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Racial and geographical specifics

Chapter 6 Findings and discussion

6.3 Social empowerment

6.3.2 Racial and geographical specifics

Então eu me sinto feliz e muito bem dentro do MST, apesar de todas as dificuldades que a gente enfrenta e sabe que dificuldades muito maiores estão por vir. Não consigo me imaginar em outro espaço que não seja esse. Não que não tenha alternativa, tem. Mas seria reproduzir aquilo que justamente a gente quer superar. São razões muito, muito, consistentes que me fazem atuar no Movimento e me sentir feliz com isso. Eu me sinto profundamente em paz e bem. (ALBERTO, 32, Distrito Federal e Entorno, Setor de Formação).

A tese de que todos os seres humanos aspiram à felicidade foi formulada pela primeira vez no mundo ocidental por Aristóteles, que associou a condição de ser feliz à racionalidade. Mas outras condições são necessárias à felicidade, além do uso da razão: a sabedoria, a liberdade pessoal (abordada anteriormente) e a segurança econômica.

A felicidade tem, em seu aspecto omnilateral, duas dimensões, numa relação de dependência recíproca: uma dimensão subjetiva – os valores e as percepções de homens e mulheres sobre suas vidas como um todo – e outra objetiva – suas condições materiais de vida.

Neste último aspecto, quando explicitam suas vontades, os(as) Sem Terra nem sempre pronunciam a palavra felicidade, mas é intensa a freqüência com que se referem à satisfação ou insatisfação relativas às suas histórias pretéritas, circunstâncias existenciais recentes e expectativas quanto às experiências vindouras. Nessa perspectiva, todos(as) os(as) entrevistados(as) fazem apreciações negativas sobre suas situações vivenciais no passado, afirmam que melhoraram suas condições materiais de vida no presente e, salvo exceções, acreditam que aumentarão o bem-estar ou serão mais felizes no futuro. É esta a posição de duas mulheres que atuam como militantes:

Convivendo coletivamente, com outras pessoas, com outros sonhos, com outros ideais de vida, então, o que é individual passa ser coletivo, no sentido do sonho de fazer com que até mesmo essa questão da família da gente se volte tudo para o coletivo. De achar que a transformação da sociedade vai fazer com que chegue a felicidade de sua família e que a gente vai conseguir ser mais feliz enquanto pessoa e até no sentido dos projetos pessoais mesmo. (FRANCISCA JOICIMEIRE, 23, Ceará, Setor de Direitos Humanos). E se eu não tivesse entrado no Movimento Sem Terra, hoje eu estaria distante da minha família, estaria trabalhando em alguma coisa, algum emprego, mas eu não estaria feliz. Porque ia sempre estar me faltando alguma coisa. (GISLENE, 23, Sergipe, Assentada, Setor de Formação).

Ao rememorarem suas vidas, a infelicidade corresponde, sempre, ao desemprego experienciado por grande quantidade de sujeitos, porque além de causar um dano material trazia um custo não-monetário: contrariamente ao exercício de um trabalho remunerado, gerador de recursos financeiros, formador de identidade e promotor de auto- estima, a ausência de ocupação produzia efeitos contrários. Os desempregados tinham, efetivamente, menores possibilidades de cuidados com a saúde, a estabilidade conjugal se reduzia, problemas psicológicos como ansiedade e depressão se manifestavam e, não raro, o indivíduo perdia o autocontrole, tendendo à marginalidade, ao consumo excessivo de álcool e ao uso de drogas.

Assim, a felicidade para os(as) Sem Terra está correlacionada de modo geral a variáveis econômicas, destacando-se especialmente a renda obtida pelas pessoas: quando as necessidades materiais não são minimamente satisfeitas, o sujeito vê-se impossibilitado de sentir-se bem. Isto porque, quanto maiores os resultados financeiros do trabalho realizado, maiores as possibilidades de consecução de desejos referentes à obtenção de bens de uso e consumo e acesso a serviços. E as aspirações materiais ampliam-se proporcionalmente à elevação dos rendimentos pessoais ou familiares. Por outro lado, alguém pode sentir-se desgostoso mesmo com suas necessidades materiais asseguradas. Sobre a influência das condições sociais na felicidade humana, assevera Vázquez:

Os homens não podem ser verdadeiramente felizes na miséria, na exploração, na falta de liberdades políticas, na discriminação racial, etc., mas, por outro lado, cair-se-ia numa posição simplista se se pensasse que a criação das condições favoráveis ao desaparecimento dos males que mergulham na maior infelicidade tantos seres humanos seria suficiente para dar a todos e a cada um dos indivíduos a sua felicidade pessoal. Os indivíduos como tais podem encontrar graves obstáculos na obtenção de sua felicidade, que não podem desaparecer nem sequer nas condições sociais mais favoráveis. [...] Mas as condições sociais não deixam de influir

inclusive na felicidade pessoal, pois delas dependem, em grande parte, o fato de que contemos ou não com os meios para evitarmos cair totalmente na desgraça e podermos escapar dela. (VÁZQUEZ, 2005, p. 159).

