6. Analysis and Discussion
6.2 Barrier-to-entry
A fase neopentecostal brasileira se inicia com o surgimento da Igreja Universal do Reino de Deus no Rio de Janeiro ao final dos anos de 1970. Mesma época do surgimento “oficial” do pós-modernismo. Esta terceira onda pentecostal é um período essencial para o entendimento do
pentecostalismo brasileiro atual. A partir de 1980, diversos acontecimentos políticos e culturais importantes influenciariam os rumos do movimento pentecostal brasileiro. A política do país passava por profundas mudanças com a constituinte e as primeiras eleições diretas após um período três décadas anos de ditadura.
A democracia instituída, baseada principalmente no modelo americano, iniciou um ciclo singular na história do Brasil, abrindo novos horizontes capitalistas e desencadeando, inevitavelmente, novas experiências culturais e religiosas. O Brasil despertava para novos tempos. No cenário pentecostal aconteceu a maior divisão denominacional na história das igrejas brasileiras. Nas Assembleias de Deus surge a CONAMAD como fruto da divisão entre o ministério de Madureira e a CGADB. Nesse período de euforia política e cultural nasciam novas Igrejas pentecostais com características culturais singulares.
No campo da música, o chamado “louvorzão” transforma o perfil musical das igrejas evangélicas e atrai inúmeros jovens para os templos. Inicia-se um processo de assimilação de novos ritmos músicais, antes proibidos nos púlpitos. As gravadoras se multiplicam assim como uma enxurrada de artistas de pequeno, médio e grande porte. Ministérios de louvor como o “Diante do Trono” de Belo Horizonte se transformam em fenômenos de vendas. Cantores despontam nas paradas de sucesso evangélicas, vendem milhares de cds e fazem shows que atraem milhares. Logo o mercado secular enxerga o potencial comercial. Aline Barros, famosa cantora pentecostal, aparece no programa da Xuxa na Rede Globo e grava um clipe ao lado da mesma. Apenas um exemplo das aberturas culturais que ocorrem no período recente do pentecostalismo.
A chegada das “igrejas em célula”, que incentivam a multiplicação dos fiéis através de reuniões nos lares sistematizadas transforma membros comuns em líderes de pequenos grupos, disseminando ainda mais o fervor pentecostal. O processo de fragmentação a partir dos anos 80 promoveu altos índices de crescimento dentro do pentecostalismo. Novos ministérios surgem e crescem a partir desse período, cada um com características culturais distintas suprindo os anseios por uma espiritualidade viva presente em todas as camadas da sociedade. Surge a igreja Sara Nossa Terra em Brasília, o Ministério Internacional da Restauração (MIR) em Manaus, a Igreja Fonte da Vida em Goiânia, e centenas de outros ministérios. Em São Paulo surge a Renascer em Cristo, que se torna uma igreja de vanguarda cultural. A Renascer foi a precursora
das igrejas “descoladas”, totalmente livre dos usos e costumes do pentecostalismo de raiz. A Bola de Neve Church, mais recente, continua a tendência de quebra com os usos e costumes.
Alderi Matos aponta ainda para algumas características do neopentecostalismo, afirmando que “os grupos neopentecostais distinguem-se da sua matriz ou por darem uma ênfase incomum a determinados aspectos da herança pentecostal (por exemplo, curas, revelações e exorcismos), ou por adotarem novas ideias e práticas, muitas delas provindas dos Estados Unidos (como batalha espiritual, o “evangelho” da prosperidade, maldição hereditária e assim por diante)” (MATOS, 2011). Porém estes aspectos ficam à sombra de outro maior, desconhecido até então no pentecostalismo e fora dele.
Um fator determinante e exclusivo deste período é o modelo administrativo eclesiástico implementado pelo bispo Edir Macedo em suas Igrejas. Esse modelo foi algo jamais visto na história do protestantismo mundial. Como numa linha de montagem de automóveis de Henry Ford, Macedo revolucionou a “indústria” do evangelho de Cristo. Mantendo sempre o elemento do “Deus Vivo”, incorporando a ele a teologia da prosperidade e a mensagem triunfalista da confissão positiva, Macedo utilizou conceitos de marketing e administração na IURD, transformando a mensagem do evangelho em um negócio altamente eficaz do ponto de vista empresarial.
Em 1989 Edir Macedo inicia as negociações para adquirir a Rede Record de televisão que mais tarde viria a ser um dos principais meios de comunicação do país, sustentado principalmente com o dinheiro das ofertas dos membros da Igreja Universal do Reino de Deus. Sobre essa controvérsia, ver o trabalho de Ronaldo Almeida (1996). Iniciou seus programas de rádio e posteriormente TV nas madrugadas do Rio de Janeiro, e ali descobriu seu público alvo: os desesperados. Em questão de pouco tempo passou a multiplicar suas ações de evangelismo encaminhado este público às inúmeras igrejas Universal que se tornavam cada vez mais organizadas para os padrões de administração eclesiástica até então vistos.
