3. Method
3.1 Method Theory
Nesse ponto passaremos a considerar o pentecostalismo de primeira onda e o modelo de
rejeição da cultura. De modo geral, a noção de conversão implicava num mudança radical de
rejeição ao “mundo”. O pentecostal deixava seus familiares pelo resgate de sua alma se fosse necessário. Os sofrimentos desta vida passam a ser explicados na medida em que o mal era responsabilizado. Desse modo, a primeira onda nasce contra cultural e se encaixa na escala que Niehbur chama de “Cristo contra a Cultura”. Nessa instância o “conflito do crente não é com a natureza, mas com a cultura, pois é especialmente na cultura que o pecado reside” (NIEHBUR, 1967, p. 75). Os templos das Igrejas de primeira onda servem como um lugar de fuga da cultura secular, onde os pentecostais começam a desenvolver uma cultura própria e procuram se manter alheios à maioria dos acontecimentos exteriores, focando sempre na separação deste mundo. Conforme se constata, neste tipo de comportamento “Cristo desvia os homens da temporalidade e do pluralismo da cultura” (NIEHBUR, 1967, p. 61).
Para o pentecostalismo de primeira onda o pecado estava em toda parte. Nos lugares de diversão no “mundo”, bailes, bares, festas ou carnavais e na música secular como um todo. O pecado residia também na prática do esporte – muitos pentecostais foram excluídos por praticarem futebol – o esporte nacional do brasileiro.21 Para a maioria destes pentecostais o pecado residia também na política, considerando-a como dominada por ideais mundanos e corrompidos, e impregnada pela idolatria do catolicismo romano. As mensagens e os próprios meios de comunicação fossem rádios, revistas, cinema e televisão eram categorizados como pecado. Ao se converter um pentecostal deveria abandonar estes interesses passageiros e trocá-los pela participação em cultos e na convivência com os irmãos. Afora o trabalho, qualquer atividade social deveria estar ligada à sacralidade pentecostal.
Para as mulheres o legalismo era ainda maior. Em certos aspectos era como se ser mulher fosse pecado. Saias acima dos joelhos, brincos, maquiagem ou quaisquer outros adereços que chamassem a atenção eram considerados “vaidades” e eram vistos como pecado. Ao passo que a
21 Daí a dificuldade que perdura até hoje de um assembleiano tradicional aceitar uma igreja pentecostal como a “Bola
de Neve”, cujo púlpito é uma prancha de surf (Ver MARANHÃO FILHO, 2014). Mesmo os tradicionais que aceitam igrejas mais modernas, em sua maioria, mantém um preconceito velado.
cultura secular promovia um relaxamento nas regras de vestimentas para mulheres, o pentecostalismo se fechava.
É possível destacar algumas questões de gênero. Enquanto o homem pentecostal, de posição simples na sociedade tinha seu ego inchado ao vestir seu terno e gravata para ir à igreja (evento raro se a igreja não existisse), a mulher se via distante de tais recompensas. Suas roupas não tinham apelo e sua moda mantinha-se sem graça. Enquanto o homem adquiria posição importante na escala hierárquica da igreja, diferente de sua posição na sociedade, a mulher deveria se contentar em apenas poder ajudar. Aqui a submissão adquire tons de repressão. Tornar-se pentecostal na primeira onda trazia muito mais benefícios psicossociais para homens do que para mulheres.
Na Convenção das Assembleias de Deus de 1930, realizada em Natal o tema da participação da mulher entra em pauta. Silas Daniel nos informa que “havia divergência de opiniões entre os convencionais, e os principais líderes da Igreja no Brasil, Gunnar Vingren e Samuel Nystrom, tinham opiniões diferentes sobre o assunto já havia muito tempo” (2004, p. 35). No embate prevaleceu a ideia da superioridade do sexo masculino. Até os dias atuais a CGADB se orgulha desta posição: “na convenção geral de 2001, em Brasília, o tema seria mais uma vez levantado. Na ocasião, os convencionais, por esmagadora maioria, rejeitaram a ordenação de mulheres” (DANIEL, 2004, p. 40).
