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6. Analysis and Discussion

6.8 New Problems

Durante e, principalmente, após a Segunda Guerra Mundial, a arquitetura norte -americana passou a receber forte estímulo e patrocínio governamental.1 Os es- forços de reconstrução pós-guerra e de consolidação da hegemonia dos Estados Unidos frente ao continente americano envolveram a participação de grupos como o CIAM e o AIA (American Institute of Architects) e de arquitetos interna- cionalmente conhecidos como, por exemplo, José Luis Sert, Paul Lester Wiener e Richard Neutra, dentre outros. Estes três arquitetos em especial estiveram envol- vidos com propostas do Departamento de Estado norte-americano para solucio- nar problemas econômicos e sociais que pudessem ser portas de entrada para o comunismo no hemisfério ocidental. Após a derrota do nazismo, a política norte -americana se volta contra a expansão da influência dos ex-aliados soviéticos. José Luis Sert e Paul Lester Wiener, sócios no escritório Town Planning Associates entre 1942 e 1959,2 tiveram grande importância em consultoria e planejamento de cidades na América Latina, como é o caso da Cidade dos Motores no Brasil.3 Projeto de 1942 para a Fábrica Nacional de Motores – e que seria implantado na baixada fluminense, entre o Rio de Janeiro e Petrópolis4 –, fora fruto de uma operação política norte-americana de aproximação com os países da América do Sul dadas as vitórias nazistas e o medo de sua expansão na América. In- dicado por seu sogro e Secretário do Tesouro no governo de Roosevelt, Henry Morgenthau, Wiener seria nomeado Conselheiro no campo cultural de planeja- mento arquitetônico para a América Latina do Departamento de Estado.5 Assim, juntamente com Sert, viajaram pelos países ao sul do rio Grande e lá estabele- ceram contatos e trabalharam em projetos de planejamento urbano.

1. HINES, Thomas S.; DREXLER, Arthur. The architecture of Richard Neutra: from International Style to California

modern, p. 20.

2. J.L. Sert: A nomadic dream. <http://www.jlsertfilm.com/about/>

3. COSTA, Alcilia Afonso de Albuquerque. As contribuições arquitetônicas habitacionais propostas na Cidade dos Motores (1945-46). Town Plannings Associates. Xerém, RJ. Arquitextos, São Paulo, ano 11, n. 124.01, Vitru- vius, set. 2010 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.124/3575>.

4. Idem, ibidem.

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Imagem 3 - Perspectiva Centro Cívico, Cidade dos Motores. Nesta página:

Imagem 4 - Carta de Santiago Iglesias Jr. (Puerto Rico Planning, Urba- nizing and Zoning Board) para Richard Neutra, 1945.

“Brasil era para ser o primeiro país de destino na América do Sul, e Sert e Lester seriam seus visitantes, encarregados de espalhar a ‘boa notícia’. (...) A viagem deve ter dado uma boa impressão em certos círculos universitários brasileiros, como pode ser deduzida a partir das cartas que Lester recebeu regularmente daquele país. A prática continuou a ser incentivada pelo Departamento de Estado norte-ame- ricano ao longo de 1943, o ano em que Lester escreveu um opúsculo com o título inequívoco: Uma nova era cultural as Américas”.6

Já a relação de Richard Neutra com o governo norte-americano, que remonta ao início da década de 1930, quando se dedica aos projetos de escolas e habi- tações sociais comentados na Apresentação, se consolidou com a sua contrata- ção como consultor do Committee on Design of Public Works de Porto Rico e sua posterior viagem de reconhecimento pela América do Sul. Neste sentido, para que o assunto da relação de Neutra com os latino-americanos – e, em especial, com o Brasil – seja melhor compreendido, a discussão terá início no esclareci- mento do que foi a política externa adotada por Franklin Roosevelt para as re- públicas irmãs do continente americano.

