DEL I INNFALLSVINKEL
1.4 PROBLEMSTILLING
O projeto para a retificação do rio Tietê que foi executado é de autoria de Saturnino de Britto e data de 1923, já a execução data de 1930 e ficou a cargo do Engº Ulhôa Cintra. O projeto original para a retificação do rio previa uma lagoa de contenção de cheias próxima à Ponte da Bandeiras - antiga Ponte Grande, pois este é ponto mais baixo do rio no trecho urbano da cidade de São Paulo, portanto o mais propenso a enchentes e alagamentos, mas esta lagoa prevista na área urbana não foi executada e a justificativa apresentada foi falta de verba devido ao envolvimento de São Paulo na Revolução de 32.
O projeto de retificação do rio baseou-se no “índice de escoamento”148 que a cidade
apresentava no início dos anos 20 do século XX, sendo na época “i = 0,3” e expressamente percebido devido a várias características da cidade, citadas a seguir:
• residências implantadas em grandes terrenos, preservando área permeável de terra batida e/ou jardim;
• ruas calçadas com paralelepípedos e/ou terra batida; • grande quantidade de córregos com várzea permeável.
A cidade de São Paulo apresentou desenvolvimento urbano extenso e expandiu-se ocupando as áreas permeáveis, o “índice de escoamento” foi aumentando gradativamente e o escoamento das águas na bacia do rio Tietê no Município de São Paulo e na Região Metropolitana de São Paulo passou a apresentar uma velocidade muito maior e um índice de escoamento em torno de “i = 0,9”, podendo também ser observado nas várias características na cidade:
148 BROCANELI: 1998, pág. 36.
O Índice de escoamento (i) é um coeficiente que varia entre 0 e 1, e na boa projeção deste índice de escoamento apóiam-se os projetos de drenagem urbana bem sucedidos, posto que o calculo da calha que o rio deve ter após a retificação é executado com base neste “índice de escoamento” da bacia ou micro bacia em que o rio ou córrego se insere.
i = 0, permeabilidade total das águas no solo, NÃO HÁ ESCOAMENTO. i = 1, impermeabilidade total das águas no solo, HÁ ESCOAMENTO TOTAL.
• a maioria das ruas é asfaltada;
• os terrenos estão altamente impermeabilizados; • grande urbanização do leito de rios e córregos.
Diante deste cenário urbano impermeabilizado, a lagoa de controle de cheias atualmente é aproximadamente três vezes mais necessária do que em 1923 quando foi projetada por Saturnino de Brito.
O entendimento do cenário natural do sítio de São Paulo e das complexidades de seu desenvolvimento econômico somado às características físico-ambientais, nem sempre favoráveis à expansão urbana e considerando-se ainda o paradigma econômico vigente em cada um dos momentos históricos, pautado também pelas diversas situações sociais, talvez exponha as causas pelas quais a cidade de São Paulo paulatinamente eliminou da paisagem seus rios e córregos, podendo ser “este entendimento” o princípio para a recuperação do cenário ambiental, pois, se as causas das retificações e canalizações já não se encontram vigentes, a reversão do quadro paisagístico e ambiental torna-se viável.
O processo de renaturação dos rios e córregos depende da desocupação das áreas úmidas, que poderá ser justificada pela da situação ambiental da cidade e também pela da metodologia do planejamento ambiental a fim de proporcionar espaço à necessária estruturação ecológica da cidade, valorizando os corpos hídricos como um dos principais elementos de ligação entre o homem e a natureza, e também como o principal elemento estruturador da paisagem natural; sendo assim a renaturação das margens do rio Tietê apresenta-se como uma necessidade latente no que tange às medidas de macro drenagem e controle de cheias, assim como de resgate e/ou melhoria da qualidade ambiental, acreditando que uma cidade para estar de acordo com a nova ordem mundial deve desenvolver ações pautadas pelos paradigmas ecológico e ambientalista, tornando-se necessário planejar amplamente e agir localmente. Atualmente, com a impermeabilização da cidade, praticamente 90% do volume total das chuvas escoam para o rio e 10% são absorvidos pelo solo. Devido à alta velocidade de escoamento, provocada pela grande impermeabilização e à existência de galerias de águas pluviais que as conduzem rapidamente ao rio, foi necessário buscar uma solução para o retardamento das águas, implantando-se assim os piscinões. Estes são implantados na cidade e retardam a velocidade do escoamento das águas em direção aos rios. No entanto, são bastante
discutíveis, pois muitos impermeabilizam ainda mais o solo, contribuindo para o aumento de uma das causas das enchentes, a baixa permeabilidade do solo.
