A organização operária bracarense foi sempre motivo de desagrado não só para os correspondentes dos jornais operários, mas também para os militantes que vinham à cidade fazer sessões de propaganda sindical.
Em fevereiro de 1916, o correspondente d’A Aurora acusava o operariado bracarense de inação perante o açambarcamento de géneros, resultado do «caos em que se encontra a
211 Cf. s/a, «Braga, 22: açúcar da câmara. Várias notícias», A Batalha, 29 de junho, 1920: 2. 212 s/a, «Braga: 7 de agosto», A Batalha, 13 de agosto, 1922: 2.
213 s/a, «Braga, 22: açúcar da câmara. Várias notícias», A Batalha, 29 de junho, 1920: 2. 214 s/a, «Braga: 20 de julho», A Batalha, 24 de julho, 1922: 3. Itálico no original.
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organização operária desta cidade, que vive sem ação, sem um fim nem orientação»215. De acordo
com o mesmo correspondente, os operários bracarenses tinham as suas associações de classe e sindicatos, mas estas não reivindicavam os seus interesses.
Em setembro de 1919, o correspondente d’A Batalha também recriminava os operários bracarenses por transigirem com o açambarcamento de géneros, afirmando que «se a roubalheira de que são vítimas os operários de Braga se desse noutra terra onde as associações de classe existem, já um grande movimento reivindicador teria estalado há muito pondo cobro a isto»216. Mais
uma vez, a culpa é atribuída às associações de classe e sindicatos, existentes mas inativas. As afirmações dos correspondentes d’A Aurora e d’A Batalha sobre a inércia operária perante o açambarcamento de géneros e a carestia de vida não são verídicas, uma vez que o operariado bracarense era ativo na luta contra estes dois problemas, como veremos mais à frente.
Em junho de 1921, Manuel Joaquim de Sousa veio a Braga como delegado da CGT para verificar o estado da organização operária da cidade (ver anexo 4). O delegado concluiu que o operariado bracarense «sofre do vício religioso, como sofre do vício político, como do vício da taberna»217. Ou seja, os operários bracarenses não prestavam tanta atenção à sua associação de
classe ou sindicato como davam aos assuntos que não lhes interessavam diretamente.
Contudo, Manuel Joaquim de Sousa reconhece que, em 1921, a organização operária bracarense estava mais ativa que em 1919, possivelmente como resultado da propaganda sindical que era feita. Efetivamente, na pesquisa realizada constatámos que os operários bracarenses fizeram 37 reclamações e realizaram 26 greves, de 1919 a junho de 1921. Ainda assim, a organização operária bracarense não era forte como deveria ser, até porque «as taras da servidão marcam a maioria dos trabalhadores, não obstante notar-se, uma vez por outra, certo espírito de rebeldia, em manifestações isoladas»218.
Em janeiro de 1923, o correspondente d’A Batalha voltava a acusar os operários bracarenses de completa falta de organização, «sendo uma dolorosa mentira a organização sindical desta cidade, que contou já organizadas doze classes, não restando hoje desse número mais que três»219. Verificámos que o operariado bracarense contou, durante o ano de 1923, com
215 s/a, «A Aurora na província», A Aurora, 6 de fevereiro, 1916: 7.
216 s/a, «Braga, 23: a apatia do operariado. O que urge fazer», A Batalha, 26 de setembro, 1919: 3.
217 Manuel Joaquim de Sousa, «A organização operária em Braga não corresponde ainda à importância da terceira cidade do país», A Batalha, 7 de
junho, 1921: 1.
218 Id., ibid..
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dez associações de classe e sindicatos, podendo dar-se o caso de em janeiro não estarem organizadas, efetivamente, mais do que três.
Tentando resolver o problema da falta de organização, em julho do mesmo ano a Delegacia Confederal de Propaganda do Norte enviou a Braga o delegado Joaquim Caetano Rainha. Numa reunião do delegado com as classes operárias bracarenses, decidiu-se realizar uma conferência intersindical para fortalecer a organização operária de Braga220. A conferência realizou-
se nos dias 5 e 6 de agosto, com a presença de Felisberto Baptista e Inácio dos Santos Viseu, delegados da Delegacia Confederal do Norte (ver anexo 5).
Santos Viseu iniciou a conferência, «lamentando que Braga, um grande centro industrial, não tenha imitado até hoje, outras cidades, organizando-se fortemente para que amanhã possa demonstrar ao patronato que não se brinca impunemente com aqueles que tudo produzem»221.
Guilherme Pinto, operário bracarense e membro da comissão organizadora da conferência, propôs à discussão da assembleia um documento com pareceres sobre a reorganização operária bracarense. O documento preconizava a) a reorganização da USO através de sessões de propaganda nas associações de classe e sindicatos bracarenses, b) a criação de uma biblioteca de estudos sociais, c) que militantes portuenses e membros da Delegacia Confederal de Propaganda do Norte fossem enviados a Braga para realizarem sessões de propaganda, d) a publicação mensal de um boletim informativo sobre a organização operária local222.
A conferência continuou no dia 6 de agosto, com a presença de delegados da construção civil de Ferrol, Espanha, «que vieram a esta cidade participar aos seus colegas bracarenses que os construtores civis de Ferrol se encontram em luta contra o patronato e que necessário se torna que nenhum operário da construção civil portuguesa fosse trair o movimento daqueles nossos camaradas além-fronteiras»223. A conferência prosseguiu com a discussão sobre a reorganização
do operariado bracarense, terminando «no meio da maior alegria, manifestando todos os congressistas uma grande boa vontade para o conseguimento dos objetivos que ela pretende ferir: – a organização das classes trabalhadoras desta cidade»224.