Apesar do machismo estar presente na história das Assembleias de Deus (AD), foi notável a contribuição das mulheres para o crescimento destas igrejas. Frida Vingren, esposa de Gunnar teve participação ativa no início do pentecostalismo. Escrevia matérias, participava de decisões e influenciava mulheres e homens. Em certos aspectos o “espírito” de Frida continuou vivo por muitos anos nas mulheres assembleianas da primeira onda pentecostal; muitas delas tiveram maior impacto que homens em suas gerações, suportando caladas o preconceito e o machismo, exercendo papel social importante em suas comunidades.
Em suma, no período inicial do movimento, conforme a teologia pentecostal, toda a cultura brasileira estava tomada pelo pecado, pela idolatria e carnalidade e somente a nova cultura criada dentro das portas fechadas da igreja levaria ao céu.
Tentemos detectar as razões para os primeiros assembleianos terem se fechado desta maneira, achar um ponto de contato entre a cultura popular brasileira e o pentecostalismo. À
época no Brasil já havia um forte embate de classes, o que resultou em um pré-conceito por parte das populações mais pobres no tocante à modernidade. Correntes de diversos segmentos contribuíram inclusive para a industrialização tardia neste país. O comportamento fechado dos primeiros pentecostais estava baseado não somente em um desejo de se fechar para o pecado, como também num fator psicológico pré-existente das camadas mais baixas da população brasileira como um todo: a resistência aos novos ideais elitistas – a europeização – da recém formada república brasileira:
Tanto nas cidades quanto no meio rural, as intervenções do poder governamental deram origem a importantes levantes coletivos [...] essas revoltas podem parecer sem sentido ou fruto da ignorância. Mas, no fundo, elas traduziam uma reação cultural violenta diante das rápidas e autoritárias transformações ocorridas no período, transformações que não levavam em conta as formas tradicionais da maioria da população (Uma Breve História do Brasil, 2010, p. 224).
Daí a comprovada desconfiança destas classes em relação à novidades como o cinema, as vestimentas, visto por elas como imposições mundanas desnecessárias. A hipótese é de que a desconfiança das classes mais baixas como um todo em relação às elites causou nos primeiros pentecostais uma resistência com relação a modernidade. De natureza conformista baseada na ideia de receber uma recompensa após morte, a resistência pentecostal se deu na forma de isolamento. Pacifista em relação ao mundo, porém altamente ativa na política interna da igreja.
Constata-se um isolamento pentecostal em relação a assuntos políticos, que se dá por questões puramente práticas. No período da republica velha, justamente nas regiões de periferia aonde o pentecostalismo aflorava, os debates sociais eram escassos. A política não era de interesse primordial. Posteriormente essa oposição à política ganha ares de sacralidade. Neste momento se fundem crenças sociais com crenças religiosas no imaginário dos primeiros pentecostais.
Para suecos e brasileiros da primeira onda, todo o conhecimento adquirido fora do âmbito espiritual era menos importante. No contexto educacional brasileiro, esta aversão ao conhecimento racional contribuiu ainda mais para o crescimento do pentecostalismo. Se por um lado a ênfase nas profecias e na glossolalia “aproximava” o pentecostal de Deus, o desprezo pelo entendimento e a falta de explicações mais concretas para os dilemas da vida eventualmente trariam frustração às novas gerações de pentecostais. Talvez isto ajude a explicar em partes o
fenômeno de que a “Assembleia de Deus é a igreja que mais perde membros, mas é também a igreja que mais ganha membros” (ALENCAR, 2010, p. 46).
Apesar de incentivarem a leitura da Bíblia, esta aversão à educação se estendeu também para o ensino da teologia, a qual “os radicais consideram como uma intrusão da sabedoria mundana na esfera da revelação” (NIEHBUR, 1967, p. 138). Neste período tanto os suecos como brasileiros rejeitaram a necessidade de seminários formais, mantendo-se apegados à “direção espiritual” de Deus na resolução das questões doutrinarias.
A música também se encerrou dentro dos limites impostos pela denominação assembleiana. A primeira edição da Harpa Cristã, hinário oficial das AD’s foi “instrumento de consolidação nacional da hinologia pentecostal, principalmente por meio do cântico congregacional. Um dos motivos que contribuiu para isso foi o fato de cada crente assembleiano ter que possuir o seu próprio exemplar do hinário e levá-lo para a igreja, diferentemente das igrejas das denominações tradicionais no Brasil, América do Norte e Europa, onde são os templos que possuem exemplares dos seus hinários disponíveis para os fiéis usarem em seus cultos”.22
É importante também destacarmos a relação do pentecostalismo de primeira onda com outras religiões, especialmente o catolicismo. O “mundo em trevas” para os pentecostais nesse período, logicamente, incluía as outras religiões, principalmente o catolicismo dominante. A visão pentecostal da religião dominante se assemelha a opinião de Tertuliano, expoente do tipo “Cristo contra cultura”. Segundo ele “a coisa mais viciosa é, por certo, a religião social pagã, com seu politeísmo e idolatria, suas crenças e ritos e sua comercialização” (NIEHBUR, 1967, p. 75).
