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4.1. Entrevista: instrumento de recolha de dados e de análise de conteúdo

No presente estudo recorremos ao uso da técnica de entrevista, enquanto instrumento metodológico, que consiste numa ferramenta interativa que adquire sentido dentro de um espaço dialógico e na qual o estabelecimento de um vínculo entre o pesquisador e os sujeitos investigados pode contribuir para a qualidade da informação recolhida. A entrevista constitui um instrumento de recolha de dados “universalmente aceite com a finalidade de recolher informações sobre as opiniões, perspetivas e

102 expectativas do entrevistado, obedecendo a certos parâmetros, critérios e procedimentos de acordo com o objetivo e temática a abordar” (Bogdan & Biklen, 1994, p. 91). Optou-se pela utilização da entrevista semi-estruturada, pelo facto de representar, uma opção teórico- metodológica legítima na produção de conhecimentos nas ciências humanas, que valoriza o singular como campo produtivo de investigação.

A entrevista “consiste no desenvolvimento de precisão, focalização, fidedignidade e validade de certo ato social como a conversação” (Goode & Hatt, citados por Marconi & Lakatos, 2005, p. 198), sendo uma técnica de adaptabilidade, visto que a sua utilização privilegia a exploração de determinadas ideias, a investigação de motivos e sentimentos, permitindo a obtenção de informação pormenorizada, detalhada e descritiva relativamente ao que se pretende investigar.

No que diz respeito ao papel do entrevistador, Bogdan e Biklen (1994), referem que Este deve seguir a linha de pensamento do interlocutor ao mesmo tempo que zela pela pertinência das afirmações relativamente ao objetivo da pesquisa, procurando instaurar um clima de confiança de forma a assegurar a cooperação do entrevistado, controlando o impacte das condições sociais da interação sobre a entrevista, utilizando uma linguagem acessível e adequada ao perfil do entrevistado (Bogdan & Biklen, 1994, p. 105).

E visando estabelecer uma relação entrevistador-entrevistado mais próximo possível de forma que a informação seja fiel.

Os processos para conduzir uma entrevista são diferentes dos que se utilizam para recolher dados por questionário, apesar do objetivo ser o mesmo: “obter os dados desejados (…)” (Tuckman, 2005, p. 359). Antes da realização da entrevista torna-se necessário ter em conta aspetos de natureza prática: definir o objeto; construir o guião de entrevista; escolher os entrevistados; preparar as pessoas a serem entrevistadas; marcar a data, a hora e o local. Na realização da mesma é necessário explicar quem somos e o que pretendemos; obter e manter a confiança; saber escutar; dar tempo para se familiarizar a relação. A preparação da entrevista engloba um conjunto de atividades, desde a elaboração do guião de entrevista, à gravação da mesma e, por último, a sua transcrição.

Para a realização das entrevistas foram elaborados dois guiões de entrevista (ver Anexos 1 e 2), de acordo com Estrela (1996), para recolher informações junto das instituições de Ensino Superior privadas e das famílias, a saber: (i) o guião de entrevista para as instituições contém nove blocos e tem como objetivo obter informações sobre o impacto das instituições de Ensino Superior privadas na procura do Ensino Superior e no

103 processo de criação dos cursos nestas instituições; (ii) o guião de entrevista para as famílias contém oito blocos e tem como objetivo obter informações sobre a relação dos estudantes e suas famílias com as instituições de Ensino Superior privadas e as representações destas instituições.

Na fase da recolha dos dados fez-se a seleção da amostra, que se caracteriza por dois tipos de população, por um lado, os vice-reitores e, por outro lado, as famílias, o contacto prévio dos sujeitos e a marcação do dia da realização da entrevista. No dia do encontro marcado, que ocorreu em dias e horas diferentes, ao longo do ano de 2013, para cada um dos sujeitos a investigadora apresentou brevemente os objetivos e a natureza do trabalho, procurando fazer com que se sentissem à vontade para expressarem abertamente as suas opiniões sobre as temáticas apresentadas pela investigadora. Explicou a forma como iria registar as respostas, através da utilização de um gravador, e solicitou o consentimento dos entrevistados, segundo princípios éticos observados numa investigação, para assegurar a proteção das identidades dos sujeitos e para que a informação recolhida não causasse qualquer tipo de transtornos ou prejuízos (Bogdan & Biklen, 1994).

