Os olhares sobre o projeto aqui investigado, objetivam em sua estrutura operacional: desenvolver e aprofundar os pressupostos da abordagem transdisciplinar; aplicar os conhecimentos derivados das artes na elaboração de projetos-pesquisas dos grupos a partir de temáticas relevantes.
A metodologia transdisciplinar utilizada caracteriza-se pelas estratégias, que se pretende que os estudantes desenvolvam; a consciência estética e ecológica; o senso ético; o respeito pela diversidade que compõe as múltiplas culturas; o despertar do pesquisador, investigador, crítico e reflexivo; a disciplina e a responsabilidade; a inter-relação dos conhecimentos adquiridos; interpretação do meio (universos e contextos); compreensão dos diferentes aspectos da natureza e da vida por meio do desenvolvimento da percepção estética e ecológica e as habilidades discriminatórias e críticas como parte da valorização dos aspectos de inter-relação, interação e interdependência entre o homem e o cosmo; que os estudantes possam considerar o meio e seus aspectos culturais como elementos referenciais de conhecimentos, utilizando estes como aporte estético de valorização e produção de soluções ambientais; potencializar atitudes participativas, criativa, solidária, cooperativa e de mudança diante dos problemas (violência, poluição, fome) locais e globais; apresentação prática das estratégias conceituais e procedimentais que implique representação, análise e reflexões sobre os diferentes procedimentos da linguagem artística.
Ao pensar no currículo tradicional, constatamos o quanto os estudantes estão cada vez mais afastados e desmotivados. Neste projeto, alvo desta dissertação, percebe-se o quanto as distintas fases e atividades elaboradas articulam-se de modo que o estudante torna-se co- responsável por sua aprendizagem, assim, evidenciamos alguns caminhos que são percorridos durante as diferentes etapas das atividades; perceber, sentir, pesquisar, contextualizar, elaborar projetos, executar, avaliar, imaginar, investigar, coletar dados e materiais, dialogar com as diferentes linguagens e conceitos de artes, explorar idéias e pensamentos e fazer as intervenções em diferentes espaços, que estrategicamente são trajetórias articuladas que contribuem para que o estudante desenvolva a consciência de si no processo de ensino e aprendizagem e com relação ao universo no qual está inserido. A atividade artística é lúdica, brinca-se e sente-se prazer, experimentam-se múltiplas possibilidades e entra-se em contato com diferentes materiais. O exercício da arte abre aportes do pensar, sentir, ser e fazer, pois, ao envolver-se, o estudante aprende que existem regras, metas e responsabilidades. O todo deve ser considerado a partir das percepções que fazem parte desta relação construtiva, na qual devemos usufruir o instante da vivência do ato de fazer, sentindo a vida pulsar intensamente nos deslocamentos da criação.
Durante os procedimentos de criação e reflexão sobre o projeto, tivemos aulas expositivas, teóricas, práticas, críticas e analíticas, levando em conta o contexto e a realidade dos estudantes. No desenvolvimento da linguagem plástica, os educadores levaram em consideração o conhecimento dos estudantes, ampliando gradualmente conhecimentos, valores estéticos e culturais, avançando nas etapas do projeto, consolidado em cinco momentos cruciais, porém flexíveis às necessidades e contingências do percurso. Estes cinco momentos poderiam ser subdivididos em mais 10 ou 20, ou até mesmo mais. Poderíamos nem subdividir, porque penso o projeto como um todo interconectado, entretanto, estabeleço esta estrutura para melhor entendimento do mesmo.
No primeiro momento, apresentação da proposta do projeto aos educadores e posteriormente aos estudantes. Os educadores das diferentes disciplinas comprometem-se com o ensino e a aprendizagem dos estudantes, inter-relacionando saberes e articulando os conhecimentos, compartilhando idéias e desmistificando as fronteiras disciplinares para nos lançarmos na transdisciplinaridade.
Os estudantes subdividem-se em grupos, após análise das etapas, percorrem caminhos e dialogam na busca de informações que sustentem seus objetivos e produções. As
temáticas são definidas e subdivididas conforme interesses dos estudantes, como, por exemplo: temática da violência, que por existir diferentes tipos pode ser trabalhada tanto a violência sexual, como a violência urbana, a violência contra a mulher, contra a criança, enfim, essa delimitação de foco não é algo obrigatório, mas contribui no aprofundamento das investigações e no aprimoramento das análises, debates e reflexões.
