Chapter 6 Findings and discussion
6.3 Social empowerment
6.3.1 Relationships between domestic workers and employers
6.3.1.2 Prejudices and discrimination
Os trabalhadores e trabalhadoras rurais Sem Terra, após realizarem o seu grande sonho que era a posse da terra, estruturam, ao menos no pensamento, muitas aspirações que desejam materializar, porque agora dispõem das condições objetivas e
subjetivas para concretização de ideais, metas e planos antes impensáveis de serem conseguidos. Dizem um dos entrevistados e um componente da Direção Nacional do MST:
E tenho um ideal: melhorar a minha própria vida e a vida dos outros. Para que os outros sejam assentados também. Quero continuar nas lutas do MST, junto desse povo grande, amigo. Vamos lutar para assegurar escola para todos. E vencer as dificuldades com o meu próprio estudo. A vida é sempre difícil, mas as dificuldades ficam menores no Movimento. Também sei, tenho certeza de que terei condições para melhorar o estudo dos meus filhos. (JOSÉ ETERNO, 55, Goiás, Assentado, Coordenador de Grupos).
Sonhadores e sonhadoras somos nós. Acreditamos num tempo novo, onde não haja elite nem opressores. Acreditamos num poder popular, em uma nova sociedade, expressão das nossas vontades e interesses. Temos a força do querer: queremos construir através de nossa força uma nova pátria. Uma sociedade que seja o fruto do prazer de vivermos e lutarmos por ela. (BOGO, 2007).
Constroem orientações para suas existências a curto e em longo prazo: um projeto de vida alicerçado em três pilares diferenciados, mas ligados entre si por traços comuns: trabalho, família e educação.
Em relação ao trabalho, as pessoas costumam planejar as formas pelas quais será feita a implantação e organização de processos produtivos e comercialização dos víveres obtidos nos assentamentos, nas modalidades de produção individual/familiar ou de cooperação produtiva. Planejam o que e como plantar, quais os instrumentos e materiais, a exemplo de sementes e adubos, a serem adquiridos para consecução do plantio, as formas de venda dos bens produzidos. Ações similares são projetadas para a criação de animais e outras atividades produtivas.
Os resultados desses trabalhos, além de servirem ao consumo familiar, são percebidos pelos(as) Sem Terra como oportunidades de melhoria das condições financeiras: aquisição dos alimentos que não produzem e compra de bens de outra natureza, para satisfação das necessidades materiais e simbólicas próprias e das pessoas que compõem o grupo familiar. Aliás, o bem-estar da família é objeto central dos projetos de vida das pessoas: pais e mães que, em sua maioria, desenvolvem apenas uma práxis produtiva, mas também os filhos e filhas, independente das funções que desempenham – trabalho em atividades agropecuárias ou militância política – têm seus propósitos condicionados à situação familiar imediata ou prospectiva.
Os projetos situados no âmbito educativo relacionam-se à suposição de que o acesso à educação e o alcance de graus tanto mais elevados quanto possível de instrução e
profissionalização tornam-se indispensáveis para a ascensão econômica e social hodierna, consecução de outras metas futuras projetadas e da realização pessoal. O conhecimento e o estudo são supervalorizados pela maioria das pessoas entrevistadas, que manifestam a intenção de conquistá-los, tanto para si mesmos como para todos(as) os(as) Sem Terra, a exemplo do que é dito por Jonas e José Marcos:
E eu descobri que o brasileiro, enfim, que o ser humano tem que estudar o tempo todo, independente da idade, independente da graduação que esteja fazendo, seja curso formal ou informal, o importante é que duas coisas não se pode parar: trabalhar e estudar. Essas duas coisas têm que ser prioridade, tanto para mim como para os companheiros e as companheiras nas lutas do MST. (JONAS, 43, Rondônia, Assentado, Setor de Educação).
Ocupar eu já ocupei: um espaço que me coube; resistir é o que eu pretendo; e produzir, tenho certeza. Vou produzir mais conhecimento, vou produzir minha lavoura, minha roça, com certeza vou ser assentado um dia, e produzir mais conteúdos e conhecimentos para outras pessoas, ou outra juventude. Estou puxando da melhor forma possível. (JOSÉ MARCOS, 23, Pernambuco, Acampado, Setor de Formação).