Além das variáveis econômicas, também a educação e o estado civil influenciam na felicidade ou infelicidade dos sujeitos de interlocução deste estudo. Assim, é alta e positiva, por exemplo, a correlação entre felicidade e grau de instrução das pessoas jovens e adultas: alçar patamares elevados de escolarização torna esses sujeitos mais felizes. Na relação entre felicidade e estado civil, no entanto, há grandes contradições: para algumas pessoas, o casamento é a fonte da felicidade; para outras, de contrariedade e derrota. As poucas pessoas solteiras, por sua vez, declaram-se felizes nessa condição, mas quase sempre têm planos de constituir família. Não identifiquei nos diálogos concretizados informações que sugiram diferenças significativas na relação entre idade e felicidade, o mesmo ocorrendo no que tange à variável sexo.

Às pessoas adeptas e praticantes de religiões cristãs são ofertadas, pela promessa que seus líderes espirituais anunciam, compensações pelos sofrimentos e privações da vida presente: um mundo de felicidade plena e eterna no futuro, o paraíso terrestre ou celestial. Na ótica vazquesiana:

Partindo da impossibilidade de alcançar a verdadeira felicidade aqui na terra, a ética cristã transfere a sua obtenção para um mundo ultraterreno. A felicidade só pode ser obtida no céu, como compensação da infelicidade terrena. Deste modo, uma felicidade ideal e ilusória vem substituir a felicidade terrena e real. (VÁZQUEZ, 2005, p. 158).

A felicidade é também posta, principalmente pela militância, num mundo sonhado, ainda que diferente do mundo preconizado pelos cristãos: a sociedade socialista, passagem para uma sociedade comunista, sem classes. Nesse sentido, as pessoas, impulsionadas pela mística, pelos discursos dos dirigentes do MST e pelas leituras de textos produzidos pelo Movimento elaboram projetos para uma vida coletiva feliz. E nesse momento dizem experimentar uma autêntica felicidade, porque acreditam na realização dessa utopia.

Diferentemente dos animais, cujas necessidades relacionam-se ao biológico e à autoconservação, os indivíduos humanos têm aspirações de ordem puramente simbólica, psíquica: são seres desejantes. E ser feliz talvez constitua o maior e mais estável dentre os seus muitos desejos.

Em uma sociedade baseada na propriedade privada, a idéia de felicidade torna- se restrita, limitando-se com freqüência ao desejo de aquisição ou detenção de objetos. A acumulação de dinheiro define um verdadeiro ser ao seu possuidor, traduzido na já conhecida noção de que homens e mulheres têm seu valor associado não àquilo que são, mas às suas posses, na forma de bens materiais. Esse é um dos motivos pelos quais os(as) Sem Terra conectam renda pecuniária e felicidade. O outro é a conexão estabelecida entre privação e infelicidade, o que os leva à aspiração pela relação inversa.

Essa infelicidade vivida no passado, causada por experiências acumuladas de fracasso, perdas, insuficiência ou inexistência do mínimo necessário à vida leva alguns sujeitos a adotarem uma atitude de descrença e apatia. Contentam-se com o pouco que conquistaram e lutam para manter a subsistência. Tornam-se, então, passivas e indiferentes, porque crêem que um poder misterioso fixa de modo inevitável, irreversível e irremediável a história humana, como percebido por Geraldo:

As igrejas não apóiam a luta e o fato de não apoiar já atrapalha. Os evangélicos, a gente tem uma dificuldade de mobilizar. Isso aí, o pessoal que é católico eles têm uma facilidade, mas os evangélicos são muito apegados à Igreja e, não é que ninguém está querendo que eles não sejam, mas aí eles acham muitas coisas: que não eram para fazer ocupação... E às vezes a gente precisa fazer algumas ações e eles acham que não, que tenham paciência que um dia Deus ajuda. Eu não tenho muita coisa contra, mas também não concordo com isso aí. (GERALDO, 25, Rio Grande do Norte, Acampado, Direção Estadual do MST).

E para outros, as convicções religiosas lhes dão a coragem necessária à continuação da práxis política e produtiva, conforme escrito por Stédile e Fernandes (2000, p. 131), os quais asseveram que “a nossa base usa a fé religiosa que tem para alimentar a sua luta”. Essa afirmação é confirmada pelo relato de três mulheres do Movimento:

O que mais eu queria na vida, era comprar uma casa, ter uma casa. Aí foi isso que fez eu ter mais força para ficar nesse Movimento. Minha intenção era conseguir alguma coisa, que meus pais nunca tiveram assim, terras, ou uma condição financeira para oferecer para os seus filhos. Mas eu digo: Deus vai me abençoar, para eu entrar numa luta para comprar, conseguir alguma coisa, conquistar alguma coisa e deixar para os meus filhos. (MARIA ZELZUÍTA, 42, Pará, Assentada, Trabalhadora Rural).

Acho muito bom na hora que diz assim: vamos fazer uma mobilização ali? Vamos! Vamos para Marabá? Vamos! E até por hora, graças a Deus, nunca me dei mal... (DELZUÍ, 58, Pará, Acampada, Trabalhadora Rural).

Meu Deus revolucionário é esse Deus da luta, aquele que andou pelo mundo à procura da terra prometida com o povo Dele. E para ensinar o amor, e que nós todos tínhamos que ter um ideal e conquistar. Jesus foi socialista. Então, para mim, aquele Deus do passado, que eu respeito. Deus mesmo. Para mim, ser revolucionário já é uma grande coisa. Jesus para mim foi um revolucionário, admiro muito ele. E cada militante tem um pouco dele. Porque se não tivesse um pouco dele, não conduzia tanta gente assim para a terra prometida. (Depoimento de uma assentada no filme Ocupar, resistir, produzir: MST, 1999b).