As entrevistas decorreram em locais propostos pelos próprios sujeitos do estudo, que na sua maioria (com exceção de um vice-reitor e uma família) preferiram que a mesma se realizasse no seu local de trabalho, o que proporcionou um ambiente calmo para a conversa, que teve a duração de aproximadamente uma hora.

A análise de conteúdo (Bardin, 2007), foi a técnica utilizada pela investigadora, pois como refere Vala:

Hoje é uma das técnicas de tratamento de informação mais comuns na investigação empírica, podendo incidir sobre material não estruturado, e permite trabalhar a entrevista aberta, realizada sempre que um investigador não se sente apto para antecipar todas as categorias ou formas de expressão que podem assumir representações ou práticas dos sujeitos. (Vala, 1986, p. 107)

Este tipo de análise, de acordo com Quivy e Campenhoudt (2005, p. 227), “(...) oferece a possibilidade de tratar de forma metódica informações e testemunhos que apresentam um certo grau de profundidade e de complexidade (…) ”. Através desta técnica foi possível fazermos inferências das informações, permitindo a passagem da descrição à interpretação com o objetivo de atribuir sentido e significado às características dos elementos recolhidos, enumerados e organizados.

104 caracteriza por ser uma técnica de investigação com um vasto campo de aplicação. Segundo os argumentos de Bardin (2007, p. 16) “permite a descrição objetiva, sistemática e qualitativa/quantitativa do conteúdo manifesto da informação e comunicação dos dados recolhidos através da apresentação de questões”. No presente estudo, foi utilizada esta técnica por ter objetivos pragmáticos e interpretativos, e consistir numa das técnicas mais utilizadas nas diferentes áreas das Ciências Sociais e Humanas. Nesta mesma linha de pensamento, Laville e Dionne (1999, p. 214) sustentam que um dos princípios da análise de conteúdo “consiste em desmontar ou desconstruir a estrutura e os elementos dos dados recolhidos para esclarecer as suas diferenças, características e extrair a sua significação”. Ou seja, constitui um conjunto de vias possíveis para a reconstrução do sentido de um conteúdo. No entender de Vala (1986, p. 104), trata-se de uma “técnica de tratamento de informação”, visando a descrição objetiva e sistemática dos resultados.

Na presente pesquisa, a informação global (dados brutos) obtida através da transcrição das entrevistas, o que se designa por protocolo (ver anexo 3 e 4), foi submetida à análise de conteúdo (ver anexo 5 e 6. O tratamento desta informação através da análise de conteúdo consistiu na descrição e enumeração das características do texto e a sua posterior codificação, que, no entender de Holsti (1969, citado por Bardin, 2007, p. 97), consiste no “processo pelo qual os dados brutos são transformados e agregados em unidades, as quais permitem uma descrição das características pertinentes do conteúdo”, e construção de categorias, de subcategorias, de unidades de registo75 e as respetivas frequências76.

O processo de categorização é uma operação de classificação de elementos constituintes de um conjunto por diferenciação e por agrupamento com os critérios previamente definidos e baseia-se no argumento de que uma característica é tanto mais frequentemente citada quanto mais importante for para o entrevistado (Bardin, 2007; Quivy & Campenhoudt, 2008). Este processo tem como objetivo fornecer uma representação simplificada dos dados brutos e é composto por termos que indicam o significado que a mesma categoria realça através do discurso da entrevista e, no caso das subcategorias, pretende-se que estas organizem os conteúdos, oferecendo coerência e atribuindo um

75 De acordo com Bardin (2007, p. 98), a unidade de registo é a unidade de significação a codificar e

corresponde ao segmento de conteúdo a considerar como unidade de base, visando a categorização e a contagem frequêncial. Pode ser de natureza e de dimensões muito variáveis.

76 Frequência é a medida geralmente mais usada e corresponde ao postulado de válidos em certos casos e

noutros não, sendo que a importância de uma unidade de registo aumenta com a frequência de aparição e a regularidade quantitativa de aparição é aquilo que se considera significativo (Bardin, 2007).

105 sentido claro à categoria principal.

