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Music and the Gothic in a Modernist Tune: The Transitional Discourse of Jean Toomer’s Cane

1. A Profoundly Hybrid Text

Procuramos fazer uma análise da presença espírita no Brasil na década de 1950, momento da implantação do Educandário Ituiutabano, mas sem nos dispormos a (re)construir uma história do Espiritismo no Brasil, e sim a compreendermos o momento histórico que o Espiritismo atravessava, constatando a consolidação de uma corrente que, se não influenciou o país, conseguindo um grande percentual de adeptos, conquistou o respeito do povo brasileiro e também seus aspectos legais10, principalmente pela atuação espírita nos campos da assistência social e educacional, garantindo e mantendo esse painel até a atualidade. Consideramos o surgimento do Espiritismo na França, no século XIX, o primeiro momento de sua expansão e o Espiritismo no Brasil, o segundo momento.

Um dos princípios utilizados por Allan Kardec para a codificação do Espiritismo foi a comparação entre as mensagens ditadas pelos espíritos e recebidas por diferentes grupos espalhados por vários países. Dessa maneira, ele mesmo comprovou que o Espiritismo não foi dado de maneira completa a nenhum lugar, que essa não foi propriedade exclusiva de seu grupo de estudos e pesquisas, e sim de uma coletividade que o aprimorou. Explica que o Espiritismo:

(...) engloba um número tão grande de observações, assuntos tão diversos, que exigem ou conhecimentos e aptidões mediúnicas especiais, que seria impossível reunir num mesmo ponto todas as condições necessárias. Como o ensinamento deve ser coletivo e não individual, os Espíritos dividiram o trabalho disseminando os objetos de estudo e de observação, como, em certas fábricas, a confecção de cada parte de um mesmo objeto é repartida entre diferentes operários (KARDEC, 1966, p. 59).

Assim, Kardec deixa claro que o ensinamento espírita, pela vastidão de assuntos abordados, foi dividido e espalhado pelos diversos pontos de pesquisa, cabendo a ele apenas o papel de codificador. Acrescenta ainda que

10 Houve uma contradição entre a Constituição de 1891, que apontava para uma liberdade religiosa, e o Código

Penal de 1890, que considerava crime a prática do Espiritismo e de atividades de cura por pessoas sem habilitação formal. Tivemos dois casos famosos de perseguição a espíritas: o primeiro ocorreu entre 1904 e 1905, quando foi processado o então presidente da Federação Espírita Brasileira e o médium Domingos Filgueras, no Rio de Janeiro, por prática ilegal da medicina. Mas ambos foram absolvidos. E o segundo em 1917, quando Eurípedes Barsanulfo, em Sacramento-MG, também foi denunciado por prática ilegal da medicina; o inquérito policial acabou sendo arquivado. No Estado Novo, entre 1937 e 1945, a repressão ao Espiritismo sofreu grande aumento, mas foi na Reforma de 1940 do Código Penal que a prática do Espiritismo deixou de ser explicitamente criminosa. Um pouco mais tarde, a Constituição de 1946 garantiu plena liberdade religiosa, terminando os conflitos com a lei. (SANTOS, 1997)

A revelação foi assim feita parcialmente, em diversos lugares e através de um grande número de intermediários, e é dessa maneira que ela prossegue ainda neste momento, pois nem tudo está revelado. Cada centro encontra, nos outros centros, o complemento do que obtém, e é o conjunto, a coordenação de todos os ensinamentos parciais que constitui a doutrina espírita (KARDEC, 1966, p. 59 e 60).

Podemos compreender aqui mais um dos aspectos do Espiritismo que remete a sua forma construtiva. Kardec explica que essa religião não está encerrada a um lugar ou àquele lugar onde foi codificada, deixando margem para compreendermos o seu caráter de expansão, principalmente em conformidade com seus aspectos científicos e filosóficos. No Brasil, o desenvolvimento do Espiritismo ganhou maior vulto que em qualquer local do mundo, até mesmo a França. Seja pela presença do médium Francisco Cândido Xavier (1910-2002), que psicografou mais de quatrocentas obras espíritas, desdobrando o pensamento kardequiano, seja pelo grande número de seguidores. Mas nos ateremos apenas a essa movimentação nacional, e o caso Chico Xavier estará mais explicado no próximo item, garantindo aqui o pensamento de que ocorreu no Brasil o desdobramento do Espiritismo, como o próprio Kardec salientara essa possibilidade.

Assim, o Espiritismo vagarosamente conquistou espaço, desde a república brasileira, em meio a uma predominância católica, atravessando momentos de lutas, tensões e algumas vitórias. Vamos nos ater à compreensão do painel espírita nacional na década de 1950, período de instalação do Educandário Ituiutabano. Nesse momento, já na metade do século XX, o Espiritismo encontrava-se sedimentado e mais aceito por seus adversários. Para o pesquisador Silva, por volta de 1950, o movimento espírita já havia, há um certo tempo,

amenizado seus conflitos com o clero, já não tão ferrenhos como eram (2005, p. 246).

