Muitos historiadores têm defendido que foi intensa a utilização de gravuras italianas e alemãs como fontes e modelos para pinturas realizadas no Brasil setecentista. Outros acreditam em uma aproximação mais direta com o que era produzido em Portugal.385 Quanto à caligrafia e à pintura em manuscritos, tem sido defendida nesta tese a presença marcante da produção espanhola nas obras executadas em Portugal e no Brasil. O que não resta dúvida, a partir de todo esse debate, é que havia uma circulação internacional de imagens gravadas. O mesmo acontecia, evidentemente, com mostras caligráficas para escrita e ornamentação de manuscritos.
É necessário que se compreenda, portanto, algumas das maneiras como os modelos de caligrafia ornamentada eram divulgados. Além dos manuais da arte da escrita já apresentados, as mostras caligráficas impressas circulavam em forma avulsa, tal como as gravuras que reproduziam pinturas. São vários os exemplares de manuais
de caligrafia nos quais subsistem somente as lâminas gravadas, sem o texto correspondente. Como exemplo, cita‐se o exemplar de Nova Arte de Escrever, de Antônio Jacinto de Araújo que se encontra na Residencia de Estudiantes, em Madrid,386 e a maioria dos exemplares de manuais de caligrafia pertencentes ao acervo da Biblioteca da Ajuda, em Lisboa, como será discutido. Estes objetos podem ter sido compostos a partir de lâminas ou conjuntos parciais das obras que se vendiam separadamente. No volume de gravuras que constitui o conjunto designado Maestros
de Madrid,387 da Biblioteca da Residencia de Estudiantes, encontra‐se uma série de mostras de caligrafia impressas em papel fino e de baixa qualidade. Muitas delas foram feitas pela Escola Pia de Madri,388 algumas a partir de trabalhos de jovens alunos, como mostra a Figura 40a, cujo original foi gravado na própria escola pelo padre Michael de Santo Andrea.389 Essas gravuras serviriam não só para a divulgação dos resultados alcançados na escola, mas também para ampliar o seu uso nas funções didáticas. Outro professor da mesma escola, Padre Santiago Delgado, também mandou gravar várias mostras de letras para serem usadas pelo método de cópia por papel transparente, considerado muito útil para discípulos de “torpe compreensão”.390 Pranchas avulsas também foram produzidas na Espanha pelos padres jesuítas, o que é compreensível pela extensão do trabalho educativo levado a cabo por esta ordem religiosa em todo mundo (FIG. 40b).
Vários outros exemplos de mostras avulsas encontram‐se no conjunto documental denominado Maestros Espanholes – Muestras originales siglos XVI e XVII, também do acervo da Biblioteca da Residencia de Estudiantes. Neste mesmo exemplar, encontram‐se algumas correspondências trocadas entre José Casanova e Blas Lopez, ambos calígrafos espanhóis. Casanova pedia ao seu colega, que comercializava livros, que lhe enviasse “muchas cosas de su gosto”, um livro de
386 RES – MP3 R 604. 387 RES – MP3 R 634. 388 As escolas pias foram fundadas pelos padres escolápios; alguns segmentos atendiam aos alunos carentes. Cf. MADOZ. Diccionario geográfico‐estadístico‐histórico de España …., p. 287‐288. 389 MAESTROS de Madrid – RES – MP3 R‐634. 390 Segundo Torio de la Riva, este método foi inventado por Ignacio Perez, cuja publicação data de 1599. TORÍO DE LA RIVA Y HERRERO. Arte de escribir por reglas…, p. 62.
“peregrinação” e o “tomo de estampas de Pedro Díaz Morante”.391 Em 1666, o mestre de primeiras letras Pedro Pablo, de Barcelona, encomendaou mostras de letras a outro comerciante, sendo
cuatro renglones de cada una, del maestro Joseph Bravo de Robles, que vive en Madrid, que sean de su propia mano ya le pude decir que son por un Maestro de Barcelona que tiene mucho deseo de tener letra de su mano por haber visto de su mano en casa de un maestro que se llama Adres Luis no tengo más que suplicarle sino que me mande en su servicio (sic). 392 Na Espanha, houve alguns calígrafos que se especializaram em abrir chapas de gravura para impressão de mostras caligráficas. Durante o século XVII, vários mestres que imprimiram obras sobre a matéria reclamavam da falta de capacitação técnica de gravadores para lidar com matéria tão específica. José de Casanova, como já foi dito, teve que aprender a arte da gravação em chapas para tentar atingir uma maior fidelidade na reprodução de seu trabalho. Porém, no final do século XVIII Santiago Palomares393 considerava que a arte da gravura, especialmente a feita em cobre, já tinha atingido um bom desenvolvimento; portanto, não se justificava a ausência de exemplares de letras normatizadas para ensino da escrita, fato que atrapalhava o estabelecimento de um “caráter nacional” e de princípios comuns nas escolas de primeiras letras espanholas. O autor ainda comentava o mau gosto das “innumerables muestras sueltas grabadas a buril, que andan esparcidas por todas as partes”.394 Para a luxuosa obra de Domingo Maria Servidori (1789),395 vários gravadores trabalharam para a elaboração das mostras caligráficas, inclusive reproduzindo letras de antigos mestres italianos.