Além de arrebanhar a mesma classe de pessoas desiludidas com o catolicismo brasileiro que já era alcançada em números expressivos pelos pentecostais da primeira e segunda onda, Macedo passou a chamar a atenção também, por estar na televisão, de pessoas de outras classes sociais, fossem crentes, católicos ou espiritas sem respostas concretas para seus dilemas. Seguindo a lei da oferta e procura do mercado, a IURD aprendeu que as necessidades das pessoas
são diferentes umas das outras. Um culto para a área financeira, outro para a vida emocional, outro ainda para a libertação espiritual, e assim por diante – método que passa a ser copiado pelas outras igrejas pentecostais e neopentecostais.
Em comparação aos templos pentecostais tradicionais que se mantinham fechados a maior parte do tempo, abertos geralmente para apenas um culto maior aos domingos e alguns outros menores na semana, a IURD mantém seus templos abertos por longos períodos, extrapolando o horário comercial, oferecendo oração e aconselhamento e em alguns casos promovendo cinco ou mais cultos por dia. No caso da mensagem pentecostal tradicional as pessoas eram atraídas pela salvação da alma, o perdão dos pecados, a libertação dos vícios e a cura física das enfermidades. Na mensagem de Macedo, além desses “benefícios” a recompensa material passa a ser proeminente. Porém estes elementos da mensagem neopentecostal talvez tivessem se consolidado no Brasil por outros vieses. A teologia da prosperidade, por exemplo, se originou nos Estados Unidos e foi importada até mesmo antes do nascimento da IURD por outras Igrejas. Portanto, não se pode dizer que estes acréscimos à mensagem original do pentecostalismo foram o maior responsável pelo divisor de águas no movimento.
Deve ser creditado como principal objeto fundador do neopentecostalismo brasileiro a implementação de uma visão empresarial e marqueteira na administração das instituições religiosas pentecostais. Edir Macedo criou um modelo de administração eclesiástica única e centralizada, e trabalhando de maneira contundente na mídia, criou uma rede de Igrejas que lembram as grandes empresas multinacionais. Esse modelo é imitado e seguido por outras igrejas. Não seria possível Igrejas como a Mundial do Poder de Deus, apesar dos apelos e do carisma dos líderes, crescerem tão rapidamente sem ele (BITUN, 1997). Foi na Universal que Valdemiro Santiago aprendeu a multiplicar-se rapidamente, utilizando pastores com aparência e fala parecida com a sua e administrando suas igrejas como viu na Universal. O pentecostalismo com o Edir Macedo pastor manter-se-ia pentecostalismo, depois do Edir Macedo empresário nunca mais seria o mesmo. Pode-se dizer que Macedo foi o pai do neopentecostalismo brasileiro. Nesse aspecto, podemos ainda descatar o fato de que a IURD promove o empreendedorismo de seus membros incentivando-os a buscarem uma posição social mais digna, fazendo-os acreditar em seu potencial para os negócios ou para a ascensão profissional. Pregam que a “pobreza é resultado da falta de fé ou de ignorância” (FRESTON, 1996, p. 147).
Desde os tempos de pertencimento a Igreja Nova Vida,23 Macedo foi introduzido a “um modelo pentecostal mais culturalmente solto” (FRESTON, 1996, p. 133). A IURD se encaixa no tipo ideal “Cristo da cultura”. Incorpora elementos da cultura secular como nenhuma outra corrente do pentecostalismo o faz.
Para fins comparativos é essencial ressaltar uma enorme variedade entre os fieis da IURD, como bem demonstra os estudos sobre o trânsito religioso (ALMEIDA; MONTERO, 2001). Há aqueles que vêm de outras religiões, principalmente do catolicismo brasileiro e do espiritismo; outros são compostos por pessoas que migram de outras igrejas pentecostais. Os que vêm de outras religiões mantém na bagagem um conjunto de repertórios simbólicos, pois assim foram atraídos ao movimento pentecostal. Portanto, não é incomum encontrar pessoas que carregam consigo amuletos de diferentes religiões a procura da solução para seus problemas. O “terço”, a “rosa ungida”, o “anel da promessa”, o “óleo de unção”, o “manto da fé”, e assim por diante, são objetos que circulam na produção dos corpos dos fieis.
