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Na  arte  da  escrita,  há  uma  conexão  clara  que  une  a  letra  à  pintura  e  ao  desenho. Essa relação não escapava aos teóricos e foi debatida por autores espanhóis  durante os séculos XVII e XVIII na defesa dos métodos de ensino da escrita, como foi  discutido no primeiro capítulo. As duas visões principais podem ser assim sintetizadas:  a) o enfoque na habilidade manual, treinada a partir da repetição exaustiva de mostras  e na soltura do punho através dos desenhos e dos rasgos caligráficos; b) a defesa da  habilidade  manual  unida  à  intelectual,  juntando  as  regras  do  desenho  da  letra  ao  domínio da língua escrita. Como foi defendido pelo calígrafo espanhol Juan de Iciar no  final  do  século  XVI,350  a  separação  entre  desenho  da  letra  e  sua  funcionalidade  comunicativa fazia com que o aluno inicialmente memorizasse visualmente o alfabeto  para que se acostumasse com as suas formas. Para ele, enquanto a leitura era vista  como  um  discurso  da  razão,  a  prática  da  escrita  era  de  caráter  sensível  e  se 

      

aproximava do desenho. Portanto, os dois níveis de aprendizado poderiam ser feitos  separadamente,  o  que  significava  que  ter  a  capacidade  de  escrever  letras  com  galhardia  não  significava  propriamente  saber  registrar  ideias  e  pensamentos.  Dando  longevidade a essa perspectiva de ensino, em 1850 o pedagogo português Feliciano de  Castilho publicou Método Português para o ensino do ler e do escrever, defendendo o  “método  hieroglífico”  de  aprendizagem  e  associando  a  leitura  de  texto  à  ideia  de  leitura de imagem.351  

Contudo, aprender a escrita como imagem poderia dificultar a compreensão da  letra  inserida  em  um  sistema  comunicativo  mais  amplo.  Neste  método  de  aprendizagem, a habilidade para a escrita poderia ser desenvolvida a partir do treino  manual do desenho e não se relacionar propriamente a um letramento pleno. Segundo  Justino  Magalhães,352  esta  situação  poderia  ser  vivida  por  um  “escrevente”  que,  durante a aprendizagem, não tivesse tido acesso ao método silábico ou mesmo a um  método  alfabético;  este  sujeito  se  centraria  na  imitação  das  letras,  redigindo  as  palavras fechadas em si mesmas.  Por este motivo, o educador Manuel de Andrade de  Figueiredo recomendava que, no início da aprendizagem, os alunos não pintassem as  letras, mas tentassem fazê‐las de um só lance, distinguindo, desta maneira, a letra do  desenho da letra da escrita.353  Desenhar ou pintar palavras poderia apenas significar a fixação de caracteres  sobre um suporte. Por isto, um pintor ou escultor de letras poderia escrever mesmo  não sendo alfabetizado. A sutil diferença entre a pintura e a escrita da letra percebe‐se  na  firmeza  do  traço  e  na  regularidade  da  inclinação,  espaçamento,  tamanho  e  proporção  dos  caracteres.354  Contudo,  não  é  difícil  considerar  que  um  pintor  muito  qualificado,  mesmo  sendo  iletrado,  pudesse  manter  essas  normas  formais  da  caligrafia, do mesmo modo como seria capaz de projetar composições complexas em  outros  suportes.  O  domínio  do  desenho,  portanto,  possibilitava  a  existência  de 

       351   HATHERLY. A experiência do prodígio, p. 67.  352   MAGALHÃES. Ler e escrever no mundo rural do antigo regime, p. 180‐181.   353   FIGUEIREDO. Nova escola para aprender a ler ... , p. 13.  354   Sobre os usos da escrita em diversos graus de alfabetização ver R. MARQUILHAS, A faculdade  das letras...; CASTILLO GOMÉZ (coord.).  La conquista del alfabeto. Escritura y clases populares. 

iletrados  desenhistas,  aqueles  que  conseguiam  inscrever  as  letras  conforme  suas 

regras de proporção e simetria, porém sem fazê‐lo “racionalmente”, como diria Iciar,  mas  “sensivelmente”,  usando  de  suas  habilidades  manuais  e  sensórias.  Neste  grupo  estariam  incluídos  os  pintores  analfabetos  ou  de  baixo  letramento,  capazes  de  desenhar e pintar letras em manuscritos adornados, tal como se realiza um trabalho  artístico. Do lado oposto estariam incluídos os letrados desenhistas, aqueles sujeitos  que  uniam  a  habilidade  manual  ao  desenvolvimento  intelectual,  possibilitando  a  execução de letras de adorno e outros ornamentos nos mais diversos suportes. Assim,  desenhar  as  letras  poderia  significar  tanto  uma  incapacidade  quanto  um  domínio  artístico. 

