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Properties Measured In Situ at the Surface

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4. Aerosols and climate: Observations from Zeppelin and Birkenes Observatories

4.1 Physical and optical aerosol properties at Birkenes Observatory

4.1.1 Properties Measured In Situ at the Surface

Após a compreensão dos fenómenos de individualização, capital social e cosmopolitismo, nesta secção pretende-se abordar os conceitos de identidade, sexualidade e amor. O objectivo é compreender como é que as dimensões sexuais e afectivas são vividas dentro do paradigma da individualização. Para tal é necessário compreender, em primeiro lugar, o que é a identidade e como se constrói individualmente, em segundo, o que é sexualidade e como se relaciona com a identidade, e finalmente, entender quais as concepções sociais sobre amor e sexualidade.

Em primeiro lugar é importante compreender que a identidade e a forma como se constrói tem diversas abordagens e é dificilmente definível devido a todas as concepções interdisciplinares, pelo contínuo debate académico e pelo seu uso continuado na linguagem do senso comum. Para se definir como se desenvolve a identidade do indivíduo vamos partir da proposta discursiva de Foucault (1988), posteriormente desenvolvida por Hall (1996) e Giddens (1996). Segundo Foucault (1988), os indivíduos são construídos no e pelo discurso. O que se ouve e o que se diz sobre a realidade tem o poder de transformá-la. A identidade do indivíduo é

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construída com base nos discursos que moldam a própria realidade. É a linguagem que tem o poder de criar, organizar, classificar e alterar o real.

Hall (1996) numa revisão teórica à forma como a identidade tem vindo a ser trabalhada em diversas disciplinas refere que, para além da identidade se criar no discurso, a construção individual faz-se também a partir da relação com o “outro”. E essa relação constrói-se acima de tudo pela diferença.No senso comum a identificação é construída com base no reconhecimento de uma origem ou característica comum, na partilha de ideias com outra pessoa/grupo, que atribuem a este qualidades de solidariedade e fidelidade. A abordagem discursiva vê a identificação como uma construção, um processo não terminado, contínuo, um valor que pode ser ganho ou perdido, sustentado ou abandonado (Hall,1996). A identificação é condicional e não destrói a diferença. Ou seja, na identificação nunca existe uma totalidade, um indivíduo pode-se identificar, por exemplo, com um determinado aspecto numa determinada altura e posteriormente deixar de o fazer. A identificação joga com a diferença e como é no campo da diferença que opera, cria discursos, fronteiras simbólicas e reais. É necessário que exista o outro, o que está de fora, para que seja possível a identificação com o que é considerado de dentro. O processo de construção da identificação é um processo de construção social com base nos discursos, um processo não terminado, contínuo (ibidem). A identificação é designada como a mais remota expressão de um laço emocional com o outro (Ibidem), ou seja, a identidade não é apenas uma construção individual ou um processo introspectivo, ela está intrinsecamente ligada à forma como nos relacionamos uns com os outros (Scherrer, 2008:622). Para além disso, a identidade é construída nos discursos e com base nas suas inter-relações, num processo reflexivo. O sujeito é criado no e pelos discursos, nas suas relações com os outros. De acordo com a ideia de modernidade reflexiva, o sujeito cria-se nos discursos e nas relações com os outros, no entanto este não é somente um produto ou um reflexo dessa construção, tem igualmente agência sobre a realidade, é parte integrante do processo de reificação, viabilização e alteração da realidade (Policarpo, 2011; Giddens, 1997).

Como é que a sexualidade se integra na construção identitária? Se o sexo sempre existiu, a sexualidade, ou a criação de uma ciência sexual no Ocidente, inicia-se

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a partir do séc. XVIII (Foucault, 1988). A partir do momento em que começa a ser tratada como uma área do saber, multiplicam-se os discursos sobre sexualidade e esta passa a assumir um carácter identitário. Para Foucault a ideia de sexualidade é o resultado dos discursos que exercem poder sobre o indivíduo e regulam as suas condutas levando-o a imaginar-se como um ser sexual (Foucault, 1988; Policarpo, 2011:12). O sexo na sociedade contemporânea ocidental torna-se assim um canal privilegiado de construção de identidade, do self e é concebido como parte de quem se é e não apenas como uma série de actos isolados. A sexualidade passa a fazer parte integrante da construção da identidade do indivíduo e do que isso significa a nível de posicionamento na sociedade e das condutas individuais. (Foucault, 1988; Giddens, 1996). Da mesma forma o percurso sexual e as opções que se tomam em relação ao mesmo fazem parte de quem se é ou se procura ser, nos termos da individualização enquanto o indivíduo constrói a sua biografia sexual (Policarpo, 2011). A sexualidade não é um dado, é um produto de “negociação, luta e agência humana” (Weeks, 2010:21). Weeks (2010) defende a sexualidade enquanto produto trabalhado por forças sociais, e ao contrário de ser o elemento mais natural da vida social, é sim o mais susceptível à organização cultural. As emoções, os desejos e a forma como se vivem estão intrinsecamente ligados à sociedade onde os indivíduos estão inseridos “Indeed I would go so far as to say that sexuality only exists through its social forms and social organization (Weeks, 2010;20).

