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Decision-making and negotiating duties

Chapter 6 Findings and discussion

6.3 Social empowerment

6.3.3 Gender triangle in the household: women, men and domestic workers

6.3.3.4 Decision-making and negotiating duties

Nas lutas do MST, as pessoas desenvolvem um complexo desejo de realização: preocupam-se ou tendem a definir objetivos de acordo com algum padrão de excelência e lutam para serem bem sucedidas no desempenho de tarefas ou em relação ao produto de suas ações. Esses comportamentos desencadeados por valores e necessidades de crescimento e de individuação71 estruturam-se com base em modelos externos, a exemplo dos dirigentes da Organização, ou em função de níveis de aspiração definidos pelos próprios sujeitos, que se esforçam para atuarem de uma forma que consideram adequada.

Mas, que condições ou estimulações suscitam e sustentam motivos de realização na conduta dos(as) Sem Terra? Em primeiro lugar, as pessoas, de modo geral, tendem a lutar por mestria ou excelência, aperfeiçoar seus talentos, alcançar altas metas, ter sucesso em trabalhos difíceis, progredir, melhorar ou mudar de alguma maneira o seu modo de existir. Na percepção de um acampado sergipano:

O Movimento ajuda a gente a crescer na vida, a ter um trabalho digno. E eu tenho vontade de um dia entrar na faculdade, fazer um curso para me tornar assim um profissional. Buscar alguma coisa na frente, adquirir coisas melhores no futuro, ter mais chance, se desenvolver... Não só para mim, mas também para o pessoal todo, do MST e da sociedade. Quero ser uma pessoa mais capacitada, aproveitar as oportunidades que não tive quando era mais jovem e que estão chegando hoje em dia. Ainda não consegui alcançar tudo que eu e minha família precisamos, mas a gente já se sente assim realizado com o que temos, que a gente já conseguiu conquistar... (SIVAL, 48, Sergipe, Acampado, Direção Estadual do MST).

71 A individuação é “definida como o processo de realização de potenciais, capacidades e talentos, como

realização plena de missão (ou vocação, destino, apelo), como um conhecimento mais completo e a aceitação da própria natureza intrínseca da pessoa, como uma tendência incessante para a unidade, a integração ou sinergia, dentro da própria pessoa.” (MASLOW, 1968, p. 52).

Esse tipo de motivação, no entanto, é mais comum em pessoas que já tiveram suas necessidades básicas de sobrevivência e segurança gratificadas. São seres humanos metamotivados, propensos à satisfação de necessidades de crescimento: superação de obstáculos, concretização de potencialidades constitucionais, realização de tendências criadoras, consecução de talentos e capacidades, auto-superação – realização concreta daquilo que é potencialmente e conversão de si próprio em tudo aquilo de que é capaz, nos explica Maslow (1970, p. 92).

Em segundo lugar, o motivo de realização não resulta de impulsos, mas de processos afetivos e respostas emocionais. Há sujeitos que são mais motivados pelo desejo de sucesso, enquanto outros movem-se e agem pelo temor do fracasso, sentimentos dependentes da percepção que têm acerca da dificuldade das atividades que executam. Além disso, outros motivos aprendidos durante o curso da existência pessoal, como desejos de afiliação72, alta consideração e sólida reputação, poder, estima podem influenciar na produção de motivos para a realização.

Entre as pessoas entrevistadas, as situações que envolvem a metamotivação variam, manifestando-se como auto-atualização, individuação, autodesenvolvimento, produtividade, autonomia, ou mais especificamente: são orientadas por necessidades de ascensão social, satisfação na vida familiar, alcance de altos padrões de escolarização, desejo de sucesso profissional, reconhecimento, valorização, prestígio. Constatam-se, também, expectativas ou propósitos relacionados com metas econômicas: melhoria das condições de vida e obtenção de segurança e estabilidade financeiras.

Há, no entanto, pessoas que não apresentam interesse em desempenhos baseados em padrões de excelência ou no desejo de alcançar sucesso, devido a influências negativas de vivências do passado, pela conformação relativa a estereótipos culturais, pelo desconhecimento de seu potencial ou temor de arriscar-se em novas experiências. A ideologia veiculada por determinadas religiões ou pela classe dominante reduz a autoconfiança de homens e mulheres, inculcando neles uma visão distorcida da condição humana e assim colocando obstáculos ao desenvolvimento de competências e realização dos potenciais humanos, ao crescimento pessoal.

