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Hybrid Characters in Toni Morrison’s Love

2. Characters and Genres

No período anterior à criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), de 1945 a 1952, a Igreja esforçou-se para relacionar-se com o governo nas questões sociais, procurando formar uma parceria convidando o Estado a cooperar com os projetos da comunidade eclesial. Em 1952, a CNBB manteve-se aberta aos problemas sociais e políticos, tornando-se canal de mediação entre o eclesiástico e o político, aproveitando os serviços do Estado para levar a mensagem evangélica da renovação e salvação a toda a sociedade (LUSTOSA, 1991, p. 63). No governo Kubitschek, iniciado em 1955, a CNBB fortaleceu seus laços ainda mais, aproveitando o período do desenvolvimentismo. Mas sua política não foi totalmente favorável aos interesses do país.

50 Apesar de não ser nosso objetivo nos aprofundarmos na questão da ideologia, para ficarmos no campo das

discussões mais políticas desse movimento histórico, vamos apontar a ela um significado. Para Abbagnano, ideologia é “(...) toda crença usada para o controle dos comportamentos coletivos, entendendo-se o termo crença, em seu significado mais amplo, como noção de compromisso da conduta, que pode ter ou não validade objetiva” (2003, p. 533). Nesse sentido, o que a validaria “seria a capacidade de controlar os comportamentos de determinada situação” (2003, p. 533). Buffa amplia esse conceito apontando formas para sua observação histórica: “(...) a ideologia é um conjunto de normas, de princípios e objetivos que vão orientar a ação. Entendida dessa forma, a ideologia tanto pode ser uma interpretação camufladora quanto uma interpretação explicitadora da realidade, o que fica evidenciado quando se faz sua historização” (1979, p. 107 e 108).

Em 1955, a igreja católica promoveu, no Rio de Janeiro, o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, demonstrando união e fé. Houve também a criação do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), voltado para as necessidades sociais continentais. Havia um impulso reformista no ar, relativo à questão social, mas também havia ausência da sólida mentalidade cristã. A Igreja estava ligada à criação da SUDENE, SUDAN e SUPRA, participando com suas idéias de reformas sociais, em parceria com o Estado, que entrava com a parte técnica, de acordo com o desenvolvimentismo proposto pelo governo Kubitschek.

Mesmo com todo esse ganho de espaço no cenário político e empenho em suas propostas renovadoras de crescimento, havia divergências na política educacional entre o Estado e a Igreja, que iam desde a formação religiosa até as exigências financeiras. A Igreja desejava orientar as diretrizes educacionais do país na linha da encíclica Divini illius Magistri, de Pio XI, que enfatizava o ensino católico aliado ao Estado, garantindo a fortificação de ambos na formação de um bom cidadão, obediente ao Estado e à Igreja. Colocando-se ao lado do poder dominante, a Igreja procurou se manter em seu status quo.

É interessante salientar que esse período, entre 1948 e 1961, em torno das lutas pela implantação da 1ª LDB ganhou tal proporção graças ao art. 5º da Constituição de 194651. Por seu intermédio, a disputa pela implantação das ideologias dos grupos que concorriam em suas posições diferenciadas fortificou-se. Os defensores do ensino privado estavam unidos aos ideais da igreja católica para manterem seus interesses na nova lei. Desejavam, juntamente com a Igreja, garantir a liberdade do ensino no Brasil para sua livre implantação, inclusive com auxílio financeiro do Estado. Afirmavam que somente a educação cristã era adequada e

perfeita, que a educação pertence de modo sobreeminente à Igreja e à família, que ao Estado cabe suprir as deficiências da família, sendo injusto e ilícito o seu monopólio educacional

(BUFFA, 1979, p. 101-102). Garantindo esse discurso a favor da Igreja, os donos de escolas privadas se uniram aos católicos, assegurando supremacia sobre o ensino confessional e particular em detrimento da escola pública. Com relação à postura católica, afirma-nos Lustosa:

Em uma leitura política, é de admirar que, apesar do bom relacionamento entre as instituições civil e eclesiástica (período do governo Juscelino Kubitschek), a Igreja tivesse montado a sua estratégia de defesa da liberdade do ensino (contra a ação monopolizadora do Estado), de defesa da escola particular (contra a

51 Conforme a Constituição dos Estados Unidos do Brasil, promulgada a 18 de setembro de 1946, no Capítulo I,

Das disposições preliminares, encontramos: “Art. 5º. Compete à União: (...) XV – legislar sobre: (...) d) diretrizes e bases da educação nacional.” (FÁVERO, 2005, p. 310)

unidade da escola pública), de defesa de eqüitativa distribuição das verbas públicas para o ensino em geral, apoiando-se não no Executivo direta e explicitamente, mas nos homens do Legislativo, deputados e senadores católicos (padres e leigos) (1991, p. 67).

