As diversar expressões da violência unificam essas narrativas. Seja como elemento constante de preocupação, ou como experiência vivênciada de práticas racista veladas ou explícitas, as falas indicam a centralidade da questão na condição de homens e mulheres em suas realidades familiares.
O medo era o seguinte: eu não tinha estudo. Por não ter estudo, você não tem poder aquisitivo. Se eu tivesse estudo e poder aquisitivo, colocaria meus filhos para estudar num bom colégio. Mas eu não tinha e você sabe, quem sofre é o pobre. Pobre e negro são marginalizados. Eu, hoje, ainda sofro por ser pobre e negra. Outro dia fui à igreja de Santa Tereza, na João Cachoeira, no Itaim Bibi. Eu trabalho um pouquinho pra cá. A cunhada da mulher para quem trabalho é voluntária lá me ofereceu uma cesta básica e eu fui buscar. Eu estava de pé na porta da igreja, quando passaram duas madames, levando brinquedos e roupas. Uma me olhou de cima abaixo, não na minha cara, mas reparando na minha roupa. Eu ainda sofro, por ser negra e pobre: em shopping, às vezes na condução, de gente que não quer sentar perto de mim. Ainda existe o preconceito (Ana). O Ito, que agora é motoboy, já foi barrado não sei quantas vezes, por ser negro. O negro não pode ter nada. Tudo o que ele tem, a polícia acha que é roubado (Idem).
Verifica-se que elas depositam esperança no poder de superação obtido com o processo de escolarização. Essa ansiedade não é vista de forma ingênua, pois percebe-se que a instituição escola, assim como todas as outras, é fruto de uma estrutura racista e que as práticas internas também perpetuam a discriminação através de seus agentes. Mas apesar de dubiedade, é atráves dela que lugares sociais de poder podem ser ocupados.
Quer homem negro ou mulher, você tem que estudar. Tem que ocupar lugar nessa sociedade, tem que dar a cara à tapa, tem que forçar e ir em frente. Eles não fizeram isso. Eles conhecem a história deles, são militantes, mas não forçaram o ocupar lugar nessa sociedade. Por isso eu queria um filho gênio, ele iria longe, a gente iria trabalhar num ambiente propício. Porém, a gente não deve ter muita
124 expectativa. A vida é deles, mas eu queria além. Mas eles entendem a cultura, têm orgulho de ser negros. Tanto é que a menina trabalha com cabelo afro, o caçula trabalha com cultura afro (Neusa).
Eu gostaria que todos eles tivessem estudado, embora não houvesse nada de graça, naquele tempo, como tem agora. Eu queria que eles já fossem se encaminhando, que pegassem uma profissão para sobreviver, porque pai e mãe não duram para o resto da vida. Nem que fossem gráficos, pedreiros, mecânicos ou o que fosse (Ana).
Não, o branco tem mais chances. Numa fila de trabalho, meu filho pode ter qualificação e muita experiência e currículo. Mas o que vai acontecer, que já aconteceu, é que ele passa na entrevista, mas não o chamam para trabalhar. Aquele que menos sabe, mas é branco, é o que fica. Todos nós já passamos por isso, todos nós. Mas eu digo todos os dias: sou negra e me orgulho disso, porque ultrapassei todas as barreiras. Adoro a minha cor, o meu cabelinho duro. Adoro a minha raça, eu não renego. Eu não tenho vergonha de ser negra, e nem de ser pobre também (Sueli).
Nosso projeto de vida se resumia a pensar o futuro dele. Além de bons colégios, cursos, viagens, tudo o que podíamos oferecer. Mas não depende apenas da nossa vontade, né (Valdete).
Também são muitos os casos em que, na fala dessas mulheres aparece o elemento fracasso, em que as lágrimas, a voz embargada e o olhar perdido expressam a condição de alguém derrotado diante da luta. Mais do que o sonho desses filhos, aqui está o projeto dessas mulheres que, buscando construir um lugar ao masculino negro, veem-se diante do fracasso, adiando dessa forma a consolidação do lugar social que ela quer ver consolidado.
Sempre torci e rezei para meus filhos não sofrerem esse tipo de preconceito, mas se sofre. Sempre falei: “Estuda, minha gente, estuda. Trabalha e estuda para não sofrer tanto preconceito que a gente sofre. Porque o Pelé é negro, mas não sofre preconceito porque ele tem dinheiro, tem posição social. A mídia sempre atira pedra em jogador negro, ou porque não pagou pensão, ou porque saiu para se
125 prostituir... O próprio policial negro não dá ponto para outro negro. Ninguém dá (Ana).
