newsmagazine ao longo dos anos. O caso com consequências mais graves registou-se em 1962, quando denúncias envolvendo manobras da Nato e o estado em que se encontravam as forças armadas alemãs, levaram a polícia até às instalações da revista. A publicação foi suspensa e os responsáveis presos, incluindo Rudolf Augstein, acusados de traição. A onda de solidariedade entre público e a restante imprensa alemã fizeram com que a Der Spiegel continuasse a ser publicada. O caso culminou com a vitória da revista nos tribunais. A absolvição das acusações teve como consequência a demissão do ministro da defesa Franz Josef Strauss e a queda do governo chefiado por Konrad Adenauer. Por seu lado, a Der Spiegel reforçou perante o público o seu papel de defensora da liberdade de imprensa e vigilante dos poderes. Um posicionamento que nunca abandonou e que em 2012 voltou a ganhar visibilidade com a denúncia em papel das revelações fornecidas pelo portal WikiLeaks, em parceria com os jornais The Guardian (inglês), the New York Times (americano) e El Pais (espanhol). Mais recentemente, para o trabalho de capa de 1 de julho de 2013, sobre as escutas ilegais dos Estados Unidos a países europeus, denunciadas por Edward Snowden, a Der Spiegel destacou cinco jornalistas.
Em 1974, Rudolf Augstein tomou a decisão de entregar metade das ações da
Der Spiegel aos trabalhadores, que passaram assim a ser coproprietários da revista,
com poderes de decisão e de responsabilidade sobre o futuro da publicação. Uma opção inédita que também marca a personalidade única desta revista. É a partir de 1970 que a marca Spiegel se transforma num grupo de média, primeiro através da aposta noutras publicações em parceria com a editora McGraw-Hill, depois com outros
107 parceiros. Nos anos 80 do século passado lança-se nos setores da rádio e da televisão. A 25 de outubro de 1994, um dia antes da Time, torna-se a primeira newsmagazine do
mundo a editar uma versão online101.
Desde a fundação da Der Spiegel, dezenas de newsmagazines alemães abriram e fecharam portas. Norberto Angeletti e Alberto Oliva (2004: 107) identificaram cerca de 20 títulos que nasceram e morreram, tentando afirmar-se num mercado dominado pela hegemonia de um “espelho” que se tem mantido inquebrável. Sterling (2009)
refere mais de vinte e acrescenta que “a maioria não durou mais do que dois anos”.
A única concorrente que até hoje se conseguiu consolidar e ocupar um lugar de destaque foi a Focus, criada em 1993, por Hubert Burda. Esta newsmagazine alemã apostou em artigos de menor dimensão, mais imagens e mais gráficos, como forma de diferenciação, empurrando a Der Spiegel para a remodelação gráfica de 1997, que a fez abandonar um visual mais próximo dos jornais, adotando a cor em todas as páginas da revista. A Focus conseguiu sedimentar-se e aproximou-se de uma tiragem de um milhão de exemplares no final do século XX. Hoje, ronda os 800 mil, enquanto a Der
Spiegel ultrapassa o milhão.
De acordo com os dados da Media-Analyse 2013 Pressmedien II, publicados a
24 de julho de 2013102, a Der Spiegel atinge uma média de seis milhões de leitores por
semana, contra os menos de quatro milhões e meio da Focus. A revista sai para as
bancas à segunda-feira, é distribuída em 172 países e autodefine-se como “a
newsmagazine líder na Alemanha e a maior da Europa”103, um feito considerável para
uma publicação redigida em alemão, que aposta em reportagens de investigação que podem ultrapassar as dez páginas. Pode ser consultada online em inglês e está disponível em todas as novas plataformas e aplicações digitais.
101 Dados de AAVV. (2002). International Directory of Company Histories (Vol 44). St. James Press. Obtido de http://www.fundinguniverse.com/company-histories/spiegel-verlag-rudolf-augstein-gmbh- co-kg-history/.
102
Disponíveis aqui: http://www.ma-reichweiten.de/ . 103 Informação consultada a 15 de agosto de 2013 aqui:
http://www.spiegel.de/international/frequently-asked-questions-everything-you-need-to-know-about- der-spiegel-a-789851.html. Na guerra dos números, a The Economist, com um milhão e meio de exemplares por semana, parece claramente à frente, mas o facto de se autodenominar “jornal”, empurra o “espelho” alemão para o primeiro lugar do setor das newsmagazines.
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