Sendo foco desta dissertação o projeto “O Pensamento Crítico Através da Arte na Escola Pública Rural”, e tendo como problema a ser investigado “Quais as contribuições das intervenções artísticas, efetivadas durante o ano de 2001 a 2006, em Itapuã, no desenvolvimento da consciência estético ecológica, Ecoarte?”, entendemos importante a conceituação de projeto sustentada por Hernández (2000, p. 181), para quem “trabalhar por projetos não é seguir o método de projetos”. Para o autor, em um projeto,
[...] parte-se de um tema ou de um problema negociado com a turma; inicia- se um processo de pesquisa; busca-se e selecionam-se fontes de informação; são estabelecidos critérios de organização e interpretações das fontes; são recolhidas novas dúvidas e perguntas; são estabelecidas relações com outros problemas; representa-se o processo de elaboração do conhecimento vivido; recapitula-se (avalia-se) o que se aprendeu; conecta-se com um novo tema ou problema (HERNÁNDEZ, 2000, p. 182)
Estas características significam que existem trajetórias abertas, não fixas, porém, com um fio condutor que estabelece as inter-relações entre as partes envolvidas e comprometidas com a compreensão e ressignificação do que está sendo conhecido. Não se enquadra num processo de transmissão de conhecimentos, mas numa relação de comprometimento e entendimento, de atitudes transformadoras.
Segundo o autor, projeto não é uma metodologia didática, mas uma forma de entender o sentido da escolaridade baseado no seu ensino para a compreensão. Hernández se
baseia nas idéias de Dewey, filósofo e pedagogo norte-americano que defendia a relação com a vida e com a sociedade, aliando os meios com os fins e a teoria com a prática. Seguindo este pensamento, os estudantes devem:
a) participar de um processo de pesquisa que seja significativo para elas (não que seja fácil ou que gostem disso), e utilizam diferentes estratégias de pesquisa; b) podem participar do processo de planejamento da própria aprendizagem, e c) lhes auxilia a serem flexíveis, reconhecer o “outro” e compreender seu próprio meio pessoal e cultural. (HERNÁNDEZ, 2000, p. 183)
Importante ressaltar que Hernández não propõe um método a seguir, mas indica caminhos por meio de diálogos e acordos, condições que devem ser respeitadas para serem alcançados os objetivos da aprendizagem. As estratégias e acordos para esta caminhada devem ter critérios e serem cumpridos, entretanto, nada impede que os acordos, no decorrer do projeto, possam ser reexaminados.
Desde 1996, tenho trabalhado com o ensino das Artes, entretanto é na Escola Estadual de Ensino Médio Dr. Genésio Pires, atuando regularmente no Ensino Fundamental e Ensino Médio, que acentuaria minha práxis. Idéias sobre o ensino das Artes inter-relacionado com múltiplos contextos, potencialmente é um dos elementos que possibilita o desenvolvimento de diferentes percepções sobre as realidades, efetivando, assim, algumas das concepções transdisciplinares, já referidas ao longo da dissertação, que permeiam os projetos realizados na referida escola
.
No intuito de oportunizar aos estudantes, por meio da educação, situações de aprendizagem que os estimulem a não serem meramente consumidores e sim produtores de imagens, de idéias e de criações, complexas e significativas; sujeitos reflexivos, impregnados de subjetividades e intencionalidades transformadoras, aprofundamos conhecimentos, metodologias e estratégias voltadas ao ensino das artes. Richter, no capítulo 2, afirma que devemos ter visão integradora tanto do universal quanto das singularidades, para que possamos coexistir com as liberdades individuais. Assim, criar espaço para socializar experiências e descobertas, interagindo entre os processos de construção das múltiplas linguagens e o mundo, é uma das tarefas da educação transdisciplinar. Os momentos nos quais os estudantes possam realizar processo de significações por meio não só da linguagem visual,
que trabalha tanto no campo do imaginário quanto das questões matéricas específicas das modalidades expressivas, é uma aventura decorrente de um longo processo de ir ao encontro das necessidades tanto destes, da instituição escolar, como da comunidade. Preparar, planejar, analisar, refletir e avaliar os trabalhos a serem realizados, a partir da coletas dos dados provenientes destas experiências, é uma riqueza de informações que deve ser considerada se quisermos reconhecer os contextos onde as culturas se inserem.
Neste percurso, o arte/educador e os estudantes devem assumir uma postura de pesquisadores, serem sujeitos do processo e interagirem desvelando novos horizontes de experiências e conhecimentos. Devem articular-se de modo a estabelecer trocas, inspirando novos processos de aprendizagem, aguçando cada vez mais a curiosidade por novos saberes.