No segundo momento, definição do foco de investigação (temática) pelo grupo e delimitação do conteúdo das mensagens que deseja articular a partir das produções de trabalhos individuais, utilizando, de preferência, a linguagem visual. Cada componente do grupo terá a oportunidade de expor sua visão sobre o assunto definido coletivamente.
Já no terceiro momento, exposição ao grupo dos pensamentos e idéias que servirão de elementos constitutivos de uma posterior produção coletiva do grupo, que inter- relaciona as experiências e percepções individuais. Os estudantes passam a elaborar um painel/cartaz (ex. Foto 001/03) que expresse o conjunto de suas idéias sobre a temática escolhida. Esta unificação das múltiplas informações individuais contempla as contribuições de todos os componentes do grupo, possibilitando a cada integrante ter sua parcela de participação no conjunto da obra. Estes painéis/cartazes são executados no mínimo em tamanho A2, para que todos percebam sua estrutura em termos de composição, organização espacial, cor, linhas, textura, etc.
Foto 001/03 - Painéis/cartazes – PAZ, GUERRA IRAQUE E EUA, VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
Concomitante a essas etapas de produção, os grupos analisam os elementos materiais diversificados (areia ou terra de cores variadas, serragens coloridas, grãos, pedrinhas, folhas, conchinhas, cinzas, cal), que podem ser utilizados para a execução do projeto em um espaço físico, medindo mais ou menos 3m x 2,5m, apresentados na Praça Farroupilha-Itapuã (ex.Foto 002/03), momento em que existe uma mudança do bidimensional para o tridimensional. A utilização de tais elementos e o deslocamento de espaços e suportes, leva em consideração sentidos e simbologias que constituem composições, dinâmicas, significados, cores, texturas, efeitos e possibilidades estéticas.
Foto 002/03 - Estudantes do 1° ano do Ensino Médio executando seu trabalho com o tema sobre a Guerra Iraque e EUA.
As pesquisas teóricas, em andamento desde a primeira etapa, realizadas pelos estudantes, como uma forma de aprofundamento dos conhecimentos, são socializadas entre os grupos e muitas destas são apresentadas às outras turmas. Após esta apresentação também são formatadas e encaminhadas ao Programa “Sala de Aula”. Muitos estudantes encaminham aprofundamentos e as apresentam também na Multifeira (evento realizado anualmente na escola), isso acontece numa completa interação com os demais educadores. São momentos nos quais o estudante é permeado por múltiplas visões e percepção sobre uma mesma temática, ampliando suas referências sobre o assunto.
No quarto momento, lançamento dos estudantes em espaço público como etapa de grande importância no processo perceptivo. Assim, após três meses de trabalhos no contexto escolar, enfatizamos o contato social, uma vez que a Praça é o epicentro de convergência da comunidade, em que o ir e vir oportuniza encontros entre obra-espaço-espectador. Os educadores acompanham os estudantes no processo de execução das intervenções, concebidas em estreita relação com o espaço expositivo ou com o ambiente. Procuramos desenvolver uma idéia ou conceito por meio da utilização de diversos suportes e linguagens diferentes, compondo um todo. Para tanto, vale-se muitas vezes de recursos cênicos e sonoros. Na
Foto 003/03 – (Detalhe) da Intervenção realizada com areia, carvão, algodão, borracha. O tema escolhido foi a Guerra Iraque e EUA – As mãos unidas sob o planeta terra simbolizam
a união, a paz entre os dois países, entre as diferentes culturas. No punho da camisa as bandeiras dos EUA e do Iraque.
maioria das vezes, permite que o espectador passe por entre a obra, sentindo-se ou fazendo parte dela. Os espaços de utilização do local foram pré-definidos para cada grupo. Os grupos tiveram a liberdade de optar pelo espaço que oportunizasse melhores resultados as suas propostas. A mudança de local, da escola para a Praça, proporcionou o realinhamento do indivíduo à sua cidadania, expressando uma integração cultural em que compartilham experiências em espaço aberto ao diálogo entre escola e comunidade.
No quinto momento, apreciação e reflexão dos estudantes sobre seus trabalhos e os dos colegas, nas diferentes etapas, por meio da organização de seus pensamentos, relatos e depoimentos reflexivos de suas experiências, verbalizados e escritos, ao longo do processo de criação. As produções são registradas por meio de fotos e filmagens.
O conjunto dessas etapas é um dos aspectos que se articulam entre si, não existindo rigidez, mas responsabilidades, comprometimentos, acordos e prazos que devem ser cumpridos, segundo a constituição de um projeto de trabalho a partir da concepção de Hernández, anteriormente especificado.