• No results found

Como  já  foi  abordado  anteriormente,  a  cópia  de  modelos  iconográficos,  de  padrões de design, de letras ou de ornamentos não constituía nenhum problema para  os  artífices  durante  o  século  XVIII,  que  nem  ao  menos  necessitavam  ocultar  suas  fontes, já que o imitatio era aspecto central da obra artística do período. Tal como as 

       410   AHU – CU‐Compromissos Códice 1666.  411   AHU – CU‐Compromissos Códice 1534. 

técnicas utilizadas nos livros medievais e aquelas apresentadas por José Lopes Baptista  de Almada, várias das capitulares e decorações marginais de manuscritos adornados  foram  copiadas  diretamente  dos  manuais  de  caligrafia  seiscentistas  e  setecentistas,  assim  como  demonstram  alguns  dos  exemplares  estudados  que  revelam  ou  deixam  subentendidos os processos de cópias.  José Lopes Baptista de Almada dedicou toda  uma parte de sua obra aos modos de copiar desenhos, cujo título já deixa implícita a  sua utilidade: “Socorro particular para os curiosos que não souberem dibuxar”.412 São  cinco as maneiras que ensinava: 

  a) A primeira é a técnica de fazer um quadriculado sobre a imagem, repetindo‐ o  na  folha  que  se  quer  desenhar,  de  igual  tamanho,  maior  ou  menor  conforme  se  deseje manter o formato original, aumentá‐lo ou reduzi‐lo. O quadriculado será uma  referência  das  distâncias  entre  cada  parte  do  contorno  da  imagem,  facilitando  sua  cópia indireta pelo desenhista; 

  b) A segunda maneira é fazer um decalque do desenho refazendo suas linhas  com lápis ou carvão, deitar esta face do original sobre o papel que se quer ornamentar  e brunir pelo verso usando uma concha muito lisa. Para diminuir o brilho causado pela  abrasão  com  a  concha,  o  autor  recomendava  que  se  usasse  uma  interface  de  papel  limpo. Nesta técnica, o desenho original ficaria em posição invertida; 

  c)  A  terceira  técnica  consistia  em  aplicar  carvão  sobre  o  verso  da  folha  que  contém o desenho, colocá‐la sobre a folha que se quer decorar e depois contornar as  linhas do desenho com uma espátula (“ponteiro”) de osso ou de madeira. Esta técnica  fazia com que o desenho ficasse na mesma posição que o original; 

  d)  No  quarto  modo  utilizava‐se  um  vidro  colocado  sobre  o  desenho,  no  qual  seria  delineado  o  contorno  da  imagem  com  tinta  preta.  Depois  de  seca  a  tinta,  aplicava‐se  um  papel  molhado  sobre  o  vidro,  esfregando  suavemente  com  uma  esponja,  ao  modo  de  gravura.  O  papel  deveria  permanecer  sobre  o  vidro  por  meia 

      

412   ALMADA.  Prendas  da  adolescencia  ...,  p.79‐83.  Algumas  dessas  técnicas,  como  a  do  quadriculado e do spolvero, eram de domínio público e também foram descritas por Felipe Nunes, como  “modo fácil para copiar huma cidade, ou outra qualquer cousa”. Cf. NUNES. Arte da Pintura, p. 106. 

hora e, depois de ser removido, o contorno do desenho seria perfurado com agulhas e  transposto  para  outro  suporte  através  da  aplicação  de  pó  de  carvão  com  uma  “boneca”, técnica conhecida como spolvero ou, popularmente, como picadinho;     e)  A  quinta  técnica  consistia  em  fazer  um  papel  translúcido  impregnando‐o  com azeite quente. Este papel, depois de preparado, seria colocado sobre o desenho,  que  teria  suas  linhas  copiadas  com  tinta.  O  molde  de  papel  translúcido  depois  seria  utilizado para a transferência definitiva com a técnica spolvero.  

