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Evalueringens problemstillinger

A partir da leitura exaustiva das falas dos ex-governadores entrevistados, a motivação que mais chamou a atenção, por meio da ênfase dada pelos ex-governadores, em

93 especial no período de 1987 a 1994, foi alguém tê-los convencido de que era possível reduzir a mortalidade infantil por causas pós-neonatais, com ações básicas de saúde, simples, eficazes e de baixo custo. Segundo as falas, esse fato foi o que mais contribuiu para que os governadores que atuaram de 1987 e 2002 priorizassem essas ações.

De acordo com a maioria dos entrevistados, o Dr. Carlile Lavor, médico sanitarista, foi a grande liderança que os convenceu para que priorizassem a saúde materno-infantil, conforme relato dos próprios ex-governadores: Tasso Jereissati e Ciro Gomes:

Quem na verdade me disse é possível [...] foi o Carlile quando explicou, é desidratação, e dando soro oral você resolve. Foi ele que deu o estalo, você resolve. É só isso [...]. E para essa desidratação, tem prevenção? [...] na minha visão de não especialista no assunto, era um problema muito mais complexo do que parecia. Realmente foi um estalo muito grande quando o Carlile disse, com isso você resolve. Pois se é só com isso,

vamos fazer! [grifo nosso] [...]. Normalmente tem toda uma filosofia da fome, das

origens da pobreza, isso é histórico [...]. É precisa melhorar o nível de educação, a renda, não sei o que mais. O estalo foi esse, é água, açúcar e sal. (TASSO JEREISSATI, ex- governador).

Oh, é simples. A gente achava dramaticamente impossível ou quase impossível, complicadíssimo. Que teria que reverter à miséria e distribuir melhor a renda e vocês diziam, sim, ok. Mas se atacar determinadas causas muito básicas, muito simples haverá resultados absolutamente surpreendentes. Como assim? (CIRO GOMES, ex- governador).

A proposta que o Dr. Carlile apresentou em 1986, ao então candidato a governador, Tasso Jereissati, tinha como referência uma experiência que ele vivenciara em cidades nos arredores de Brasília e no interior do Ceará. A iniciativa se baseava em experiências internacionais, inclusive defendidas pelo UNICEF, pelas quais seria possível reduzir a mortalidade infantil por meio de ações básicas de saúde promovidas por lideranças da comunidade, treinadas e supervisionadas por profissionais de saúde.

A experiência de Planaltina (cidade-satélite de Brasília) vivenciada e relatada pelo Dr. Carlile é referida na obra de Barbosa et al. (1977). Segundo esses autores, membros da comunidade já vinham sendo treinados em várias partes do mundo para promover a saúde e eles eram chamados por diferentes nomes. No caso de Planaltina, havia uma categoria especial de pessoal que foi chamada de auxiliar de saúde, apesar de também atuar na promoção do desenvolvimento social. Esses auxiliares recebiam um treinamento que durava seis meses, com 40 horas semanais, atuavam na zona rural e urbana e eram supervisionados por enfermeiros e assistentes sociais. O programa de agentes de saúde desenvolvido no Ceará e relatado por Svitone et al. (2000) tem muita semelhança com a experiência de Planaltina.

Nesse caso específico de motivação dos ex-governadores, havia uma liderança motivada (o Dr. Carlile) e com firme convicção de que era possível reduzir a mortalidade

94 infantil com ações básicas de saúde na comunidade. Ele convenceu o candidato e depois governador, Tasso Jereissati e também Ciro Gomes (naquele ano -1986 - deputado estadual e depois governador de 1991 a 1994), agindo como uma verdadeira liderança.

Um dos importantes papéis dos líderes que atuam na área social é influenciar políticas públicas, contribuindo para que sejam obtidas mudanças sistêmicas que visem o desenvolvimento humano sustentável e que tragam benefícios para a maior parte da população, especialmente aos que mais precisam (GHANEM, 2007). O Dr. Carlile teve um papel de líder com essa função social.

O líder precisa ter muita influência para que possa convencer não somente a sua equipe, mas também o seu superior de que a sua ideia tem muitas possibilidades de funcionar (LIMA, 2012).

Esse caso pode ser explicado com base na Teoria das Expectativas (MOREIRA, 2013; LOCKE, 1996; LATHAM & PINDER, 2005), pois a motivação do Dr. Carlile para melhorar a saúde da criança era baseada em seu nível de expectativa com relação ao resultado esperado, que era a redução da mortalidade infantil e da influência desse resultado sobre ele.

Mesmo com uma causa justa e uma boa liderança, como se configurava ser o Dr. Carlile, os acontecimentos e as informações só tiveram uma forte influência na tomada de decisão porque existia previamente uma condição favorável (PINTO, 2010) que era a vontade de fazer algo pela criança, como demonstra a fala a seguir do ex-governador Tasso Jereissati.

[...] nós juntamos a vontade que já tínhamos de fazer algo pela criança, com a ideia de focar e perseguir aquele objetivo, já que era possível em termos de custo, implantando o programa sugerido pelo Carlile, da maneira mais simples possível, com o apoio do senhor John Donohue do UNICEF [Representante no Brasil]. (TASSO JEREISSATI, ex-governador).

A fala a seguir mostra que a vontade e a necessidade de avaliar e comprovar os resultados das ações do Governo do Estado também se tornaram determinações políticas, pois havia a constatação de uma dificuldade nessa área pelo relato de experiências anteriores.

Outra dificuldade que vinha da minha própria formação profissional e de vida era como fazer algo que fosse possível avaliar os resultados. [...] e ninguém avaliava o resultado objetivamente. Havia programas, mas ninguém avaliava [...]. Como era que a gente podia fazer uma avaliação objetiva dos resultados daquele trabalho. (TASSO JEREISSATI, ex-governador).

95 Esse fato chama a atenção, porque no ano de 1987, não era comum identificar governos preocupados em demonstrar os resultados de suas ações. Além disso, havia pouca cobrança da sociedade com relação ao monitoramento das ações públicas.

Isso mudou bastante e nos últimos anos, o conceito de administração pública tem sido cada vez mais relacionado à função fundamental do Estado como executor direto de políticas públicas e da oferta de serviços, com o acompanhamento da sociedade. Esse novo conceito vem sendo reforçado pela ideia da gestão baseada em resultados, que depende de um bom planejamento, implementação, monitoramento e avaliação adequados (BRASIL, 2009).

A gestão por resultados, segundo Porta, Santos e Palm (2015, p. 3),

pode ser entendida como uma ferramenta cultural, conceitual e operacional, que se orienta a priorizar o resultado em todas as ações, e que é capaz de otimizar o desempenho governamental. Trata-se de um exercício de direção dos organismos públicos que procura conhecer e atuar sobre todos aqueles aspectos que afetem ou modelem os resultados da organização.

Nesse modelo de gestão, durante o planejamento, os objetivos são apresentados como resultados que se esperam alcançar, e em toda a coordenação e implementação dos planos, programas e projetos, predomina a orientação por resultados (GOMES, 2009). No caso do Ceará, a preocupação com a avaliação dos resultados da ação do governo já existia desde o seu início, sinalizando para os princípios da gestão por resultados.

Com relação às iniciativas de planejamento governamental no Ceará, é interessante destacar o que relata Lima (2015), segundo o qual o ex-governador Virgílio Távora, logo após ter assumido o seu mandato do período de 1963 a 1966, solicitou a elaboração do I Plano de Metas Governamentais (I PLAMEG), sendo essa a primeira experiência efetiva de planejamento no Ceará, segundo esse autor.