A motivação é um tema fundamental na administração de recursos humanos com vistas a alcançar as metas da organização, tendo em mente também a qualidade de vida e as condições de trabalho dos empregados uma vez que o entusiasmo dos membros da equipe é muito importante para a obtenção dos resultados.
Um aspecto muito presente na fala dos ex-governadores, novamente de forma destacada no período de 1987 a 1994, foi a maneira enfática como os técnicos de saúde (a maioria, médicos e muitos pediatras) falavam, de forma convincente e entusiasmada, do
96 potencial das ações básicas de saúde para a redução da mortalidade infantil. Essas falas eram entendidas até como uma forma de cobrança, tal era o entusiasmo. A motivação dos técnicos contribuiu, não somente, para a tomada de decisão em priorizar a saúde da criança no início do governo, especialmente a redução da mortalidade infantil, mas também para continuar a priorizar ao longo de toda a gestão. Esse entusiasmo contagiante e os argumentos técnicos podem ser entendidos também como uma forma de convencer que é possível executar.
A fala do ex-governador Tasso Jereissati destaca que a liderança, o entusiasmo e o amor à causa da infância, demonstrados pela equipe técnica, o motivaram e também ao restante da equipe, fazendo-os acreditar que seria possível alcançar os objetivos estabelecidos.
Não sei se foi só a liderança do grupo de vocês, naquela época. Teve um clima especial que criou aquela motivação. Foi algo fora de série, que é difícil se repetir, aquela motivação, o segredo de tudo para mim, que foi extraordinária que nunca mais eu vi. Foi aquele clima, no sentido da motivação [...]. Acho que havia um entusiasmo contagiante, todo mundo acreditava [...]. Foi um clima de entusiasmo e achando que poderia se conseguir, acho que havia aquele sentimento. E de novo, algo que nos motivava, digo, a equipe que não estava na rua. Havia aquela sensação de que nós estávamos mudando o Ceará e o Brasil [...]. Que o Brasil ia mudar, e que nós estávamos fazendo parte daquela mudança. Agora a maior mudança, revolução, foi na ponta, porque era com amor que as pessoas faziam aquilo. Com um amor intenso. [...] (TASSO JEREISSATI, ex-governador).
Ele também citou o clima de abertura democrática como um fator motivador para fazer a coisa certa, porém que nunca mais viu esse nível de motivação, conforme relata a seguir. “Tinha a volta da democracia, aquela sensação de que as pessoas tinham que ser mais participativas. Foi na época um conjunto de circunstâncias e que pegou, e realmente depois eu não vi mais”.
Depois de 20 anos de ditadura militar, o Brasil vivia um processo de redemocratização naquela década de 1980 (ALDANA; WINCKLER, 2010). Havia ao mesmo tempo no País um forte movimento político-sanitário, que teve um ápice com a realização da Oitava Conferência Nacional de Saúde, em março de 1986. Esse evento foi fundamental para a discussão sobre o tema da saúde na nova Constituição Federal de 1988, considerada por Ulysses Guimarães como a Constituição Cidadã (PAIM, 2013).
Ainda sobre o clima de motivação, Bergamini (1998) defende que o grupo social tem um papel preponderante no despertar da energia motivacional, destacando o importante valor das relações humanas, como o mais potente fator para despertar a motivação.
O ex-governador Ciro Gomes também cita, como um fator motivacional, a vivência prática e as afirmações contundentes dos técnicos que, apesar de em sua opinião trazerem um tom de
97 cobrança, foram consideradas por ele como positivas uma vez que também vinham respaldadas de justificativas técnicas e por organizações de grande credibilidade, como era o caso da Sociedade Brasileira de Pediatra.
[...] o Carlile que tinha tido uma vivência, e aí veio àquela história, uma cobrança que eu achei muito interessante [...] Eu me lembro muitas vezes das conversas e havia a cobrança que eu quero chamar atenção [...]. Surgiram vocês, jovens profissionais de saúde com uma concepção avançadíssima e com uma cobrança, no melhor sentido dessa palavra, contundente. Eu lembro bem a ideia de que a gente não acreditou quando veio [...], a Anamaria [Cavalcante] e a Sociedade Brasileira de Pediatria [...]. (CIRO GOMES, ex-governador).