Estes  métodos  poderiam  ser  igualmente  usados  para  cópias  de  letras  capitulares, como explicava José de Casanova: 

Pero  los  que  son  curiosos  siempre  tienen  algunos  Abecedarios  de  estas  Mayúsculas  grandes, que llamamos de caza, con diferentes adornos, que sirven para principios de  capítulos, de las cuales se hacen tres o cuatro de cada una, y las que mas perfectas  salen,  las  pican  para  valerse  de  ellas  cuando  se  ofrece,  en  que  hallan  grande  alivio,  ahorrándose  el  mucho  enfado,  y  prodigalidad  que  ocasiona  el  hacerlas  siempre  de  nuevo, y no estar sujetos a que unas salga acertadas y otras no. También se hace lo  mismo con los adornos de los principios de los privilegios, teniendo picados algunos  diferentes con sus Mayúsculas, al modo de los dos que van adelante, que servirán de  modelo: y los que fueren curiosos, y algo dibujantes, podrán conforme a ellos hacer las 

diferencias que quisieren. 413 

Outra  prática  utilizada  foi  a  reprodução  dos  desenhos  feitos  pelo  próprio  artista, usando a transparência da folha para copiar a imagem da frente. Esta técnica,  de origem medieval, foi utilizada nos capítulos terceiro e quarto do compromisso da  irmandade de São Gonçalo da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Vila Rica, de  1725,414 cujos desenhos de entrecruzamentos de linhas curvas finalizando em pássaros  se  encontram  na  frente  e  verso  da  mesma  folha.  A  replicação  de  esquemas  de 

      

413   “Mas  os  que  são  curiosos  sempre  têm  alguns  abecedários  destas  maiúsculas  grandes,  que  chamamos  de  caixa,  com  diferentes  adornos,  que  servem  para  princípios  de  capítulos,  das  quais  se  fazem três ou quatro de cada uma e, as que saem mais perfeitas, as picam para valer‐se delas quando se  necessita, o que traz grande alívio, diminuindo o enfado de fazê‐las sempre. Também se faz o mesmo  com os adornos dos princípios dos privilégios, tendo picados alguns diferentes com suas maiúsculas, ao  modo  dos  dois  que  vão  adiante,  que  servirão  de  modelo:  os  que  forem  curiosos  ou  algo  desenhistas  poderão  fazer  as  diferenças  que  quiserem”  (grifo  nosso).  CASANOVA.  Primera  parte  del  arte  de  escribir..., f.40v. 

composição  em  mais  de  um  documento  por  um  mesmo  artista  também  pode  ser  considerada  uma  forma  de  reprodução  e  propagação  de  ideias  estéticas  e  serão  analisadas mais detalhadamente no capítulo seguinte. 

Em  12  dos  59  documentos  analisados  (20%)  foram  identificados  os  modelos  utilizados para sua ornamentação. Em cinco deles foi utilizada a cópia direta através do  decalque a partir do modelo impresso, fato que se atesta pela coincidência de formas  e  dimensões  com  os  referenciais  conhecidos.  Este  trabalho  de  comparação  entre  modelo e documento pode ser feito infinitamente, principalmente com a descoberta  de outros referenciais que foram usados pelos profissionais que atuaram na América  portuguesa.  Mas  serão  apresentados  apenas  dois  exemplos  paradigmáticos  de  aplicação  das  técnicas  de  reprodução  direta  do  modelo:  os  compromissos  da  irmandade do Glorioso São Gonçalo da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição  de Vila Rica415 e da irmandade de Nossa Senhora do Pilar das Congonhas de Sabará,416  ambos feitos em 1725 pelo mesmo calígrafo/pintor (FIG. 45).  

A  primeira  comparação  refere‐se  às  capitulares  vegetalistas  dos  documentos  citados, feitas a partir do modelo de Manoel de Andrade de Figueiredo. Por manterem  as  mesmas  proporções  e  dimensões,  trata‐se  sem  dúvida  da  prática  de  cópia  direta  feita  a  partir  da  publicação  do  calígrafo  português,  conforme  pode  ser  visto  pela  sobreposição de imagens apresentada na Figura 46a. Embora seja uma cópia direta do  corpo  da  letra,  o  calígrafo  promoveu  uma  série  de  pequenas  modificações,  muitas  delas decorrentes da sua inexperiência com o desenho ou com o manejo do pincel. As  linhas  de  Andrade  são  mais  precisas,  delicadas  e  com  minúcias  de  detalhes,  que  acabaram  sendo  removidas  pelo  calígrafo/pintor.  Ainda  se  percebe  que,  embora  o  profissional  seguisse  a  mesma  estrutura  de  desenho,  nas  diversas  ocasiões  em  que  usou a mesma letra, promoveu modificações nas folhagens, nos pássaros e em outros  detalhes, como pode ser visto na Figura 46b. 