Homens e mulheres idosos, por outro lado, se comparados com as pessoas mais jovens, apresentam graus mais baixos de ocorrência do motivo de realização, preocupando-se principalmente com a evitação de situações que posam resultar no insucesso. A redução do

72 Atividades orientadas para a busca de contato físico, comunicação e relações interpessoais, redução de

desejo de idosos(as) de realizar-se como pessoa reflete a incorporação de representações sociais prevalentes nas sociedades capitalistas. Nestas, o velho é descartado ou marginalizado como força de trabalho, colocado num cenário de indiferença e descaso por parte de instituições governamentais em relação à satisfação de suas necessidades físicas, psíquicas, afetivas, sociais.

O envelhecimento está amplamente relacionado à decadência, debilidade, inatividade, incapacidade e dependência econômica. As pessoas idosas tendem a introjetar idéias, crenças e valores amplamente difundidos no imaginário social, configurando a partir desses elementos internalizados suas autopercepções, motivações e atitudes. Mas esses sujeitos (como muitos adultos) projetam em outras pessoas, especialmente nos descendentes, desejos de realização que eles próprios não conseguiram concretizar, como declarado por Sival e por um trabalhador que deixou o MST:

As pessoas que começaram na luta pela terra envelheceram e estão ficando sem forças para trabalhar na lavoura, para participar das ações, das mobilizações do Movimento. Então são os jovens que devem assumir a luta, como os pais deles lutaram antes. Trabalhar na agricultura ou ter emprego para eles dentro do assentamento mesmo. Os assentamentos têm que ter escolas de segundo grau, para os jovens não precisarem sair da comunidade. Eu mesmo estudei pouco, mas meus filhos com certeza vão ter um futuro melhor do que eu tive, que a gente teve. Vão progredir nos estudos e ter uma vida mais feliz mesmo. (SIVAL, 48, Sergipe, Acampado, Direção Estadual do MST).

Lá no assentamento que eu morava não tinha estudo bom para os meus filhos. Quero fazer o possível para que meus filhos tenham uma coisa melhor do que eu tive. Eu não queria para meus meninos aquela vida dura que eu levava. Não ficar só trabalhando no cabo da enxada, mas conseguir um futuro melhor. O tempo de estudar para mim já passou. Para meus filhos, agora é a hora, senão o tempo passa para eles também. Por isso que eu saí da roça e vim aqui para a cidade. (Depoimento de um ex-assentado, 63 anos, Estado da Bahia).

O próprio Movimento Sem Terra reconhece que para os idosos não existem “perspectivas dentro dos assentamentos, há um desprezo pelo seu potencial produtivo e organizativo. [...] Há uma visão altamente economicista e utilitarista das pessoas.” (MST, 2001a, p. 193).

Por fim, penso ser importante destacar que no MST o querer coletivo é mais intenso do que as vontades pessoais, principalmente quando se trata das pessoas que atuam como militantes e como dirigentes nas diversas instâncias do Movimento. Essa constatação

fundamenta-se nos resultados da pesquisa referentes à dimensão praxeológica do saber dos Sem Terra – o agir destes seres sociais – materializada pelos processos de formação política, organização das lutas sociais do Movimento, exercício de poderes e resistência, e através das formas como realizam intervenções na realidade para transformá-la. As ações dos sujeitos históricos que protagonizam as lutas do MST constituem o conteúdo do próximo e último capítulo desta tese.

6 A DIMENSÃO ATITUDINAL: O AGIR

Como é que se pode pensar toda hora nos novíssimos, a gente estando ocupado com esses negócios gerais? Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir, toda hora a gente está num cômpito. (ROSA, 2005a, p. 328)

A dimensão atitudinal do saber produzido pelos trabalhadores e trabalhadoras Sem Terra em sua práxis política incorpora as dimensões anteriormente abordadas – cognitiva, afetiva e volitiva –, traduzindo-se em quatro diferentes ações: a formação política no MST; a construção pelo Movimento Sem Terra de processos de organização política e de organização da produção; o exercício de poderes e resistência; a intervenção na e transformação da realidade.