É importante realçar de que forma as práticas e representações do amor influenciam igualmente a vivência da sexualidade, a construção individual, e as estruturas sociais. De acordo com Giddens (1996) nas sociedades modernas a partir do séc. XVIII, o amor passa a ser o canal privilegiado pelo qual a sociedade se organiza e estrutura. Se em épocas anteriores o amor existia, este não era socialmente desejável como forma de organização social. De facto, a escolha de parceiros era feita com base na condição social de modo a se manterem e reproduzirem as condições económicas, e não se relacionava com os sentimentos amorosos dos indivíduos. A partir do séc. XVIII, o amor romântico7 passa a ser o veículo pelo qual se organizam as relações entre

7 O amor romântico, definido por Giddens (1996), é a ideia de amor que surge a partir do séc. XVIII.

Funde elementos do amor de base cristã, de carácter reflexivo e de auto conhecimento ligado ao amor a Deus e incorpora elementos do amor-paixão, como desejo intenso e atracção sexual. O amor-paixão foi

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os actores sociais. Pela primeira vez o afecto é o veículo principal do funcionamento social no que diz respeito à organização social do casamento. Esta concepção amorosa relaciona-se com a ideia de liberdade e auto-realização, ideias que na época se encontravam em expansão. Portanto, o amor romântico passa a ser desejável e até mesmo a condição fundamental para a prática do casamento. O amor romântico institucionaliza-se e torna-se num instrumento normativo dos comportamentos. Giddens (1996) indica que, embora o amor romântico fosse inicialmente idealizado como a relação igualitária de duas pessoas, na verdade converteu-se num instrumento de submissão feminina8.

O amor-romântico veio a ser substituído, na sociedade moderna, pelo que Giddens (1996) designa por amor confluente. Com a proliferação do divórcio e com a igualdade crescente entre géneros, surge a ideia de relação pura, intrínseca ao amor confluente. Esta caracteriza-se por estar supostamente livre de critérios socioeconómicos, baseia-se no prazer e na satisfação que pode oferecer aos indivíduos. A ideia de relação vem também retirar o carácter normativo do amor- romântico em relação à heterossexualidade e à noção de fidelidade, dado que uma relação pura pode existir entre vários indivíduos de todas as orientações sexuais, sendo a exclusividade negociada entre as partes, caso assim o desejem. As características principais do amor confluente com base na relação pura são a intimidade, a negociação permanente e a partilha emocional constante. Para além disso, o amor confluente integra a dimensão sexual na relação, a realização sexual de ambas as partes é essencial para que a relação se possa considerar satisfatória. Giddens (1996) cria assim o conceito de sexualidade plástica. A sexualidade plástica é a sexualidade desenvolvida de forma livre das necessidades de reprodução,

sempre visto como libertador, mas não era desejável pelas estruturas sociais existentes, devido ao seu carácter impulsivo, logo potencialmente transgressor da ordem estabelecida. A partir do séc. XIII o amor romântico veio juntar à ideia de liberdade e auto-realização, fazendo com que estes ideais facilmente se disseminassem.

8 Giddens (1996) refere que com a separação entre casa e local de trabalho na última metade do séc.

XIX, o poder patriarcal perdeu domínio sobre a esfera doméstica, tendo esta ficado reservada às mulheres. A idealização da mulher como mãe, com qualidades femininas e maternais foram as formas privilegiadas da construção da sexualidade moderna. A mulher é vista como sendo emocional (o homem racional) e é ela que é remetida para os assuntos do amor. Se por um lado, as mulheres ganham poder na esfera doméstica, por outro são excluídas e protegidas do mundo exterior.

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tendo origem a partir do séc. XVIII quando se generaliza a redução da natalidade e aumentando com a contracepção moderna. É uma sexualidade livre, moldada pelos próprios indivíduos, sendo fundamental para o “relacionamento puro”, assim como para a reivindicação da mulher ao prazer sexual. O sexo deixa de ser visto como um instrumento para a reprodução e passa a ser um veículo de construção individual.

Anália Torres (2004) explora as diferentes formas como o amor tem vindo a ser socialmente analisado e cria o conceito de amor-construção. Este tem o mesmo sentido do amor confluente, foca-se na estabilidade, na construção e no desenvolvimento dos sentimentos dentro da relação. O amor-construção está associado à crescente percepção da igualdade dos géneros nas relações e nas negociações que são feitas pelos indivíduos na construção da sua relação (apesar das práticas individuais não reflectirem ainda essa igualdade teórica). Existindo liberdade individual e com a proliferação do divórcio, o amor não deixa de ser o veículo principal para a realização pessoal e a busca de felicidade, mas a forma como este é vivido foi sendo alterada progressivamente à medida que a igualdade de direitos e a liberdade individual ganham expressão. A escolha amorosa – ou seja, a escolha do outro - é o fundamento da relação, mas a relação torna-se um processo. O amor-romântico, ou seja a paixão inicial não é suficiente para que as relações possam ser continuadas com sucesso, é necessária uma negociação e reflexão permanente.