Ao incluírem a escolarização em seus projetos de vida, os(as) Sem Terra o fazem pelo desejo de atender às exigências que a vida cotidiana impõe, no sentido da resolução de problemas e da apresentação de respostas aos desafios encontrados no ambiente natural e social e no tempo histórico em que se encontram situados(as). E o MST enseja a realização desse intento:
O Movimento Sem Terra me deu oportunidade de estar hoje dentro de uma Universidade, realizando um curso de Graduação em História. (COSSETIN, 47, Rio Grande do Sul, Assentado, Setor de Formação).
Assim que voltei para o Movimento Sem Terra tive a oportunidade de vir para a faculdade. Se eu não tivesse no MST eu não teria condições de fazer uma faculdade dessas, um curso em uma Universidade Federal, como eu estou fazendo agora. (ELENEUDA, 30, Tocantins, Setor de Educação).
Os(as) jovens apresentam metas em maior quantidade e diversidade, mas a principal delas é a escolarização, visando à aquisição de um instrumental teórico e prático que amplie e aprofunde as possibilidades de elevação das suas consciências e o adequado desempenho do papel de agentes históricos da transformação social, pela concretização da
utopia socialista, como alternativa às contradições e aos males que identificam no capitalismo. Esse é o desejo de José Marcos, Roselandia e Erinaldo:
Dentro do Movimento Sem Terra você tem a necessidade de estudar e eu preciso avançar bastante no meu processo de conhecimento, elevar minha consciência. Aí eu tenho uma necessidade, um desafio maior, que é me esforçar mais ainda, conseguir melhorar a minha formação na escola, os meus conhecimentos. (JOSÉ MARCOS, 23, Pernambuco, Acampado, Setor de Formação).
E hoje, por mais que eu seja feliz com o que eu tenho, mas a minha perspectiva é melhorar mais, então eu quero continuar estudando. (ROSELANDIA, 25, Bahia, Assentada, Setor de Educação).
Uma coisa que eu acho marcante é essa questão do conhecimento. Porque a burguesia traça uma ofensiva a partir de estudos qualificados, feitos por doutores, baseados em estudos científicos. Para nós nos defendermos quanto a essas ofensivas, é preciso a gente ter uma qualificação também, ter conhecimento científico. E isso requer muito estudo. Por isso eu não pretendo parar por aqui. Quero prosseguir estudando. (ERINALDO, 28, Maranhão, Assentado, Direção Estadual).
De acordo com os relatos de oito entrevistados(as) que atuam como militantes dos setores de formação, educação, gênero e na frente de massas do MST, algumas pessoas que vivem nos assentamentos e acampamentos desanimam quando se defrontam com obstáculos ou dificuldades cotidianas que impedem o alcance de objetivos instituídos. Costumam manifestar um sentimento de frustração, permanecendo apáticos ou indiferentes, como avaliam Jailson e Roselandia:
Tem uma aprendizagem muito grande de algumas pessoas e uma acomodação enorme de outras. Acho que é até, não diria normal, mas existe muito isso. Nós passamos por um processo desse no Estado esses dias. Tem um grupo que está a todo vapor. Mas, ao mesmo tempo, tem um grupo que diante das dificuldades acabou estacionando, e não conseguem se mexer, ficaram com uma visão muito limitada. Não conseguem avançar na questão política, não conseguem acompanhar a estrutura do Movimento. Tem muitos camaradas que atuavam no Movimento e que hoje se acomodaram. É isso aí: o Movimento Sem Serra também tem seus probleminhas... (JAILSON, 23, Pernambuco, Assentado, Coletivo Estadual de Formação).
Um objetivo pensado por nós da militância, mas que muitos assentados e acampados não têm em si, é a vontade de estudar. Eles acham que é difícil, que é cansativo, que a cabeça é fraca, a memória pouca... É que não ainda conseguem compreender essa dimensão ampla que é a transformação social e ficam desanimados para o estudo, para fazer leitura, seja ela leitura crítica ou de qualquer texto literário. A maioria deles pensa que saber assinar o nome já é o bastante, então é uma coisa que muito me incomoda, quando a
gente chega nesse ponto de querer fazer a educação com os assentados e os acampados e eles não se interessarem muito. (ROSELANDIA, 25, Bahia, Assentada, Setor de Educação).
Outras pessoas, no entanto, tentam novos caminhos ao se depararem com barreiras que impedem a realização de sonhos arquitetados, esforçando-se por reestruturar a situação e construir saídas. Para Evandro, por exemplo, “as dificuldades sempre existiram, mas toda dificuldade a gente deve encarar também como uma forma de aprendizagem.” (EVANDRO, 22, Mato Grosso do Sul, Setor de Educação).