Quando o assunto em questão procura discutir o relacionamento entre os Es- tados Unidos e os demais países do continente americano, o polêmico termo

imperialismo estará inevitavelmente presente. Definido basicamente como “um conceito multifacetado nas relações internacionais que se refere à extensão for- çada do controle de uma nação sobre outras sociedades”,7 é, em geral, tido como uma atitude predatória de um Estado economicamente mais consolidado sobre outro ainda em desenvolvimento. No entanto, neste trabalho optou-se por relativizar a briga “vilão versus vítima” em prol de uma análise que contemple também os ganhos com o intercâmbio cultural que o jogo político inter-ameri- cano proporcionou. Ou seja, o imperialismo aqui será tratado segundo a ótica adotada pelo historiador Antonio Pedro Tota8 – em seu caráter sedutor, onde os 6. “Brazil was to be the first country of destination in South America, and Sert and Lester were to be its visitors, charged with spreading the “good news”. (...) The trip must have made quite an impression in certain Brazilian university circles, as can be deduced from the letters that Lester regularly received from that country. The practice continued to be encouraged by the north American Department of State throughout 1943, the year in which Lester wrote an opuscule with the unequivocal title: Uma nova era cultural para as Américas (A new cultural era for the Americas)”. Tradução da autora. Idem, ibidem, p. 114.

7. “a multifaceted concept in international relations that refers to a nation’s forcible extension of its control over other societies”. Tradução da autora. DENT, David W. Historical dictionary of U.S.-Latin American relations, p. 237.

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Imagem 5 - Carta de Jacob Crane (Coordenador Assistente. Division of Defense Housing Coordination, Executive Oice of the President) para Richard Neutra, 1941.

53 Imagem 6 - Doutrina Monroe.

interesses políticos, econômicos e diplomáticos do império do norte se faziam valer com contrapartidas reais para os aliados mais pobres.

No início do século XIX, o presidente norte-americano James Monroe, em seu discurso anual para o Congresso, anunciou a adoção de uma política protecio- nista em relação ao hemisfério ocidental9 baseada em sua própria experiência colonial de proteção das bordas contra forças europeias.10 Assim, a Doutrina Monroe – como ficou posteriormente conhecida – colocava a América fora da zona de influência política da Europa11:

“Em primeiro lugar, o princípio da não-colonização afirmou que o hemisfério estava fechado para novas colonizações, em particular os esforços dos movimentos britânicos e russos para construir novas colônias na costa noroeste da América do Norte. Em segundo lugar, a Doutrina Monroe estabelecia a doutrina da não-intervenção, com base no receio de que as potências européias poderiam tentar recolo- nizar a América Latina para a Espanha. Em terceiro lugar, a Doutrina Monroe declarou uma versão do isolacionismo em que os Estados Unidos se comprometeram a ficar fora de conflitos europeus se a Eu- ropa fizesse o mesmo no hemisfério ocidental”.12

9. DENT, David W. Op. cit, p. 301.

10. LEONARD, Thomas M. United States-Latin American relations, 1850-1903, p. 1. 11. Idem, ibidem, p. 2.

12. “First, the principle of non-colonization stated that the hemisphere was closed to further colonization, particu- larly efforts by British and Russian moves to build new colonies on the northwest coast of north-America. Second, the Monroe Doctrine set forth the doctrine of non-intervention, based on the fear that European powers might try to recolonize Latin America for Spain. Third, the Monroe Doctrine stated a version of isolationism in which the United States pledged to stay out of European conflicts if Europe did the same in the western hemisphere”. Tradu- ção da autora. DENT, David W. Op. cit, p. 301.

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Apesar desta política se basear em um discurso altruísta, a verdade é que o mercado interno norte-americano estava saturado e o país precisava buscar ou- tros consumidores e fornecedores. Se a Europa já representava uma grande par- cela da sua exportação, por outro lado dominava os mercados da Ásia e Áfri- ca13, restando ao Estados Unidos olhar para seus vizinhos ao sul do rio Grande. Imbuído de uma leitura marxista-socialista14, o autor russo Anaioly Glinkin afir- ma que o monopólio dos Estados Unidos frente aos latino-americanos

“transformou os Estados da região em fornecedores de matérias-pri- mas e produtos agrícolas para os mercados mundiais. O Brasil, por exemplo, tornou-se o país do café, a América Central era conhecida como a República das Bananas e Cuba era referida como o açucarei- ro do mundo. Ao mesmo tempo, as potências capitalistas desenvol- vidas aumentaram significativamente o uso da força armada contra os Estados da região, a fim de obter o controle deles e obrigá-los a assinar tratados desiguais”.15