Por sua vez, Bauman (2003) desenvolve o conceito de amor líquido. Se o amor romântico pressuponha uma idealização projectiva do outro, do ser amado, em que o objectivo seria uma vida a dois “para sempre”, o amor líquido representa o inverso. O amor líquido é o amor vivido nas sociedades modernas, e tem como características a flexibilidade, a fragilidade e a insegurança. Bauman (2003) defende que as relações são tratadas como produtos (mercadorias) os quais se deve experimentar, usar e trocar caso haja algum defeito. As relações são procuradas pelo prazer que dão, mas ao mesmo tempo representam uma prisão, uma perda de liberdade, são vistas numa óptica consumista de acordo com o próprio sistema económico. Ao escolher-se um determinado parceiro, perde-se a possibilidade de experimentar todos os outros. Para além disso, corre-se risco ao investir demasiado numa relação, pois caso esta termine o sofrimento e as suas consequências individuais serão muito mais avassaladoras. Os

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indivíduos procuram as relações de forma a afastar sentimentos de insegurança e solidão, mas devido à fragilidade dos relacionamentos, o que acontece é um aumento da insegurança e o consequente afastamento do parceiro. As relações modernas são, assim, um negócio, vividas dentro e nas mesmas bases do sistema económico neoliberal. Bauman (2001) põe em contraste o homo faber (o homem cujo modos se encontram ainda no mundo pré-individualização) que representava a disposição para a procriação e para as relações duradouras e o homo consumens, cujo objectivo não é acumular, mas sim usar e deitar fora, desejando leveza e rapidez nas relações. O amor romântico é substituído pelos encontros sexuais mais ou menos duradouros. O encontro sexual é usado numa lógica de consumo onde os indivíduos são mercadoria.

Policarpo (2011) contesta esta visão defendendo que o que acontece actualmente é que as relações assumem formas plurais e diferentes de viver o amor e a sexualidade na busca de autenticidade. A desinstitucionalização das relações amorosas faz com que estas assumam mais importância e sejam mais valorizadas pelos indivíduos, “os modos pelos quais os indivíduos conseguem reinventar a força desses laços, ultrapassando as condicionantes de um sistema social que sugere a ideia de uma crescente fragmentação (ainda que não efectiva), surpreendem pela sua criatividade e resiliência” (Policarpo, 2011:168:169). O afecto não perde assim importância, pelo contrário, as suas expressões multiplicam-se.

Mai e King (2009) defendem que a noção de amor romântico é etnocêntrica e os critérios de expressão individual, igualdade de género e realização emocional e individual estão estritamente ligados à sociedade ocidental, à hegemonia de uma sociedade individualista e ao modelo neoliberal. O amor e a sexualidade não se encontram isolados e fazem parte integrante das hierarquias da globalização, juntamente com factores como a raça, religião, classe e género, e tal como estes são igualmente reproduzidos e alterados através da experiência de migração. Os afectos fazem parte das relações sociais, e a afectividade é um elemento fundamental na construção da identidade colectiva e individual, que tem códigos dominantes, tendências e padrões de relacionamento que se diferenciam no espaço e no tempo, sendo passíveis de análise (Torres, 1987). A dimensão afectiva, tal como a dimensão sexual, tem um carácter relevante no que diz respeito ao estudo dos fenómenos

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sociais, da identidade e, neste caso específico, ao estudo das migrações e de mobilidade. Na construção da biografia reflexiva as dimensões sexuais e amorosas têm um papel fundamental na construção da própria identidade. Com a importância crescente que é dada à realização sexual e amorosa nas sociedades modernas e onde a procura de cosmopolitismo tem cada vez mais expressão, é importante compreender de que forma as representações e práticas afectivo-sexuais são afectadas por este fenómeno.

Os estudantes que optam por realizar Erasmus estão inseridos numa sociedade com um sistema de ensino que incita a exploração do self enquanto se procura o conhecimento do outro, do culturalmente diferente, como uma mais-valia individual para fazer frente ao mundo contemporâneo. Assim, propõe-se com este trabalho construir uma abordagem reflexiva das dimensões sexuais e afectivas no contexto da migração estudantil, de modo a avaliar a importância que estas podem assumir na decisão da partida, na vivência internacional e no desenvolvimento do percurso de vida. Pretende-se analisar a interligação entre a individualização e o papel da sexualidade e dos afectos durante a migração. De que forma são construídos os afectos e a sexualidade na biografia individual? Como é que a busca de cosmopolitismo e a criação de uma rede social de carácter internacional afecta as vivências afectivas e sexuais dos migrantes em período Erasmus? Esta investigação pretende, fundamentalmente, dar voz aos indivíduos que passam por uma experiência de mobilidade no contexto do programa Erasmus, de modo a analisar e identificar padrões, vivências, perspectivas e a importância atribuída às dimensões afectiva e sexual e o papel que estas desempenham na trajectória migratória.

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