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A propaganda era essencial para que os operários se inteirassem dos assuntos sociais, se interessassem pela vida associativa e se preocupassem com a sua formação. A propaganda, na ótica dos militantes operários, era especialmente importante na província, onde a organização operária era mais fraca. Como afirmava um articulista d’A Batalha,
esta necessidade duma grande propaganda, intensiva, constante, tenaz, que leve a todos os recantos portugueses a ideia de emancipação, é por todos conhecida. O trabalhador da província está, mais que o da capital, imbuído de preconceitos, iludido pela política, dominado pela religião. […] É preciso convencer o operário da província que é mais proveitoso ir para o sindicato que ir para a missa. É preciso pôr-lhe diante dos olhos tudo o que de mau a política lhe tem feito, para que ele, assim busque novos rumos, caminhos
novos, horizontes mais amplos100.
Boa parte da propaganda feita tinha um carácter associativo/organizativo, com uma grande carga ideológica, isto é, apelava para que os operários se associassem nas suas associações de classe ou nos sindicatos, nomeadamente para preparar a emancipação social. Foi o caso de uma sessão de propaganda realizada na Associação dos Caixeiros, em dezembro de 1916, com a participação de Alberto Paulo Osório, caixeiro portuense. O conferente
desenvolveu com muita proficiência o tema – ‘os deveres e os direitos do caixeirato
português; história das suas reivindicações’ – referindo-se largamente à ação das associações de classe. Combateu a conservação dos patrões adentro dos grémios dos caixeiros, recomendando uma conscienciosa remodelação dos Estatutos. Nesta ordem de ideias, que os assistentes ouviam com geral agrado, espraiou-se em longas considerações, afirmando ser utilíssima a introdução nos referidos Estatutos dum artigo nesse sentido, que julga essencialíssimo para assim se garantir a independência de ação das associações desta
natureza101.
100 s/a, «A propaganda na província», A Batalha, 2 de fevereiro, 1920: 1.
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Esta conferência, ouvida com interesse pela assistência, destacou a importância da associação para o sucesso das reivindicações. Sucesso que teria inevitavelmente que passar pela ação direta: as reivindicações do caixeirato teriam êxito se os patrões não fizessem parte das associações de classe, uma vez que os trabalhadores e o patronato tinham interesses opostos.
Outro exemplo de propaganda associativa foi a sessão realizada em maio de 1919, na sede da AC das Quatro Artes da Construção Civil, sendo participantes o editor do jornal A Batalha, Joaquim Cardoso, e de Manuel Soares e David de Sousa Ramos, delegados da Federação da Construção Civil de Lisboa e Porto, respetivamente. Estes conferencistas vieram a Braga
com a incumbência de levantarem o espírito e promoverem a unificação da classe que representam. Após justíssimas considerações sobre os irrisórios salários auferidos pelo operariado bracarense, definiram aqueles camaradas de uma forma clara e concisa o papel que ao sindicato operário está reservado na sociedade futura como regulador da produção,
salientando igualmente as vantagens das Federações de indústria102.
No ano seguinte, em fevereiro, a Federação da Construção Civil enviou novamente delegados seus a Braga, mais uma vez com o objetivo de fazer propaganda sindical. Os delegados, João de Deus Simões e Augusto Vítor Martins, «fizeram ver a assembleia o quanto é útil aos operários, o serem sindicados, quais as suas felicidades desse passo emancipador, e qual a ventura ou frutos que eles amanhã hão de colher»103. O passo emancipador, isto é, da união de
toda a classe num sindicato, viria a ser feito mais tarde, quando a classe da construção civil se constituiu em sindicato único. Não temos informações sobre os passos para a formação do SU da Construção Civil, nem a data em que foi formado: a primeira referência sobre este SU aparece numa notícia, em dezembro de 1920, que A Batalha publicou104.
Em abril de 1920, Raul Duarte e Jaime das Neves Guimarães, delegados da Federação da Indústria de Calçado, Couros e Peles, vieram a Braga em missão de propaganda, pois a Federação considerava que os manufatores de calçado bracarenses eram a classe mais desorganizada do Norte. A organização da classe era necessária, admitindo os delegados no seu relatório que
102 s/a, «Braga, 12: propaganda sindical. As eleições. A Batalha», A Batalha, 16 de maio, 1919: 2.
103 s/a, «Braga, 30: delegados da Federação Nacional da Construção Civil. Reunião da Construção Civil. A vida cara e difícil. Reunião da União
Local», A Batalha, 3 de fevereiro, 1920: 3.
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os militantes daqui não compreendendo o alcance moral e de organização que oferece a centralização da nossa indústria, deixam-se acorrentar pelo egoísmo de fazerem muitos
pares, explorando desta forma os ajudantes que têm ao seu serviço. Mais: eles são coniventes na infamíssima exploração que os industriais, velhos e novos-ricos, exercem em
especial no pessoal feminino, que trabalhando 12 e 13 horas por dia, auferem fabulosos
ordenados que variam entre $40 e $80105.
