Durante o trabalho, um policial confidenciou o relato a seguir. Era aparentemente um dia de trabalho normal, quando ele se assustou com o número de pebas, logo no início do serviço. Havia mais de 50 em uma rua, todos sentados no meio-fio. Disse que nunca havia visto tantos pebas juntos. Não entendia o que estariam planejando e quais seriam as ações de um grupo tão grande de pebas. Chamou reforço policial de imediato. Todas as viaturas atenderam à solicitação e chegaram o mais rápido possível.
Montaram o cerco policial de modo que nenhum indivíduo conseguiria sair ou entrar na rua sem que fosse notado e, conseqüentemente, revistado. Foi ordenado que todos virassem para os muros das residências e colocassem as mãos nas paredes. Segundo o policial entrevistado, todos os muros de um lado da rua ficaram sem espaço para mais abordagens.
O grande contingente de policiais e de viaturas “garantiu a segurança” para a realização da operação. Todos foram abordados, revistados e as buscas pessoais realizadas. Após todos os procedimentos de segurança a revistas, os indivíduos foram questionados do porquê da reunião tão cedo e em tão grande número. A resposta foi imediata e surpreendente para os policiais: estavam esperando o pagamento de um trabalho realizado como cordeiro no evento da semana anterior.
Ser cordeiro é ser o indivíduo limítrofe do evento Micarê Candanga. Nesse evento, havia a contratação de pessoas para segurarem cordas em voltas do trio-elétricos para garantir que ninguém ultrapasse o espaço reservado aos pagantes de abadás, camisetas que são ingressos para essas festividades. Como o número de pessoas que seguram a corda é grande, pode-se perceber uma verdadeira corda humana em volta do veículo sonoro. Há a
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dicotomia na festa dos pagantes com o abadá e os pipoqueiros, indivíduos que seguem o veículo para divertir, mesmo sem a mesma estrutura logística que os pagantes têm.
A corda humana é o limiar entre os pagantes e os não pagantes. Os componentes dessa corda são moradores das cidades satélites que recebiam, em média, trinta reais por noite. Há uma dúbia percepção de exploração: não é um emprego formal e nem tem as garantias decorrentes dessa formalidade; entretanto, “a corda humana” desfruta de melhor local para se divertir que os pipoqueiros, o discurso é que vão para se divertir e ainda recebem por isto.
Os abordados eram os componentes dessa corda humana. Estavam aguardando o “empresário” que os havia “contratado”. O grande número de pessoas no local se explicava pela quantidade que são contratados em uma determinada região para compor a corda e facilitar o transporte de todos. Os policiais liberaram todos após terem as devidas explicações da aglutinação.
O controle sobre a quantidade de pessoas juntas nem sempre é apresentado em tais proporções, seja pelas pessoas abordadas, seja pelos indivíduos abordando. E nem sempre essa interação tem tamanha proximidade. Entretanto, a suspeição é mantida. Durante o serviço policial, são verificadas pequenas aglomerações em esquinas, próximas às escolas ou próximas às fogueiras, à noite.
A dispersão dos grupos por abordagens ou, até mesmo por rotineiras passagens dos policiais com as viaturas, são algumas das técnicas utilizadas para demonstrar que esses grupos estão sendo vigiados.
Ressaltamos que nem todos os pequenos grupos são dispersados. A suspeição quanto ao número de pessoa depende de várias configurações como, por exemplo, se os indivíduos que o compõem se aproximam ou não do tipo suspeito. Do mesmo modo, o controle dos grupos dá-se pela representação que estes grupos têm. Quanto mais os componentes se aproximarem da suspeição (indivíduo, situação, horário ou espaço geográfico), mais serão vigiados.
Notadamente, os grupos mais vigiados são as aglomerações de pessoas que trazem consigo alguma característica de grupos de Hip Hop e rappers, como foi salientado anteriormente, e trazem consigo o estigma de ter seus trajes percebidos como kit peba. O movimento Hip Hop surgiu nos Estados Unidos na década de 1960 como forma de reação aos conflitos sociais vigentes e às violências que determinados segmentos da sociedade
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sofriam. É uma forma cultural tipicamente urbana que envolve quatro segmentos de manifestação: o grafite (pintura), a dança, os MC’s (que compõem rimas improvisadas) e os DJ’s (que instrumentalizam os sons).
Os componentes dessas manifestações culturais reivindicam espaço político e a “audição” das vozes da periferia. As letras das músicas geralmente são questionadoras da ordem vigente e agressivas, assim como as imagens dos grafites que trazem cores fortes e figuras que compõem a periferia e a percepção do grupo da realidade social.
Já no Brasil, o movimento foi adotado por jovens e negros das periferias das grandes cidades. No Distrito Federal, são mais comuns entre os grupos de jovens das cidades satélites, que protestam contra o preconceito racial e a exclusão dos jovens da periferia como protagonistas do cenário político e econômico.
A dança, a linguagem adotada, as roupas, o ritmo do andar, as expressões faciais quase sempre sérias quando há pessoas que não são do grupo presente e a música característica e única compõem a cultura Hip Hop. Nesse sentido, quando há a vigilância desses grupos, trata-se de um controle cultural. Assim, percebemos que os policiais distinguem os grupos da ou pela manutenção da ordem vigente (grupos religiosos cristãos ou grupos de músicas “caipiras” ou tradicionais, por exemplo) e grupos de conflitos ou da reconstrução da ordem.
Entretanto, os grupos suspeitos não se limitam apenas aos grupos de “sub-culturas” urbanas, mas também a grupos que questionam a ordem de alguma forma, como a ordem política ou ordem econômica. Grupos grevistas também são percebidos por meio desta lógica. A expectativa criada pelos policiais pelas ações desordeiras de determinados grupos pode ser medida pelos recursos humanos e materiais dispostos nas operações em determinados eventos. A disposição dos materiais (equipamentos como capacetes, tonfas, armas químicas, tipos de viaturas e alguns tipos de animais, como cavalos e cachorros) e as unidades especializadas envolvidas (BOPE, ROTAM, BPTRAN e/ou GOA) caracterizam o tipo de suspeição, a previsibilidade da ação policial, além de determinar a percepção policial de quanto determinado grupo está concernente com a ordem dada.
Em eventos religiosos, por exemplo, há apenas a preocupação do controle do trânsito e da prestação de serviço, como manter livre o local de socorro ou manter todos em calma para que não haja “atropelos” ao término do evento.
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Já em passeata ou concentração de grupos grevistas, além da preocupação como controle do trânsito, há a preocupação de mantê-los sob o controle, não permitir que dispersem sem autorização, que transitem em determinados locais. Além dos policiais presentes no local, sempre há policiais de contenção (Policiais com viaturas, cavalos, entre outros) em locais próximos para que, “se necessário”, sejam utilizados para a contenção dos grupos e para a preservação da ordem pública.
Quando o grupo MST agenda uma concentração na Esplanada dos Ministérios, todos os postos rodoviários da Polícia Militar são orientados para pararem os ônibus que transportam os integrantes do movimento e para contarem todos os passageiros. Todavia, entendemos que essas ações são uma forma de demonstrar que todos estão sendo vigiados desde os limites da entrada de Brasília. O aparato policial montado para esses eventos também obedece à lógica dos grupos suspeitos de desordem social.
Contudo, cabe questionar até onde essas lógicas apresentadas de construção do suspeito aproximam-se das percepções criadas socialmente. Será que os suspeitos policiais assemelham-se às percepções sociais de criminoso? Como a população reage quando é abordada e revistada? Estas são algumas questões apresentadas no próximo capítulo.
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