4.3 Viewer
4.3.1 Graphical framework
Grandes calígrafos conseguiam unir as habilidades da escrita e da decoração, como Pedro Díaz Morante e Manoel de Andrade de Figueiredo. O primeiro mostrava a capacidade de desenhar nas matérias da escrita, enquanto o segundo registrava em seu manual uma série de modelos de capitulares de caráter pictórico, com decorações vegetalistas e zoomorfas.367 Entretanto, os dois autores não forneciam as receitas de tintas para iluminação nem ensinavam como traçar ou copiar os modelos disponibilizados. Portanto, embora fosse de uso corrente em determinados tipos de documentos, a letra pintada e os desenhos ornamentais não eram ensinados na maioria das publicações de caligrafia, ao contrário do que afirma Wilson Souza, que acredita que “a educação para escrita no século XVIII era também a educação para o desenho”, pois, para ele, Andrade “não concebia a escrita desvinculada dos ornatos.”368 O autor defende que a atividade dos calígrafos foi a primeira a introduzir as técnicas do desenho no mundo luso‐brasileiro do setecentos e destaca o ensino da ornamentação de manuscritos através da geometria como um meio de educação visual dos alunos. Talvez Souza tenha superdimensionado o enfoque da escrita caligráfica no ensino formal das primeiras letras e dado um destaque maior que o
366 HANSEN. “Prefácio” In: GRAMMONT. Ajeijadinho e o aeroplano, p. 26.
367 Infelizmente não foi consultado nenhum documento manuscrito realizado por Manoel de Andrade de Figueiredo para atestar a sua habilidade pictórica.
necessário à defesa (subtendida) de Manoel de Andrade de Figueiredo ao ornamento da escrita. O calígrafo dedicou várias páginas à composição gráfica das letras humanísticas cursiva, romana, grifa, entre outras, mas no que tange à ornamentação, serviu muito mais como modelo do que como manual, dada a ausência de explicações didáticas e práticas sobre o assunto. No entender do mestre português, pintar letras e escrever eram duas atividades distintas.
Na série analisada de documentos sobre ensino da caligrafia, especialmente os espanhóis, percebe‐se uma falta generalizada de exemplares que demonstrem o estudo de letras pintadas ou com aplicação de folhas metálicas (ouro e prata). O aprendizado do desenho e da pintura decorativa de manuscritos, portanto, deveria ser realizado na prática – tendo o discípulo que aprender a partir dos conhecimentos do mestre – ou através da leitura de tratados ou manuais de pintura, como os livros conhecidos como “segredos das artes liberais”, comuns nos séculos XVII e XVIII. Sabe‐ se que o ensino da pintura em Portugal era essencialmente oficinal, caracterizado pela ausência de academias, professores e livros, exceto pela iniciativa de D. João V de estabelecimento da Academia Portuguesa em Roma entre 1725 e 1727. Já o desenho recebeu uma atenção da Coroa a partir daquele período, quando surgiram diversas tentativas de suprir a falta do ensino artístico e tecnológico, tendo sido criadas a Escola da Casa da Moeda (1721), a Escola de Mafra (1770, transferida posteriormente para Lisboa), a Escola de Desenho da Fundição de Artilharia (1749) e posteriormente a Casa do Risco do Real Jardim Botânico, fundada para contribuir com a reconstrução de Lisboa (1755).369 Eram, contudo, aulas ligadas ao âmbito da instrução militar e aos ofícios mecânicos.370 A partir das reformas pedagógicas da segunda metade do século XVIII, outras escolas ligadas ao conhecimento científico foram implantadas no Colégio dos Nobres, na Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra e na Casa Pia do Castelo, cuja aula de desenho, criada em 1781, foi dirigida por Antonio Fernandes Rodrigues, gravador e arquiteto, natural de Mariana, que havia aprendido o desenho com João Gomes Baptista em Minas Gerais.371 369 SALDANHA. A pintura em Portugal no tempo de D. João V. In: Joanni V Magnífico, p. 31‐33. 370 FARIA. A imagem útil, p. 56. 371 FARIA. A imagem util, p. 56; FARIA. A imagem impressa, p. 179.
Somente a partir de meados do século XVIII houve o incentivo para a publicação, reedição e tradução de tratados e manuais de pintura em Portugal. Uma iniciativa de destaque foi a reedição, em 1767, de Arte da pintura: symetria e
perspectiva, de Filipe Nunes, um dos poucos títulos em língua portuguesa que foram
impressos no século XVII. Esta obra contém uma série de informações sobre a preparação das tintas e as técnicas usadas para pintura em diversos suportes, incluindo o papel e o pergaminho. Foi bastante utilizada em sua época e copiada intensivamente ao longo dos séculos XVII e XVIII, em versões integrais ou parciais, para compor as bibliotecas conventuais.372 Havia também edições mais populares, como
Prendas da Adolescencia ou Adolescencia Prendada, de José Lopes Baptista de Almada,
no formato de dicas e receitas, que ensinavam de forma direta os métodos operativos: as misturas de cores, as técnicas de preparo dos materiais (suporte e tintas) e de cópias de modelos (estampas, gravuras e imagens de livros). Alguns destes manuais e tratados foram pesquisados no projeto "As matérias da imagem: os pigmentos na
tratadística portuguesa entre a Idade Média e 1850", desenvolvido pelo Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras e pelo Departamento de Química da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, entre 2005‐2009.373 Muitos deles nunca foram impressos, como o Breve Tratado de Iluminação (1625‐1650), de autor anônimo, e o Tratado de várias curiosidades (1703), de Braz Rodriguez Pereira. Muitas obras se formaram a partir dos cadernos de anotações dos amadores da arte da pintura sobre papel, que sintetizavam as informações coletadas em diversos campos. Algumas vezes esses cadernos continham, além da informação textual sobre as “receitas” de pinturas, uma série de modelos iconográficos que poderiam ser reproduzidos e que faziam parte do aprendizado do pintor de manuscritos. Entre estes, cita‐se um pequeno caderno no formato in 16º, pertencente a Antonio José Francisco, um de seus três autores.374 Na primeira folha (FIG. 29a) encontra‐se a denominação das cores ao lado da sua respectiva correspondência cromática. Em
372 MONTEIRO; AFONSO. “Fontes para o estudo dos pigmentos na tratadística portuguesa: da Idade Média a 1850”. Artis, n.6, p. 167.
