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Como constatamos, o Espiritismo firmava-se no cenário nacional e vinha ganhando força desde o fim da década de 1940, início da consolidação das bases espíritas nacionais. Em 1945, as entidades espíritas do estado de São Paulo se reuniram com o objetivo de criar uma estrutura de unificação em seu estado. Da projeção desse movimento, organizou-se, em 1947,

o I Congresso Espírita do Estado de São Paulo e, em 1948, o I Congresso Espírita Centro- Sulino, com a participação de 15 estados. Essa organização conseguiu interagir com a Federação Espírita Brasileira (FEB), em 1949, celebrando o que deram o nome de “Pacto áureo”, pelo qual a FEB ficava no centro do processo de unificação e aceitava a instalação de um Conselho Federativo Nacional com representantes dos estados27 (SANTOS, 1997, p. 61).

Mas, mesmo ante a organização espírita, a reação da igreja católica era forte no Brasil, desejando continuar seu monopólio religioso. Embora a Constituição Federal de 1946 garantisse ampla liberdade religiosa no país, em 1948 os bispos brasileiros, por meio da CNBB, condenaram o Espiritismo. Ato este reiterado em 1953, pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Em Ituiutaba os espíritas possuíam uma meta: concordavam que essa instituição deveria suprir a carência de ensino gratuito na cidade, promovendo a implantação do curso ginasial. Na análise do que representava a instalação de um curso secundário em 1954, ainda sob os pressupostos das leis orgânicas, promulgadas em 1942, vê-se que esse curso estava de acordo com os ideais propedêuticos do ensino e que a UMEI ambicionava formar o jovem pobre de Ituiutaba não com o ensino profissionalizante, destinado às classes trabalhadoras, mas com o curso ginasial, que assegurava sua cientifização e seu acesso a um nível superior de ensino.

27 C.f. SANTOS “Unificar o movimento espírita sem criar uma religião hierárquica, foi um desafio para a

estrutura montada pelo Pacto Áureo, mesmo porque as bases de práticas e concepções do Espiritismo sempre foram autônomas” (1997, p. 62).

Figura 3 - Na foto, o diretor Ângelo Tibúrcio D’Avila na inauguração do Educandário Ituiutabano (acima), o inspetor do ensino secundário Edelweiss Teixeira (abaixo), apoiando o ensejo pela necessidade da instituição, a qual se engajaria tornando-se professor voluntário; e dedicatória de Germano Laterza ao construtor da instituição. 1958.

Fonte: Acervo Sônia Muniz Laterza.

Desde a República o Estado havia separado a Igreja da educação, o que só ocorria oficialmente, pois as escolas e grupos escolares continuavam permeadas por práticas católicas, como o uso da oração e do terço, crucifixos e imagens de santos católicos em sala de aula, missas, entre outros. Uma escola criada por espíritas não permitiria que o “olho” da Igreja continuasse vigilante na formação de uma parcela social significativa, como ocorria com outras escolas confessionais e particulares da cidade e até com os grupos estaduais. Embora o Educandário tenha sido declarado, na imprensa, como escola laica, aberta a todas as raças, todos os credos e todas as classes sociais, era evidente o controle dos espíritas nesse processo educacional. Essa defesa católica da “educação das almas” por meio da “liberdade do ensino” e dos “direitos da família” estava visível na tribuna jornalística, com frases que promoviam sua ideologia, em detrimento da escola dos espíritas, apresentadas em carta- ataque no Folha de Ituiutaba do dia 5 de fevereiro de 1958, pelo senhor Antônio Abraão. Vejamos alguns trechos a seguir:

Os católicos acreditavam que os espíritas desejavam arrebanhar fiéis: Não têm eles

outro intuito, outro objetivo, se não o de atrair as crianças católicas para o seu meio, e, depois, doutriná-las ao seu belprazer, tornando-as espíritas. Demonstravam intolerância

inocentes ovelhinhas do aprisco do Senhor. E deixavam claro que o Educandário não aceitaria

o catecismo católico: (...) estaríamos correndo o risco de ser mais tarde apunhalados pelas

costas, com as pregações espíritas que provavelmente farão às crianças católicas em seu “Centro Educandário Espírita Ituiutabano”. Como vemos esse cidadão percebeu que a

escola espírita não cederia a contínua vistoria católica, principalmente no quesito da educação religiosa ministrada. Essa carta, publicada no jornal local, é uma expressão do que era dito nos sermões na Igreja, pelos padres, principalmente pelo padre João, de acordo com os ex- membros da UMEI entrevistados.

Mas a questão era mais política que religiosa, pois volta a carta-ataque à defesa dos políticos ituiutabanos, que não seriam homenageados na inauguração do Educandário. Apenas o deputado uberabense Mário Palmério havia conseguido verbas federais para a construção, e seu nome estava estampado nas manchetes. Prossegue a carta-ataque:

Como os senhores mascarados [os espíritas] bem sabem, o estado de Minas Gerais é o estado mais rico do Brasil, mas também é o que mais deve à União. Assim, bem se compara o Deputado estadual mineiro com o Vereador desta cidade, cuja prefeitura está sempre sem dinheiro, não podendo atender aos justos pedidos da edilidade. É o que ocorre com o deputado Omar de Oliveira Diniz que, apesar de seus reconhecidos esforços para conseguir verbas em benefício de nossa terra, não o consegue porque o estado de Minas se acha em precária situação financeira, não podendo solver as suas grandes dividas em atraso.

Com dinheiro ou sem dinheiro, com saúde ou sem saúde, sempre estaremos com os nossos representantes naquelas casas legislativas, mas que sejam filhos de Ituiutaba, porque somente eles poderão fazer alguma coisa para a nossa terra.

Os senhores mascarados fazem alusão ao fato de que Uberaba tem Universidade, querendo assim engrandecer ao Deputado Mário Palmério, mas também devo acrescentar, graças ao zebu Uberaba também tem o direito de gozar de todo o conforto, e não Ituiutaba, porque aquela cidade foi a que deu mais prejuízo ao Brasil, com célebres financiamentos pecuários (ABRAÃO, Antonio. Resposta aos mascarados da União Espírita de Ituiutaba Folha de Ituiutaba, Ituiutaba, 5 fev. 1958, p.2).

O autor da carta-ataque justifica os deputados ituiutabanos e afirma que o deputado Mário Palmério só conseguiu verbas por estar no segundo maior partido do Brasil naquele momento, em 1958, o PTB, com maior força política. A questão religiosa mesclou-se ao debate político, assim como a Igreja colocava o Legislativo a seu favor na votação da Lei de Diretrizes e Bases no plano nacional. Também é evidente a manipulação da fé em defesa dos interesses da Igreja que desejava continuar no comando da educação. Mas aqui a defesa vem a favor dos políticos locais que estavam fora das manchetes dos jornais, enquanto o deputado

uberabense ganhava todo o destaque na cidade, haja vista as verbas conseguidas por ele durante a construção da escola.