Nesse resgate histórico, chama à atenção a capacidade do ex-governador Ciro Gomes de lembrar os detalhes da proposta técnica que era apresentada pelos pediatras em sua argumentação de que era possível fazer mais pela saúde das crianças.
Eu me lembro das conversas todas e tem que voltar o aleitamento materno, [...] infecção respiratória é muito simples de tratar [...]. Reidratação oral, inclusive com soro caseiro, mistura água com açúcar e sal, acompanhamento de peso e nutrição, uma coisa simples e a vacina, [...] a vacina está aí, mas estraga e ninguém aplica, e aí então vamos fazer e começou [...]. Até achar o limite do estrutural, da questão da pobreza tem muita coisa pra fazer e não precisa de muito dinheiro não. Isso foi o grande repto; assim, o grande desafio e aí foi feito e começou a ser feito experimental e começaram a se produzir recursos e resultados [...]. (CIRO GOMES, ex-governador).
A proposta apresentada pelo Dr. Carlile Lavor, em 1986, aos ex-governadores Tasso Jereissati e Ciro Gomes, estava em consonância com a iniciativa lançada pelo UNICEF, em 1982 e chamada de “Revolução pela sobrevivência infantil” (UNICEF, 1985). Tratava-se de uma estratégia baseada inicialmente em quatro intervenções eficazes, de baixo custo e simples de implementar, as quais ficaram conhecidas pela sigla GOBI referente a: GOBI (Growth Monitoring, Oral Rehydration Therapy, Breastfeeding and Immunization que corresponde respectivamente a monitoramento do crescimento, terapia de reidratação oral, aleitamento materno e imunização). Posteriormente foram acrescidas pelas ações FFF (Female Education, Family Spacing and Food Supplementation, referente à educação das mulheres, ao planejamento familiar e à suplementação alimentar). É importante destacar que, em 1986, o UNICEF já havia documentado algumas experiências de redução da mortalidade infantil como resultado da realização dessas ações, em grande parte, por meio da educação em saúde na atenção básica e com a participação de agentes comunitários de saúde (UNICEF, 1985). Desse modo, havia um respaldo institucional e, por que não dizer, científico à proposta. É importante destacar que, logo após a eleição de Tasso Jereissati a governador, a Dra. Anamaria Cavalcante manteve contato com o escritório do UNICEF no Brasil, com intuito de que a equipe dessa
98 organização internacional apoiasse a elaboração do plano de redução da mortalidade infantil no Ceará, demanda na qual foi atendida. Logo após assumir o Governo, ainda por sugestão da Dra. Anamaria, o governador eleito solicitou ao UNICEF que instalasse um escritório no Ceará, no que foi prontamente atendido (SILVA et al., 1999).
Os depoimentos dos ex-governadores Tasso Jereissati e Ciro Gomes deixam evidente que o entusiasmo dos técnicos os motivaram, assim como o restante da equipe do governo. Porém, ao se perguntar ao ex-governador Tasso se ele pessoalmente havia utilizado alguma técnica de motivação para animar a equipe, obteve-se a seguinte resposta:
Não houve nenhuma estratégia ou técnica planejada ou pensada. Acho que havia um entusiasmo contagiante, todo mundo acreditava. Não teve assim uma técnica, como hoje é muito comum, técnica de motivação, livro de autoajuda, não teve nenhum especialista que veio. (TASSO JEREISSATI, ex-governador).
E essa motivação que foi dos técnicos para os políticos voltou na forma de prestígio e apoio político para os gestores e técnicos da Secretaria de Saúde do Estado e, em especial, para os agentes comunitários de saúde, como relata a seguir o ex-governador Ciro Gomes.
[...] eles [os agentes de saúde] viraram elementos absolutamente populares. E tome emulação dos agentes comunitários de saúde e muita força pra eles. A vida inteira e em todos os lugares eu separava um lugar pra eles nas reuniões e distinguia como os meus anjos da guarda e do povo cearense e nós ganhamos o Premio do UNICEF [Maurice Pate] e aquilo também produziu um efeito em termos de motivação extraordinária. (CIRO GOMES, ex-governador).
