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A primeira dessas obras, o Sanatório Espírita, nasceu com a proposta de José Dias Machado (1874-1942), que acolhia e tratava os doentes em sua própria casa. Ele doou o terreno para construção do primeiro centro espírita da cidade, o Eurípedes Barsanulfo, em 1938, e em seus estatutos deixou contida a idéia da construção do sanatório. Com o falecimento de Machadinho, como era conhecido, em 1942, a pedra fundamental do sanatório só seria lançada em 1951; em 16 de dezembro de 1956, ocorreu sua inauguração (ATA DO CENTRO ESPÍRITA EURÍPEDES BARSANULFO, n. 1).

Entre esse caminho de idealização e a inauguração do sanatório, encontramos, na ata do dia 17 de junho de 1954 do Centro Espírita Eurípedes Barsanulfo, a realização de uma reunião com os líderes espíritas da cidade denominada “Pacto áureo”. Essa reunião marcou o rumo do trabalho espírita efetuado na cidade, visando suprir a carência assistencial que a “capital do arroz” possuía. O senhor Jeronymo Márquez de Andrade, juntamente com o Centro Espírita Bezerra de Menezes, demonstrou o propósito de construir um lar para os

idosos; o jovem Germano Laterza, presidente da União da Mocidade Espírita, realçou seus

interesses na construção de um educandário ginasial gratuito; a senhora Antonia Coelho de Morais falou em nome da Associação de Senhoras de Amparo à Infância quanto à necessidade de se construir um orfanato para acolher as crianças abandonadas. Nessa mesma reunião, considerada o “Pacto áureo”, os espíritas decidiram, primeiramente, unir esforços e terminar a construção do Sanatório Espírita. Essa primeira obra foi inaugurada dois anos mais tarde, em 16 de dezembro de 1956, sendo um marco em Ituiutaba, caracterizando a ação assistencial espírita, para depois prosseguirem os trabalhos com as outras três obras ali citadas e de extrema necessidade22.

A Casa dos Velhos Bezerra de Menezes foi a última obra do “Pacto áureo” a ser construída e a entrar em funcionamento. Foi inaugurada em 29 de dezembro de 1963, mas seus ideais de construção estavam dispostos há muito, com os integrantes do Centro Espírita Bezerra de Menezes, principalmente com Jeronymo Marques de Andrade (1892-1991), popularmente conhecido como seu Nhonhô, sobrinho do capitão Jeronymo. Com a formulação do “Pacto áureo”, essa casa de acolhimento aguardou a fundação do Asilo de

22 O Asilo de Dementes, como era chamado, estava ligado ao Centro Espírita Eurípedes Barsanulfo, sendo um de

seus departamentos. Em 5 de setembro de 1964, as diretorias do centro espírita e do asilo resolveram mudar o nome deste para Hospital Espírita José Dias Machado. E em 1980, o hospital tornou-se autônomo da instituição que o criou (MALUF, 1992).

Dementes para que todos os espíritas se juntassem em prol de sua construção. Destacaram-se, na construção da Casa dos Velhos, o senhor Youssef Gergi Sabbaghi e o Rotary Clube de Ituiutaba. Essa instituição foi construída em terreno de frente ao Sanatório dos Dementes, doado pela Sociedade de Senhoras, que resolveram fundar o Orfanato a que se pretendiam noutra localidade da cidade. E ainda hoje, como Hospital Espírita José Dias Machado, funciona em caráter gratuito, e não só para os carentes, mas também a população de Ituiutaba e região.

Já a ação educacional espírita em Ituiutaba teve seu primeiro esboço com a Escola José Dias Machado, fundada no Centro Espírita Eurípedes Barsanulfo. A escola fora instituída, pois constava do Estatuto do Centro Espírita, fundado em 1938, que dizia da fundação do Asilo dos Dementes e da escola. Mas seu período de funcionamento não consta em registro ou documentação. Por meio de entrevista, conseguimos, de uma de suas ex- professoras, um pequeno histórico de seu funcionamento23. Dona Jerominha, como é conhecida a ex-professora, acredita que a escola tenha funcionado desde o fim da década de 1940 até aproximadamente 1954, no salão do Centro Espírita Eurípedes Barsanulfo. A escola era subvencionada pela prefeitura apenas com o pagamento de duas professoras primárias, que dividiam o salão de reuniões do centro espírita: de um lado, uma professora ficava com a turma de 1ª série; de outro, outra professora ficava com a turma de 2ª série. No início, eram as professoras Iolanda Novaes e Piraçu que tomavam conta da alfabetização desses alunos. Mas, após um tempo, elas pediram demissão, e a escola continuou por um curto período, pois as professoras mais gabaritadas não podiam assumir o compromisso, visto que já trabalhavam no Grupo Escolar João Pinheiro.