Um dos principais motivos das cheias é a incapacidade da calha do rio Tietê conduzir as águas das chuvas críticas ocorridas em São Paulo, pois esta foi dimensionada para um terço do volume atual, como também a inexistência de área destinada ao alagamento e controle de cheias. Outros motivos podem ser a inversão do sentido das águas do rio Pinheiros – causando lentidão no escoamento das águas do rio Tietê – ou as barragens erguidas ao longo do rio assim como o assoreamento do leito.
É importante salientar que o assoreamento do leito do rio é um processo natural e inerente ao rio, no entanto o desassoreamento do rio no trecho da RMSP retira do leito do “rio morto” muito lixo e uma impressionante quantidade de pneus, o que reforça o desprezo com o qual o rio é tratado pelos cidadãos paulistanos.
Um dos poucos exemplos existentes na cidade de São Paulo de espaços urbanos onde houve a preocupação da integração do rio com a cidade foi no Parque Ecológico do Tietê. Situado à jusante de São Paulo - a leste da capital - o parque permite uma área de lazer e contato do cidadão com o rio e, nesta área as águas podem espraiar-se durante as cheias.
Devido às grandes lagoas que possui o parque, o assoreamento do rio faz-se aí em grande quantidade devido à redução de velocidade de suas águas. No entanto as águas ao chegarem ao parque já estão contaminadas com material poluente advindo - em grande parte - das indústrias instaladas em Suzano, município da Região Metropolitana de São Paulo.
Poucos projetos foram desenvolvidos ao longo dos anos para a cidade de São Paulo em que a perspectiva da preservação dos recursos hídricos a curto, médio e longo prazo estivesse em primeiro plano.
É importante salientar que alguns momentos históricos, atitudes políticas, planos de urbanização e reurbanização influenciaram e/ou guiaram a cidade para a realidade atual. Através de atitudes tomadas no passado, poder-se-á rever a postura atual do cidadão comum e do homem público em face do relacionamento da cidade com seus corpos hídricos.
Conclui-se que a legislação dedicada à preservação do meio ambiente foi preparada a passos lentos e a preservação do meio ambiente não está incorporada à cultura brasileira, já que a preservação dos recursos naturais em áreas urbanas de outros países é realizada há muito
tempo, como demonstrado no projeto de Frederick Law Olmested para a preservação do rio Charles em Boston, realizado em 1881, quando um projeto de controle de cheias e despoluição das águas do rio Charles trouxe qualidade de vida aos habitantes de Boston, sendo este referência durante muitos anos.
A crença de que a única maneira de sanear a cidade é com a retificação de rios e córregos advém de uma política sanitarista ultrapassada, que hoje se sabe não ser a única e deve-se ao fato de que a cidade não conhece outro tipo de solução urbanística. 149
Com exceção do parque ecológico do Tietê, que, por sua distância do centro, é pouco conhecido pela maioria da população e dos atuais piscinões, não existem outras soluções. Os piscinões resolvem o problema de uma maneira tecnicamente fria, sem relacionar-se diretamente com a sociedade, pois, não sendo aparentes, com o tempo são esquecidos debaixo da terra, assim como os rios e córregos da cidade de São Paulo. Passa-se, então, a ter um sistema de líquidos subterrâneos pelos quais não se tem o menor interesse, pois a população esqueceu-se das qualidades dos rios e vê suas características como defeitos, um exemplo notório são as cheias que provocam as enchentes.
Apesar da dificuldade do paulistano em relacionar-se com a água na área urbana da cidade, há uma disposição a este tipo de lazer, ativo ou passivo, posto que é percebida tal disposição nos poucos clubes, parques e praças do município que apresentam lagos, lagoas ou chafarizes de forma a comprovar a hipótese de que caso fosse desenvolvida uma rede de espaços urbanos aliados a fontes e chafarizes, onde houvesse a recuperação da memória urbana da água, seria iniciado conjuntamente um processo de melhoria da qualidade de vida ambiental e emocional do paulistano.
Estes espaços poderiam recuperar a memória dos pontos de abastecimento históricos e posteriormente provenientes das primeiras redes de abastecimento da cidade, a fim de recuperar a água como elemento estruturador do espaço na micro ou na macro escala, valorizando e respeitando o relacionamento do homem com a natureza.
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