Ou seja, conforme afirma Fernando Atique, embora a política externa america- na se colocasse apenas como protecionista em relação à expansão territorial e de influência da Europa no continente americano, “em certas ocasiões, os Esta- dos Unidos poderiam passar de defensores a exploradores do continente, dando nova interpretação à Doutrina”.16

Aqui vale um parênteses para explicar a denominação dos territórios america- nos. Os Estados Unidos, em sua demonstração de superioridade e, consequen- temente, modelo a ser seguido pelo restante do continente, definia por América “aquilo de mais bem acabado em termos de política, religião e cultura – seu próprio país”.17 No entanto, não foram os yankees que inventaram o termo

América Latina. A ideia de América Latina surgiu de uma tentativa francesa em exercer influência entre os povos de origem latina – ou seja, de descendência

13. Idem, ibidem, p. 5.

14. GLINKIN, Anaioly. Inter-American relations: from Bolívar to the present, p. 10-11.

15. “turned the states of the region into suppliers of raw materials and agricultural products for the world marke- ts. Brazil, for example, became a coffee country, the Central American states were known as Banana Republics and Cuba was referred to as the sugar bowl of the world. At the same time the developed capitalist powers sharply increased the use of armed force against the states of the region in order to get control of them and force them into signing unequal treaties”. Tradução da autora. Idem, ibidem, p. 47.

16. ATIQUE, Fernando. Arquitetanto a “Boa Vizinhança”: Arquitetura, Cidade e Cultura nas relações Brasil-Esta-

dos Unidos 1876-1945, p. 36.

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Imagem 7 - Franklin Roosevelt (1882-1945).

Imagem 8 - Eleição de Franklin Roosevelt para presidência dos Esta- dos Unidos, 1933.

Nesta página:

Imagens 9 e 10 - Cartaz do governo norte-americano. Works Progress Administration – WPA.

francesa, italiana, espanhola e portuguesa – na América, como forma de se opor ao avanço anglo-saxão.18 Tanto Simon Bolívar quanto José Marti defen- diam uma união das ex-colônias ibéricas ainda no século XIX, mas foram os intelectuais franceses que deram vida ao termo América Latina. Assim, a conso- lidação do uso americanos para denominar os Estados Unidos e América Latina para os demais territórios ao sul do Rio Grande marcava, de um lado, um dis- tanciamento entre eles e, de outro, uma possivel identidade comum dos países de língua latina.19

Ora, este distanciamento se tornara mais agravante quando, com o fim da Primeira Guerra Mundial e a posterior crise gerada pela queda da Bolsa de Va- lores de Nova York em 1929, os Estados Unidos enfrentavam duas novas amea- ças: a depressão econômica e o avanço do nazismo pela Europa. Em ambos os casos, na tentativa de proteger o continente, os norte-americanos precisariam reverter a imagem de mau vizinho que tinham naquele momento, em uma ten- tativa de diminuir o distanciamento entre eles e o restante da América. Neste sentido, a figura de Franklin D. Roosevelt surgiu, em 1933, com a promessa de uma política intervencionista do Estado na economia que iria reerguer a nação. Mas, para que esta política do New Deal – como ficou conhecida – tivesse êxito na geração de empregos, o país deveria mais uma vez olhar com atenção para seus vizinhos do sul para ampliar o mercado consumidor.

“A recuperação dos Estados Unidos da depressão econômica na dé- cada de 1930 exigiu a expansão dos mercados externos para pro- dutos manufaturados, bem como crescentes suprimentos de matérias -primas e novos caminhos para investimentos”.20

18. Idem, ibidem, p. 25-26. 19. Idem, ibidem, p. 26-27.

20. “United States recovery from economic depression on the 1930s demanded expanding foreign markets for manufactured goods, as well as growing supplies of raw materials and new avenues for investments”. Tradução da autora. MOURA, Gerson. Brazilian foreign relations 1939-1950: the changing nature of Brazil-United States

relations during and after the Second World War, p. 53. Apud: GREEN, D. The containment of Latin America, p.