A escola funcionava com móveis adequados e carteiras apropriadas, mas não havia registro dos alunos nem documentação, pois o objetivo era que os alunos apenas aprendessem a ler, pelo menos, pois o único grupo escolar da cidade não comportava todas as crianças, principalmente as carentes. A pequena escola funcionava como as escolas da fazenda daquele momento. Dona Jerominha conta que ensinava lá pelo mesmo método que ensinava no grupo estadual: era a silabação e o mesmo programinha de segundo ano também (MACHADO, 2008), mas de uma maneira bem diferenciada, pois o estudo era muito inferior ao do grupo e os alunos muito atrasados. A ex-professora arremata: a gente dava aula de acordo com a

necessidade do aluno, de acordo com a compreensão dele (MACHADO, 2008).

23 MACHADO, Jerônima Alves dos Santos (2008), nasceu em Gurinhatã/MG, em 12 de julho de 1920. Reside

atualmente na rua 18, 320, centro, Ituiutaba/MG, e é professora aposentada do estado. Foi professora do Grupo Escolar João Pinheiro e tornou-se espírita em meados da década de 1950.

O problema do lanche foi resolvido de uma maneira bem espírita, nos moldes da filantropia. Uma integrante do Centro Espírita Eurípedes Barsanulfo, Maria José Fratari, criou a “sopa fraterna” nas dependências do centro para servir aos alunos carentes que ali iam estudar. Com dificuldade, a sopa era feita no fundo do centro espírita, em fogão a lenha. Após o fechamento da escola, a sopa continuou a ser servida uma vez por semana, integrando-se aos trabalhos assistenciais da casa, e passou a se chamar “sopa fraterna Maria Rita”.

A última professora que ficou no cargo não era formada e instruída o bastante para “tocar” a escola, ocasionando o seu fechamento. Conta a ex-professora:

A Terezinha também abandonou porque arranjou um emprego, acho que ela era enfermeira. Eu sei que ficou só essa Alta. E a Alta, coitada, não tinha muita instrução, escrevia tudo errado, deixava escrito no quadro, aquelas coisas... Então o Seu Valter, não sei se o Seu Valter ainda era o presidente do centro nessa época, achou por bem fechar a escola, porque não estava tendo muito progresso. Estava, ao contrário, ensinando errado. Aí fechou a escola (MACHADO, 2008).

Com a precariedade do ensino, o não-incentivo do município e a falta de professorado, a experiência findou-se antes de 1954. Mas essa ação de ensino foi a mola mestra que impulsionou algumas senhoras espíritas ligadas a esse centro a oficializarem a Sociedade de Senhoras de Amparo à Infância. A Sociedade de Senhoras foi fundada em 26 de outubro de 1953 e reunia-se no Centro Espírita Eurípedes Barsanulfo. Seu objetivo principal era a construção do Lar da Criança, orfanato destinado a acolher a criança desvalida da região. A pedra fundamental do Lar da Criança foi lançada no dia 10 de janeiro de 1960, no antigo terreno, cedido posteriormente à construção da Casa dos Velhos Bezerra de Menezes, contando com representantes de destaque como o orador espírita baiano Divaldo Pereira Franco, a então inspetora regional de ensino Izabel Bueno, o deputado Daniel de Freitas Barros, representantes espíritas da cidade e região, além de representantes das lojas maçônicas. Mas um ofício do Departamento Nacional da Criança, datado de 23 de junho de 1960, interrompeu a obra, pois a localização em frente ao Asilo de Dementes não era aconselhada. Foi assim que o Lar da Criança começou a ser construído numa chácara que se encontrava nas imediações da cidade, oferecida pelo então prefeito municipal, douto David Ribeiro Gouveia. A obra só fora concluída em 1969.

Com o advento do “Pacto áureo”, a UMEI predispôs-se à fundação do Educandário Ituiutabano, escola ginasial gratuita na cidade de Ituiutaba e que fora construída entre os anos

de 1954 e 195824. Assim que o Asilo de Dementes foi inaugurado (em 1956), as campanhas a favor da construção dessa escola tiveram maior ênfase, fundamentando-se, principalmente, na renda vinda dos bailes da “Rainha do arroz”. Mas, no lançamento da pedra fundamental do Educandário, em 1954, a Sociedade de Senhoras de Amparo à Infância fez sua primeira doação, levando 200 terninhos de roupas infantis para serem distribuídas à população carente do bairro, conforme encontramos na Folha de Ituiutaba.

1.8 A TENSÃO: AS LUTAS PELA IMPLANTAÇÃO DO EDUCANDÁRIO