Dessa forma, fica definido que o Legislativo serviu de mediador para a satisfação das diversas correntes em luta. Foram os representantes do povo, conforme salienta Lustosa, que cederam às pressões dos grupos que lutavam por seus interesses, tanto ideológicos quanto financeiros, e que provocaram a movimentação ocorrida pela promulgação da 1ª LDB. Essa disputa ideológica teve como agentes da ação nossos deputados e senadores católicos que pretendiam, em nome da encíclica papal de formação das almas, oferecer o ensino confessional no Brasil, garantindo seu engessamento ao capital público. De forma contrária, pensavam os intelectuais liberais dispostos a fundamentar uma 1ª LDB que garantisse uma escola pública que fosse laica e gratuita, aberta a todos os brasileiros, apenas restringindo a ação católica e dos donos de escolas particulares no tocante que esses não deveriam receber apoio financeiro do governo. Vejamos o que pretendiam esses intelectuais, uma vez que a proposta liberal é apoiada, também, pelos espíritas desde o século XIX em seu ensejo de abertura de escolas gratuitas e leigas para suprir a carência educacional por que o Brasil passava na década de 1950 e também além.

3.3.2 Os Liberais

Ao compreendermos o significado e a importância dessas divergências políticas no cenário brasileiro entre 1948 e 1961, compreendemos também a formação desses dois grupos que lutaram por seus interesses na implantação da lei n. 4.024/61: os católicos, atrelados aos donos de escolas privadas, e alguns segmentos liberais, defensores do ensino público. A luta desse segundo grupo visava, sobretudo, à laicidade educacional com gratuidade e queria assegurar o caráter público escolar, justamente para coibir a intenção do grupo católico de monopolizar o ensino, mesmo que fosse por meio do ensino religioso. E, ainda mais, utilizando o dinheiro público para continuar formando a elite minoritária do país em detrimento do povo que estava com baixo índice de instrução e sem escolas. Como também salienta Chaves, (...) o liberalismo luta para preservar esse espaço privado do indivíduo, seja

contra a sua invasão por outros indivíduos, seja contra a sua restrição ou eliminação pelo Estado (2007, p. 8).

Nessa perspectiva, confirma-se a idéia de defesa do bem público por meio do grupo liberal. Para Buffa (1979), esses intelectuais procuravam assegurar o direito à educação pública, gratuita e leiga, para evitar que a exclusão continuasse a ganhar espaço e na tentativa de se aumentarem os números de matrículas e o número de escolas. Suas divergências com os católicos vinham no sentido de não continuar com a tradição de ensino propedêutico, voltado apenas à elite, relegando o ensino profissionalizante às camadas sociais mais carentes. Assim, esses defensores do ensino público subdividiram-se em três grupos em torno das discussões em questão, formando os liberais idealistas, os liberais pragmáticos e os de tendência socialista, como poderemos constatar.

O primeiro grupo, os liberais idealistas, possuía como fundamentação a teoria responsável pela iluminação da pedagogia. Essa ideologia reunia aspectos do liberalismo, da filosofia kantiana e do idealismo alemão em geral. Trata-se, pois, da idéia de homem e não do

homem concretamente existindo em dado contexto histórico (BUFFA, 1979, p. 99). Assim,

era destinada a uma classe dominante em sua caracterização humanística, “desinteressada” e destinada à sociedade como um todo. Para eles, a educação devia garantir a individualização do ser, sua originalidade e autonomia ética.

O segundo grupo, os liberais pragmáticos, estava preocupado com a ação pedagógica. Defendia os interesses práticos do país, levando em consideração a realidade social em que vivia o alunado, preocupando-se, acima de tudo, com a adaptação desse indivíduo a sua realidade. Acreditava que o conhecimento só seria verdadeiro na medida em que fosse útil, chegando ao êxito da eficácia. Esse grupo recebeu influência direta de Dewey, que entende a educação como reconstrução da experiência, não alcançando fins últimos. Para o pragmatismo, ao contrário do idealismo, é levada em conta a realidade social, pois forma o homem para o mundo moderno, utilizando-se do saber prático para uma ação eficiente e produtiva.

O terceiro grupo de liberais fugia aos liberalistas, que enfocam tanto a teoria quanto a prática pedagógica, pois os dois primeiros grupos configuram-se em pólos opostos a ele. Esse grupo é representado por Florestan Fernandes e defende a escola pública, na medida em que

somente esta pode se configurar como um instrumento eficaz na superação do subdesenvolvimento político, econômico, social e cultural em que vivem os brasileiros

(BUFFA, 1979, p. 81). Esse grupo, mais socialista, considerava, em suma, as relações dialéticas com a sociedade, colocando o homem em relação recíproca com o meio, não sendo

ausente nem apenas agente transformador, como queriam os primeiros, mas atuando e recebendo transformações e impactos sociais, podendo ser pelo meio modificado e modificar.

Mas, durante esses trâmites para a implantação da lei n. 4.024/61, as leis orgânicas do ensino estavam em vigor, efetivadas pelo ministro Gustavo Capanema durante o primeiro governo Vargas e o governo transitório. Assim, poderemos observar sua efetivação no interior do Educandário Ituiutabano, tanto na instalação da escola quanto após, em seu funcionamento.