O  profissional  ainda  usou  outras  referências  para  reproduzir  ornatos  para  compor  vinhetas  em  seus  trabalhos  e  as  que  mais  interessam  são  as  imagens 

       415   IANTT – Ms. Liv. 1204. 

encontradas em duas das quatro publicações conhecidas do calígrafo espanhol Pedro  Díaz Morante: a Tercera parte del Arte de Escrivir (1624) e a Quarta parte da arte de 

escrivir  (1631).    Para  compor  a  vinheta  que  se  encontra  no  capítulo  nono  do 

compromisso  da  irmandade  de  Vila  Rica,  o  calígrafo  utilizou  o  método  de  cópia  de  decalque pela frente, criando uma imagem espelhada em relação ao original. Pode‐se  comparar o volume e os movimentos da pena e do pincel quando as duas imagens são  sobrepostas  (FIG.47  e  86).  A  análise  dessa  comparação  mostra  variações  sutis  na  localização das linhas do desenho, que podem ter ocorrido durante a transferência da  imagem ou pelo delineamento com a tinta verde, resultando em linhas mais grossas do  que as da impressão. Esta não foi a única imagem que o calígrafo reproduziu de Pedro  Díaz Morante: nesta mesma estampa do mestre espanhol aparece um querubim, cujo  desenho serviu de referência para outra vinheta, que se encontra no décimo capítulo  do compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Pilar das Congonhas de Sabará,  (FIG.  48  e  85).417  Nos  dois  compromissos  ainda  há  vinhetas  com  imagens  de  peixes,  que  foram  provavelmente  realizados  a  partir  da  cópia  por  decalque de  um  desenho  caligráfico  publicado  na  Tercera  parte  da  arte  de  escribir  (FIG.  49).  Novamente  a  sobreposição  de  imagens  evidencia  pequenas  variações  que  podem  ter  ocorrido  durante o processo de transferência da imagem ou da cobertura com a tinta. Também  desenhos de uma borboleta e pássaros gravados em lâminas da Segunda parte del 

Arte  de  Escrivir  (1624)  de  Morante,  que  foram  modelos  para  vinhetas  pintadas, 

respectivamente  nos  capítulos  5,  19  e  24  do  compromisso  de  Congonhas  de  Sabará  (FIG. 45). 

Os exemplos apresentados comprovam a presença e o uso da obra de um dos  mais  importantes  calígrafos  espanhóis  seiscentistas  na  feitura  dos  manuscritos  decorados no Brasil do século XVIII. Poderia ter chegado a obra completa ou gravuras  vendidas de forma avulsa, tal como foi costume da oficina de Morante.  A repercussão  do trabalho do mestre espanhol nos domínios portugueses mais uma vez se confirma:  não apenas através das citações no trabalho de Manoel de Andrade de Figueiredo e de  José  Lopes  Baptista  de  Almada,  mas  também  em  alguns  documentos  pintados 

       417   APM – AVC05 doc.1. 

realizados na América portuguesa um século após a publicação das obras de Morante.   Ainda não se sabe o nome, a procedência e a formação deste pintor de manuscritos  nem como teve acesso às gravuras de Morante, mas a comprovação do uso de uma  obra seiscentista espanhola é um caminho importante para compreender o processo  de formação da cultura visual dos pintores de manuscritos que atuaram na América  portuguesa.  As demais maneiras de se reproduzir desenhos (indiretamente, com o uso de  molde  quadriculado,  ou  com  a  confecção  de  uma  matriz  para  transferência  com 

spolvero)  não  deixam  vestígios  no  original,  portanto  sua  aplicação  não  pôde  ser 

detectada  nos  compromissos  analisados.  Contudo,  foram  localizados  alguns  esboços  para  ornamentação  de  documentos  e  exemplares  de  manuais  de  caligrafia  que  guardam as marcas dos processos de cópia. O primeiro exemplo encontra‐se no álbum  com pranchas manuscritas caligrafadas por profissionais espanhóis, intitulada Mestres 

españoles  –  Muestras  originales  siglo  XVII,418  parte  do  acervo  da  Biblioteca  da 

