• No results found

Segundo Teixeira et al. (2014), a motivação é a habilidade de orientar as emoções, buscando satisfação profissional de forma entusiástica, facilitando o alcance das metas pela vontade de realização, dedicação e iniciativa, procurando agir diante das oportunidades e alinhando-se às metas organizacionais.

111 Assim como no caso dos ex-governadores, também para a motivação dos ex- secretários de saúde houve grande influência o fato de alguém tê-los convencido de que era possível reduzir a mortalidade infantil com os recursos financeiros disponíveis, se fosse feito o investimento certo na promoção da saúde e em ações de prevenção. Nesse sentido, o Dr. Carlile e a Dra. Anamaria, que já possuíam experiência anterior com o tema, foram os grandes incentivadores, tanto dos ex-governadores, como dos ex-secretários, além de uma grande quantidade de técnicos, que constituíram um verdadeiro exército pela saúde infantil no Ceará. O fato de os governadores da época terem acreditado e decidido investir no tema da saúde da criança também serviu de motivação para seus secretários de saúde.

Na fala a seguir, continua-se constatando a perseverança do Dr. Carlile, em sua firme convicção de que era possível fazer muito mais pelas crianças.

[...] porque as crianças eram as que mais morriam e, portanto, a gente viu que era possível a gente salvar as crianças com recurso mínimo [...]. O grande trabalho nosso foi realmente mostrar que era possível fazer uma coisa rápida com a criança. A atenção à criança era a ação mais barata que a gente podia fazer e eu falava com segurança [...]. Em Planaltina nós conseguimos reduzir, em Jucás nós conseguimos reduzir, em Iguatu nós conseguimos reduzir, então era possível reduzir no Ceará todo. Mas era importante fazer as contas. Então isso foi um trabalho. E pela experiência que a gente tinha quando eu cheguei para falar com o Tasso já falei dizendo quanto ia custar. Empresário quer saber quanto que custa o programa [...]. Eles [os políticos] não tinham ideia de que era possível fazer a saúde antes da riqueza, [...] no Brasil não se tinha essa ideia.

A participação na experiência de Planaltina mostra como esse projeto influenciou o Dr. Carlile, porém havia um questionamento da pesquisadora, se a experiência do Ceará havia se baseado também no trabalho da Pastoral da Criança, criada em 1983, no Brasil. A pesquisadora ouvira falar, algumas vezes, que o programa do Ceará havia copiado o trabalho da Pastoral da Criança, e que não dava a ele o devido crédito. Essa iniciativa da Igreja Católica foi implantada após uma conversa informal do Diretor Executivo mundial do UNICEF, Sr. James Grant, com o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, na Suíça. Na ocasião, o Sr. Grant sugeriu que a Igreja Católica do Brasil poderia contribuir muito para a redução dos índices de mortalidade infantil do País. Ao voltar para o Brasil, Dom Paulo conversou sobre essa ideia com a Dra. Zilda Arns, sua irmã, que era pediatra, e logo em seguida foi criada a Pastoral da Criança (NEUMANN, 2003).

Ao ser indagado, o Dr. Carlile respondeu que, na época, não conhecia o trabalho da Pastoral da Criança “Eu nem conhecia. O que eu conhecia no Ceará era o programa da LBA, e

112 da Fundação SESP que tinha as visitadoras e o PROAIS, não sei nem se tinha esse nome de PROAIS, sei que era o trabalho do Galba [Dr. Galba de Araújo]. ”

Esse fato não diminui a grande importância do trabalho da Pastoral da Criança, que certamente tem contribuído muito, em todos esses anos, no Ceará e nos outros estados do Brasil, para melhorar a saúde da mulher, da criança e de toda a família, porém era importante fazer esse esclarecimento.

O PROAIS, referido pelo Dr. Carlile, era o Programa de Ações Integradas de Saúde implantado em 1985, pela Universidade Federal do Ceará, sob a liderança do Dr. Galba de Araújo e que dava continuidade ao Programa de Atenção Primária de Saúde – PAPS - desenvolvido, desde 1981, e também vinculado a essa Instituição de Ensino Superior. Dentre muitas outras atividades que visavam a colaborar com a organização do sistema de saúde, em parceria com o poder público, a sociedade civil e apoio da Fundação W. K. Kellogg, o PROAIS tinha como uma de suas estratégias a identificação, mobilização e o treinamento de recursos humanos informais da comunidade para que atuassem na promoção da saúde. Dentre esses agentes não formais de saúde, estavam as parteiras e as rezadeiras (ARAÚJO; COELHO NETO; ROLIM, 1985). Essas iniciativas da UFC se seguiram a outras, como o Instituto de Medicina Preventiva (IMEP), criado em 1959, que desenvolvia ações preventivas voltadas para as famílias da área de atuação da Universidade e que deu origem ao atual Departamento de Saúde Comunitária da UFC (ARAÚJO; COELHO NETO; ROLIM, 1985).

Ainda com relação ao trabalho comunitário vale a pena destacar a experiência da antropóloga Marilyn Nations com seus estudos, especialmente, sobre “doença de criança” e o papel da antropologia médica e dos recursos humanos da comunidade na humanização do cuidado de crianças com diarreia no Ceará, utilizando, em especial, o modelo “Rezas e Soro” (NATIONS, 2009, p.24).