A ligação da escrita com a pintura e o desenho se estabelecia pelas regras que  regiam  as  artes.  Como  definia  Aznar  de  Polanco,  defensor  do  método  de  ensino  geométrico, a arte da escrita, “sin excluir los actos especulativos, incluye respecto à los  Actos Prácticos, y Manuales ejecutados en materia externa, y sensible, en orden a la  construcción  de  obra  determinada  con  ajustados  preceptos,  y  reglas  infalibles”355.  A  insistência em afirmar a importância dos preceitos era relativa à inserção da caligrafia  no  campo  das  artes  liberais,  como  já  foi  discutido.  A  preocupação  de  Polanco  era  relativa ao aspecto manual da escrita, mas sua relação com o desenho e a pintura lhe  forneceria os preceitos teóricos necessários:   Como se conoce claramente, no hay diferencia ninguna del Arte Liberal del Escribir al  de la Pintura, cada una por su rumbo. El Pintor, formando las Figuras con el Pincel, y  Colores; y el Maestro del Arte de Escribir, también con la Pluma, y Tinta, va dejando  representado a los ojos lo que escribe, sean Letras, Figura, o Rasgos.356  A discussão sobre a necessidade das regras e “preceitos” que aproximavam a  escrita da pintura continuou até o fim do século XVIII, como se pode apreender pela         355   “sem excluir os atos especulativos, está voltada para os atos práticos e manuais, executados de  maneira externa e sensível, tendo em vista a construção de obra determinada, com preceitos ajustados  e regras infalíveis”. AZNAR DE POLANCO, Arte nuevo de escribir… f. 10v‐11. 

356   “como  se  sabe  claramente,  não  há  diferença  nenhuma  da  Arte  Liberal  de  Escrever  da  de  Pintura, cada uma por seu rumo. O Pintor, formando as Figuras com o Pincel, e Cores; e o Mestre da  Arte  de  Escrever,  também  com  a  Pena  e  Tinta,  vai  deixando  representado  aos  olhos  o  que  escreve,  sejam Letras, Figura, ou Rasgos”. AZNAR DE POLANCO, Arte nuevo de escribir…, f. 12. 

fala de Torio de la Riva. Para este autor espanhol, todas as artes357 eram compostas  por várias partes fundamentais, cada qual com seus princípios e regras. Essas partes  deveriam  ser  apresentadas  ao  aluno  em  ordem  de  progressão,  metodicamente  definidas, para que fosse possível o aluno atingir a perfeição: 

Sin querer que un pintor empiece a hacer retratos sin saber antes dibujar ni hacer un  ojo, un brazo, una pierna, &c., ni que un discípulo escriba con facilidad y perfección  una  buena  forma  de  letra  sin  haber  adquirido  antes  el  conocimiento  de  las  reglas  fundamentales,  y  aprendido  a  hacer  por  partes  y  con  un  orden  y  método  verdaderamente sintético (...).358  

O  autor  reforçava,  assim,  que  o  aprendizado  de  cada  letra,  individualmente,  deveria unir teoria e prática a partir dos conhecimentos da simetria e da proporção,  mas  pautado  sobre  a  “invenção”  e  a  “experiência”.  Questionando  o  método  puramente teórico e novamente comparando a caligrafia à pintura, afirmava que  

las precisiones geométrico‐analíticas son incapaces de ser observadas en un Arte que,  así como el de la pintura ha sido, es y será precisamente de pura imitación, desnuda de  aquellos  tan  despreciables  como  ridículos  artificios,  que  practicados  por  algunos  redujeron el Arte a tan deplorable estado.359  

Neste  desabafo,  Torio  de  la  Riva  se  referia  especificamente  aos  métodos  pautados  nos  conhecimentos  da  geometria,  tal  como  foi  defendido  por  Aznar  de  Polanco. Na sua fala, ainda é importante que seja considerado o enfoque na imitação  dos grandes mestres, como um processo de constituição da cultura visual, assim para  pintores como para calígrafos. 