O prestígio relatado há pouco e certo grau de autonomia é concordante com o relato de Lavor, A, Lavor, M e Lavor, I (2004, p. 125), quando descrevem as impressões da professora Judith Tendler, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, ao avaliar a experiência do Estado do Ceará com os agentes comunitários de saúde. Segundo esse autor, a professora do MIT descreve que:
Encontraram os agentes satisfeitos com o seu trabalho, estimados pelas famílias a que serviam e alcançando resultados animadores [...]. Descobriram no processo de trabalho do agente a mesma orientação teórica adotada recentemente pelas empresas que mais se destacaram no desempenho industrial e transformação do local de trabalho [...]. Uma orientação que reconhece que o trabalhador não deve seguir um protocolo rígido, nos moldes do modelo dominante por quase todo o século XX, na organização do trabalho das indústrias e dos serviços. Mas, ao contrário, que ele deve ser estimulado a desenvolver a sua inteligência para chegar aos objetivos, criando soluções novas no seu dia a dia.
99 Ainda segundo Lavor, A; Lavor, M e Lavor, I (2004, p. 125), a Dra. Tendler destaca “[...] que o processo de trabalho seguido pelos agentes contrariava os ensinamentos do Banco Mundial, que recomendava a obediência a protocolos nos países em desenvolvimento”.
Segundo SPINK, CLEMENTE e KEPPKE (1999, p.67)
O estudo de Tendler (1997) sobre o estado do Ceará também apontou uma conclusão simples, mas real: dê às pessoas o espaço para trabalharem e o encorajamento para encontrarem soluções, e elas geralmente as encontrarão.
Esses relatos sugerem que havia um modelo de gestão no Estado que buscava a motivação dos trabalhadores, inclusive com valorização e um determinado grau de autonomia. Apesar dessa autonomia relatada pela Dra. Tendler, é necessário destacar a importância de uma boa supervisão do trabalho desses agentes, como é apontado por Svitone et al. (2000, p. 4), ao escrever sobre o programa do Ceará: “dentre as chaves de sucesso do programa estão: a seleção cuidadosa dos agentes, a qualidade da supervisão e do treinamento”.
Ao mesmo tempo em que os agentes ficavam mais conhecidos e com prestígio junto ao Governo e na comunidade, também surgia a pressão dos políticos locais para interferir na seleção e contratação deles, porém havia uma firme decisão dos gestores de que não haveria essa interferência política. Ele relata “Os políticos queriam transferir, demitir e nomear, mas nós não permitimos, nós ‘blindamos’ o programa e eles [agentes de saúde] sentiram esse prestígio essa força junto ao Governo, ao Governador pessoalmente e ao secretário de saúde [...]”.
Silva et al. (1999) destacam que, tanto o Governador do Estado, como os secretários de saúde e outros assessores do Governo tiveram que ser firmes para mostrar às lideranças políticas do Ceará, as quais queriam influenciar a escolha dos agentes de saúde de forma clientelista, que essa prática não seria admitida.
Além dessa “proteção” do trabalho dos agentes de influências políticas, o ex-governador Ciro Gomes traz em sua fala mais um elemento que destaca a atuação desses trabalhadores como muito relevante para a relação entre o Estado e os cidadãos. Para ele, o Estado é bem-vindo na casa das pessoas se trouxer coisas práticas:
Eu acho que a possibilidade do Estado conseguir entrar na casa das pessoas legitimamente foi a chave de tudo. Nós conseguimos por meio do agente de saúde e talvez por um traço cultural que não sei se é muito transplantável. Agora mesmo nós estamos vendo dificuldades de entrar na casa das pessoas para prevenir a dengue, mas naquela data nós conseguimos com muita moral política e muita confiança da população. Nós conseguimos projetar o estado dentro da casa das pessoas, portanto o Estado era bem-vindo porque trazia coisas muito praticas. Essa ação de entrar confiavelmente na casa das pessoas é a chave para mim. (CIRO GOMES, ex- governador).
100 Essa boa aceitação da população ao trabalho dos agentes de saúde também é destacada por Tendler (1998), quando descreve a maneira como esses trabalhadores eram recebidos nas residências e sobre a relação de confiança mútua criada por meio deles entre o Governo e as famílias.
6.1.1.3 Sensibilidade com a Situação Epidemiológica da Saúde da Criança (Mortalidade