220 Cf. s/a, «Braga: 9 de julho», A Batalha, 11 de julho, 1923: 3.
221 s/a, «Conferência intersindical de Braga», A Batalha, 7 de agosto, 1923: 3. 222 Cf. id., ibid..
223 s/a, «Conferência intersindical de Braga», A Batalha, 9 de agosto, 1923: 3. 224 Id., ibid..
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Todavia, o operariado bracarense continuaria desorganizado. Em dezembro de 1923, quatro meses depois da conferência intersindical, Silva Campos e Jerónimo de Sousa, delegados da CGT, vieram a Braga em missão de propaganda organizativa. Os delegados afirmaram
a necessidade que tem a classe operária, de se preparar para a emancipação da tutela burguesa, uma vez que os aumentos de salários são melhorias transitórias e que muitas vezes nem chegam a compensar os sacrifícios feitos para se alcançarem. É indispensável –
disseram – que os operários por intermédio dos seus organismos se aprestem para a
expropriação capitalista225.
Seria, por conseguinte, apenas através de uma forte organização que os operários bracarenses conseguiriam fazer valer as suas reivindicações e emancipar-se da tutela burguesa. Numa reunião da USO, onde também estiveram presentes aqueles delegados da CGT,
todos os presentes se convenceram da necessidade de robustecer os organismos sindicais, como meio mais viável à defesa das regalias conquistadas e à abolição do regime burguês. Assim, reconheceu-se que é indispensável dedicar a máxima atenção à propaganda e fazer todos os esforços, para que os organismos tenham uma maior vitalidade, bem como mais
persistência da parte dos militantes226.
A propaganda, mesmo que insuficiente, era efetuada, mas os operários bracarenses não abandonavam o seu alheamento que lhes era característico. Em setembro de 1924, o correspondente d’A Batalha indignava-se com o facto de apenas estarem organizados dois sindicatos227. Durante o ano de 1924, o operariado bracarense teve dez associações de classe e
sindicatos ativos, como comprovámos, podendo dar-se o caso de, em setembro, apenas estarem organizados dois.
Quais os motivos da fraca organização do operariado bracarense? Uma das principais razões está no facto de, quando a ideologia anarcossindicalista tomou conta do operariado português, no início do século XX, os seus propagandistas terem negligenciado a região do Norte, tal como afirmava o correspondente d’A Aurora: «a província do norte tem sido esquecida
225 s/a, «Propaganda: na cidade de Braga», A Batalha, 4 de dezembro, 1923: 3. 226 Id., ibid..
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bastantemente pelos propagandistas das novas ideias, e o terreno é bem árido para a sua semente»228.
Como vimos, em Braga a propaganda associativa/organizativa só começou a intensificar-se com a criação da CGT. Ainda assim, com as sessões de propaganda que foram feitas, o operariado bracarense continuou a não ter uma forte organização. O motivo, de acordo com o já referido pelos delegados propagandistas e os correspondentes dos jornais operários, está relacionado com o facto de os operários darem mais atenção à política, à missa e à taberna do que às suas associações de classe e sindicatos. Mas não só. O operariado bracarense estava desorganizado, porém tentava reorganizar-se, provando que
o trabalhador bracarense não é refratário à organização. Está por enquanto mergulhado naquela indiferença que leva anos a desfazer, mas que a propaganda persistente pode destruir. Possui o operaria naquela cidade uma qualidade admirável – a curiosidade. É esta curiosidade que é preciso aproveitar, satisfazendo-a com uma propaganda emancipadora e persistente. […] Há em Braga uma falta enorme de propagandistas capazes de enfrentar com conhecimentos sociais a reação clerical-capitalista. Parece-nos, entretanto, que se a propaganda naquela cidade fosse intensa, fácil seria surgirem das massas temperamentos enérgicos e apaixonados que imprimissem à luta uma grandeza capaz de conter em respeito
a burguesia que lá é, como em toda a parte, forte e aguerrida229.
Todavia, não era apenas em Braga e na região do Norte que o operariado estava desorganizado e com falta de propaganda. Nos anos 20, a organização dos operários portugueses ressentiu-se, em virtude da sua cisão. Em fevereiro de 1923, um articulista d’A Batalha admitia que «vai-se verificando cada vez mais a necessidade de uma ativa propaganda nos elementos operários. As classes laboriosas, possuídas de uma inação que não se justifica na situação presente, precisam de ser despertadas, a fim de receberem uma educação revolucionária»230.
Em novembro de 1925 a situação mantinha-se. Marcelino Pedro, articulista d’A Comuna, reconhecia que a falta de propaganda era o motivo da indiferença operária, defendendo que «é necessário, pois, longe de cairmos o desânimo e na negligência, que intensifiquemos a nossa
228 s/a, «A Aurora na província», A Aurora, 6 de fevereiro, 1916: 8.
229 Mário Domingues, «A católica cidade de Braga», A Batalha, 30 de abril, 1924: 3. 230 s/a, «Robustecendo os organismos», A Batalha, 28 de fevereiro, 1923: 1.
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propaganda, pela palavra, pela pena, enfim, de todas as maneiras de forma a tornarmos extensivas a toda a parte as vantagens duma forte e sólida organização»231.
Efetivamente, a CGT promovia o quanto podia o envio de delegados para sessões de propaganda organizativa. A questão é que, pela falta de recursos, não se pôde fazer propaganda suficiente.
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