373 Sobre os manuais de pintura não impressos, Cf. MONTEIRO; AFONSO. “Fontes para o estudo dos pigmentos na tratadística portuguesa: da Idade Média a 1850”. Artis, n.6, p. 161‐168.
seguida havia oito modelos de mármore fingido, também relacionados com os respectivos nomes das pedras que representavam. Esse dado é significativo para compreender como o domínio da linguagem técnica da arte era fundamental para a perfeita compreensão, pelo executor, das demandas do encomendante. Neste caderno ainda se encontram várias receitas de tintas e uma série de pinturas com modelos de figuras humanas em diversas posições, tendo ao fundo paisagens, sendo todas as composições emolduradas em formato circular, seguindo a mesma padronagem (FIG. 29b). Havia também cenas de passagens bíblicas, como os Passos da Paixão. A qualidade técnica das pinturas e dos desenhos é baixa, o que sugere ter sido um caderno de anotações de um grupo de aprendizes, usado como referência para desenvolver composições a partir dos modelos compilados.
Outros manuscritos confirmam a mesma prática de coletar informações em obras variadas, criando‐se um caderno pessoal de instruções para pintura. É o caso do manuscrito designado Noções de desenho, geometria e arquitetura, possivelmente elaborado na primeira metade do século XVIII. O manuscrito pertence à Biblioteca da Universidade de Coimbra e foi de propriedade de Francisco Maia, mestre calafate, e, depois, de Manoel Lourenço Alves, que o recebeu em 1839.375 Trata‐se da compilação de pequenos trechos sobre geometria, desenho de figura humana e de arquitetura (estes retirados de As cinco ordens da Arquitetura, de Giacomo Barozzi da Vignola, cuja primeira edição foi em 1562). As informações vêm acompanhadas de demonstrações visuais provavelmente copiadas dos originais (FIG. 30). Uma das anotações destaca que “a ciência da geometria é uma das sete artes liberais muito necessárias, a todos os oficiais mecânicos, e assim não tem parte em ela, e não podem ser bem resolutos em suas Artes é a geometria um instrumento que muito ajuda a compreender todos os saberes do mundo (sic)”.376 Alguns cadernos mesclavam reproduções manuscritas de obras impressas com anotações pessoais, como se observa em um exemplar que também se encontra nessa
375 “Noções de desenho, geometria e arquitetura”, BUC – Ms 3056. A datação foi resultado da análise organoléptica das características materiais do objeto, como a qualidade da tinta e do papel. 376 [Noções de desenho, geometria e arquitetura],p. 10‐11. BUC – Ms 3056.
mesma Biblioteca. Trata‐se da cópia do livro do Padre Andrea Pozzo, Perpsectiva
pictorum et arquitectorum (Roma, 1700).377 O documento é composto de duas partes,
a primeira traduzida para o português pelo Padre João Saraiva, do Porto, e a segunda pelo pintor José de Figueiredo Seixas, em 1732, segundo as informações bibliográficas. Depois do texto de Pozzo, Seixas recolheu de outras fontes uma série de receitas de tintas, de métodos de se aplicar o douramento e o verniz. Não se trata apenas de uma transcrição de uma obra editada, mas de uma criação de outro documento, um manual de trabalho para pintura em diversos suportes (parede, tela e papel). Esta é uma característica do manuscrito, uma obra que possui uma estrutura aberta e que permite acréscimos com muito mais facilidade, como afirma Fernando Bouza Álvarez378 e como já foi discutido anteriormente.
Curioso é outro manuscrito, identificado sob o título Memórias Econômicas, que foi propriedade do padre Martinho Pereira, da Congregação do Oratório de Braga.379 O documento contém anotações sobre diversas obras, entre as quais: a quarta edição de Diccionario Economico que contem diversos meyos, para augmentar
os próprios bens e conservar a saude própria (1741), do padre francês Natal Chomel; O Pároco Instruído, do mesmo autor; e o famoso livro Segredos das Artes Liberais e Mecânicas, de Bernardo de Montón, vertido ao português por Joaquim Feyo Cerpa em
1744. O primeiro título é uma compilação de outros manuscritos antigos que versam especialmente sobre agricultura, mas também sobre botânica e medicina popular. O caderno de Padre Pereira compilava a diversidade de seus interesses, que iam do cultivo de plantas às receitas de tintas incomuns e letras especiais, além das técnicas para cópia de estampas para iluminação.
377 “Perspectiva de pintores e architectos compostas em Roma pelo Excelentíssimo pintor e architecto o Irmão Andre Poço da Companhia de Jezus”. BUC – Ms 222.
378 BOUZA ÁLVAREZ. Corre manuscrito, p. 78. 379 “Memórias econômicas Tomo 4º”. ADB – Ms296.