Residencia  de  Estudiantes,  em  Madri.  Dentre  os  documentos,  existem  alguns  outros  exemplos  de  restauração  de  estudos  realizados  em  fragmentos  de  papéis  que  sofreram intervenções físicas e estéticas antes de serem coladas em outra folha, tendo  sido usada a técnica do quadriculado para a reconstituição de uma parte da imagem.  No mesmo desenho pode ser vista uma reintegração do desenho do lado direito da  folha  e,  na  figura  do  centauro,  o  desenho  prévio  feito  a  lápis  para  reprodução  da  imagem de forma espelhada à da esquerda (FIG.50). 

Ainda no acervo da Biblioteca da Residencia de Estudiantes existe um exemplar  do  livro  Arte  de  escrever,  de  Antonio  Jacintho  de  Araujo  (1794),419  que  teve  vários  ornamentos e letras perfurados por agulha (FIG. 51). Como não há marcas de carvão  sobre a superfície do papel, é possível que os furos tenham sido feitos sobre outras  folhas  que  seriam  usadas  como  moldes  de  transferência  dos  desenhos,  como  recomendavam alguns autores. 

       418   RES – MP3 R632. 

Outros dois exemplos coletados demonstram a aplicação desta mesma técnica.  O primeiro é um estudo de carta de brasão,420 no qual o artista alcançou a simetria do  desenho por meio do uso da técnica do spolvero, usando provavelmente do mesmo  mecanismo para transferir o estudo para o suporte definitivo (FIG.52). Neste mesmo  esboço,  estão  inscritas  na  parte  superior  todas  as  cores  e  formas  que  deveriam  ser  utilizadas. O segundo caso são as figuras que compõem um estudo de poema figurado,  no  qual  se  percebe  claramente  as  marcas  do  carvão  que  foi  utilizado  para  a  transferência  do  desenho421  (FIG.53).  Estes  documentos  apresentados  evidenciam  o  processo de trabalho dos desenhistas de manuscritos, as técnicas utilizadas e, no caso  da carta de brasão, as determinações dadas pelos encomendantes.    

 Retornando a Manoel de Andrade de Figueiredo, que sem dúvida foi a grande  referência da caligrafia nos domínios portugueses, percebe‐se que o rol de exemplos  de  utilização  de  seus  ornamentos  e  letras  vem  sendo  constantemente  atualizado  a  partir  das  análises  visuais.  Porém,  a  cópia  dos  modelos  apresentados  pelo  autor  também  pode  ser  comprovada  através  de  marcas  físicas  deixadas  em  alguns  exemplares.  É  o  que  pode  ser  percebido  no  livro  pertencente  à  Biblioteca  da  Universidade  de  Coimbra,422  que  apresenta  várias  perfurações  de  agulha  nos  contornos  de  imagens,  indicando  o  uso  da  técnica  do  spolvero.  Há  também  um  exemplo de cópia pelo delineamento com lápis no verso da folha em uma vinheta com  dois pássaros e cetras (FIG.54). Além das marcas na própria página, o pigmento ficou  estampado na página subsequente. Esse desenho era bastante apreciado para decorar  manuscritos  e  foi  utilizado  no  compromisso  da  Irmandade  de  Nossa  Senhora  da  Conceição  do  Convento  dos  Religiosos  da  Terceira  Ordem  da  Penitência,  de  Lisboa,  realizado  em  1741  (FIG.55).  Neste  mesmo  documento,  existem  outras  inúmeras  referências à obra de Andrade. O calígrafo do compromisso, com maestria, recolheu os  elementos  decorativos  em  diversas  partes  e  os  reorganizou  em  novas  composições  (FIG. 56), possibilidade aventada por José de Casanova quando dizia ser possível “aos 

      

420   Brasão de armas do Conde Palatino. In Papéis Vários BUC – Ms 582 fl 244v.  421   “Versos por figuras” In: Papéis Vários BUC –  Ms 582  f. 245 e 247. 

que fueren curiosos, y algo dibujantes, podrán conforme a ellos hacer las diferencias  que quisieren”.423