Porém, os delegados da Federação não foram bem recebidos, sendo alvos de uma campanha difamatória promovida pelos industriais e por alguns operários do sector, que afirmavam que a Federação tinha enviado delegados para revolucionar a classe, declarar uma greve e impedir a remessa das cadernetas confederais. Em junho, vendo-se impossibilitados de agir, os delegados da Federação recomendaram à USO que organizasse as classes desorganizadas, cumprindo a função para que fora criada106.
De facto, em junho de 1920, a USO iniciou uma série de sessões de propaganda, não sabendo nós se por coincidência ou por acatamento da recomendação dos delegados lisboetas, a qual se iniciou na AC dos Operários Chapeleiros, com o objetivo de «expor os fins da organização»107. A AC dos Assentadores e Canteiros, a AC dos Operários Fabricantes de Prego e a
AC dos Lavradores-Caseiros e Jornaleiros também teriam direito a sessões de propaganda. No mês seguinte, em julho, no SU Metalúrgico, o operário metalúrgico portuense Mendes Gomes realizou uma conferência sobre os benefícios da associação. Mas não foi a conferência que foi notícia. Depois da sessão de propaganda,
quando ele [Mendes Gomes] se retirava para ir descansar, cerca das 24 horas, foi abordado, junto à porta do sindicato, pelo chefe da 2.ª esquadra, que acompanhado com alguns guardas, o prendeu, conduzindo-o para o comissariado da polícia, onde esteve preso até quarta-feira [no dia seguinte à sua prisão], às 13 horas, acusando-o de fazer propaganda
dissolvente108.
105 Raul Duarte e Jaime das Neves Guimarães, «Propaganda sindicalista: aos operários manufatores de calçado de Braga», A Batalha, 12 de junho,
1920: 3. Itálico no original.
106 Cf. id., ibid..
107 s/a, «Braga, 1: a vida impossível. Os padeiros têm as 8 horas. Sessão solene. Propaganda associativa. Greves», A Batalha, 6 de junho, 1920:
3.
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Quando se soube dessa prisão, o correspondente do jornal A Batalha mais o operário bracarense João Fânzeres dirigiram-se ao comissariado de polícia, onde fizeram «uma pequena conferência sobre o abuso praticado»109, pelo que Mendes Gomes foi restituído à liberdade. Esta
prisão gerou veementes protestos, principalmente da classe metalúrgica, que condenou «o estúpido atentado à liberdade de pensamento»110. Na realidade, era bastante comum, na I
República, a prisão arbitrária de operários militantes, facto que era frequentemente criticado na imprensa operária, como já referimos.
Para além desta propaganda associativa, também havia propaganda que não tinha cariz reivindicativo. Em novembro de 1913, a Associação de Classe Comercial, aquando da inauguração das suas aulas, promoveu uma sessão de propaganda, onde os oradores louvaram «todos a instrução, como elemento essencial de engrandecimento dos povos. Por fim, o sr. presidente [da direção, Casimiro Silva] referiu-se à boa doutrina dos discursos proferidos e exortou todos os presentes a dedicarem-se ao estudo e a pugnarem pelas prosperidades da associação»111.
Não era só a educação que esta associação propagandeava. Em outubro de 1914, os caixeiros decidiram «promover uma ativa campanha contra a taberna, distribuindo-se com frequência vários manifestos e folhas soltas, em que se afrontem os perniciosos efeitos do alcoolismo, com a transcrição de opiniões abalizadas sobre o assunto, etc.»112. A taberna era um
problema que preocupava os militantes operários, uma vez que consideravam que o operariado bracarense passava mais tempo na taberna do que na associação de classe ou no sindicato. O correspondente do jornal A Batalha admite que «os operários aqui [em Braga] não querem saber do movimento associativo, e os seus interesses coletivos são postos de parte, para se atender aos interesses do vinho»113.
E era para se atender aos interesses coletivos que «se fala ou escreve para os proletários, despertando-lhes o sentimento da sua missão na vida, acordando neles o espírito de revolta que a educação submissa lhes adormeceu»114. Por outras palavras, a propaganda associativa era feita
com o objetivo de organizar os operários para levarem a efeito a emancipação social.
109 Id., ibid..
110 s/a, «Uma prisão em Braga», A Batalha, 20 de julho, 1920: 1.
111 s/a, «Associação dos caixeiros: abertura das aulas», Ecos do Minho, 13 de novembro, 1913: 3. 112 s/a, «Associação de Classe Comercial (caixeiros)», Ecos do Minho, 6 de outubro, 1914: 2.
113 s/a, «Braga, 26: União Local. A greve dos manipuladores de pão. Açambarcamentos de géneros. Várias», A Batalha, 29 de janeiro, 1920: 3. 114 José do Valle. «Consciência operária», O Sindicalista, 5 de fevereiro, 1911: 1.
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Em suma, todas estas ações de solidariedade, assistência, educação e propaganda, contribuiriam para a emancipação social, sendo a prova de que, como declarava Alexandre Vieira, «o operariado e a sua organização de classe não se abstiveram de prestar, simultaneamente [com a luta económica], atenção aos problemas de interesse geral, neles incluídos os do espírito»115.