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Na análise de conteúdo das entrevistas de cada uma das subcategorias da categoria

Esforço financeiro e interesse pela aposta feita, obteve-se duas subcategorias e os respetivos indicadores. A subcategoria Investimento na educação dos filhos com quatro indicadores: Investimento na formação é uma prioridade e compensa (n= 5), Aposta na

formação dos filhos afeta outras responsabilidades (n= 5), Desejo de ingresso dos filhos no

mercado de trabalho (n= 5), Formação é um suporte e serve para suprir as dificuldades (n=1). A subcategoria Processo de decisão de participação financeira com dois indicadores:

Rendimento insuficiente para cobrir as despesas (n= 3), Pais fazem sacrifícios para

pagarem as propinas (n= 2).

Nestes indicadores, realçam-se apenas os que têm o número de frequência considerável: Investimento na formação é uma prioridade e compensa (n= 5), Aposta na

formação dos filhos afeta outras responsabilidades (n= 5), Desejo de ingresso dos filhos no

mercado de trabalho (n= 5), onde podemos constatar que as famílias têm como primeira prioridade a educação dos filhos e empreendem sacrifícios e esforços para suportarem os custos com as propinas, alimentação, transportes, gastos de saúde, livros, viagens de deslocação e outras despesas (Cabrito, 2002; Cerdeira, 2008; Epstein, 2002; UNESCO, 1996), em detrimento de outras responsabilidades, na medida em que reconhecem que a formação é a melhor herança que se pode deixar a um filho, reforçando mesmo a ideia de que o investimento na formação é uma prioridade e que permitirá aceder a recompensas no futuro.

(...) Tenho que dar no duro, para que a menina esteja no bom caminho (…). (E1)

(…) Todo o sacrifício fiz para conseguir mensalmente pagar as propinas atempadamente e umas poucas vezes com atraso pagando multa, mas fui fazendo tudo (… ) para agradá-lo. Porque quero um filho formado e ele também quer formar-se, não havia outra opção(…) é um sacrifício (...) o meu salário vai quase tudo. (E2)

(…) Nós não estamos a fazer algo em vão. Precisamos que os nossos filhos também tenham estudos e um estatuto (...) temos que fazer de tripas coração. (E3)

Deixei de ser professora para trabalhar como cozinheira para poder pagar a faculdade (…) Eu chegava uma altura que dava o meu salário (…) completo (...) para pagar a faculdade. Não lembro comprar uma roupa. (E4)

143

Às vezes os vencimentos atrasam, temos que fazer (...) um conjunto de sacrifícios e vai conseguindo. (E5)

[o salário] não chega mesmo (…) as vezes a pessoa tem que fazer esforços. (E6)

É difícil(…) e o meu estudo também, não é fácil. As vezes a pessoa põe a mão na cabeça dizendo não pago, mas como é pela formação a pessoa faz. (E7)

(…) Temos conseguido pagar as propinas e a alimentação (...) não é fácil. Com este dinheiro poderíamos fazer outra coisa, mas é um investimento (...) realmente compensa-nos mais ver um filho formado do que ter uma casa ou ter um carro para mim é a melhor herança que eu posso deixar para o meu filho. Tive que fazer um sacrifício do meu salário (...) para pagar a faculdade. É um direito, é uma lei de Deus assumir a realidade de dar formação aos filhos, até eles irem para as suas vidas. (E8)

De acordo com Grácio (1997), a importância crescente da educação escolar pode considerar-se um fator de primeiro plano. Este facto é notório nos discursos das famílias, que enfatizam que a formação dos filhos está em primeiro lugar e, por isso, fazem um conjunto de sacrifícios, recorrendo a várias estratégias no processo de decisão de participação financeira para suportarem as despesas com a educação, quer com recurso ao seu rendimento mensal, quer recorrendo às economias que juntaram, fiando-se em ganhos futuros (Johnstone, 1986, 2003). Esta atitude revela que consideram que com a escolarização os filhos poderão alcançar benefícios advindos do retorno privado do capital investido na educação, revelados no aumento dos rendimentos dos ganhos salariais, ou através de outras vantagens não monetárias com maiores opções quanto à ocupação profissional, controlo e poder na vida ao longo do tempo (Schultz, 1961; Johnstone, 2003). As famílias têm como expectativa para os filhos que logo que terminem a formação consigam ingressar no mundo do trabalho para pôr em prática a aprendizagem e os conhecimentos adquiridos ao longo do processo de escolarização:

Porque com o curso superior ela vai ter o seu emprego. (E1)

Ter um curso superior [para] depois ingressar no mercado de trabalho. Poder levar a sua vida sem precisar de alguém. (E2)

Encontrar um emprego e mostrar o que aprendeu na universidade neste emprego (...). (E3)

Que ela consiga um emprego e aplicar aquilo que aprendeu. Vê-la na televisão apresentar o seu projeto e explicar (…). (E5)

Formado e estar no mercado de emprego. É uma mais-valia vê-lo formado e empregado.

(E7)

Estou satisfeita, ontem recebi uma boa informação ele [foi] convidado para trabalhar. Vai realmente encarar a realidade, vai juntar a teoria a prática, a satisfação é grande (...). (E8)

144 Nestes discursos é possível constatar que de facto a família está preocupada e envolvida na formação dos filhos, contribuindo assim para trajetórias académicas com sucesso, mas não através do “acompanhamento minucioso da escolaridade dos filhos ou de contactos frequentes com os professores e as instituições, nem da presença em reuniões” (Viana, 2000, p. 52). A participação das famílias nos percursos escolares dos filhos revela- se na presença da ordem moral doméstica, na atenção oferecida para a realização do trabalho escolar, no acompanhamento, compreensão e apoio dos filhos e no esforço e sacrifício para garantir o pagamento das despesas com os custos de educação (Psacharopoulos & Woodhall, 1985; Viana, 2000; Perez, 2010). No entanto, este aspeto é pouco referido, Pais fazem sacrifícios para pagarem às propinas (n= 2), porque para estas famílias o que conta mais é a prática ou o ato em si do que o exercício que fazem para adquirirem recursos financeiros, tendo como horizonte o grande desejo de os filhos, depois de terminarem a licenciatura, ingressarem no mercado de trabalho e poderem aplicar os conhecimentos adquiridos ao longo dos anos de formação.

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