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Imagem 11 - Las Américas unidas para la victoria y el progresso humano.

E, para garantir a integridade do continente americano frente à ameaça nazista – ou seja, para garantir a soberania norte-americana em detrimento da euro- péia –, o presidente Roosevelt apostou em uma política de aproximação cultural e solidariedade econômica. Com a Política da Boa Vizinhança, os Estados Uni- dos estariam, portanto, deixando de lado a agressividade característica do Big

Stick e anunciando um esforço de cooperação hemisférica e a promessa de não -intervenção. No entanto, isto não significou que eles não iriam defender seus interesses econômicos na América Latina.21 O tom parecia ter abrandado, mas as bases continuavam apoiadas na Doutrina Monroe.

“Os métodos mudaram, mas os objetivos permaneceram os mesmos: minimizar a influência européia na América Latina, manter a lideran- ça norte-americana e encorajar a estabilidade política do continente. [...] Impedido, por razões de política interna, de atuar no tabuleiro europeu, o governo Roosevelt concentrou seus esforços na América Latina, procurando aqui os recursos políticos e materiais que consti- tuissem uma base sólida para os futuros movimentos no xadrez uni- versal”.22

No entanto, ainda segundo afirma Gerson Moura, até o final da década de 1930, o governo dos Estados Unidos ainda não tinha uma ideia clara das for- mas de agir desta Política da Boa Vizinhança. Sabia-se que uma atitude de soli- dariedade continental demandava programas de assistência econômica, mas as diversas agências governamentais – Departamento de Estado, Tesouro e Exim-

bank (Export-Import Bank of the United States) – adotavam medidas diferentes e, por isso, frequentemente entravam em conflito.23 Por fim, em maio de 1938, o secretário de Estado norte-americano Cordell Hull reorganizou a Divisão das Re- públicas Americanas dentro do Departamento de Estado, absorvendo as antigas Divisões da América Latina e do México.24

21. DENT, David W. Op. cit, p. 197-198.

22. MOURA, Gerson. Tio Sam chega ao Brasil: a penetração cultural americana, p. 18-19. Segundo afirma An- tonio Pedro Tota, desde o final da Primeira Guerra Mundial os Estados Unidos optaram por não se envolverem com a política europeia. TOTA, Antonio Pedro. O imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na época da

Segunda Guerra, p. 42.

23. MOURA, Gerson. Brazilian foreign relations 1939-1950: the changing nature of Brazil-United States relations

during and after the Second World War, p. 53-54.

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É importante ressaltar que dois países eram vistos com especial atenção pelo governo norte-americano: México e Brasil. No primeiro caso, além da óbvia questão de fazer fronteira com os Estados Unidos, havia o interesse na extração de petróleo e borracha – produtos importantes para o período de guerra – e na possibilidade de mão de obra barata.25 Já no caso brasileiro, o país desem- penhava uma posição política influente frente à América do Sul e esta aliança poderia garantir a hegemonia norte-americana na região.26 Além disso, a costa brasileira – por sua dimensão e posicionamento no Oceano Atlântico – repre- sentavam um ponto estratégico para defesa do continente contra uma possível investida nazista vinda da África.27

Mas não era apenas com a expansão territorial alemã que os Estados Unidos se preocupavam. Grande parte das repúblicas latino-americanas eram governadas por líderes com tendências autoritárias, fato considerado um ponto frágil, uma porta aberta para a influência do totalitarismo europeu, em especial do nazis- mo.

“Para muitos observadores nos Estados Unidos, a América Latina parecia sensível a uma penetração, ou até mesmo invasão, política, cultural e econômica da Alemanha nazista. Poucos observadores nos Estados Unidos confiavam na firmeza de governos latino-americanos quando se tratava de resistir às seduções da Alemanha nazista e de seus aliados fascistas. A democracia não havia se enraizado na maio- ria dos países ao sul do Rio Grande e, mesmo que os sábios analistas fizessem distinção entre o estilo latino autoritário e as marcas mais recentes de totalitarismo europeu, eles ainda os tinham como bastan- te compatíveis em termos de práticas políticas”.28

25. PAQUETTE, Catha. Soft power: the art of diplomacy in US-Mexican relations, 1940-1946, p. 145. In: CRA- MER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. ¡Américas unidas! Nelson A. Rockefeller’s Office of Inter-American Affairs (1940-

46).