Asencio  y  Merojada,  outro  calígrafo  espanhol  setecentista,  explicava  como  a  clareza e a visibilidade das letras se transformavam de acordo com o suporte, a técnica 

      

357   As  artes,  durante  o  século  XVII,  eram  compreendidas  como  as  atividades  que  se  regiam  por  regras e princípios certos que fundamentavam as profissões, faculdades ou ciências. Cf. Capítulo 1.  358   “Sem querer que um pintor comece a fazer retratos sem saber antes desenhar, nem fazer um  olho,  um braço,  uma  perna,  etc., nem  que  um  discípulo  escreva  com facilidade  e perfeição  uma boa  forma de letra sem ter antes adquirido o conhecimento das regras fundamentais e aprendido a fazer por  partes e com uma ordem e método verdadeiramente sintético”. TORÍO DE LA RIVA Y HERRERO. Arte de  escribir por reglas…, p. 82  359   “as precisões geométrico‐analíticas são incapazes de serem observadas em uma arte que, assim  como a da pintura tem sido, é e será precisamente de pura imitação, desnuda daqueles tão depreciáveis  como ridículos artifícios que praticados por alguns reduziram a arte a tão deplorável estado” (tradução  nossa, grifo nosso). TORÍO DE LA RIVA Y HERRERO. Arte de escribir por reglas…, p. 88‐89. 

de  inscrição  e  a  combinação  de  cores,  tal  como  a  pintura.360  Ainda  que  as  letras  tivessem  sempre  uma  mesma  figura,  sua  legibilidade  dependia  da  distância  ou  da  altura  em  que  estivessem  inscritas,  da  cor  do  suporte  (letras  brancas  sobre  campo  negro  ou  vice‐versa)  ou  da  sua  superfície  (relevo,  bordas  perfiladas,  etc.).    Mesmo  tendo um mesmo corpo, os efeitos de nitidez se modificavam conforme uma série de  variáveis  que  estavam  relacionadas  com  o  conjunto  estético  da  obra  que  recebia  a  inscrição, sendo ela um manuscrito, uma pintura em tela ou em forro, uma lápide ou  um monumento. Por isso o autor defendia a necessidade de dominar os conceitos da  geometria e da perspectiva, assim como das teorias da cor, considerando o ponto de  vista do observador, definindo assim um campo de conhecimento que se aproximava  da pintura.   A importância do desenho para as diversas artes era tanta que, na virada do  século XVII para o XVIII, o tratadista português Félix da Costa, defendendo a criação de  uma escola de desenho sob auspícios reais, analisava criticamente a situação das artes  no reino de Portugal e recomendava incisivamente o estudo e a prática do desenho  para  diversas  categorias  profissionais,  entre  elas  os  engenheiros  e  arquitetos,  para  colocar as figuras em perspectiva e retratar as paisagens em torno da edificação; os  náuticos, para se fazerem as cartas dos mares e os mapas das terras; os bordadores,  para  não  desfigurar  as  imagens  nos  tecidos;  os  entalhadores,  para  inventarem  os  retábulos  com  graça  e  não  “esconderem  entre  tantos  detalhes  decorativos  sua  ignorância”; os abridores de chapas para imprensa para gravarem figuras humanas e  grotescos; e também os calígrafos, para darem penadas em precisão e fazerem a letra  com acerto.361 

O  domínio  do  desenho  era  importante  principalmente  para  a  execução  de  letras  especiais,  como  as  capitulares  e  os  rasgos  caligráficos,  os  volteios  que  a  mão  fazia  com  a  pena  sobre  o  papel,  inscrevendo  linhas  que  extrapolavam  a  forma  dos  caracteres,  criando  adornos  sobre  a  própria  letra  ou  em  vinhetas  e  decorações 

      

360   ASENSIO Y MEJORADA. Geometría de la letra romana mayúscula y minúscula, p. 6‐7. 

361  FELIX  DA  COSTA.  Antiguidade  da  pintura.  Apud  FARIA.  A  imagem  útil,  p.  47‐48.  O  texto  completo encontra‐se na edição fac‐similar do tratado, originalmente em manuscrito, editado pela Yale  University Press.  

marginais.362 As capitulares poderiam ser caligráficas ou pintadas, como as iluminuras,  usando  como  instrumento  principal  o  pincel  e  tendo  como  recurso  de  imagem  uma  gama variada de pigmentos. Especificando as sutilezas da decoração, Rufino Blanco y  Sanches definia a letra ornamentada como aquela que recebia adornos que não eram  próprios de seu traçado, enquanto que a letra de adorno seria constituída como um  próprio  ornamento.363  Nestes  tipos  de  letras,  assim  como  nas  vinhetas  e  nas  decorações  marginais,  se  revelam  mais  claramente  as  vinculações  da  estética  do  manuscrito com a pintura e o desenho.