Assim, o pentecostalismo brasileiro em todos os seus períodos, diferentemente do americano, vem travando uma batalha histórica com a Igreja Católica Romana. Nesse aspecto não houve assimilação entre as religiões como nos casos dos cultos afro-brasileiros que foram incorporados ao catolicismo. Como minoria no norte e nordeste os evangélicos travaram um embate religioso desleal com os católicos, sendo agredidos e perseguidos por parte dos mesmos. Cartaxo Rolim informa que “naquele tempo, muito mais do que hoje, deixar o catolicismo para ingressar em alguma igreja evangélica, principalmente pentecostal, era expor-se a não poucos vexames que iam do não ser cumprimentado até certa forma de agressão à entrada dos templos. E
como não era geralmente a família toda que entrava para as igrejas pentecostais, não faltavam conflitos em casa” (1995, p. 32). Os pentecostais eram chamados de “crentes”, de “bíblias” quando não com alcunhas mais agressivas como “bodes”. Sofriam diversas formas de preconceitos e em geral, suportavam pacificamente e com orgulho, pois ali se identificavam com os primeiros cristãos perseguidos da igreja primitiva de Atos dos Apóstolos. Essa situação, de certa forma, aproximava ainda mais os “irmãos” pentecostais uns dos outros. A nova comunidade se fechava para se proteger dos ataques mundanos. De certa forma, a perseguição contribuiu para o enclausuramento do “povo de Deus”.
A questão da ascese é uma construção de identidade social. “Santidade” significava separação da cultura secular aos olhos dos pioneiros pentecostais e “o corolário de toda a concepção era o pensamento de que quem não pertence à comunidade de Cristo está sob o governo do mal.” Isto veio a se expressar na doutrina dos dois caminhos: “há dois caminhos: um da vida e outro da morte” (NIEHBUR, 1967, p. 72). Mais uma vez os pentecostais se aproximam de Tertuliano na visão de mundo, pois este “chega bem perto do pensamento de que o pecado original é transmitido pela sociedade, e que se não fossem os costumes viciosos que cercam uma criança a partir do seu nascimento, e a sua educação artificial, a sua alma permaneceria boa” (NIEHBUR, 1967, p. 75).
A ignorância e alienação causadas por um zelo excessivo contra a cultura no período de implementação do pentecostalismo no Brasil contribuiu para formação do ethos pentecostal. Mas foi desta maneira que o pentecostalismo tradicional lançou as bases para o fim da hegemonia católica no cenário religioso como vemos atualmente. Tivesse o catolicismo incorporado a nova seita como fez com outras religiões a história religiosa no Brasil seria diferente. Os pentecostais desafiaram uma sociedade onde ser brasileiro significava ser católico, onde “na falta de sentimento ou da consciência da superioridade da raça, tão salientes nos colonizadores ingleses, o colonizador do Brasil apoiou-se no critério da pureza da fé” (FREYRE, 2011, p. 272).
Vale notar que muitas igrejas pentecostais tradicionais (de primeira e segunda onda) por maiores as pressões da pós-modernidade mantém parte deste comportamento de aversão às mudanças. A CGADB, por exemplo, continua a enfocar a dominação masculina como vimos. Alguns tradicionais tentam manter os usos e costumes enquanto podem. Por outro lado, o envolvimento com a política secular está completamente incorporado ao pentecostalismo. A
abertura cultural foi sacramentada de vez na Assembleia de Deus com os programas televisivos em rede nacional – algo inimaginável para um assembleiano tradicional até pouco tempo atrás. Outras Igrejas tradicionais incorporam elementos do neopentecostalismo em seus cultos, e assim prossegue o processo de assimilação. Constatamos que os próprios tradicionais admitem que maiores aberturas são apenas questão de tempo.