Os processos de constituição de identidade e subjetividade dos agentes estão sendo acelerados e ampliados, verificando-se a desestruturação de uma série de instituições e certezas que foram fundamentais para erigir os diversos ideais da modernidade, dentre os quais o de masculinidade.
Seria importante pensar em que mediada as mudanças socioestruturais teriam, de fato, flexibilizado ou tornado menos rígidas as prescrições sociais para o gênero masculino e se o homem, hoje, vivencia algum tipo de crise existencial em função da inadequação entre prescrições de gênero antiquadas e as demandas sociais atuais.
É possível afirmar que muitos fatores novos fazem parte da atual dinâmica social, estimulando um conjunto de condutas, em certos segmentos sociais, que dificultam a hegemonia e a permanência do ideal masculino, tal como ele se apresenta nos primórdios da modernidade.
Esse processo, entendido como pós-modernidade, tem algumas características centrais a ele associadas, como seu dinamismo tecnológico, aliado à busca de novos mercados, em todas as partes do globo. Isso incorporou novos grupos étnicos e culturas que passaram a compor seu ampliado mercado de trabalho e consumo, uma variedade de culturas, dialetos e diferentes modos de fazer as coisas, constituindo uma miscelânea de perspectivas e possibilidades que, ao lado do consumo, traduz o cenário da emergência da sociedade pós-moderna.
É um processo que já existia anteriormente, cuja aceleração acabou por provocar um atordoamento no atual ritmo de vida e possibilitou novas formas de sociabilidade que ainda não estão completamente assemelhadas pelos agentes e instituições.
136 Bauman (1998) acredita que a pós-modernidade, dentro de uma perspectiva sócio- histórica, nada mais fez do que radicalizar aspectos da própria era moderna, com a ressalva de que o projeto universalista não tem, aí, mais nenhum sentido. Ele aponta para um movimento contínuo de privatização e de esvaziamento do espaço público na pós-modernidade.
Da religião ao campo das artes e da política aos laços afetivos, passando pelos esportes, ciência e tudo o mais, nada ficou incólume à “mercadificação”. Paulatinamente, as injunções sociais mais indiscutíveis foram desmanteladas, dentre as quais aquelas presas aos comportamentos que visam à realização dos ideais modernos de masculinidade, no bojo de uma progressiva desregulamentação e privatização de todas as redes de seguro e proteção seculares. Todo esse movimento e aceleração desembocam no consumidor, ele passa a ser a chave de inteligibilidade da pós-modernidade, deslocando e substituindo a figura do soldado/trabalhador da modernidade, tão congenial aos modernos valores masculinos. Três instituições são representativas que expressam tais transformações, o mundo do trabalho, o estado e a família.
Há o desgaste de alguns valores associados ao ideal moderno de masculinidade relacionado às mudanças no mundo do trabalho. As mulheres ocupam cargos que exigem qualificações semelhantes às do homens. No entanto, os salários são menores e as possibilidades de ocuparem posições mais elevadas são menores.
As políticas de identidade, como o feminismo, o movimento gay e todas aquelas que visam a favorecer os mais diversos grupos étnicos, vicejam nesse caldo cultural pós-moderno. São beneficiadas pela contínua expansão do capitalismo que aglutinava em torno do mercado um número cada vez maior de consumidores e trabalhadores, recrutados não necessariamente de acordo com as características do agente hegemônico, ou seja, macho, branco, ascendência européia e heterossexual.
Essas políticas puderam se manifestar sem necessariamente defender nenhuma bandeira, anticapitalista, o que as tornou mais ainda simpáticas aos detentores do poder econômico. Pelo menos não suscitaram reações mais energéticas dos setores mais poderosos, exatamente os segmentos que detêm a supremacia econômica (ibid., p. 93).
Em relação de poder macroestrutural, um processo que consagra a separação entre política e poder, entre o poder do Estado-nação e os interesses do capital internacional, em que a expansão do primeiro indica o esvaziamento do primeiro.
137 O capital se desterritorializa e não é mais limitado por espaço ou distância, enquanto o Estado nacional continua preso a seu território. Na definição de Bauman, a casa da política é o espaço. Já o ciberespaço, onde a materialidade física do espaço é abolida ou neutralizada, é o domicílio (expressão paradoxal neste caso) do capital e da informação.
Apesar de haver um processo de derrocada da metáfora para o corpo destemido e imponente do varão, fontes de apoio aos ideais modernos de masculinidade se mantêm e se reelaboram. Por outro lado, o aumento da violência e da incerteza pode, em alguns contextos específicos, revigorar os ideais guerreiros e o espírito destemido diante do perigo e mesmo da morte junto aos segmentos da população mais afetados pela exclusão, ou seja, as camadas populares. Isso se reflete nos ideais masculinos valorizados por gangues e inúmeros grupos criminosos. É a volta ao guerreiro reinventado. “Assim os possíveis abalos na ideia do Estado com metáfora para um corpo soberano autônomo e viril são compensados por uma série de efeitos que contribui para a manutenção do lugar simbólico da masculinidade, em sua configuração brutal e pouco flexível” (ibid., p. 103).