Uma das informantes, ao falar sobre a experiência de seu filho com a violência e as drogas, diz não entender o que acontece. A pergunta recorrente é “Onde eu errei?”, mesmo na situação em que a responsabilidade é partilhada.
Meu filho estudou nos melhores colégios, conseguiu ser expulso do Etapa. Eu não aguentava mais de tantas as vezes que fui chamada lá, morria de vergonha. Já não conseguia perceber se era perseguição ou não, de tanto que ele aprontava (…) Exemplo em casa ele tem, eu fiz mestrado, o pai também. Não sei. Não falta nada. Só sei que não consigo mais conversar. O pai se acomodou em jogar toda a responsabilidade pra mim. Só estou esperando pelo pior, ele some na sexta-feira e aparece na segunda. Não dá mais (Valdete).
Aqui a condição econômica parece ser testada. Não são sujeitos que passaram privações e que não tiveram oportunidade de inserção no processo educacional desprovido de capital político. Aqui se fala de uma classe média elitizada, mas submersa à vulnerabilidade a que, a princípio, somente o negro pobre está fadado.
Eles entendem a cultura afro-brasileira, conhecem nossos ancestrais. Porém, na minha cabeça, eu queria muito mais. Esse gênio, para mim, iria longe, politicamente falando. A gente cria uma expectativa que não é isso. A criança negra sofre demais. Eu precisava quebrar esse tabu de que somos iguais, mas que não somos coisa nenhuma. Eu queria que eles estudassem para estourar. Queria um filho planejado com um QI lá em cima, para que ele tivesse uma grande visibilidade enquanto negro (Neusa).
Eu disse a ele: “Lá, você é o empregado, e o chefe é o chefe. Se ele acha que o que ele está falando pra você é o certo, você está sabendo que não é. Você sabe que você é o certo, e não ele. Mas você tem que acatar a opinião dele, porque ele é o chefe, e você o empregado”. Então ele já sofreu, sim. Na escola, também. Ele estava na 8a série, eu fui chamada, uma vez. Na reunião, saíram todos os pais e
126 ficamos mais duas mães e eu. O professor falou que ele estava sentando no fundo, que estava bagunçando. Ele falou: “Mãe, eu não estou fazendo isso”. “Mas acontece que você é negro. Então, tudo de errado que os outros fizerem vai sobrar pra você. Procure se comportar, porque o preconceito em cima de nós é grande”. Ele me ouviu, continuou em frente e terminou os estudos dele (Sueli).
No relato de Mercedes, a luta contra a pela escolarização do filho era muito mais difícil segundo suas palavras. Juntava ao processo histórico de exclusão da população negra a orientação sexual, que segundo nossa informante expressava desde o início da adolescência.
Eu tinha que ficar atenta o tempo todo. Sabe como é, né, a molecada não respeita. Ficanvam xingando ele mulherzinha desde quando estava no primário. Eu percebia que meu filho era diferente dos outros meninos e até dos irmãos, em casa. Os meninos gostavam de ir pra rua, naquelas brincadeiras de bola, carrinho. Ele não não ficava dentro de casa sempre brincando numa máquina de escrever velha, que tinha aqui. Dizia que ía ser escritor [chora]. Acho que ele conseguiu, né, fez o mestrado dele, foi o momento mais feliz da minha vida. Mas eu sempre defendi meu filho. É um homem de coragem. Mas não foi fácil, a família nordestina cabeça dura, na escola eu já disse como era. Os professores, nem aí. Mas coitados né, é tanta coisa pra eles (Mercedes).
Recorda um momento em que o filho teve o currículo selecionado por um grande colégio privado, em São Paulo, e de como partilhou da decepção do filho.
Que felicidade, quando eu peguei aquele papel na mão. Parecia que era meu, era meu também… Logo que ele começou mandar os currículos, ligaram pra ele e acharam o currículo muito bom, a mulher falava por telefone. Quando ele foi até lá, já viu que a mulher fez aquela cara e deu a desculpa de que tinha outras entrevistas. Que nada, meu filho fala, assim: “Mãe, foi porque sou negro, não foi porque sou gay, porque eu até passei por homem” [risos]. Até acho engraçada a forma boa com que ele leva a vida. Ah, meu filho querido… Mas ele está muito bem, hoje (Helena).
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