Para compreendermos essa atuação espírita em 1950, definiremos, primeiramente, uma linha histórica para compreendermos o Espiritismo brasileiro, se assim podemos considerá-lo. No que veremos, o Espiritismo brasileiro é simplesmente a continuação da proposta de Allan Kardec, agora no Brasil, possuindo seu aspecto religioso dilatado pela maioria de seus adeptos, principalmente no que aponta para práticas mais filantrópicas. Vamos analisar o que algumas correntes propõem: 1) os que defendem que o Espiritismo brasileiro sofreu distorções de sua origem francesa; 2) os que defendem a idéia da originalidade de sua reconstrução no Brasil; e 3) a idéia de que o Espiritismo está no Brasil, obedecendo a um segundo momento de seu desenvolvimento.

(...) o espiritismo perdeu o seu vigor filosófico e científico inicial. Os adeptos da doutrina de Kardec no Brasil, em sua maioria, foram pessoas cujos interesses se relacionavam pouco com as questões científicas, sociais, filosóficas e educacionais, seus interesses giravam em torno das questões religiosas (2006, p. 75).

A pesquisa de Bigheto refere-se ao Espiritismo na Primeira República brasileira, na análise que faz do Colégio Allan Kardec, em Sacramento, Minas Gerais, nos primórdios do Espiritismo no Brasil. Essa idéia confirma a hipótese de que, no Brasil, o Espiritismo sofreu uma deformação do Espiritismo francês. Mas, conforme Silva (2005), há outra hipótese a ser seguida: o Espiritismo poderia ser uma reconstrução original:

O Espiritismo no Brasil não é um simples desvio de uma doutrina racional de origem européia e que sofreu uma contaminação do mágico e do místico, graças a uma predisposição do povo brasileiro para o maravilhoso. É uma reconstrução original influenciada pela formação cultural brasileira que já possuía elementos que foram reinterpretados pelo Espiritismo, assim como ele foi reinterpretado por estes mesmos elementos: crenças indígenas, africanas e populares de origem européia. Dessa forma, acreditamos não ser possível ao Espiritismo manter uma “pureza’”onde quer que fosse difundido (SILVA, 2005, p. 32).

Quando analisamos essas questões, ou essas duas hipóteses, encontramos que, na época da codificação kardequiana, foi necessária a ênfase filosófica e científica por dois aspectos distintos. O primeiro diz respeito à própria gênese do Espiritismo, que surgiu não entre a classe pobre ou a classe trabalhadora européia, mas entre os intelectuais, conforme apresentamos na introdução desta pesquisa. Esse caráter de análise científica foi decisivo em sua gênese pela necessidade de comprovação dos fatos que permitiram Allan Kardec codificar o Espiritismo em seu aspecto tríplice: ciência, filosofia e religião, da maneira como foi, ou seja, pela intervenção do chamado plano espiritual ou dos espíritos superiores, necessitando tal rigorismo empírico.

O segundo ponto relevante a ser analisado no momento histórico da codificação espírita e que deve ser constatado é o do predomínio do poder católico na França do século XIX e em toda Europa. Assim, o caráter científico e filosófico ganhou primeiro destaque, pois o próprio livro O evangelho segundo o Espiritismo, obra básica que apresenta sua parte moral ou religiosa, não foi a primeira a ser lançada ao público, compreendendo que esta seria a parte mais difícil da consolidação do Espiritismo pelas revelações teológicas, que chegariam até o clero da época como blasfêmia e heresia. Conforme escrito no livro Obras póstumas, somente com o lançamento de O evangelho segundo o Espiritismo, a nova religião se afirmaria como

uma tradição cristã. E, por essa afirmação, compreendemos o porquê dos ataques e as perseguições que tanto o Espiritismo quanto seus seguidores sofreram naquele primeiro momento, na França, e nos anos posteriores, para a sua implantação no Brasil.

Assim, o Espiritismo no Brasil não fugiu à tradição francesa, filosófica e científica, mas é uma expansão da própria codificação num segundo momento, apoiada, principalmente, pela presença do médium Francisco Cândido Xavier, que não só desdobrou a codificação espírita, para que esta não ficasse apenas entre os círculos de intelectuais, mas também garantiu a afirmação de seu caráter religioso, exemplificando a máxima do próprio O

evangelho segundo o Espiritismo: Fora da Caridade não existe salvação, por meio de

campanhas e distribuições a milhares de necessitados. A presença de Chico Xavier será mais definida no estudo sobre o Espiritismo em Minas Gerais.