391 MAESTROS Españoles. Muestras originales siglos XVI e XVII. RES – MP3 R633, f. 4,5,6, 9. (grifo nosso).
392 “quatro lâminas de cada uma, do mestre Joseph Bravo de Robles, que vive em Madri, que sejam de sua própria mão; pode dizer‐lhe que são para um mestre de Barcelona que tem muito desejo de ter letra de sua mão por ter visto um manuscrito em casa de um mestre que se chama Adres Luis; não tenho mais que suplicar‐lhe que me mande em seu serviço”. Maestros Espanholes. Muestras originales siglos XVI e XVII. RES – MP3 R633.
393 SANTIAGO PALOMARES. Arte nueva de escribir…, p. xxii.
394 “inumeráveis mostras soltas que andam espalhadas por todas as partes”. SANTIAGO PALOMARES. Arte nueva de escribir…, p. iii.
Esse comércio de mostras impressas e manuscritas também pode ser detectado pelas características dos códices que reúnem vários trabalhos da escola de Pedro Díaz Morante encontrados no acervo da Biblioteca da Residencia de Estudiantes de Madri.396 Nestes códices encontram‐se compilações de pranchas gravadas e manuscritas. Essa junção pode ter sido feita por colecionadores modernos, mas há indícios materiais de que os próprios manuscritos fossem eventualmente “restaurados” pela oficina de Morante, realizando‐se a complementação de partes faltantes do desenho ou do texto, para melhorar sua aparência estética (FIG.41). Vários destes manuscritos restaurados e outros ainda íntegros, executados por diversos calígrafos da escola de Morante, foram colados em um suporte secundário de papel de trapo de características correspondentes ao século XVII (segundo sua textura e distribuição das fibras na folha), uniformizando as dimensões e fornecendo uma estrutura reforçada aos desenhos. Estes, muitas vezes, foram feitos em papéis de baixa gramatura e provavelmente surgiram como rascunhos ou borradores. As intervenções nas obras procuravam modificar o seu estatuto original: de estudo a obra finalizada. Assim, estas mostras caligráficas puderam circular de forma avulsa, constituindo as coleções que hoje conhecemos.397 A tendência da escola de Morante em vender mostras caligráficas separadamente da parte textual revela‐se também na forma como o calígrafo estruturava seus livros, tornando texto e imagens duas partes independentes. Ana Martinez Pereira imagina que
Morante ha sido víctima de su propio éxito y del modo que escogió para presentar sus trabajos. En sus libros la parte teórica y las láminas parecen dos unidades independientes, y desde muy pronto su fama como calígrafo/artista hizo que sus
396 MORANTE HIJO. (Rasgos Liberales. Coleção de mostras e exercícios caligráficos). Volume 1 e 3 RES – MP3 R 549, R551; o volume 2 desta coleção foi restaurado em época contemporânea e suas características originais foram modificadas, por isso não foi utilizado para esta análise específica; MORANTE HIJO. Vários Originales. Manuscritos encadernados em códice. RES – MP3 R‐553.
397 Diante da existência de vários códices que reúnem mostras caligráficas impressas e textos variados de Morante em acervos bibliográficos, Ana Martinez Pereira não acredita que sua constituição original tenha sido uma proposta editorial da oficina de Morante, pois cada um dos códices apresenta diferentes mostras, algumas do filho de Morante, tendo sido constituídas por colecionadores. Cf. PEREIRA. Manuales de escritura de los siglos de oro, p. 251. Há dois destes códices na coleção da Biblioteca da Ajuda, em Lisboa, e são os únicos exemplares conhecidos de obras de Pedro Díaz Morante encontrados em Portugal. Estes códices contêm diversas lâminas gravadas com mostras caligráficas, em formatos diferentes, sendo algumas delas repetidas. BA– 38‐XII‐17 e 38‐XIII‐18.
láminas, las que vendía sueltas, en cuadernos de muestras exentos, o las que acompañaba de texto teórico, fueron perseguidas por aficionados sin respetar la unidad editorial que él defendió en cada una de sus obras.398
Ainda observa a mesma autora que, na Quarta parte del Arte Nueva de Escrevir, os valores de venda da obra foram distintos para a parte tipográfica (que contém os textos: teoria, licenças, poemas) e a parte calcográfica (que contém as imagens com mostras caligráficas), fato não ocorrido nas outras edições do mesmo autor.399 A taxação do livro foi feita sobre as folhas inteiras impressas (que, depois de dobradas, formariam os diversos cadernos que conformam a estrutura da encadernação, chamados pliegos em espanhol). Os pliegos das lâminas tiveram valores quatro vezes mais altos do que os de texto,400 o que faz supor que já se previa a venda separada das partes de texto e imagem.