Como já analisado anteriormente, a família assumiu na era moderna o ideal de masculinidade, afetando diretamente os lugares sociais dispostos para as imagens idealizadas do homem moderno. Diferentemente da crise vivenciada pelo Estado-nação, essa se reflete imediatamente numa das estruturas basilares da masculinidade agora em processo de erosão contínua, isto é, a figura patriarcal, símbolo fundamental do poder masculino.
O patriarcalismo é agente central nas sociedades contemporâneas é onde se assentam todas as sociedades. Na definição de Castells (1999) caracteriza-se pela autoridade, imposta institucionalmente, do homem sobre a mulher e filhos no âmbito familiar. Para que essa autoridade possa ser exercida, é necessário que o patriarcalismo permeie toda a sociedade, da produção e do consumo à política, e da legislação à cultura. Os relacionamentos interpessoais e, consequentemente, a personalidade, também são marcados pela dominação e violência que têm sua origem na cultura e instituições do patriarcalismo (ibid., p. 169).
Todas essas transformações têm dado espaço para uma série de mudanças que alteram a correlação de forças entre o masculino e o feminino, mas ainda assim pensar que isso configura uma mudança na correlação de força entre o masculino e o feminino não é possível afirmar.
138 Esse jogo de força se constitui através de duas faces, uma estruturada, que são as instituições, as leis, etc) e estruturantes (valores, símbolos e agentes) mais epecificamente aqueles que sustetam as assimetrias e diferenças simbólicas presentes no regime de gênero.
Oliveira tensina ao afirmar que, se é inegável a existência em curso de um debate acerca da insatisfação quanto aos padrões de comportamento masculino socialmente sancionados, faz-se necessário, no entanto, avaliar o alcance e as diversas formas que esse problema pode assumir, de acordo com a perspectiva específica de cada segmento social. A construção e o exercício da masculinidade (no caso, aquela típica das camadas populares), constituem experiências enriquecedoras para boa parte dos agentes masculinos que as compõem. São capazes de prover orgulho para aqueles que as vivenciam quase como uma dádiva divina, já que ao padrão correspondente aqui aludido se refere a uma pequena parcela de homens dos setores médios e altos, mais especificamente junto a determinadas categorias profissionais e nunca extensíveis aos demais segmentos com um todo (2004, p. 203).
Essa gama de possibilidades não é a mesma para os agentes dos setores populares. Isso faz com que muitas vezes os homens desses setores só possam dispor de um leque restrito de opções para se colocar no mercado de trabalho, de modo que suas chances de obter e manter o emprego são limitadas. Tal fato prejudica, dessa forma, o cumprimento satisfatório do papel de provedor da família, exemplo típico de função normalmente atribuída aos homens, mas que, nos segmentos populares, nem sempre pode ser cumprida.
A possibilidade de ocorrência de descompasso entre declaração de adesão a novos valores e práticas efetivas não invalida a verificação de que estejam ocorrendo transformações e que elas sejam mais frequentes nos segmentos sociais melhor posicionados.
Os contrastes aparecem claramente em alguns costumes e atitudes mais comuns em um segmento do que em outro. Alguns pesquisadores relatam o fato de que se verificam mais frequentemente nos segmentos populares exibições explícitas dos signos da virilidade quando, por exemplo, se mantêm hábitos como o de segurar nos genitais em público, demonstração de masculinidade e poder fundado, sobretudo, no corpo. Essas expressões também são identificadas por Almeida:
A etiqueta é mais elaborada em torno do tema da masculinidade. Esta se afirma mais pela sexualidade que pela violência ou a força física. (…). Os traços mais evidentes são os gestos de tocar nos testículos (entendidos simbolicamente
139 como a residência corporal da masculinidade), ou as posturas corporais de encontro à barra, mas também mostrar que há o potencial de violência, batendo com as moedas no zinco do balcão com as peças do dominó ou com as cartas na mesa, dando palmadas fortes nas costas dos outros, ou não cruzando as pernas (2000, p. 189).
Percebe-se aí a necessidade de distinção, enfatizando-se traços “hipermasculinistas” (agressividade e violência) como uma das poucas formas de afirmação positiva acessível aos jovens do sexo masculino das camadas populares.
A busca obsessiva da identidade é, muitas vezes, uma busca típica de quem se vê inferiorizado, ou almeja uma melhor posição ou ainda a manutenção do que já obteve dentro do jogo de confrontações entre fatores sociais os mais variados (sexo, etnia, classe, região de origem, profissão etc.)
Pertencer a certo grupo que consegue projetar seu valor como superior aos demais tem importância considerável, especialmente quando se contrastam, através do agente, identidades coletivas.
No caso da masculinidade, esta faculta aos que partilham dos valores abrangidos por seu ideal moderno indiscutível status de superioridade frente aos grupos de agentes que mobilizam condutas e comportamentos opostos, e relaciona-se com os ideais societários dos quais faz parte e que ajuda a constituir do mesmo modo que estes a ela. Sua face social aparece como lugar simbólico, transcendente, mas ela vive inscrita nos corpos, na postura, nos juízos de gosto e percepção dos agentes, com lugar imaginário de sentido estruturante, participando dos seus processos de subjetivação, sendo continuamente reatualizada nas vivências interacionias masculinas.