Os estudantes, por meio dessa estrutura inter-relacional com os colegas, educadores e familiares, fazem-se protagonistas e geradores de suas produções, num processo contínuo de conhecimento sobre o mundo, a arte e a expressão. O referido projeto, desenvolvido entre 2001 e 2006, na Escola Estadual de Ensino Médio Dr. Genésio Pires, situada em Itapuã – Viamão, possui muitas finalidades, entre elas, aproximar os estudantes da sua comunidade, desenvolver o senso estético, ético, ecológico, por meio das concepções e propostas contemporâneas de Arte e estimular maior percepção de si, do outro, bem como do contexto macro e micro em que estão inseridos.
A vontade e necessidade de trabalhar artes na escola, de modo não convencional, que move este meu fazer, fundamentado no compromisso e no entendimento da importância das artes tanto no âmbito escolar específico como fora dele, nas demais situações da formação humana.
Esta proposta de projeto de trabalho envolve um entrelaçamento das situações que vivenciei, ora como artista, ora como arte/educadora e como moradora de Itapuã. Inquietações que derivaram para uma busca teórica e metodológica em torno dos seguintes objetivos: criar ações pedagógicas em artes mais conscientes, significativas e prazerosas, considerando as peculiaridades do contexto; romper os estereótipos do ensino de artes; transformar as atividades propostas em momentos de conhecimento das múltiplas linguagens que as compõem, visual, gestual, sonora, entre outras, como elementos potencializadores de reflexões e de ampliação perceptiva sobre as realidades, para que os estudantes possam elaborar outros saberes, oportunizando-lhes e permitindo-lhes transitar entre as diversas realidades, promovendo o despertar da consciência estética ecológica.
Avançando anualmente nas reelaborações do referido projeto, os conceitos sobre artes, educação, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, foram gradativamente elucidados, ancorados nos teóricos e posições assumidas no referencial teórico apresentado nos capítulos anteriores.
Pensar o ensino de arte é, então, pensar na leitura e produção na linguagem da arte, o que, por assim dizer, é um modo único de despertar a consciência e novos modos de sensibilidade. Isso pode nos tornar mais sábios, seja sobre nós mesmos, o mundo ou as coisas do mundo, seja sobre a própria linguagem (MARTINS; PICOSQUE; GUERRA,1998, p.46).
“O Pensamento Crítico Através da Arte na Escola Pública”, é um projeto de trabalho em que se pensa e tenta-se propiciar o ensino das artes a partir das inter-relações entre contextos, sujeitos, experiências e diversidades. Cada estudante procura em suas possibilidades a renovação de si, da capacidade de reinvenção, de partilhar a cada instante suas percepções sobre o mundo interior e exterior. Neste caminho criam novas formas de comunicar seus pensamentos, participando do movimento do universo e descobrindo novos horizontes. Os estudantes estão, muitas vezes sem perceber, construindo sua própria história e redimensionando-a por meio da arte. Evidenciamos as percepções sobre o mundo na fala da Vânia, “Os trabalhos foram todos muito bem elaborados e coordenados, e propostas no qual explorávamos pelas representações nossos sentimentos e nossas visões sobre a comunidade e de um mundo no qual vivemos.”
Saliento que as questões sobre a relevância da arte/educação são enormemente afetadas pelo modo como os educadores e estudantes a vêem fora e dentro do âmbito escolar. Para Barbosa (1975), “a arte não tem importância para o homem somente como instrumento para desenvolver sua criatividade, sua percepção etc., mas tem importância em si mesma, como assunto, como objeto de estudo”.
Assim, este projeto, em sua complexidade de elementos conectivos, envolve a coletividade num movimento de trocas e partilhas de conhecimentos, no qual as vivências, experiências e informações ampliam as possibilidades perceptivas, cognitivas, afetivas, sociais, sensíveis e criadoras, fatores determinantes para a formação de pessoas mais conscientes e responsáveis pelo meio no qual estão inseridos. Para Larissa, “O projeto que foi realizado nestes anos foi importante, pois, além de fazer com que nós estudantes, falássemos
sobre problemas da realidade da comunidade e do mundo em geral, fez com que a própria comunidade fosse à praça de Itapuã assistir aos trabalhos que diziam muito sobre nossos problemas, conscientizando-se da nossa real situação, tanto no mundo mas, principalmente pela nossa comunidade”.
Ainda há muito que se aprender sobre arte/educação e transdisciplinaridade e as possíveis transformações que suscitamos a partir de nossas intenções educativas inter- relacionadas com as vivências de nossos estudantes e este projeto é mais uma experiência rica de elementos para refletirmos a educação.
8.2 Meandros ritualísticos: construindo sentidos por meio da aprendizagem