Para realizar os desenhos figurativos com volteios caligráficos, a primeira recomendação dada por José Lopes Baptista de Almada era desenhar com uma pena
de lápis os contornos das figuras na posição e postura que se desejasse. No caso das
figuras nuas, recomendava que se devia guardar o “decoro e honestidade”.424 Somente depois que o desenho estivesse finalizado e de acordo com a “devida proporção e simetria”, deveria ser coberto com “linhas enroscadas” (os volteios caligráficos), conselho que demonstrou visualmente em uma das poucas imagens de seu livro (FIG. 57). O autor dava detalhes para a perfeita consecução da técnica como, por exemplo, estar atento a que os volteios sempre fossem feitos para dentro da linha do desenho inicial, para que não se perdessem as proporções alcançadas. No caso de figura com asas, fitas, bandas ou outros elementos externos ao corpo principal, os volteios deveriam ser cobertos a tinta com a mesma linha que se tivesse feito o corpo, dando a impressão de ter sido feito com um único movimento de pena. Para os modelos passíveis de serem copiados, remetia aos trabalhos de Andrade, Morante e Senault (francês). As figuras vestidas com “franjões, plumagens, peito, elmo, escudo, etc., tudo proporcionado ao sexo e condição da mesma figura”,425 seguiriam as mesmas instruções, acrescidas de uma maior dificuldade para adaptar as vestimentas aos corpos.
Após a finalização do desenho, o autor ensinava como preparar o papel para receber a tinta, para que ela “pareça impressa”,426 aplicando‐se uma camada de “goma graxa” (pó feito a partir de casca de ovo finamente moída) com uma bolsa feita com pano de linho, em pressões suaves sobre o papel. Após essa preparação, o calígrafo 423 Cf. nota 413. 424 ALMADA. Prendas da adolescencia ..., p. 61‐63. 425 ALMADA. Prendas da adolescencia ..., p. 65. 426 FIGUEIREDO. Nova escola ... p. 34.
deveria preparar uma pena com a ponta muito fina e curta e cobrir o desenho com a tinta preta. A sugestão do autor para dar uma aparência profissional ao desenho era fazer as linhas parecerem perfeitamente unidas, mesmo que tivessem sido cobertas com movimentos descontinuados da pena, porque de outra sorte ficarão penadas sem primor e sem gala. Neste ponto se funde toda a admiração dos que não sabendo o modo de fazê‐las, entendem que pegando a pena, sem mais preparação alguma, se fez inteiramente o artifício de toda a figura ou penada.427 Um dos efeitos elegantes e desejáveis na escrita à pena era o uso de diferentes espessuras das linhas feitas em uma mesma sequência. Esse efeito poderia ser atingido de várias maneiras. Uma delas era a variação da pressão da pena sobre o papel; outra era a mudança de posicionamento da pena de ponta larga durante o trajeto da mão, da forma como Andrade ensinou. Isto exigia uma habilidade extrema do calígrafo. Almada, porém, ensinava um modo mais prático e fácil de alcançar os “grossos” da linha. Primeiro dever‐se‐ia cobrir todo o desenho com a linha fina e somente depois aplicar a segunda camada de tinta, fazendo as linhas grossas. Novamente, o importante, no entender do autor, era que, ao encorpar e unir os riscos finos, o manejo da pena devesse ser “de tal modo que quem os vir fique entendendo que de uma penada, ou golpe, foram feitos uns e outros”.428 Ainda dava recomendações básicas como não deixar cair as linhas finas sobre outras igualmente finas, nem linhas grossas sobre outras grossas, manejo que prejudicaria o efeito de luz e sombra alcançada pelas diferenças de espessura da linha.
Este artifício técnico facilitava em muito a execução das ornamentações. A preocupação repetida do autor de “fazer parecer” que os desenhos haviam sido feitos conforme as técnicas mais elaboradas da caligrafia é própria do público que se pretendia alcançar, ou seja, aqueles que eram iniciantes ou não especialistas na arte da escrita. De certa forma, o objetivo dos livros que continham os “segredos” das artes, era a de popularizar o conhecimento, tornando‐o acessível a uma parcela maior de interessados. Estes recursos foram utilizados por calígrafos/pintores na América
427 ALMADA. Prendas da adolescencia ..., p. 63 (grifo nosso). 428 ALMADA. Prendas da adolescencia ..., p. 65.
portuguesa e podem ser percebidos através de um olhar aproximado para as linhas do desenho, que deixam visíveis as emendas feitas em muitos tracejados das ornamentações.
Do conjunto de compromissos analisados, apenas 10 deles apresentam desenhos caligráficos figurativos (17% do total), sendo seis deles da região das Minas e quatro da Bahia. O pequeno número pode ser justificado pela dificuldade intrínseca ao desenho figurativo. Este recurso decorativo pode ser visto nos três compromissos já apresentados para exemplificar as técnicas de cópias (FIG. 47, 48, 49, 55, 56), assim como em outros reproduzidos no volume de imagens. Outros dois documentos podem ilustrar pontualmente a aplicação desta técnica: o compromisso da irmandade de São Miguel e Almas da Freguesia de Nossa Senhora do Pilar de São João del Rey, realizado em 1804429 (FIG. 58) – comprovando o uso deste tipo de decoração já no século XIX; e o compromisso da irmandade do Senhor Bom Jesus dos Aflitos e Boa Sentença, da freguesia de Nossa Senhora da Vitória, na Bahia, datado de 1778430 (FIG. 59). Neste último manuscrito, de belíssima composição gráfica e alto domínio técnico, estão presentes vários exemplos de composições de vinhetas figurativas feitas com volteios caligráficos ou com bico de pena. O executor procurava estabelecer um diálogo visual nas páginas contrapostas, sugerindo a presença de um planejamento prévio da composição gráfica total.