26. McCANN JR, Frank D. Op. cit, p. 7. 27. Idem, ibidem, p. 213.

28. “To many observers in the United States, Latin America seemed ripe for a political, cultural and economic penetration, or even invasion, by Nazi Germany. Few observers in the United States trusted in the steadfastness of Latin American governments when it came to resisting the lures of Nazi Germany and its fascist allies. Democracy had not taken root in most of the countries South Rio Grande, and while knowledgeable analysts distinguished between Latin-style authoritarianism and the newer brands of European totalitarianism, they still viewed them as being rather compatible in practical policy terms”. Tradução da autora. CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. Nel-

son A. Rockefeller’s Office of Inter-American Affairs and the quest for Pan-American union: an introductory essay,

p. 15. In: CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. ¡Américas unidas! Nelson A. Rockefeller’s Office of Inter-American

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Imagem 12 - Getúlio Vargas (1882-1954).

Imagem 13 - Eleanor Roosevelt autografando a pele de uma cobra em Natal, 1944.

Próxima página:

Imagem 14 - Getúlio Vargas e Franklin Roosevelt no Rio de Janei- ro, 1936.

No caso do Brasil não foi diferente. O governo de Getúlio Vargas (1930-1945) caracterizou-se por uma dualidade entre as duas potências29: ao mesmo tempo em que assinávamos o Tratado de Reciprocidade com os Estados Unidos (1935), negociávamos o Acordo de Compensação com a Alemanha (1934 e 1936).30 E, apesar deste fato retratar tudo aquilo pelo qual Roosevelt lutava contra, segun- do afirma o historiador Antonio Pedro Tota, a crescente ameaça de um conflito mundial guiava as decisões do governo norte-americano de forma a evitar reta- liações.31 Mesmo após o Golpe de 1937, momento no qual Vargas instaurou a ditadura, Roosevelt manteve seu apoio ao governo, afinal a “estabilidade brasi- leira era essencial para os planos de defesa dos Estados Unidos bem como para os acordos comerciais”.32

Em 1940, com a Segunda Guerra em curso na Europa, Franklin Roosevelt con- cluiu que era necessário intensificar as relações interamericanas para garantir a defesa do continente. E, para isso, acreditava-se que a aproximação cultural era o método garantido para se obter, de forma indireta, influência nestes países.33 Assim, em agosto daquele ano, e sob muita resistência do Departamento de Estado34, foi criada, em caráter emergencial, uma agência que coordenaria as políticas voltadas à América Latina: Office of Inter-American Affairs (OIAA), que mais tarde ficaria conhecido como Office of the Coordinator of Inter-American

Affairs (OCIAA).35

29. MOURA, Gerson. Brazilian foreign relations 1939-1950: the changing nature of Brazil-United States relations

during and after the Second World War, p. 68.

30. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Presença dos Estados Unidos no Brasil, p. 250-251. 31. TOTA, Antonio Pedro. O amigo americano: Nelson Rockefeller e o Brasil, p. 79.

32. “Brazilian stability was essential to the hemispheric defense plans of the United States and to American tra- de”. Tradução daautora. McCANN JR, Frank D. Op. cit, p. 8.

33. LUBKEN, Uwe. Playing the cultural game: the United States and the Nazi threat to Latin America, p. 60. In: CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. ¡Américas unidas! Nelson A. Rockefeller’s Office of Inter-American Affairs

(1940-46).

34. Em julho de 1938, também com o objetivo de obter apoio dos países vizinhos no inevitável envolvimento com o conflito europeu, o Departamento de Estado norte-americano criou a Divisão de Relações Culturais. Esta nova Divisão propôs levar intelectuais latino americanos aos Estados Unidos e ajudá-los a estabelecer conexões pessoais e institucionais em solo norte-americano. Um exemplo deste intercâmbio foi o convite estendido ao então jovem escritor Érico Veríssimo de viajar pelos Estados Unidos entre janeiro e abril de 1941, com o objetivo