Em Portugal, há indícios que o comércio de mostras de lâminas avulsas impressas tomou impulso somente em fins do século XVIII e não foram encontrados exemplares anteriores a 1784 nos acervos consultados. A Biblioteca da Ajuda reúne alguns conjuntos de mostras caligráficas, muitas delas estrangeiras, que foram adquiridas pelo colecionador Manoel Joaquim de Sá Braga, professor de primeiras letras do Real Colégio dos Nobres e doadas à Biblioteca Real em 1831. Uma das obras portuguesas desta coleção401 contém 18 lâminas de mostras de letras portuguesa, inglesa, francesa e italiana, além de quatro textos para cópias; encontra‐se encadernada com outras obras do mesmo gênero, três francesas e uma inglesa. Não há texto teórico explicativo nem indicação do autor. Na página de rosto apenas
398 “Morante foi vítima de seu próprio êxito e do modo como escolheu para apresentar seus trabalhos. Em seus livros a parte teórica e as lâminas parecem duas unidades independentes, e desde muito cedo sua fama como calígrafo/artista fez que suas lâminas, as que vendia soltas, em cadernos de mostras avulsas, ou as que acompanhava de texto teórico, fossem perseguidas por amadores sem respeitar a unidade editorial que ele defendeu em cada uma de suas obras”. PEREIRA. Manuales de escritura de los siglos de oro, p. 228.
399 PEREIRA. Manuales de escritura de los siglos de oro, p. 248.
400 Os preços dos livros de Morante foram assim taxados: no primeiro e no segundo título, 14 maravedis cada pliego; no terceiro, 20 maravedis cada pliego; no quarto, quatro maravedis em cada pliego e 16 cada “matéria” (gravura). No presente momento não é de interesse identificar o valor absoluto atualizado de cada livro, mas estabelecer uma relação comparativa entre os valores estabelecidos para a parte de texto e para a de imagens.
aparece o título Arte de escrever perfeitamente, ou collecção escolhida de traslados de
letra portuguesa, inglesa, francesa, e italiana com preceitos desta arte &c., e as notas
tipográficas “Vende‐se na loja de João Baptista Reycend, e Companhia Mercad[ores] de Livros, no Largo do Calhariz em Lisboa”; a data foi acrescentada à tinta e registra o ano de 1784. A obra, sem autoria, foi impressa às custas do mercador de livros, conforme informação expressa na primeira lâmina. As páginas estão numeradas, o que indica que seriam comercializadas como um conjunto.
Já adentrando no século XIX, Manoel Satírio Salazar publicou Nova Arte de
Escrita para se aprender theorica, e praticamente... em 1807 pela Impressão Régia. Há
uma grande parte teórica, na forma de diálogo entre mestre e discípulo, mas não contém informações essencialmente diferentes das demais obras que foram difundidas no século anterior. Naquele ano, Salazar dizia ter 28 anos de profissão; portanto, o calígrafo português iniciou sua carreira em fins da década de 1770, agregando o conhecimento divulgado naquele momento. Quanto aos modelos de letras, percebe‐se o grande enfoque no tipo de letra inglesa, uma tendência da caligrafia a partir da segunda metade do século XVIII, como já foi dito anteriormente. O mesmo autor fez circular no Reino de Portugal uma série de estampas intitulada Nova
collecção de traslados para se aprender a letra ingleza, contendo dez lições de
caligrafia, sendo as primeiras destinadas ao treino das linhas e curvas que compõem as letras e as demais contendo pequenos textos e frases para cópias, nas línguas portuguesa, inglesa, francesa e espanhola. Esta edição não contém notas tipográficas e não saiu do prelo de tipógrafos, mas de oficinas de gravadores. Assim, mesmo tendo sido formada como um conjunto consistente, acabou por não ser considerada uma “edição tipográfica”. A existência desta coleção de pranchas calcográficas indica que produções similares com modelos de letras podem ter corrido pelos domínios portugueses. As demais mostras caligráficas da coleção da Biblioteca da Ajuda foram impressas no decorrer do século XIX e fogem do escopo cronológico desta tese.