Por outro lado, é enorme a parcela de pentecostais tradicionais que passam a incorporar vários elementos do neopentecostalismo em sua teologia, liturgia, nos métodos de evangelização mais agressivos e na administração eclesiástica, conforme veem na IURD. Estes elementos são incorporados e adaptados pelas demais igrejas pentecostais para acelerar o crescimento. Muitas denominações plagiam estratégias e as acomodam em suas denominações. É o neopentecostalismo temperando o pentecostalismo tradicional. Com esse fenômeno, as Igrejas tradicionais, alteraram profundamente o perfil geral da Igreja pentecostal brasileira transformando-a de certa forma em uma massa mais homogênea, apagando ainda mais as fronteiras entre o pentecostalismo e neopentecostalismo.
23
CONCLUSÃO
Conforme nosso argumento fica evidente que o pentecostalismo brasileiro está cada vez mais parecido com a cultura secular. De fato constata-se que o pentecostalismo em 2015 encontra-se numa fase adiantada de aculturação.
Essas mudanças, não ocorreram repentinamente, mas como resultado, em parte, de uma série de acontecimentos da relação entre o pentecostal e a cultura secular. A noção de conceito de “mundano” presente na primeira onda do pentecostalismo brasileiro estava baseada numa leitura dicotomica da vida, uma espécie de ascese ou fuga do mundo. Isso englobava, inclusive, a participação na política partidária, fenomeno que veem mudando nos ultimos anos.
Richard Niehbur argumentava:
Quer sejam os cristãos exclusivistas escatologistas ou espiritualistas, em ambos, os casos eles têm de levar em conta o “por enquanto”, o intervalo entre a aurora de uma nova ordem de vida e sua vitória, o período em que a temporal e o material não têm sido transformados ainda em espiritual. Eles não podem, portanto, se separar completamente do mundo da cultura que está ao seu redor (NIEHBUR, 1976, p. 95).
A segunda onda do petecostalismo marca o período das primeiras rupturas e transformaçoes. Foi também o estágio intermediário de aculturação do movimento. Acompanhou a invasão da indústria do entretenimento americano e a engenhosidade para a evangelização. Essa herança americana levou os pentecostais a romperem algumas barreiras culturais exteriores. A principal delas foi a utilização dos meios de comunicação em massa. Surgem as primeiras figuras carismáticas através da mídia. Os primeiros cantores e pastores estilo popstar.
Apesar do crescimento do pentecostalismo na segunda onda, o problema principal persistia. Davam-se as grandes conversões nas tendas e nos estádios, e logo a clausura institucional se apresentava. Crescia uma subcultura pentecostal, lugar aonde “os radicais falham em reconhecer o que estão fazendo, e continuam a falar como se estivessem separados do mundo” (NIEHBUR, 1967, p. 92). Assim como suas irmãs mais velhas as igrejas de segunda
onda eram cheias de tradições anticulturais e, portanto, não puderam conter as novas gerações de filhos insatisfeitos. Mais uma vez ganham-se muitos fiéis e perdem-se muitos fiéis.
Na terceira onda pentecostal nasce o pentecostalismo aculturado. É o momento na história das maiores controvérsias teológicas. Os neopentecostais adotam uma postura completamente materialista em relação aos pentecostais anteriores que enfatizavam uma teologia da privação.
Dentre os milhares de ministérios que existem no pentecostalismo brasileiro, alguns adquirem maior destaque que outros. Levando em conta que a lei de oferta e procura é também uma realidade no cenário religioso, cada igreja supre diferentes anseios culturais dos determinados segmentos. Tomemos por exemplo a Bola de Neve Church, considerada de vanguarda cultural no pentecostalismo, cujo símbolo é uma prancha de surf. Segundo a história contada pela própria igreja em seu site, foi num evento esporádico numa loja especializada em produtos de surf que se deu a escolha (ver também MARANHÃO FILHO, 2013).
Em suma, o pentecostalismo de terceira onda promoveu inúmeras aproximações no que tange seu relacionamento com a cultura secular. A IURD, apesar de isolada em relação às outras denominações pentecostais tem servido de modelo, se não em sua totalidade, mas em muitos elementos, para as outras. Nesse ímpeto, as denominações pentecostais tornam-se cada vez mais parecidas entre si e mais parecidas com a sociedade que tentam “salvar”. Conforme Zygmunt Bauman, a “fluidez como a principal metáfora para o estágio presente da era moderna” (2001, p. 8), o pentecostalismo se torna cada vez mais um reflexo de sua cultura e não um transformador da mesma. No universo líquido em que vivemos, assinala Bauman, “qualquer rede densa de laços sociais, e em particular uma que esteja territorialmente enraizada, é um obstáculo a ser eliminado” (2001, p. 22).
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