Revisitando a história da atenção à saúde materno-infantil no Brasil, constata-se que essa começa a tomar força a partir da reforma sanitária de Carlos Chagas, nos anos de 1920 e os programas de saúde materno-infantil foram mais disseminados nos serviços de saúde pública entre a década de 70 e meados da década de 1980, como proposta do governo aos problemas enfrentados por essa população e que foram considerados como prioritários. Segundo Nagahama e Santiago (2005), nesse período, a atenção à saúde da criança era oferecida sem a visão da garantia de um direito social, mas “como defesa e conservação da vida. O combate à mortalidade infantil era enfatizado como garantia de se construir uma nação forte, sadia e progressista”. (TYRRELL; CARVALHO, 1995).

113 O grupo materno-infantil era considerado prioritário, em virtude da sua maior vulnerabilidade por suas características biológicas e sociais, exigindo uma atenção mais adequada às necessidades desse público através de programas desenvolvidos de maneira sistemática, integral e coordenada (BRASIL, 1974). Como consequência do movimento de mulheres, a partir de 1985, passa a existir dois programas: uma para a atenção integral à saúde da mulher (PAISM) e outro para a saúde da criança (PAISC) (SEPÚLVEDA, 1997). O PAISC tinha como proposta de ações, as mesmas recomendadas pelo UNICEF e já descritas anteriormente nesse capítulo.

Para garantir a atenção adequada à população materno-infantil era necessário persuadir os gestores a investir nesses grupos de forma prioritária. De acordo com Coutinho (2016), as pessoas persuasivas, em geral, têm uma maior sensibilidade e conseguem ver certos detalhes que os outros não enxergam. O mais importante nesse processo de convencimento, não é somente fazer o outro acreditar que vale a pena seguir a sua ideia simplesmente porque você está dizendo que é a melhor, mas, porque elas entenderam que essa ideia tem o potencial para trazer benefícios concretos, a exemplo do que aconteceu quando você experimentou essa ideia anteriormente.

Ter conhecimento profundo do tema e segurança sobre o que fala, mostrar entusiasmo, uma boa comunicação e capacidade de organizar e apresentar de forma didática as ideias são ferramentas fundamentais para quem quer convencer outra pessoa, porém, segundo Coutinho (2016, p.1), “os elementos fundamentais da persuasão são a coerência e a verdade”.

Para convencer alguém de que algo é possível, antes de tudo, a pessoa precisa estar convencida. Foi o que aconteceu com o Dr. Carlile Lavor. Por tudo o que ele pesquisou, estudou, toda a experiência que ele viveu em Planaltina, Sobradinho (cidades-satélites de Brasília) e Jucás (Ceará) o deixaram seguro de que aquela era a melhor, ou talvez a única solução – capacitar lideranças da comunidade para apoiar as famílias nos cuidados básicos com a saúde das gestantes e das crianças.

[...] então eu via que era possível [grifo nosso] reduzir a mortalidade infantil, isso foi

a grande motivação [grifo nosso] [...]. Vamos fazer isso aqui no Ceará todo e claro

que isso depois dele (Tasso) já ter se convencido de que era algo possível. [...] tocou a ele a ideia da criança porque viu que era possível fazer, a gente mostrava que era possível fazer e ele acreditou. Se era possível fazer e ele [Tasso] que fez toda a campanha em cima de combater a miséria estava agora mostrando que era possível fazer aquilo de imediato, com os recursos que a gente tinha. (CARLILE LAVOR, ex- secretário estadual de saúde).

114 O depoimento descrito acima também faz lembrar a Teoria da Definição de Objetivos (MOREIRA, 2013; LOCKE, 1996), na qual os objetivos e metas são uma motivação para que esses sejam alcançados. Quanto mais desafiadores eles forem, mais intensa será a vontade interior de buscá-los (LOCKE, 1996; LATHAM & PINDER, 2005). Essa grande motivação no primeiro governo Tasso Jereissati era consequência de um objetivo ousado, que era reduzir a mortalidade infantil em 40% no período de quatro anos, segundo o depoimento do Dr. Carlile.

Novamente, nesse contexto, é importante reforçar a necessidade de boas lideranças para que todos colaborassem para o alcance dos objetivos e metas. Bergamini (2002), entretanto, defendendo a teoria dos fatores intrínsecos, argumenta que um líder não tem a capacidade de gerar a motivação de seus liderados, mas que sua eficácia depende de sua competência em liberar a motivação que os liderados já trazem no seu interior. Nesse sentido, muitos dos entrevistados já demonstravam compromisso com a causa da criança ou sua motivação foi despertada pelos argumentos do Dr. Carlile, como se pode perceber no depoimento do Dr. César Forti “[...] O Carlile tinha muitas ideias e conseguia transmitir com facilidade aos membros da equipe seus objetivos. Com a sua liderança ficou fácil entender os caminhos propostos. ”

Esse depoimento do Dr. César Forti demonstra como o Dr. Carlile, mesmo na sua simplicidade, conseguia convencer os colegas de que a sua proposta era viável e todos se engajaram no plano de melhorar a saúde da criança.

6.1.2.3 Decisão Política e Compromisso Assumido de Investir na Saúde da Criança pelo