Em todo o processo existe a preocupação na escolha correta das categorias em análise, com o objetivo de evidenciar de forma significativa as informações presentes nas entrevistas, para que a categorização reduza a complexidade, no sentido de estabilizar, identificar, ordenar e atribuir significado às informações recolhidos, através do envolvimento emocional das pessoas, e facilitar a expressão de sentidos subjetivos do entrevistado.

4.2. Questionário: recolha, tratamento e análise estatística dos dados

Como referimos anteriormente, no presente estudo recorremos igualmente ao uso da técnica do inquérito por questionário, que, de acordo com Ghiglione e Matalon (2001, p. 7), “pode ser definido como uma interrogação particular acerca de uma situação englobando indivíduos, com o objetivo de generalizar”, que nos serviu de meio para recolher dados junto do grupo alvo77 (constituído por 153 estudantes) e extrair conclusões (Tuckman, 2005). Para Hoz (1985, p. 58) “o questionário é um instrumento para a recolha de dados constituído por um conjunto mais ou menos amplo de perguntas e questões que se consideram relevantes de acordo com as características de dimensões do que se deseja observar”. Neste sentido, o uso deste método revelou-se o mais adequado para “a análise de um fenómeno social que se julga poder apreender melhor a partir de informações dos indivíduos da população em questão” (Quivy & Campenhoudt, 2008, p. 189). A opção por este método apresenta-se igualmente pertinente pois permite quantificar uma multiplicidade de dados e proceder a numerosas análises (idem).

O inquérito construído com base em questões fechadas (ver Anexo 7), com uma duração de resposta aproximada de 40 minutos, foi aplicado de forma direta pela investigadora aos estudantes que frequentavam cinco (5) universidades privadas de Angola, no ano de 2014, com o objetivo de apreender empiricamente a realidade dos processos de escolha a partir do momento da tomada de decisão de frequentar a instituições de Ensino Superior privada, e inquirir uma parte significativa de alunos que estudam nestas

77 A população ou grupo alvo utilizada num estudo em que se recorre ao questionário é o grupo sobre o qual o

106 instituições. O inquérito foi distribuído de forma diversificada e aleatória78com base numa amostra probabilística de escolha ao acaso, em que todos os elementos da população tiveram a oportunidade de serem conhecidos e selecionados (Laville & Dionne, 1999) para preencherem os questionários. Nos dias em que a investigadora se dirigiu às universidades,

alguns estudantes que manifestaram interesse em participar neste estudo encontravam-se nas salas de aulas, nas bibliotecas e nos pátios, tendo em conta que naquele momento os alunos cumpriam um período de pausa pedagógica, devido ao Processo de Recenseamento da População Angolana, que teve lugar no mês de Maio, em todo o País. Para o preenchimento dos inquéritos, os estudantes tiveram ajuda de alguns docentes que se encontravam nas instituições e da própria investigadora, que garantiu o anonimato das respostas, como referido anteriormente.

Os dados recolhidos através dos questionários, aplicados de forma aleatória em alguns estudantes que frequentam as instituições de Ensino Superior privado, foram analisados com recurso à técnica de estatística descritiva, com o auxílio do programa informático estatístico IBM SPSS Statistics, que serve de suporte às aplicações, entre outros, a introdução, definição, organização e a utilização de gráficos na exploração de dados (Pestana & Gageiro, 2014). No total foram inquiridos 153 estudantes de cinco universidades privadas. Este baixo número de participantes no estudo deve-se principalmente ao facto de a recolha de dados ter sido feita numa altura em que as universidades se encontravam em pausa pedagógica, encontrando-se poucos estudantes nas instituições e destes poucos aceitaram colaborar com a investigadora, quer por desconhecimento da importância das informações solicitadas no âmbito de um processo de pesquisa, por considerarem não ser possível manter o seu total anonimato, apesar da explicação, da insistência e dos esclarecimentos prestados pela investigadora.

Em função da opção metodológica, foi considerada uma amostra de seleção aleatória, tendo sido dada relevância a um conjunto de variáveis tais como a idade, sexo, estado civil, estatuto familiar, meio de subsistência e profissão dos pais, que serviram de base à construção de “perfis” para a exploração desta investigação. Com a referida amostra procedemos a uma análise descritiva, que apresentaremos seguidamente.

78 Segundo Tuckman (2005, p.183), uma forma de nos certificarmos de que a amostra é representativa da

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